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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

Desembarque imediato


Há muito tempo não via um filme brasileiro tão interessante e divertido quanto Embarque imediato. Marília Pera dá um banho de talento, humor e versatilidade, contracenando com um inexperiente Jonathan Haagensen, que ela generosamente acolhe e faz funcionar no papel, e com um José Wilker convincente, apesar das caretas, que acho sempre excessivas.


Mas o filme é de Marília, totalmente dela, que faz um trabalho incrível, na linha do Amélia (2000), da Ana Carolina, aquele também um filme magistral. Mas talvez este seja ainda melhor, sobretudo porque ela está quase todo o tempo em cena, o que torna possível desdobrar várias facetas de seu enorme talento - e como canta a moça! Eu nunca vi nenhum de seus musicais no teatro, sabia que ela tinha grande preparo de voz, mas é mais que isso – ela canta muito.

Além disso, faz um tipo de comédia que beira o pastelão, em algumas cenas, o que acaba por carregar ainda mais o humor porque sugere uma espécie de jogo duplo, em que se encena a comédia amorosa e suas desilusões, ao mesmo tempo em que também se desconstroi histrionicamente a breguice dessas situações lacrimejantes, tornando tudo bem engraçado.


(Só mais uma observação quanto ao Jonathan Haagensen: ele fica quase todo o tempo em cena com a Marília, que eu acho que sustenta não apenas o filme, mas o rapaz também. Apesar de me parecer bem inexpressivo como ator, tem de se louvar sua determinação de, pelo menos, não fazer feio. Aliás, feio é tudo que não se aplica ao guapo rapaz).

(Última observação, essa totalmente irrelevante, mas vendo esse trabalho de atriz em tão alto nível e com tamanha técnica, todo aquele imbroglio em torno da minissérie parece ainda mais mesquinho. Marília está mesmo num patamar muito acima daquela média toda).

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sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Moscou

Há uma onda de documentários brasileiros nas telas, e eu tenho gostado, em geral, do que tenho visto. Então, animada, fui ao Arteplex ver Moscou, do Eduardo Coutinho, uma espécie de olhar por trás dos ensaios da peça As três irmãs, do Tchecov, realizados pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte, e dirigido pelo Enrique Diaz.


Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

Loki, Arnaldo Baptista

Dois documentários sobre músicos me emocionaram, e Loki, Arnaldo Baptista, sobretudo, mais que Coração vagabundo, me deixou todo o tempo em estado de suspensão, os sentimentos expostos e algum chororô. O interessante é que ambos focalizam músicos que fizeram eclodir a Tropicália, e ambos tiveram em suas vidas, em algum momento, a presença de uma mulher que lhes deu impulso e sustentação: no caso de Arnaldo Baptista, sua atual mulher Lucinha Barbosa, ajudou-o na reconstrução da própria vida, da autoestima, dos pequenos e grandes passos para continuar na roda da criação; no caso de Caetano, Paula Lavigne produziu não apenas esse documentário, mas quase tudo que diz respeito à carreira do ex-marido desde que se casaram.

Loki emociona do começo ao fim e foi uma revelação olhar os vários períodos da história desse músico (e do país), acompanhar as oscilações entre a alegria mais genuína do grupo inicial e a desestruturação subseqüente, sobretudo (sabemos pelos depoimentos) a partir da entrada do ácido na vida deles; a juventude e a exuberância dos Mutantes e, com eles, viajar um pouco na minha própria memória, relembrar os festivais de música que paravam o país e que fizeram parte da minha história também; os momentos criativos e as várias fases mediadas pela dor enorme de perder o amor de Rita; a tentativa de suicídio, a lenta recuperação, o ostracismo, as internações e a volta do grupo, agora com Zélia Duncan, que deu um depoimento muito bonito, aliás há vários depoimentos tocantes sobre a importância do Arnaldo para a cultura musical do país.

Eu desconhecia quase tudo, mais que isso, tinha um pouco de preconceito, alimentado sobretudo pela ignorância pura e simples, mas também por gostar de Rita Lee e ter sempre percebido quase tudo que dizia respeito aos Mutantes a partir da ótica dela, inclusive essa participação da Zélia no revival do grupo achei despropositada e meio arrivista, quando não é nada disso, trata-se de um tributo lindíssimo à figura do artista e à história do grupo.

O filme se passa sempre em vários tempos – há o passado do grupo, a efervescência dos acontecimentos iniciais da carreira, Tropicália incluída; a retomada recente e o show internacional, com a tietagem para mim inesperada a Arnaldo; há o artista no presente, meio isolado em Juiz de Fora mas tranquilo e expressando-se também através da pintura; e há depoimentos de vários artistas sobre a trajetória dele e sua importância para a música brasileira – é bonito ver Lobão falando, Nelson Motta, o irmão Sérgio Dias, que faz mea culpa mais de uma vez, e até Sean Lenon elogiando Arnaldo rasgadamente.

Mas o que vi de mais interessante, e de mais forte também, foi essa combinação todo o tempo entre vidas de jovens exuberantes, em seu completo vigor e predisposição para a felicidade, e as vicissitudes desse homem na atualidade, quando se percebe a luta ferrenha pela vida plena e para estar no estado criativo (com o auxílio luxuoso da mulher). É como se o esplendor da vida fosse confrontado continuamente com sua inescapável finitude e, nesse sentido, o filme impõe uma reflexão imediata e contundente sobre nossa fragilidade, mas também sobre nossa capacidade de recriarmo-nos, de avançar para mais vida, do jeito que for.

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Já o filme sobre Caetano mostra Caetano sendo ele mesmo. Mas quando canta, ah, aí não tem mesmo pra ninguém, amo ouvir sua voz e amo as canções que ele canta. O resto a gente vai levando...

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

à deriva


Primeira sessão do Arteplex, poucas pessoas e as que aguardam no saguão não parecem preocupadas com gripe, seja A, B ou C, salvo um senhor de cabelos brancos sentado numa das mesinhas, que segura e abre esse pequeno objeto de plástico que está em todos os aposentos aqui em casa: o potinho de álcool em gel. Uma pessoa apenas, o que me dá um certo reconforto, parece que estou num paraíso infenso a doenças ou a rumores catastróficos.


Quase não tenho o que dizer a respeito de À deriva. Trata-se de um filme sobre valores e esses valores são discutidos dentro de uma família de classe média e de nível intelectual mais ou menos alto (o pai é escritor), com filhos adolescentes e crise aguda entre o pai e a mãe.


Não é um mundo que eu reconheça, ou pelo qual me interesse, e no aspecto técnico nada me chamou a atenção em especial, embora a paisagem de Arraial do Cabo (ou Búzios, não sei), seja muito bonita.


De todo modo, achei sofrível a atuação do casal de adolescentes, e a menina é fraquíssima. A única personagem para quem meus olhos acenaram alguma atenção foi o de Déborah Bloch, que faz uma bêbada e mulher mal amada muito bem: convincente, madura, bonita, boa atriz, a única com alguma existência para mim.


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Sobre A proposta, que vi no mesmo dia aproveitando a bonança, é o mesmo filme que a gente já viu muitas vezes, inclusive com a Bullock, e que essa indústria produz há milênios, portanto o modelo e a forma já foram testados à exaustão, inclusive por aqui, de modo que o resultado é também o que se espera: algumas risadas e um tempo de pura distração, que passa rápido.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

dois filmes: Jean Charles; A era do gelo 3


Jean Charles tem seu interesse, sobretudo no que diz respeito à vida de alguns brasileiros que vivem ilegalmente em Londres, e as peculiaridades que cercam essas pessoas, trabalhando freneticamente para se arranjar na vida. Um Selton rechonchudo dá conta do recado, e está muito à vontade num certo clima de eletricidade : ele é eletricista de profissão no filme, e se move eletricamente na tela.

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A era do gelo 3 é quase o mesmo filme, mas um pouco mais longo, com muito, muito mais dinossauros. Acho o mais fraco dos três. De todo modo, diversão e entretenimento, com o plus da dublagem do Matheus Nachtergaele para a preguiça Sid, que acho o mais engraçado dos personagens.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Garapa


Não se pode dizer que os personagens do filme Garapa não estão estacados naquela situação de miséria absoluta, e mesmo com o programa fome zero, que é só o que eles têm, aqueles personagens não têm saída.
E também não se pode dizer que eles são personagens, eles são pessoas que vivem na mais absurda miséria, bem ali no Ceará, mas também no Maranhão, no Pará, no Mato Grosso, em qualquer interiorão desse país. Também não se pode dizer que são cidadãos aqueles seres, porque lhes falta tudo, menos filhos, fome e muriçocas (uma das crianças está devastada pelas picadas dos mosquitos, mas isso parece ser o de menos).


Enfim, como é que se pode falar de Garapa? Por onde começar? O que dizer? Talvez que o filme seja o que de mais próximo Graciliano poderia ter desejado para seu Vidas secas. Talvez. Mas a situação dessas três famílias é pior, eu acho. Pelo menos havia alguma dignidade em Fabiano, em sinhá Moça... até Baleia era / é um cão com uma certa graça.


Aqui é tudo muito pior, até porque já se passaram 71 anos desde a triste retirada, e esses miseráveis do filme continuam na mesma. E não têm saída. Eles não têm saída. O fome zero ajuda a mantê-los vivos por mais algum tempo, mas não lhes dá emprego, não lhes dá escola, não lhes devolve a dignidade. Vivem um pouco como bichos, as crianças sobretudo, infestadas de verminoses, de moscas e de mosquitos.


Os homens parece que estão numa situação pior - as mulheres pelo menos agem, fazem garapa pros filhos, varrem o chão com vassoura de palha, lavam roupa, cuidam do que podem. Os homens não têm horizonte, já que não têm como prover nada - sem trabalho, ficam a esmo, o olhar mirando o nada, quando não são tomados pela bebida, ou pela loucura.


Não há saída pra eles, não tem fome zero que dê jeito naquela situação. Seria necessário criar alternativas de trabalho praqueles homens, criar escolas praquelas crianças, tem de ser possível reverter isso, tem que haver um país melhor para eles - e para nós, porque somos nós aqueles ali, somos responsáveis por aquilo ali, somos irmãos em tudo.
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Em tempo: acho que o Padilha fez um filme que não podia ser mais pungente, porque simplesmente deixou falar a situação daquelas três famílias. A violência fica restrita à coisa mesma, à existência dela, que acompanhamos meio impotentes, mas ainda atônitos, aparvalhados...

sexta-feira, 5 de junho de 2009

A mulher invisível

Gostei de ter visto A mulher invisível, mas há um grande problema no filme que diz respeito ao tom narrativo. Ele não é inteiramente comédia, mas sua vocação é para ser completamente comédia. Ou seja, quando os personagens se entregam àquela maluquice da relação com a mulher invisível o filme fica engraçado, mas quando advém um certo ar de drama, a coisa desanda. 

Tanto a vocação do filme é a comédia que a parca aparição da Fernandinha Torres dá uma levantada geral no humor, ela está impagável nos poucos momentos em que fica na tela.

O gracinha do Selton Mello tem altos e baixos, bem no estilo das várias vozes que ele usa e abusa no filme - uma espécie de gag de voz fina e grossa, além dos tiques de sons que explora com algum resultado de humor. Acho que ele percebe que precisa explorar mais o humor do que o drama que o diretor impõe, não sei.

De todo modo, não sou indicada para falar do Selton porque sou tiete, então vejo qualidades até nos defeitos dele - e aqui tem alguns defeitos, sim, sobretudo nas cenas de romance que ele faz sozinho, como se estivesse com a Luana, que me parecem um tanto exageradas.

Ah, e a Luana está belíííísssima - é o máximo que posso dizer da atuação dela que, aliás, é para ser isso mesmo: a gostosona do pedaço.


A trilha sonora é muito boa, com minha ídola de juventude Janis Joplin abrindo e fechando o filme. Enfim, se não houver grandes expectativas, dá para ver, arejar a cabeça e se divertir.