sábado, 21 de janeiro de 2017

Manchester à beira-mar

Manchester à beira-mar. Dir Kenneth Lonergan. Com Casey Affleck, Michelle Williams, Kyle Chandler, Lucas Hedges.

Desses filmes em que saio da sessão querendo voltar e ver de novo, e mesmo agora, tendo visto pela segunda fez (a primeira no FestRio), ainda agora quero rever, e o farei. Por quê? Não sei, mas tem a ver com as feridas jamais cicatrizadas que todos carregamos, suponho. Aquela dor que o personagem Lee Chandler - em interpretação visceral de Affleck - carrega passa a ser nossa e ela vai pesando à medida que vai sendo mostrada em flash-backs, ao mesmo tempo que vamos entendendo a enorme tristeza que constitui o ser inteiro de Lee. 

Além de uma história muito bem contada, cheia de som e fúria, há essa cidade no inverno, com fotografia que para nos detalhes, ou nas paisagens cartões-postais - os barcos no mar sob a neblina e o frio, as casas, os detalhes delas, enfim, há sempre detalhes do cotidiano dos personagens, da vida simples dos moradores de Manchester, tudo se compõe para mostrar como a vida transcorre ali, sem grandezas ou glamour, apenas o cotidiano das pessoas simples, e mais a dor, que permeia tudo e parece jamais abandonar Lee. 

O entendimento com o sobrinho Patrick (vivido por Lucas Hedges com leveza e inteligência), um jovem cheio de energia e bem resolvido, vivendo as atribulações de estudante e querido pelos amigos, essa aproximação vai-se reconstruindo aos poucos, e nesse processo Lee também vai-se refazendo, muito lentamente, em contato com a cidade onde viveu e de onde partiu há anos por ocasião da tragédia. 

Há também uma trilha sonora belíssima, e tudo nesse filme é para ver com calma, semelhante à construção do filme, de forma lenta, apaziguadora, como uma cicatriz que demora a fechar, e estará sempre ali, mas que pode parar de doer, um dia. Como diz Randi (a ex-mulher de Lee, vivida com força e intensidade por Michelle Williams) há que seguir a vida, quando não se está ainda morto.

Filme belíssimo, triste, que deixa no espectador um sentimento de nostalgia e ao mesmo de força, com vontade de estar ao lado de Lee até ele se refazer, até ele entender e, quem sabe, voltar a viver.  

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