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quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros atravessa as estrelas

Para não esquecer.

Poeta Lucia encontra poeta Manoel - e nós lemos as estrelas com que ambos povoam nossa parca existência com palavras-pirilampos. Nenhum poeta morre jamais.

Paulinho Assunção adicionou 2 novas fotos.
[LUCIA CASTELLO BRANCO: "PASSARINHO DESAPARECEU DE CANTAR"]
Só hoje soube, Manoel, que você já estava de partida. Acho que quem primeiro me avisou foi o silêncio em torno da manhã. Depois, meu coração ficou vazio e pensei: “um lápis sobre a península”. A imagem me pareceu sozinha e eu me lembrei daquela estrada, aquela que é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.
Pensei no seu livro que nunca foi publicado: “Nossa Senhora da Minha Escuridão”. E tive saudades do menino que me deu de presente a metade do título de um livro impublicável. Como me deu, no mais generoso dos gestos, sua letrinha miúda, em tantas cartas, em tantas pequenas confissões.
Pensei na menina que foi a seu encontro depois de dez anos de “nunca te vi, sempre te amei”. E no seu sorriso largo, ao me dizer: “sua alma também é linda”. E lembrei do seixo que te servia de bengala para caminhar. E do livro de Francis Ponge, deixado sobre a mesa de cabeceira. E das doses de uísque, nas conversas sobre poesia. E daquela frase, que nunca vou esquecer: “Agora tu vais ter que perder a tua melancolia”.
Mas foi também você quem me disse, citando Cioran, que, “num mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar”. E agora, Manoel, o que faço ao te ver assim, lá do alto, soprando minha melancolia de suas alturas de urubuir?
Queria estar ao pé da sua cama, no hospital, para te ler poemas. Os seus, de preferência. Assim eu começaria: “Sobre meu corpo se deitou a noite”. E seria, para os seus sonhos, o colchão de espumas. Mas fico aqui, de tão longe tão perto, imaginando que você dorme sobre a poesia e que ela, para sempre, há de te embalar. Ela, estrela maior – Stella – a velar o poeta.
Enquanto você dorme, Manoel, eu acordo a madrugada. Tenho vontade de gritar: “Ouçam, há um ruído na espessura do silêncio, um rasgão a anunciar uma era sem palavras”. E logo penso que o meu sabiá com trevas não suportaria tamanha estridência. Então me calo e ouço baixinho a sua voz: “Deixe, deixe, meu amor, tudo vai acabar. A gente vai desaparecendo que nem Carlitos no final da estrada. Deixe, deixe, meu amor”.
Lucia Castello Branco