Sim, amo de paixão a poesia de Paulo Henriques Brito, e alguns poemas de seu último Tarde (São Paulo: Cia das Letras, 2007) bateram mais fundo, como o primeiro do ciclco 'Uma doença', por exemplo:
Há doenças que são mais que doenças,
que não apenas são à vida infensas
como oferecem algumas recompensas
que tornam mais urgente e mais difícil
o já por vezes inviável ofício
de habitar o íngreme edifício
de não-se-estar-conforme-se-devia
e administrar a frágil fantasia
de que se é o que ninguém seria
se não tivesse (insistentemente)
de convencer-se a si (e a toda gente)
que não se está (mesmo estando) doente.
[p. 25]
De resto, o livro todo vem num tom meio soturno, trágico, noturno, o que é meio incomum nessa poética. Parece que o poeta chegou a um limiar qualquer, a um beco sem saída. Não apenas o futuro parece emparedado, mas o passado diz respeito a um compte-rendu sem muito a celebrar, como se lêem vários poemas de 'Crespuscular'
I
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.
Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.
Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,
fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)
[p. 83]
sábado, 28 de julho de 2007
sábado, 21 de julho de 2007
cenas de cinema que fazem a graça da vida
Algumas cenas de cinema valem alguns dos bons momentos da vida:
1. O número de tango dançado por Al Pacino no terço final de Perfume de Mulher, momento de pura delícia num filme todo bom.
2. A cena em que Harvey Keitel, em O Piano, olha embaixo das saias de Holly Hunter, durante as aulas que ela dá a ele. Puro erotismo.
3. A cena e as falas finais de Blade Runner, quando ele diz "mas quem sabe quanto tempo vai viver?" para justificar o amor pela andróide, mas todo o filme é ótimo.
4. O clássico piano e suas melodias ("Play it again, Sam") em Casablanca. Aproveitando, sessão nostalgia com a música tema:
AS TIME GOES BY - Letra e música de Herman Hupfield
You must remember this,
A kiss is still a kiss,
A sigh is just a sigh
The fundamental things apply
As time goes by.
And when two lovers woo,
They still say, "I love you ",
On that you can rely
No manter what the future brings
As time goes by.
Moonlight and love songs, never out of date,
Hearts full of passion, jealousy and hate
Woman needs man, and man must have his mate,
That no one can deny.
lt's still lhe same old story
A fight for love and glory,
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by.
5. Marlon Brando em O Poderoso Chefão. Aliás, Marlon Brando em qualquer filme.
6. A cena em que a velhinha de Ensina-me a Viver mostra ao rapaz como explorar as sensações do tato numa escultura toda feita de ocos.
7. A cena de antropofagia de Tomates Verdes e Fritos, e toda cena em que a Jessica Tendy está presente, ou seja, quase todo o filme.
8.Todo o Quando a Noite Cai.
9. A cena em que Haley Joel Osment diz a Bruce Willis que vê mortos em Sexto Sentido.
10. Do clássico ET, tudo.
11. A sutileza e a delicadeza de As Pontes de Madison.
12. As Invasões Bárbaras, todo, mas sobretudo a cena final em que Sébastien mostra a casa que era do pai à nova amiga, e os dois se beijam rapidamente. Também O Declínio do Império Americano, quase todo.
1. O número de tango dançado por Al Pacino no terço final de Perfume de Mulher, momento de pura delícia num filme todo bom.
2. A cena em que Harvey Keitel, em O Piano, olha embaixo das saias de Holly Hunter, durante as aulas que ela dá a ele. Puro erotismo.
3. A cena e as falas finais de Blade Runner, quando ele diz "mas quem sabe quanto tempo vai viver?" para justificar o amor pela andróide, mas todo o filme é ótimo.
4. O clássico piano e suas melodias ("Play it again, Sam") em Casablanca. Aproveitando, sessão nostalgia com a música tema:
AS TIME GOES BY - Letra e música de Herman Hupfield
You must remember this,
A kiss is still a kiss,
A sigh is just a sigh
The fundamental things apply
As time goes by.
And when two lovers woo,
They still say, "I love you ",
On that you can rely
No manter what the future brings
As time goes by.
Moonlight and love songs, never out of date,
Hearts full of passion, jealousy and hate
Woman needs man, and man must have his mate,
That no one can deny.
lt's still lhe same old story
A fight for love and glory,
A case of do or die
The world will always welcome lovers
As time goes by.
5. Marlon Brando em O Poderoso Chefão. Aliás, Marlon Brando em qualquer filme.
6. A cena em que a velhinha de Ensina-me a Viver mostra ao rapaz como explorar as sensações do tato numa escultura toda feita de ocos.
7. A cena de antropofagia de Tomates Verdes e Fritos, e toda cena em que a Jessica Tendy está presente, ou seja, quase todo o filme.
8.Todo o Quando a Noite Cai.
9. A cena em que Haley Joel Osment diz a Bruce Willis que vê mortos em Sexto Sentido.
10. Do clássico ET, tudo.
11. A sutileza e a delicadeza de As Pontes de Madison.
12. As Invasões Bárbaras, todo, mas sobretudo a cena final em que Sébastien mostra a casa que era do pai à nova amiga, e os dois se beijam rapidamente. Também O Declínio do Império Americano, quase todo.
Poesia, sempre
Poema indicado por Armando Freitas Filho para o site http://portalliteral.terra.com.br/
Não há indicação do autor, hèlas.
Começo este poema de amor na hora incerta
como o menino que canta mais forte
ao passar diante do cemitério.
E digo amor. Rangem as dobradiças
de cada som. Quebra-se cada letra,
estripo cada grama do seu sentido
— todo de grumos entre as mãos, sangue preso...
Fóssil que quer libertar-se
da dureza mineral, coral,
fruto de rubi. Milagre do espelho
que multiplica o seu desejo. A angústia
abdica do seu nome: o trono
está vazio e convoca algum tirano
desconhecido, com certeza mais cruel.
O gavião mira, de longe, a passagem dos dias:
não escapa nenhum de seu olho frio.
Tudo dorme. E te digo amor, me obstino
em dizer-te assim. E a não queimar
a carcaça da palavra, onde parece que a carne
começa já a apodrecer. Não. Redizer-te.
Redizer-te em arranhões na parede
que ergues entre o meu desejo e Tu.
Tradução de Ronald Polito
____
Não há indicação do autor, hèlas.
Começo este poema de amor na hora incerta
como o menino que canta mais forte
ao passar diante do cemitério.
E digo amor. Rangem as dobradiças
de cada som. Quebra-se cada letra,
estripo cada grama do seu sentido
— todo de grumos entre as mãos, sangue preso...
Fóssil que quer libertar-se
da dureza mineral, coral,
fruto de rubi. Milagre do espelho
que multiplica o seu desejo. A angústia
abdica do seu nome: o trono
está vazio e convoca algum tirano
desconhecido, com certeza mais cruel.
O gavião mira, de longe, a passagem dos dias:
não escapa nenhum de seu olho frio.
Tudo dorme. E te digo amor, me obstino
em dizer-te assim. E a não queimar
a carcaça da palavra, onde parece que a carne
começa já a apodrecer. Não. Redizer-te.
Redizer-te em arranhões na parede
que ergues entre o meu desejo e Tu.
Tradução de Ronald Polito
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literatura e cotidiano
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Meu amigo Roberto enviou-me uma carta que leu no blog de outro amigo dele, e fiquei pensando se eu deveria imprimir a um blog de literatura uma postura mais ativa quanto à situação de desconcerto e de caos nos céus brasileiros, que redundou no desastre do avião da TAM, com tantas mortes e tanto descaso, tanta falta de vergonha das autoridades, e decidi que blog de literatura não tem de ser alienado, não, tem de estar situado no seu tempo, no seu país e tem de refletir sobre os acontecimentos fortes que nos atingem a todos. Portanto, republico aqui a carta indignada do Paulinho Assunção e faço minhas suas palavras, com as devidas indicações de origem:
CARTA ABERTA AO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Senhor Presidente,
deixo à margem o labor diário de um modesto escritor e jornalista brasileiro para um protesto (é pouco), uma indignação (menor ainda), uma raiva (melhor seria), diante dos atos (eu os chamaria de trogloditas) dos seus assessores Marco Aurélio e Bruno (não lhes concedo sobrenomes) no espaço público do Palácio do Planalto, os quais, tomados por um inconcebível e perverso êxtase frente à dor das vítimas do desgovernado espaço aéreo do país, decidem fazer do desrespeito uma arma de Estado.
digo-lhe, senhor Presidente, que os senhores Marco Aurélio e Bruno (moleques talvez fosse o termo para eles mais adequado), ao empunharem a obscenidade como carabina de governo, a obscenidade como ferramenta de governar, põem abaixo tudo o que milhões de brasileiros depositaram nas urnas em favor de sua eleição.
seu governo, senhor Presidente, é um governo que, ao manter em suas fileiras esses empunhadores de tamanha perversidade, torna-se igualmente cúmplice de um crime, o crime que leva alguém à tentativa de salvar a própria pele diante da dor alheia.
eles não salvarão a própria pele, senhor Presidente.
por quê? porque, de agora em diante, onde quer que os senhores Marco Aurélio e Bruno caminhem pelo brasil, os olhos dos brasileiros lá estarão para lhes lembrar que os gestos e as atitudes flagradas no Palácio do Planalto sempre os tornarão criminosos.
criminosos de um outro e hediondo feitio: criminosos do desrespeito, criminosos da dor humana, criminosos sobre cadáveres.
o país que amanheceu hoje depois dos atos acima mencionados, senhor Presidente, é um despaís, um arremedo de país, um engodo de país.
e o seu governo começa a ficar igual, senhor Presidente, se é que já não ficou.
Paulinho Assunção, Belo Horizonte, 20 de julho de 2007 (http://paulinhoassuncao.blogspot.com/)
NOTA: De tudo que se escreveu sobre essa enorme tragédia, acho que a matéria da Veja dessa semana (20 a 27 /07/07) faz as análises mais consistentes e verossímeis a respeito dos prováveis acontecimentos com o vôo e aponta as diversas causas da vasta crise aérea, a partir da incúria, incompetência e ganância dos gestores públicos e privados desse país.
Meu amigo Roberto enviou-me uma carta que leu no blog de outro amigo dele, e fiquei pensando se eu deveria imprimir a um blog de literatura uma postura mais ativa quanto à situação de desconcerto e de caos nos céus brasileiros, que redundou no desastre do avião da TAM, com tantas mortes e tanto descaso, tanta falta de vergonha das autoridades, e decidi que blog de literatura não tem de ser alienado, não, tem de estar situado no seu tempo, no seu país e tem de refletir sobre os acontecimentos fortes que nos atingem a todos. Portanto, republico aqui a carta indignada do Paulinho Assunção e faço minhas suas palavras, com as devidas indicações de origem:
CARTA ABERTA AO SENHOR PRESIDENTE DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL
Senhor Presidente,
deixo à margem o labor diário de um modesto escritor e jornalista brasileiro para um protesto (é pouco), uma indignação (menor ainda), uma raiva (melhor seria), diante dos atos (eu os chamaria de trogloditas) dos seus assessores Marco Aurélio e Bruno (não lhes concedo sobrenomes) no espaço público do Palácio do Planalto, os quais, tomados por um inconcebível e perverso êxtase frente à dor das vítimas do desgovernado espaço aéreo do país, decidem fazer do desrespeito uma arma de Estado.
digo-lhe, senhor Presidente, que os senhores Marco Aurélio e Bruno (moleques talvez fosse o termo para eles mais adequado), ao empunharem a obscenidade como carabina de governo, a obscenidade como ferramenta de governar, põem abaixo tudo o que milhões de brasileiros depositaram nas urnas em favor de sua eleição.
seu governo, senhor Presidente, é um governo que, ao manter em suas fileiras esses empunhadores de tamanha perversidade, torna-se igualmente cúmplice de um crime, o crime que leva alguém à tentativa de salvar a própria pele diante da dor alheia.
eles não salvarão a própria pele, senhor Presidente.
por quê? porque, de agora em diante, onde quer que os senhores Marco Aurélio e Bruno caminhem pelo brasil, os olhos dos brasileiros lá estarão para lhes lembrar que os gestos e as atitudes flagradas no Palácio do Planalto sempre os tornarão criminosos.
criminosos de um outro e hediondo feitio: criminosos do desrespeito, criminosos da dor humana, criminosos sobre cadáveres.
o país que amanheceu hoje depois dos atos acima mencionados, senhor Presidente, é um despaís, um arremedo de país, um engodo de país.
e o seu governo começa a ficar igual, senhor Presidente, se é que já não ficou.
Paulinho Assunção, Belo Horizonte, 20 de julho de 2007 (http://paulinhoassuncao.blogspot.com/)
NOTA: De tudo que se escreveu sobre essa enorme tragédia, acho que a matéria da Veja dessa semana (20 a 27 /07/07) faz as análises mais consistentes e verossímeis a respeito dos prováveis acontecimentos com o vôo e aponta as diversas causas da vasta crise aérea, a partir da incúria, incompetência e ganância dos gestores públicos e privados desse país.
terça-feira, 17 de julho de 2007
Teria Hilda sobrevivido...
Para a última pergunta que lanço no blog sobre Lya Luft, se Hilda teria podido viver de literatura se tivesse tido a mesma sorte de Lya de ter uma ótima agente literária, que soube fazer do livro dela o produto certo, na hora certa, nos lugares certos, me parece ser não. Os motivos envolvem uma discussão muitíssimo complicada sobre a questão bizantina do que é ou não é alta literatura; do que significa fazer essa literatura em país devastado culturalmente como o Brasil; dos papéis que os meios de comunicação se outorgam na criação dos mitos da cultura de massa; do que seja cultura de massa; do que constitui o gosto do público leitor brasileiro, mediano, universitário, e/ou erudito, o que quer que essas categorias compreendam; a própria existência dessas distinções sem a mediação dos mesmos midia; para quem fala o sujeito que escreve tal ou qual literatura; além, é claro, da questão que me lembra Heidrun sobre a existência da literatura como "gênero discursivo" - há isso ainda? Vamos por partes, em mini capítulos.
Lya Luft etc...
Assisti a um debate muito esclarecedor na TV Cultura entre vários jornalistas e a escritora Lya Luft . Esclarecedor porque eu havia ficado pasma com a enorme matéria paga da Veja, sobre a obra de Lya, a partir de onde começou um sucesso retumbante e uma ascensão vertiginosa de vendas para o seu Perdas e ganhos. Isso ocorreu um pouco depois da morte de Hilda Hilst, uma extraordinária escritora, que passou a vida discutindo, na obra e em entrevistas, o pouco valor que se dava a sua literatura, o pouco público que tinha, e as dívidas que se acumulavam.
Tendo escolhido intransigentemente o ofício de escritor, para o exercício do qual isolou-se em seu sítio em Campinas, Hilda jamais teve no país o reconhecimento adequado à vastidão de seu talento e à inigualável obra que deixou. Me parecia injusta aquela homenagem da mídia a Lya, justamente quando morria nossa última grande escritora, e eu achava que ela teria de ser mais - o termo talvez seja esse - delicada com a memória de sua colega de ofício, o que era uma grande bobagem de minha parte.
O que compreendi a partir do debate é que Lya não tem responsabilidade moral sobre o que eu considerava uma 'injustiça' histórica com relação a Hilda. Na verdade, Lya fez algumas observações a respeito do estrondoso sucesso de Perdas, que ela reputa, entre outras coisas (qualidade literária y compris, claro), ao fato de o livro ter participado de mega eventos literários no estrangeiro (feira de Hamburgo e outras), em que sua agente literária divulgou o livro, que foi visto pelos agentes internacionais como um produto adequado aos tempos atuais, por seu intrínseco caráter de meditação sobre valores, vida, morte, existência, temas que - segundo avaliação desses agentes - pareceram bastante adequados a um momento mundial de extrema violência e derrisão, em que as pessoas precisam de espelhar-se em valores fortes.
A isso soma-se uma linguagem relativamente simples, que atinge o público letrado em geral, e o tom poético que permeia seus escritos (alguns leitores entrevistados no programa diziam que: a) Lya expressava o que eles sentiam, falava por eles; b) o que era dito o era de maneira sensível e poética). Assim, o que pude compreender, ao fim e ao cabo, é o fato meio óbvio (agora pra mim) de que ao autor cabe escrever o livro, a obra, e ele (livro) tornar-se um best-seller depende de fatores que nem sempre estão sob o controle do autor. O que ele precisa, sem dúvida, é ter um bom agente, estar no momento certo, na hora certa, com a obra certa. À Hilda faltou, parece, um bom agente. A pergunta que ainda permanece é: se isso tivesse acontecido (ter um bom agente), o percurso da obra dela teria sido diferente do que tem sido até agora? Ela teria podido viver da literatura, como tanto quis?
Tendo escolhido intransigentemente o ofício de escritor, para o exercício do qual isolou-se em seu sítio em Campinas, Hilda jamais teve no país o reconhecimento adequado à vastidão de seu talento e à inigualável obra que deixou. Me parecia injusta aquela homenagem da mídia a Lya, justamente quando morria nossa última grande escritora, e eu achava que ela teria de ser mais - o termo talvez seja esse - delicada com a memória de sua colega de ofício, o que era uma grande bobagem de minha parte.
O que compreendi a partir do debate é que Lya não tem responsabilidade moral sobre o que eu considerava uma 'injustiça' histórica com relação a Hilda. Na verdade, Lya fez algumas observações a respeito do estrondoso sucesso de Perdas, que ela reputa, entre outras coisas (qualidade literária y compris, claro), ao fato de o livro ter participado de mega eventos literários no estrangeiro (feira de Hamburgo e outras), em que sua agente literária divulgou o livro, que foi visto pelos agentes internacionais como um produto adequado aos tempos atuais, por seu intrínseco caráter de meditação sobre valores, vida, morte, existência, temas que - segundo avaliação desses agentes - pareceram bastante adequados a um momento mundial de extrema violência e derrisão, em que as pessoas precisam de espelhar-se em valores fortes.
A isso soma-se uma linguagem relativamente simples, que atinge o público letrado em geral, e o tom poético que permeia seus escritos (alguns leitores entrevistados no programa diziam que: a) Lya expressava o que eles sentiam, falava por eles; b) o que era dito o era de maneira sensível e poética). Assim, o que pude compreender, ao fim e ao cabo, é o fato meio óbvio (agora pra mim) de que ao autor cabe escrever o livro, a obra, e ele (livro) tornar-se um best-seller depende de fatores que nem sempre estão sob o controle do autor. O que ele precisa, sem dúvida, é ter um bom agente, estar no momento certo, na hora certa, com a obra certa. À Hilda faltou, parece, um bom agente. A pergunta que ainda permanece é: se isso tivesse acontecido (ter um bom agente), o percurso da obra dela teria sido diferente do que tem sido até agora? Ela teria podido viver da literatura, como tanto quis?
Entradas em João Cabral
É possível entrar no universo poético de João Cabral por inúmeras portas, a maioria das quais já nos foram franqueadas por seus melhores leitores-críticos: Benedito Nunes, Haroldo de Campos, Antonio Houaiss, Luiz Costa Lima, Othon Maria Garcia, Sérgio Buarque de Holanda, José Guilherme Merquior, Marta de Senna e Antonio Carlos Secchin, entre tantos outros. Pode-se começar por dizer que João Cabral é o poeta da síntese, da concisão, das formas geometricamente construídas sobre a folha do papel; do preto no branco; da reta mais que da curva, salvo quando o vento faz soçobrar a cana no canavial, ou quando o rio, à míngua, negaceia suas águas aos tantos Severinos que as circundam.
Poeta das mesmas vinte palavras que reconhece em seu parceiro de estilo-lâmina, explicitadas em "Graciliano Ramos" (Serial): "Falo somente com o que falo: / com as mesmas vinte palavras / girando ao redor do sol / que as limpa do que não é faca:", signos poéticos que se desdobram em áreas de ressonância inscritas sob os nomes de bala, pedra, rio, terra, poema, pintura, cana, bicho, luz, tempo, homem, mulher, sol, fome, secura, canto, água, corpo, silêncio, faca, Espanha, Pernambuco, conforme recolha de Antonio Carlos Secchin..
Se a forma construtiva foi apropriada pelos concretos, de cuja mais valia de excelência tenderam a se beneficiar, a poética de João Cabral rasura circunscrições de grupos, de épocas e/ou de estéticas para viger sob o estatuto de sua luz particular, de sua régua e compasso. Compasso que perscruta e refaz, a cada poema, uma ética da palavra livre da "flor", quando se a quer "fezes" ("Antiode"), de que também deriva uma estética do descante a palo seco, do mínimo, do essencial, do menos. Tal ética e tal estética configuram, ao mesmo tempo e no mesmo movimento, as construções formais de um Nordeste que se espraia para além da região pernambucana ou do ente Severino que nela habita: Nordeste reapresentado, como se visto pela primeira vez a cada leitura dos poemas, da forma que o re-constrói. Por isso, ele pode ser também Andaluzia, Sevilha, Madri, Carmona. Pois se trata, em João Cabral, de construir formas e com elas fazer ver as coisas, os objetos: "Sempre evitei falar de mim, / falar-me. Quis falar de coisas. / Mas na seleção dessas coisas / não haverá um falar de mim? ("Dúvidas apócrifas de Marianne Moore", Agrestes).
Assepsia e método que delegam ao poema a quase autonomia da criação, livre da mão que o regula: "O poema trata a Caatinga de hospital / não porque esterilizada, sendo deserto; / não por essa ponta do símile que liga / deserto e hospital: seu nu asséptico" ("O hospital da caatinga", A educação pela pedra). Outros "objetos" raros surgem da paisagem cabralina: o como-fazer-o-poema, poéticas valiosas, formas em dobras, exercícios de contensão e distensão da metáfora, tornadas ferramentas de trabalho para os que lidam com o ensino da literatura – quem, se brasileiro, já não aprendeu as regras da composição poética que se tensionam e distendem nas metáforas, símiles e metonímias que organizam textos como "O ovo e a galinha", "Tecendo a manhã", "Catar feijão", "A palavra seda", "Retrato de escritor"?; ou ainda o objeto "mulher", cuja figura – incapturável – avança sob um corpo de metáforas a se deslocar pela voz ao telefone, como em "Paisagem pelo telefone"; ou no confronto entre o corpo da mulher e sua densidade, sua massa, o lugar que ocupa no vasto desejo do outro, como em "Mulher vestida de gaiola"; ou ainda a mulher enredada nos espaços de uma casa, em seu cantos de dentro, seus "recessos bons de cava", como surge em "A mulher e a casa", Quaderna; ou ainda na dança tensa e escorregadia da bailadora andaluza, para cuja imagem desdobram-se metáforas do fogo, do nervo em tensão, da telegrafia, da estátua até chegar à da "espiga, nua e espigada, / rompente e esbelta, em espiga" ("Estudos para uma bailadora andaluza", Quaderna).
Mas há igualmente o João Cabral escatológico, verista, de um humor irônico e corrosivo, jamais do riso aberto, mas contido, como vemos no poema "Espana em el corazón", onde desfaz-se a imagem do título para opor-lhe "a tripa" e o "colhão" de que a Espanha é feita: "A Espanha é coisa de colhão, / o que o pouco ibérico Neruda / não entendeu, pois preferiu / coração, sentimental e puta" (Agrestes); ou quando evoca e recria a experiência no colégio marista em "As latrinas do colégio marista do Recife", sob o viés da cáustica ironia: "Lavar, na teologia marista, / é coisa da alma, o corpo é do diabo; / a casti
ade dispensa a higiene / do corpo, e onde ir defecá-lo" (Agrestes); ou a critica bem humorada ao vezo nacional da retórica "balofa e roçagante", como diria Oswald, no poema "Um piolho de Rui Barbosa", crítica em forma de blague: "veio de tais piolhos grotescos / o único estilo nacional: / ler como discurso um soneto" (Agrestes).
Pode-se entrar na obra de João Cabral de Melo Neto pelas mais diversas portas, sob as mais distintas perspectivas críticas; pode-se lê-la igualmente sem qualquer roteiro: a obra oferece-se inteira, em sua incomparável singularidade, aos leitores de todos os tempos.
___
Publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, Fortaleza.
Poeta das mesmas vinte palavras que reconhece em seu parceiro de estilo-lâmina, explicitadas em "Graciliano Ramos" (Serial): "Falo somente com o que falo: / com as mesmas vinte palavras / girando ao redor do sol / que as limpa do que não é faca:", signos poéticos que se desdobram em áreas de ressonância inscritas sob os nomes de bala, pedra, rio, terra, poema, pintura, cana, bicho, luz, tempo, homem, mulher, sol, fome, secura, canto, água, corpo, silêncio, faca, Espanha, Pernambuco, conforme recolha de Antonio Carlos Secchin..
Se a forma construtiva foi apropriada pelos concretos, de cuja mais valia de excelência tenderam a se beneficiar, a poética de João Cabral rasura circunscrições de grupos, de épocas e/ou de estéticas para viger sob o estatuto de sua luz particular, de sua régua e compasso. Compasso que perscruta e refaz, a cada poema, uma ética da palavra livre da "flor", quando se a quer "fezes" ("Antiode"), de que também deriva uma estética do descante a palo seco, do mínimo, do essencial, do menos. Tal ética e tal estética configuram, ao mesmo tempo e no mesmo movimento, as construções formais de um Nordeste que se espraia para além da região pernambucana ou do ente Severino que nela habita: Nordeste reapresentado, como se visto pela primeira vez a cada leitura dos poemas, da forma que o re-constrói. Por isso, ele pode ser também Andaluzia, Sevilha, Madri, Carmona. Pois se trata, em João Cabral, de construir formas e com elas fazer ver as coisas, os objetos: "Sempre evitei falar de mim, / falar-me. Quis falar de coisas. / Mas na seleção dessas coisas / não haverá um falar de mim? ("Dúvidas apócrifas de Marianne Moore", Agrestes).
Assepsia e método que delegam ao poema a quase autonomia da criação, livre da mão que o regula: "O poema trata a Caatinga de hospital / não porque esterilizada, sendo deserto; / não por essa ponta do símile que liga / deserto e hospital: seu nu asséptico" ("O hospital da caatinga", A educação pela pedra). Outros "objetos" raros surgem da paisagem cabralina: o como-fazer-o-poema, poéticas valiosas, formas em dobras, exercícios de contensão e distensão da metáfora, tornadas ferramentas de trabalho para os que lidam com o ensino da literatura – quem, se brasileiro, já não aprendeu as regras da composição poética que se tensionam e distendem nas metáforas, símiles e metonímias que organizam textos como "O ovo e a galinha", "Tecendo a manhã", "Catar feijão", "A palavra seda", "Retrato de escritor"?; ou ainda o objeto "mulher", cuja figura – incapturável – avança sob um corpo de metáforas a se deslocar pela voz ao telefone, como em "Paisagem pelo telefone"; ou no confronto entre o corpo da mulher e sua densidade, sua massa, o lugar que ocupa no vasto desejo do outro, como em "Mulher vestida de gaiola"; ou ainda a mulher enredada nos espaços de uma casa, em seu cantos de dentro, seus "recessos bons de cava", como surge em "A mulher e a casa", Quaderna; ou ainda na dança tensa e escorregadia da bailadora andaluza, para cuja imagem desdobram-se metáforas do fogo, do nervo em tensão, da telegrafia, da estátua até chegar à da "espiga, nua e espigada, / rompente e esbelta, em espiga" ("Estudos para uma bailadora andaluza", Quaderna).
Mas há igualmente o João Cabral escatológico, verista, de um humor irônico e corrosivo, jamais do riso aberto, mas contido, como vemos no poema "Espana em el corazón", onde desfaz-se a imagem do título para opor-lhe "a tripa" e o "colhão" de que a Espanha é feita: "A Espanha é coisa de colhão, / o que o pouco ibérico Neruda / não entendeu, pois preferiu / coração, sentimental e puta" (Agrestes); ou quando evoca e recria a experiência no colégio marista em "As latrinas do colégio marista do Recife", sob o viés da cáustica ironia: "Lavar, na teologia marista, / é coisa da alma, o corpo é do diabo; / a casti
ade dispensa a higiene / do corpo, e onde ir defecá-lo" (Agrestes); ou a critica bem humorada ao vezo nacional da retórica "balofa e roçagante", como diria Oswald, no poema "Um piolho de Rui Barbosa", crítica em forma de blague: "veio de tais piolhos grotescos / o único estilo nacional: / ler como discurso um soneto" (Agrestes).
Pode-se entrar na obra de João Cabral de Melo Neto pelas mais diversas portas, sob as mais distintas perspectivas críticas; pode-se lê-la igualmente sem qualquer roteiro: a obra oferece-se inteira, em sua incomparável singularidade, aos leitores de todos os tempos.
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Publicado originalmente no jornal Diário do Nordeste, Fortaleza.
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Macau
Leio hoje (16/11/2004) no Informe da Veja que Macau, de Paulo Henriques Britto, ganhou o prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira (100 mil reais) e fiquei feliz. Tanto o poeta, quanto o livro são magníficos e merecem esse reconhecimento. Paulo é um dos maiores poetas da minha geração, e pra mim o que melhor trabalha e recicla o material do alto modernismo, em voz particular e lírica pessoalíssima. Um poema da série "Fisiologia da composição" para meu raro leitor se animar e ler todo Macau:
III
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
Outro poema, do mesmo Macau (leiam o livro, vale a doçura, o prazer, a alegria), da série Dez sonetóides mancos:
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei.
III
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
Outro poema, do mesmo Macau (leiam o livro, vale a doçura, o prazer, a alegria), da série Dez sonetóides mancos:
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei.
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