terça-feira, 29 de junho de 2010

pero que los hay, los hay

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Hoje amanheci (sim, porque agora acordo muito cedo, quando durmo) com vontade de voltar a uma época em que acreditava mais firmemente em horóscopos, cartas, tarôs, I chings, runas, todas essas esoterias que usei muito quando jovem, e cada uma delas me disse alguma coisa de muito importante em momentos cruciais da minha vida - houve um tempo de convívio muito próximo com o I ching numa época, depois fiquei íntima do tarô e continuei nele até me desprender de todos, aos poucos.

Cheguei a jogar tarô para uns dois ou três amigos, e pelo menos dois jogos foram muito úteis às pessoas, orientou de modo claro sobre o momento que elas viviam, e um jogo de tarô também foi decisivo na minha trajetória. Enfim, hoje me deu vontade de saber como estão as forças ao meu redor, e fiz um jogo de tarô no Personare. Impressionante, pode até estar indicando a direção errada, mas diz tudo do momento. Gostei (tá certo, podem chamar de louca, nem é tão inverdade assim).

E mais, em tudo que está escrito aí embaixo sobre meus dois signos principais, me reconheço inteiramente.
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SOL EM AQUÁRIO, ASCENDENTE EM SAGITÁRIO – O ASTRONAUTA

De acordo com seu horário de nascimento, Clara, seu signo ascendente é Sagitário, que se combina ao Sol em Aquário, se traduzindo numa personalidade extremamente humanitária, que tem grande fé no lado bom das pessoas e se conecta à busca de um sentido para a vida. Ainda que eventualmente você peque por ingenuidade e por uma crença exagerada em coisas fantasiosas, é justamente esta sua fé em coisas que os outros acham "absurdas" que lhe torna uma pessoa tão exótica e fascinante. Você não vende seus sonhos e ideais por nada, e os outros admiram esta certeza absoluta que move seu espírito.

Sagitário no ascendente dá uma qualidade alegre, viva, gargalhante à sua alma. Aquário é um signo de amizade. Esta combinação se traduz num notável poder de comunicação, Clara, que você usa conscientemente para transmitir uma mensagem. Há algo de "missionário" na combinação de Aquário com Sagitário. É muito provável que você venha a escrever muito, ou palestrar. O gosto por literatura é notável também. Muitas viagens (físicas e mentais) são outra marca registrada.

A dura realidade da vida lhe choca. Precisa aprender a lidar melhor com ela, a compreender que existe sombra onde existe luz. Não adianta dar as costas ao lado mais "escuro" da vida. É possível que a vida lhe apresente a muita gente sofredora, a fim de que você transmita um pouco de luz a elas, e aprenda a perceber que a vida não é só festa.


Você tem um lado altamente filosófico, quase religioso, que pode e deve cultivar. O desafio aqui é aprender a aplica-lo na realidade prática, que você acha cansativa e grosseira. Por você, a vida seria vivida com o máximo de relaxamento, e não deixa de ser interessante perceber o quanto você tem um lado "sortudo" - que chega a irritar gente que acredita que você não sofre, o que não é verdade. Você sofre, mas tem uma fé tão grande que tudo faz sentido, que consegue extrair a lição do sofrimento, enquanto os outros ficam simplesmente se queixando. Você não tem mais "sorte" do que os outros: você cria um campo de oportunidades com seu próprio pensamento - e é isso que sua alma veio ensinar os outros a fazer!

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domingo, 27 de junho de 2010

sem lenço nem documentos

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Depois de muita torcida, muitos apelos em todas as midias de contato (twitter, msn, orkut, flickr, flockr, fluckr e toda a tralha), das quais participo ativamente, o linha volta a ser um ente livre, sem lenço nem documentos. Estava me sentindo asfixiada dentro daquele formato, sem luz e sem direção.

Sem direção continuo, mas menos aflita, mais calma. Hoje minha mãe aceitou sair em cadeiras de rodas para pegar um sol, e lá fomos nós ficar um pouquinho em frente ao restaurante República, aqui na esquina, olhando o movimento, mas o cocoruto dela começou a esquentar e tivemos de voltar após uns dez minutos - benditos e preciosos.

De volta a casa, ela resmungou que só tinha gente feia por ali - sim, está ficando por demais rabugenta, mas quem manda as pessoas se aproximarem sem ser chamadas? O povo vai chegando sem cerimônia, parece que estão vendo um bebê, passam as mãos na cabeça dela, perguntam logo o que ela tem, respondi depressão e aí houve um início de uma conversa chatíssima, uma lenga-lenga sobre a doença que eu cortei no ato, peguei o meu boné e sartei fora.

E ela voltou dizendo que amanhã quer ir às dez horas, porque sol que cura é nesse horário.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Então é o seguinte

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A opção era fechar o linha ou tentar essa experiência de acesso restrito, que acho super antipática e pretensiosa, como se eu tivesse um monte de leitores ou escrevesse coisas relevantes, e não é nada disso. Mas é que estou me sentindo invadida, não quero mais nenhum estranho me lendo, não quero controle de quem quer que seja me espionando pelas frestas do linha.

Então começamos por esse sentimento persecutório, porque hoje sinto que um caminhão passou sobre mim e nem me avisou que vinha vindo. Algumas luzinhas piscaram, é certo, mas eu olhei bem, fui lá e chequei, mas mesmo assim o caminhão me atropelou. 

É o seguinte... (amanhã volto, estou muitíssimo cansada agora).

Voltei hoje, mas não sei ainda como dar a forma adequada a meus queixumes. Não quero virar uma lamúria em forma de blogue; não quero tampouco continuar exposta como me sentia antes a olhares que não me interessam; e não sei como ficar prisioneira nessa coisa fechada.

Então, acho que vou ter de criar outro blogue, levar o conteúdo do linha pra lá e ver o que vai dar, sugestões são bem-vindas.

Não estou com vontade de fazer confissões, muitas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo agora na minha vida, e elas tanto dão pra rir, por causa do acúmulo de situações-limite, quanto pra chorar, se se levar em conta a rapidez com que as coisas vêm desmoronando sobre minha cabeça.

Mas ouvi do melhor amigo a frase consoladora : tudo é vida se manifestando, intensidades em suas díspares formas - e nesse caso dolorosas. Ele sempre encontra salvação, sem um isso de cristão, nas forças que se movem para nos deixar alertas e vivos. Ele é meu rei.

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segunda-feira, 21 de junho de 2010

desvios com nesguinha de sol, um filme e algum Coetzee

Como estou vivendo um momento de vida extraordinário, não tenho muito assunto fora dessa situação particular. O blog nasceu para ser um espaço de comentários sobre livros, filmes, cultura, enfim. Por enquanto, a cultura tem sido relegada a um plano miserável em minha vida, porque ando cansada, estressada, sem vontade de quase nada.

Minha mãe está hospedada chez moi por esses dias, numa espécie de rodízio entre mim e a irmã, e não sei exatamente até quando nós conduziremos esse barco com razoável aprumo, só sabemos que estamos indo, remando conforme as ondas, ou as marolas. Por enquanto, há marolas bem navegáveis, facinhas de controlar e de remar por elas. Torçamos para que continue assim.

De todo modo, houve um dia, não sei quando, que fui ver aqui pertinho Chloe (em nossa ridícula tradução ficou O preço da traição, mais moralista impossível), um filme lindíssimo sobre amor, confiança, desejos, inseguranças, poderes de jovens e de maduras mulheres, além de interpretações excelentes do trio que leva o filme: Julianne Moore, Liam Neeson e Amanda Seyfried.

Um triângulo amoroso que tinha tudo para ser apenas mais uma boa história bem filmada, mas cujo desenlace surpreende e revigora toda a encenação anterior, permitindo ao espectador reler a trama sob outra perspectiva, muito mais interessante, aliás.

Por fim, estou ainda nos inícios, muito hesitante e titubeante, de outro Coetzee, já que o perdido no avião por lá ficou. Não tenho ainda quase nada a dizer sobre Verão, só que estou gostando mas lendo de modo tartarugal. E mesmo não tenho chegado nem à metade de Diário de um ano ruim, e tenha sentido desconforto com as três histórias simultâneas que estavam sendo narradas, uma melhor do que as outras duas, mesmo assim sinto falta de saber o que viria depois, e devo (re)comprá-lo em algum sebo.

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terça-feira, 8 de junho de 2010

de atalhos e desvios

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Como nós todos sabemos, às vezes estamos seguindo um rumo na vida, bons momentos, outros menos, mas no caminho, na roda, circulando, vivendo, conhecendo coisas, pessoas, sentindo e desejando ver, respirar, olhar, sorrir, enfim. Mas aí, eis senão quando o caminho toma uma bifurcação, sem mais nem menos, e somos levados por um atalho esquisito, não planejado, onde tudo dói um pouco, tudo range no corpo, dores por todo lado, sentimentos vagos de o que é que eu fiz agora, por que isso está acontecendo comigo, por que não fui avisada de algum modo de que isso poderia acontecer etc, etc...

Para mim, esses desvios aconteceram sempre que a doença bateu a minha porta. Meu câncer, por exemplo, me deixou estupefata. Como? Eu também? Mas por quê, o que eu fiz? E ao mesmo tempo sendo levada por um roldão de exames, cirurgias, médicos, hospitais, remédios, sustos, infecções, rádios, químios, corpos estranhos no estranho corpo que agora era o meu, medo, muito medo não se sabe bem de quê, talvez de sofrer muito, de ficar incapacitada, mais do que de morrer. Morrer é muito mais fácil do que sofrer, acho.

Durante todo esse tempo, sentia que estava à margem da vida, era outro o mundo que eu habitava, o povo que eu conhecia "- qual o grau do seu - II? I? Recidivo?. Já estou aqui pela terceira vez, não sei muito o que esperar" - a gente ouve todo tipo de história nesse lugar, vê coisas que nunca imaginou, indo durante mais de um mês ali diariamente. A gente vive, continua vivendo, mas é num outro diapasão.

Agora, depois de muito custo (e alguma terapia), me vejo de novo no atalho dela, da grande dama. Minha mãe está doente, tem períodos de confusão mental que se misturam à claríssima lucidez. Há pouco mais de um mês ela andava pra cima e pra baixo, serelepe com suas dores no joelho, onde havia vários chumbinhos (em tese, eles serviam para amenizar a artrose). De repente, tudo ruiu. Ela é e não é a mesma pessoa, passou um caminhão por dentro da cabeça dela e fez um enorme estrago. O médico diz que ela vai ficar bem tomando a medicação e que pode viver bem por vários anos. Mas eu já sinto muita falta dela, sinto falta até da encheção de saco, quando ela queria porque queria viajar, mesmo não podendo. E sei que o estrago é geral, toda a família fica um pouco louca com a mãe assim.

Nesse momento, o lance é viver um dia de cada vez, um passo de cada vez.

(Quando fui a Buenos Aires, ela já havia passado por um hospital, estava em casa se recuperando, e achei que podia sair um pouco, arejar a cabeça. Mas a cabeça de filha vai junto, a confusão vai junto também. Por isso, não achei onde comer direito, não me importei com isso, queria só descansar, só descansar. Foi o que tentei fazer, ficar quieta). 

Pra onde vão os trens, meu pai? Para Mahal Tami, Camirí, espaços no mapa, e depois o pai ria: também pra lugar algum meu filho, tu podes ir e ainda que se mova o trem tu não te moves de ti.  (Tu não te moves de ti - Hilda Hilst).

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quinta-feira, 3 de junho de 2010

esqueci o Coetzee


Esqueci meu livro Diário de um ano ruim, do J. M. Coetzee, lido até quase a metade, no assento do avião, e a Gol está com ele no setor de Achados e perdidos.

Se alguém vai para o Galeão ou passa por lá até sábado, poderia pegar para mim, please, e pode até ficar com ele, só me empresta pra terminar de ler, seria possível?. Isso porque se eu for até lá vou pagar de táxi mais do que o livro custou (não, não há hipótese de pegar um ônibus para tal fim). Merci.

(tremdepouso@terra.com.br). Lembrando que meu nome não é clara lopez :)

terça-feira, 1 de junho de 2010

Um texto muito bom

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Recebi esse texto por email. Não sou votante de Marina, nem de Lula-Dilma, nem de ninguém ainda, mas achei muito bom o que está sendo defendido aqui, por isso aí vai.
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A FOME DE MARINA
Por José Ribamar Bessa Freire*

    Há pouco, Caetano Veloso descartou do seu horizonte eleitoral o presidente Lula da Silva, justificando: “Lula é analfabeto”. Por isso, o cantor baiano aderiu à candidatura da senadora Marina da Silva, que tem diploma universitário. Agora, vem a roqueira Rita Lee dizendo que nem assim vota em Marina para presidente, “porque ela tem cara de quem está com fome”.
    Os Silva não têm saída: se correr o Caetano pega, se ficar a Rita come.
    Tais declarações são espantosas, porque foram feitas não por pistoleiros truculentos, mas por dois artistas refinados, sensíveis e contestadores, cujas músicas nos embalam e nos ajudam a compreender a aventura da existência humana.
    Num país dominado durante cinco séculos por bacharéis cevados, roliços e enxudiosos, eles naturalizaram o canudo de papel e a banha como requisitos indispensáveis ao exercício de governar, para o qual os Silva, por serem iletrados e subnutridos, estariam despreparados.
    Caetano Veloso e Rita Lee foram levianos, deselegantes e preconceituosos. Ofenderam o povo brasileiro, que abriga, afinal, uma multidão de silvas famélicos e desescolarizados.
    De um lado, reforçam a ideia burra e cartorial de que o saber só existe se for sacramentado pela escola e que tal saber é condição sine qua non para o exercício do poder. De outro, pecam querendo nos fazer acreditar que quem está com fome carece de qualidades para o exercício da representação política.
    A rainha do rock, debochada, irreverente e crítica, a quem todos admiramos, dessa vez pisou na bola. Feio.“Venenosa! Êh êh êh êh êh!/ Erva venenosa, êh êh êh êh êh!/ É pior do que cobra cascavel/ O seu veneno é cruel…/ Deus do céu!/ Como ela é maldosa!”.
    Nenhum dos dois - nem Caetano, nem Rita - têm tutano para entender esse Brasil profundo que os silvas representam.
    A senadora Marina da Silva tem mesmo cara de quem está com fome? Ou se trata de um preconceito da roqueira, que só vê desnutrição ali onde nós vemos uma beleza frágil e sofrida de Frida Kahlo, com seu cabelo amarrado em um coque, seus vestidos longos e seu inevitável xale? Talvez Rita Lee tenha razão em ver fome na cara de Marina, mas se trata de uma fome plural, cuja geografia precisa ser delineada. Se for fome, é fome de quê?


O mapa da fome

    A primeira fome de Marina é, efetivamente, fome de comida, fome que roeu sua infância de menina seringueira, quando comeu a macaxeira que o capiroto ralou. Traz em seu rosto as marcas da pobreza, de uma fome crônica que nasceu com ela na colocação de Breu Velho, dentro do Seringal Bagaço, no Acre.
    Órfã da mãe ainda menina, acordava de madrugada, andava quilômetros para cortar seringa, fazia roça, remava, carregava água, pescava e até caçava. Três de seus irmãos não aguentaram e acabaram aumentando o alto índice de mortalidade infantil.
    Com seus 53 quilos atuais, a segunda fome de Marina é dos alimentos que, mesmo agora, com salário de senadora, não pode usufruir: carne vermelha, frutos do mar, lactose, condimentos e uma longa lista de uma rigorosa dieta prescrita pelos médicos, em razão de doenças contraídas quando cortava seringa no meio da floresta. Aos seis anos, ela teve o sangue contaminado por mercúrio. Contraiu cinco malárias, três hepatites e uma leishmaniose.
    A fome de conhecimentos é a terceira fome de Marina. Não havia escolas no seringal. Ela adquiriu os saberes da floresta através da experiência e do mundo mágico da oralidade. Quando contraiu hepatite, aos 16 anos, foi para a cidade em busca de tratamento médico e aí mitigou o apetite por novos saberes nas aulas do Mobral e no curso de Educação Integrada, onde aprendeu a ler e escrever.
    Fez os supletivos de 1º e 2º graus e depois o vestibular para o Curso de História da Universidade Federal do Acre, trabalhando como empregada doméstica, lavando roupa, cozinhando, faxinando.
    Fome e sede de justiça: essa é sua quarta fome. Para saciá-la, militou nas Comunidades Eclesiais de Base, na associação de moradores de seu bairro, no movimento estudantil e sindical. Junto com Chico Mendes, fundou a CUT no Acre e depois ajudou a construir o PT.
    Exerceu dois mandatos de vereadora em Rio Branco , quando devolveu o dinheiro das mordomias legais, mas escandalosas, forçando os demais vereadores a fazerem o mesmo. Elegeu-se deputada estadual e depois senadora, também por dois mandatos, defendendo os índios, os trabalhadores rurais e os povos da floresta.
    Quem viveu da floresta, não quer que a floresta morra. A cidadania ambiental faz parte da sua quinta fome. Ministra do Meio Ambiente, ela criou o Serviço Florestal Brasileiro e o Fundo de Desenvolvimento para gerir as florestas e estimular o manejo florestal.
    Combateu, através do Ibama, as atividades predatórias. Reduziu, em três anos, o desmatamento da Amazônia de 57%, com a apreensão de um milhão de metros cúbicos de madeira, prisão de mais 700 criminosos ambientais, desmonte de mais de 1,5 mil empresas ilegais e inibição de 37 mil propriedades de grilagem.


Tudo vira bosta


    Esse é o retrato das fomes de Marina da Silva que - na voz de Rita Lee - a descredencia para o exercício da presidência da República porque, no frigir dos ovos, “o ovo frito, o caviar e o cozido/ a buchada e o cabrito/ o cinzento e o colorido/ a ditadura e o oprimido/ o prometido e não cumprido/ e o programa do partido: tudo vira bosta”.
   Lendo a declaração da roqueira, é o caso de devolver-lhe a letra de outra música - ‘Se Manca’ - dizendo a ela: “Nem sou Lacan/ pra te botar no divã/ e ouvir sua merda/ Se manca, neném!/ Gente mala a gente trata com desdém/ Se manca, neném/ Não vem se achando bacana/ você é babaca”.
    Rita Lee é babaca? Claro que não, mas certamente cometeu uma babaquice. Numa de suas músicas - ‘Você vem’ - ela faz autocrítica antecipada, confessando: “Não entendo de política/ Juro que o Brasil não é mais chanchada/ Você vem… e faz piada”. Como ela é mutante, esperamos que faça um gesto grandioso, um pedido de desculpas dirigido ao povo brasileiro, cantando: “Desculpe o auê/ Eu não queria magoar você”.
    A mesma bala do preconceito disparada contra Marina atingiu também a ministra Dilma Rousseff, em quem Rita Lee também não vota porque, “ela tem cara de professora de matemática e mete medo”. Ah, Rita Lee conseguiu o milagre de tornar a ministra Dilma menos antipática! Não usaria essa imagem, se tivesse aprendido elevar uma fração a uma potência, em Manaus, com a professora Mercedes Ponce de Leão, tão fofinha, ou com a nega Nathércia Menezes, tão altaneira.
    Deixa ver se eu entendi direito: Marina não serve porque tem cara de fome. Dilma, porque mete mais medo que um exército de logaritmos, catetos, hipotenusas, senos e co-senos. Serra, todos nós sabemos, tem cara de vampiro. Sobra quem?
    Se for para votar em quem tem cara de quem comeu (e gostou), vamos ressuscitar, então, Paulo Salim Maluf ou Collor de Mello, que exalam saúde por todos os dentes. Ou o Sarney, untuoso, com sua cara de ratazana bigoduda. Por que não chamar o José Roberto Arruda, dono de um apetite voraz e de cuecões multi-bolsos? Como diriam os franceses, “il péte de santé”.
    O banqueiro Daniel Dantas, bem escanhoado e já desalgemado, tem cara de quem se alimenta bem. Essa é a elite bem nutrida do Brasil…
    Rita Lee não se enganou: Marina tem a cara de fome do Brasil, mas isso não é motivo para deixar de votar nela, porque essa é também a cara da resistência, da luta da inteligência contra a brutalidade, do milagre da sobrevivência, o que lhe dá autoridade e a credencia para o exercício de liderança em nosso país.
    Marina Silva, a cara da fome? Esse é um argumento convincente para votar nela. Se eu tinha alguma dúvida, Rita Lee me convenceu definitivamente.

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(*) Professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Indígenas (UERJ)e pesquisa no Programa de Pós-Graduação em Memória Social (UNIRIO)
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