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quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

A chegada

A chegada. Denis Villeneuve, 2016. Com Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg.


E revendo pela segunda vez (porque acho que haverá outras) a gente se encanta, e se vê dentro daquele mundo que parece querer se mostrar o que é - tudo de mentirinha, ou seja, esteticamente comum, tudo tão simples, a 'arquitetura' estética é quase simplória, porque ele prescinde mesmo de pirotecnia, é um sci-fi cheio de sentimentos e sentidos filosóficos profundos. E reverente à mulher. Enfim, uma ficção que rende tributos à mulher, ao sexto sentido da mulher, dando e esse sexto sentido um lugar de proeminência na história, fazendo dele o cerne para a resolução do enigma e do filme - na história, cabe a ela a compreensão da linguagem, a decifração dos signos, dos sentidos, das mensagens, do presente e do futuro. 

Para isso, recebe um dom, ativado por eles, os alienígenas - o dom da percepção, a habilidade de discernir aos poucos o que vai acontecer, a partir da leitura de sua própria história ainda não vivida, mas a que tem acesso. Uma fenda no tempo, ela se constitui; um sexto sentido, ela transpassa. 

Em que momento ela recebe o dom, ou o aprimora? - quando coloca a mão pela primeira vez na barra que separa humanos/não humanos, e que permite ao mesmo tempo uma mediação entre as espécies? Ou quando, já no final, é levada para dentro de uma cápsula menor e lá 'se pare' - ou seja, imerge num espaço/tempo indiscernível, como num parto de-si, de onde sai molhada e sabendo o que fazer?

De todo modo, o filme ganha sempre, até nos momentos mais clichês - por causa dela, pela 'causa' dela, por sua intuição, por sua coragem, sua ousadia, e também (para nós) porque quando ela - professora linguista - começa sua aula, na primeira cena do filme, e inicia uma explicação sobre uma tese a respeito de o Português ter sido uma língua indo-europeia que melhor expressaria a arte, a aula para, e nós queremos saber, eu quero saber. 

Mas o diretor compensa a não resposta, ou melhor, vai além, e transforma a linguagem, uma forma muito especial de linguagem, em comunicação e arte. Palmas para ele, e para toda a equipe - todos excelentes, convincentes, competentes (não é um palíndromo, mas ecoa). Acho que verei de novo.

Por fim, quero muito estar presente daqui a três mil anos, porque: a) quero saber que problema eles enfrentarão; b) quero ajudar. 


segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dois filmee: La vanité; Copenhagen

La vanité (Lionel Baier, 2016). Com Patrick Lapp, Carmen Maura, Ivan Georgiev. 

Simples, eficiente, engraçado, o filme trata dos últimos momentos de um arquiteto, no momento em que decide usar os serviços de uma empresa que trabalha com eutanásia, e antecipar sua morte, em razão de um câncer aparentemente terminal. 

Mas as coisas não funcionam como ele havia planejado, algumas revelações e reviravoltas acontecem no quarto exíguo do hotel, que ele ajudou a construir, com a mulher, anos atrás. O fato é que o filme corre leve, quando se poderia esperar drama e choro - esse último não há, ao contrário, um rapaz de programa russo, super simpático, traz humor e encanto às agruras do homem e, ao fim, também da mulher (Carmen Maura, sempre ótima), e tudo termina um pouco melhor do que antes. Para distrair, e ver como se trata a morte com leveza, vale o programa.


Copenhagen (Mark Raso, 2014).Com Frederikke Dahl Hansen, Gethin Anthony, Sebastian Armesto.(canal Netflix)

Confesso que já havia tentado ver esse filme várias vezes, mas sempre empacava na clara vertente de filme 'viajante mochileiro encontra girls pelos caminhos e acontecem embrólios, cama, sexo etc, etc", ou seja, falta de paciência para os road movies de descobertas sejas quais forem. Puro mau humor. 

O filme tem uma menina atriz lindíssima, e ótima; tem pegação e descobertas também, mas tem uma história bacana, uma coisa de crescimento do rapaz - ele tem 27 anos, em tese deveria ser o 'mentor' da garota, que tem 14-em-vias-de-completar-15, mas aos poucos quem menos conhece de si é mesmo ele.

O fato é que aos poucos vão-se delineando surpresas, e as mudanças nos personagens são tão interessantes, tudo se passa apesar de - ele não querer se envolver com uma menina; a menina não ser exatamente uma adolescente secundarista ingênua, mas uma pessoa rica, interessante, com maturidade muito além de sua idade, e da experiência dele - depois teremos insights do porquê ela cresceu e amadureceu mais do que a idade revela. 

O final do filme, com cenas delicadas, bonitas e duras, para expressar mudanças, crescimentos, transformações, sacações de quem ele estava buscando quando procurava o pai do pai, me encantou, assim como o filme todo, e fiquei muito feliz de ver, afinal, com olhos limpos e tranquilos sua singela beleza. 



domingo, 24 de julho de 2016

Três filmes: Procurando Dory; Espaço além - Marina Abramovic e o Brasil; Um dia perfeito


Procurando Dory (Andrew Stanton, Angus MacLane, 2016). Vozes originais de Elle DeGeneris, Albert Brooks, Idris Elba, Diane Keaton,  Ed O’Oneill.

Sim, não gosto de desenhos, mas tenho estado tão cansada certos dias que procuro o DA como um refúgio, para me distrair. Mas esse aqui é mesmo lindo, tem uma história comovente e muito bem feita, claro, e a Dory é uma menina muito esperta e fofa. Mas o que me levou a vê-lo, mesmo, foi eu ser leitora do instagram de Marília Gabriela e ela ter feito menção a seu trabalho no filme. Achei ótima a participação, achei ótimo o filme também. Agora sou uma espectadora de filmes animados, que bom.

Espaço além – Marina Abramovic e o Brasil (Documentário, dir. Marco Del Fiol, 2016). Com Marina Abramovic.

Não conhecia nada sobre a protagonista desse filme, mas acabei achando interessante, embora nem sempre me conectando a ele, o empenho dela em conhecer-se, em buscar sentidos para a vida e o vazio em que se encontrava depois de ser abandonada pelo amado. 

O momento mais tenso foi quando ela tomou ayahuasca pela primeira vez e quase enlouqueceu - lembrei-me de um caso recente, do Rian, filho de Nizo Neto, que morreu numa viagem com essa erva. Pode-se ver no filme como ela pode levar a isso, mas também o outro lado, quando ela toma pela segunda vez e faz uma viagem alucinógena transcendental. Já vivi uma experiência semelhante, embora com erva muito menos forte, e foi apenas uma vez - não gostei do que vi, nem do que vivi, ou senti

De todo modo, o filme interessa sob essa ótica, e de forma especial a quem está em busca do que quer que seja - de si, do sentido das coisas, do mundo, da vida, da morte, de uma certa luz, enfim - buscas.


Um dia perfeito (Fernando Leóna de Aranoa, 2016) Com Benício Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko.


História envolvendo um cadáver que precisa ser retirado de um poço para não contaminar a água dos moradores de um vilarejo perdido no meio do nada durante uma das trezentas mil guerras patrocinadas pelos impérios etc, etc. Mais um menino que perdeu os pais e ainda não sabe, a quem lhe tomam a bola na marra; mais dois amigos - vividos, claro, por Del Toro e Robbins - que fazem trabalho humanitário nessas regiões cheias de minas prontas a explodir ao menor vacilo; mais duas mulheres que também ajudam, e criam alguns problemas para os homens. 

Enfim, um filme que promete mais do que cumpre, onde se ri às vezes, em que se percebe que Del Toro continua belíssimo, mas atuando no piloto automático. E quanto a Tim Robbins, nem isso pude perceber. 


Dois filmes: O valor de um homem; Um belo verão


O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2016). Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller.

O que esse filme tem de simples, tem de forte - tanto no tema (a força corrosiva do capital sobre o trabalhador assalariado), como na forma como retrata um momento crucial em sua vida: as tentativas, as inúmeras entrevistas, as situações humilhantes por que passa um homem em busca de trabalho, qualquer trabalho, de modo a tocar sua vida e dar o sustento da família. 

[Lembrei aqui de outro filme que trata do desemprego e do desespero gerado por essa situação, numa Europa saturada e empobrecida: Dois dias, uma noite (dos irmãos Dardenne, 2014), em que Marion Cotillard vai de amigo em amigo esmolando, pedindo que eles abram mão do bônus extra que haviam recebido pelo trabalho, enquanto ela estivera doente, de modo que possa retomar seu posto, seu lugar, seu trabalho. Não gostei do filme, porque não gostei da postura da personagem - jogando para seus pares a responsabilidade por sua miséria, e por tirá-la dela]. 

Aqui há algo semelhante, ou seja, há uma crise de emprego, há um homem no limite de sua honra, alguém que precisa desesperadamente de um trabalho para não sucumbir à miséria. Ele consegue, afinal, uma saída, e fica até um certo tempo, ou melhor, até perceber o jogo sujo que o capitalismo impõe a seus dependentes - o exercício da escrotidão voluntária e diuturna é o seu trabalho, tomar conta dos pobres e desempregados, como ele o fora até há pouco tempo; delatá-los; humilhá-los; vê-los e tratá-los como escória ou, numa leitura bem brasileira, e bem contemporânea: desdenhar os que, em tese, não aproveitam o sistema de meritocracia capitalista - os vagabundos, os que não quiseram estudar, os que não trabalharam duro para ascender (os grandes cínicos no poder afirmam). 

Nada disso é dito, tudo é visto pelos encontros entre os clientes e os supervisores do supermercado. O homem age, olha, fica em silêncio, mas seu gesto final faz valer a pena tudo: ele recusa ser o rato em que o querem transformar, e parte. Belo filme, e atuação magistral de Vincent Lindon.

Um belo verão (Catherine Corsine, 2016). Com Cécile de France, Izïa Higelin, Noémie  Lvovsky

O terceiro melhor filme lésbico que já vi - o primeiro foi (acho que ainda é, não sei, teria que rever) Quando a noite cai, um filme de 95 de Patricia Rozema; o segundo seria Azul é a cor mais quente, de Abdelatiff Kechiche, 2013, mas parece que não vi tantos assim.

O interessante aqui, para mim, aparece em três níveis: um momento da história do feminismo, no início dos 70, com suas reuniões acaloradas, em que as jovens discutem as ações e intervenções de rua, gerando um clima de algazarra, rebeldia e insurgência contra alguns modelos patriarcais de então, e de hoje; o segundo ponto reside na diferença de origem entre as duas protagonistas e amantes: o fato de Delphine (Izïa Higelin) vir do campo e nele trabalhar sugere uma dimensão interessante à história das duas, e também pontua sob outro ângulo as questões feministas postas pelo filme, sobretudo no modo como o trabalho da mãe é visto pelo marido, pelo grupo e mesmo pela filha; o terceiro ponto de interesse é a liberdade de filmar os corpos em sua paixão com delicadeza e verdade, é a história mesma, o modo como se desenrola em Paris, e depois no campo. Aí vira o que é mesmo: um filme romântico, bonito, com paixão e separação, com abandonos e reviravoltas, e duas atrizes fazendo um trabalho estupendo - gostei muito de Cécile de France e seu cabelão, mas é de Izïa que mais me lembro. O final fica em aberto, mas não tenho dúvidas de que, na minha história, Carole...

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Dois filmes: Mãe só há uma; As montanhas se separam

Mãe só há uma. (Anna Muylaert, 2016). Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria.


Em ótimo filme, Anna Muylaert volta às telas num trabalho que mantém o interesse e a curiosidade do espectador, no qual volta a explorar núcleos familiares fora do esquema tradicional ou, talvez, em curto circuito quanto ao padrão mais comum das famílias. 

Baseado em fatos reais - somos pródigos em matéria prima quase pronta para compor as artes ficcionais -, o filme trabalha com as dificuldades quanto à ideia do pertencimento - pertenço a essa família? àquela? a meu gênero? a ele, a ela? Os mundos familiares até então conhecidos por Pierre/Felipe entram em colapso de repente, quando ele recebe a confirmação de que fora roubado na maternidade por essa que julgara ser sua mãe por dezessete anos. Imerso nas incertezas de uma passagem da adolescência para a vida adulta quanto a quem quer ser, para onde vai seu desejo, o jovem quase soçobra à mudança para o novo arranjo familiar, os novos modos de ser, a nova casa. Nessa, ele tem tudo certinho - um pai, mãe, um irmão adolescente, um quarto (suíte), mas nada faz muito sentido, e ele força a barra da estranheza ao impor à família o uso de vestido no dia a dia. 

Os atores - sobretudo Matheus, Nero e Nefussi, como o pai, o filho e a mãe, mantêm o nível de excelência que costumamos encontrar nos filmes da diretora, em especial o até agora desconhecido Naomi Nero, que faz o rapaz; Matheus, como o pai tradicional, tem pelo menos uma cena antológica; e a mãe, vivida por Dani Nefussi nos dois núcleos familiares, convence com brilho e emoção em cada cena. 

Mais um filme que só nos orgulha - ao cinema, ao cinema brasileiro, às mulheres cineastas, tão poucas, que brilham em nossas artes e em nossas telas.



As montanhas se separam (Jia Zhangke, 2015), com Jing Dong Liang, Zhao Tao, Yi Zhang, é um filme de mais de duas horas cuja história, em três momentos, a gente acompanha com atenção e enlevo. 

Trata-se de um olhar penetrante sobre a cultura chinesa, o modo como o capitalismo se coloca sobre as tradições e os novos modos do dinheiro agir, dirigindo os caminhos de cada um, as opções, as escolhas.

É bonito de ver, acompanhar as delicadezas dos percursos dessa jovem, com seus dois amigos e pretendentes, sua vida a partir da escolha pautada pelo sentimento 'sem nenhuma estridência', mas que será impactada pelo dinheiro do escolhido, e tudo que vem a seguir. É bonito também acompanhar o que virá muitos anos depois, no terceiro espaço temporal - como o percurso de um rio, vidas que se cruzam e somem de vista, depois algo delas, pedaços de suas histórias, lembranças, enfim, raízes se encontram e se tecem com outras, com outros, e o rio-vida segue. 

Acho que o filme fala também sobre a permanência, a partir da história desses três destinos que se afastam e se tocam em outros momentos, pendularmente. Os acontecimentos e o modo de narrar parecem às vezes distanciados de nós, talvez pela diferença cultural, mesmo assim o filme emociona, e tem momentos tocantes, sobretudo pela singeleza dessas personagens - a verdade de suas vidas sempre mantém uma certa força sobre nós.

quinta-feira, 23 de junho de 2016

Paulina

Paulina (Santiago Mitre, 2015). Com Dolores Fonzi, Oscar Martinez, Esteban Lamothe.
    Paulina me parece um filme muito difícil de comentar, porque qualquer que seja a perspectiva, para não ser politicamente incorreta, ela precisa estar colada à decisão da protagonista. E não estou. Não vejo altruísmo, nem grandeza, nem compactuo com a visão dela, Paulina, com relação ao problema que ela se propôs ajudar a resolver, nem com suas escolhas difíceis.
    E a história acontece em torno de mudanças de vida, e de políticas salvacionistas – ela quer salvar os desafortunados, e para isso abandona seu curso de doutorado em direito, seu lugar privilegiado na escala social, seu trabalho, seu pai, sua vida, enfim, e aceita fazer parte de um projeto social em que dará aulas para jovens na periferia de Buenos Aires.
    Se o eixo gira em torno de valores, de ética, de processos sociais injustos e de posturas abnegadas, quem vê precisa tomar uma posição, e isso não será uma tarefa fácil, porque ela mesma, a protagonista, nos oferece todos os argumentos pelos quais suas opções são guiadas, ou seja, ela não está agindo de modo ingênuo, ao contrário, sabe o que quer, e suas escolhas são firmes, vigorosas.
    Eu vejo sua tenacidade, e me vejo ali, nessa qualidade, só que no polo oposto – eu vejo com os olhos de quem veio da pedreira, e levou anos, muitos anos, para chegar ao doutorado que Paulina desdenha. Paulina só pode desdenhar seu lugar de origem, porque ela não o conquistou, mas recebeu de herança. Eu só posso olhar com desconfiança para quem abre mão de um bem que a mim custou tanto alcançar. E vejo Paulina perdida, nem lá nem cá, sequer generosidade eu vejo em seu projeto. E como abrir mão de, para dizer o mínimo, “educar” seus molestadores? Ela quer resolver na conversa, no nível pessoal, mas estupro é estupro, e se fosse com a outra mulher continuaria a ser um estupro. Paulina, no entanto, condescende, porque são pobres seus algozes.
    Na verdade, acho que Paulina não sente, ela pouco sente, ao menos assim me pareceu o rosto quase impassível que narra os fatos – não há emoções naquele rosto, é quase como se seu corpo pudesse ser o lugar de um ritual de sacrifício.
    Enfim, um filme difícil. E a cena final, à subida dos créditos, mostra a protagonista em sua caminhada, rumo e direção anódinos, apenas caminhando, indo, o rosto em close mostrando ambiguamente um andar ao encontro de sua decisão: solitária, dura, sem paixão.


segunda-feira, 25 de abril de 2016

Dois filmes - Nise; O tesouro



O tesouro (Corneliu Porumboiu, 2016). Com Cuzin Toma, Adrain Purcarescu, Radu Banzaru, Iulia Chiochinã. Tendo lido a crítica feita por um jornal carioca ao filme, resolvi comentá-lo conversando com o crítico em questão, ficou assim:

Não, Janot, a cena final de ‘O tesouro' não vale o filme inteiro, como se lê no comentário feito no jornal, o máximo que se pode conceber seria o bonequinho sentado apenas observando, sem aplaudir. A não ser que se curta passar mais de metade do filme olhando três homens conversando enquanto escavam sem parar em busca do tal tesouro. A situação econômica precária do país (Romênia) e dos personagens, a semelhança com nosso atraso social, o ‘jeitinho’ maroto a que recorrem alguns que vivem certos estágios de decadência, em vários momentos bem semelhantes a nosso modo de resolver as coisas, tudo leva a plateia à empatia, e ao riso. Eu achei menos graça, e fiquei meio impaciente com aquela falta de entrecho, ou melhor de ação, e sobretudo não deu para comprar aquela cena final edificante, nem mesmo se tivesse sido inspirada nas narrativas mais delirantes do universo maravilhoso de nossa literatura de cordel. Não achei verossímil, nem uma saída adequada sequer na ficção. E de boas ações o purgatório - das artes e da vida – está lotado.


Nise - o coração da loucura (Roberto Berliner, 2016). Com Glória Pires, Fabrício Boliveira, Simone Mazzer, Flávio Bauraqui, Fernando Eiras, Julio Adrião, Felipe Rocha, Claudio Jaborandy, Zé Carlos Machado, Bernardo Marinho, Georgiana Goes, Luciana Fregolente, Charles Fricks, Roberta Rodrigues.  
Filme indispensável, com muitos muitos acertos, e uma importância especial por contar uma parte fundamental de nossa história e prática manicomiais, ressaltando o desempenho dos atores, tanto da Glória Pires, que vive a psiquiatra, quanto do excelente grupo dos que fazem os doentes - esses, o coração pulsante do filme. Achei mais fraco o trabalho dos médicos, com exceção do ótimo Zé Carlos Machado, como o diretor. Como se trata, de modo especial, de um trabalho em que o grupo gera a energia-motora do filme, há elos mais ou menos fortes. O mais fraco me pareceu o crítico de arte Mario Pedrosa, vivido por Charles Fricks, que achei inconvincente, aquém de sua importância real na história que se conta. E essa história está muito bem relacionada aos acontecimentos na bela crítica que li numa noite de insônia, escrita por Fernando Pardal, no site Esquerda Diário e que, apesar de começar com um erro feio de ortografia (no lead, talvez nem seja de sua responsabilidade, não sei), vale a leitura por situar com precisão o contexto político-social dos acontecimentos narrados, que me parecem fundamentais para compreender melhor a importância de Nise para a psiquiatria brasileira. Mas o filme vale por si mesmo, em suas escolhas e acertos.

O site referido, veja aqui


quinta-feira, 14 de abril de 2016

Alguns filmes - março/abril

Ave, Cesar (Ethan e Joel Cohen, 2016). Com George Clooney, Scarlett Johansson, Josh Brolin, Ralph Fiennes. Que delícia ver esse filme, uma homenagem dos irmãos Cohen não apenas às grandes produções, astros e estrelas da década de cinquenta, mas ao cinema estadunidense, aquele que nossos pais viram, e nossa memória registrou como grande cinema, quando se vestia paletó e gravata para sair e ver um filme. Os atores estão no limite entre encarnar o personagem e fazer sua paródia, mas sempre com humor e ternura. Sim, acho que tudo ali ressoa homenagem aos grandes do cinemão: as coreografias aquáticas magníficas, aqui protagonizadas por Scarlett Johansson; os arroubos épicos, que nos lembram a grandeza de Spartacus, ou Ben-Hur, na caracterização ambígua de Clooney, muito boa; os números de sapateado, na verdade, um número de sapateado excelente, liderado por - ora, pois pois - Channing Tatum, agora vestidíssimo, e arrasando. E Josh Brolin também faz um trabalho de primeira, como o regente da orquestra toda. Para mim, nota dez.


Rua Coverfield, 10: (Dan Trachtenberg, 2016) Com Mary Elizabeth Winstead, John Goodman, John Gallagher Jr, Maya Erskine. Dois terços do filme acontecem dentro de um bunker, onde uma mulher e dois homens supostamente se refugiam de um ataque nuclear. Ela desconfia quase sempre de que seu protetor parece mais um raptor, mas vai se adaptando, até que a coisa fica esquisita demais e ela resolve fugir. E nessa fugida é que o diretor dá uma volta no espectador, tipo - vocês pensavam que era só um filme banal sobre psicótico americano sequestrador de moças? Não, temos outros trunfos na manga. E o final fica assim, como direi? Uma outra vertente de um gênero igualmente fértil se abre, mas não tira a sensação de déjà vu.


A juventude (Paolo Sorrentino, 2016). Com Michael Caine, Harvey Keytel, Rachel Weisz, Jane Fonda. A gente percebe que se trata de uma temática semelhante à de outro filme dele, A grande beleza, ou seja, questões relativas à percepção da vida em momento de declínio, como estar na vida e na velhice, em que dois personagens se entregam aos projetos possíveis: um, dirigir seu filme- testamento; o outro, deleitar-se. Mas penso que aqui as discussões são mais complexas, as palavras nem sempre estão dizendo o que os atos realizam. Como na vida, há ao mesmo tempo a ação dos personagens, que nem sempre estão de acordo com o que eles pensam delas, ou dos outros, ou de suas próprias histórias, que a memória tinge de cores variadas, dependendo do momento, ou de quem lembra. Um filme rico, denso, interessante o tempo todo, que vale a pena ver e rever.


A segunda esposa: (Umut Dag, 2016), Com Begum Akkaya, Vedat Erincin, Nihal Koldas. Uma das experiências mais intensas sobre a delicadeza, o que nós, mulheres ocidentais, chamamos 'sororidade', mesmo que não seja esse o projeto do filme. Ele quer apenas tematizar o devotamento de uma esposa e mãe por sua família, mas o destino prega-lhe uma peça e tudo vai em direção oposta ao planejado. Salvo a delicadeza extrema dessas duas personagens, e seu encontro único. Um filme para se ver com prazer.


Mais forte que bombas (Joachim Trier, 2016). Com Isabelle Huppert, Gabriel Byrne, Jesse Eisenberg, Devin Druid. Um filme que a princípio não diz bem a que veio, mas à medida que avança vamos percebendo os nós e as tramas que envolvem os homens daquela família (o marido, os dois filhos), em torno da mulher, de seu trabalho como fotógrafa de guerra, e de sua morte. Tudo vai-se revelando quando o mais velho começa a fazer a arrumação das fotos e descobre novos ângulos da vida de sua mãe, anos depois do acidente de carro que a matou, e tudo se embaralha com seu momento atual, o filho recém nascido, as dúvidas; também começamos a ver melhor o irmão mais jovem, imerso em um mundo cheio de asperezas, próprias da idade, mas igualmente cindido pelas rupturas - com a mãe, com o pai com quem não consegue dialogar, com o mundo dos afetos, dos amigos. Tudo no filme soa como um flash estourado, em que estilhaços reverberam em cada vida, em cada fotograma, em cada um de nós. Um dos melhores filmes que vi no mês.


Diplomacia (Volker Schlöndorff, 2016). Com André Dussollier, Niels Arestrup, Burghart Klaubner. Um filme em que o espectador gruda na tela apenas com a atuação de dois atores, em conversas dentro de um quarto, a respeito de destruir ou não Paris na saída final dos alemães da segunda guerra. Magnífico trabalho de atores, embora tudo pareça simples, leve e sério ao mesmo tempo. Um jogo de conversas e argumentos, que nos cativa até o fim.



A senhora da van (Nicholas Hytner, 2016). Com Maggie Smith, Alex Jennings, Jim Broadbent. Achei uma história meio bobinha, um filme que quase nunca engrena em interesse, uma personagem meio caricata, mas onde aparece a radiância de sempre da Maggie Smith. Só vale por ela.



domingo, 21 de fevereiro de 2016

O quarto de Jack



O quarto de Jack (Lenny Abrahamson, 2015). Com Brie Larson, Jacob Tremblay, Joan Allen.

O filme tem origem no livro O quarto, da escritora irlandesa Emma Donoghue, que assina o roteiro e diz não se basear em um caso específico de sequestro, mas no de inúmeras mulheres e crianças mantidas reféns, em várias partes do mundo. O livro faz parte do currículo de leitura em escolas portuguesas, ou seja, possui um conjunto de qualidades que o referendam como exemplar e formador do caráter de jovens, além de ser contado pelo garoto, com senso de humor e ingenuidade, estratégia que também aparece nesta adaptação fílmica, mas talvez sem o mesmo forte rendimento dramático.

O filme tem dois claros momentos: o primeiro, quando Jack acaba de completar cinco anos, e os dois - mãe e filho - se movem no exíguo quarto, de modo a nos fazer compartilhar sua forma de estar ali: móveis e objetos do cotidiano são considerados amigos, que ele cumprimenta e com quem conversa, num recurso anímico que enfatiza a absoluta solidão da criança. Apesar disso, Jack e sua mãe, Joy, perfazem as tarefas do cotidiano com relativa tranquilidade, alegria mesmo, e cabe a nós, espectadores, a sensação claustrofóbica de emparedamento, já que vemos a exiguidade do espaço que os personagens parecem não perceber mais.

O segundo ocorre quando o plano de fuga pensado pela mãe, e empreendido pela criança, acaba dando certo, e os vemos agora no mundo da família, depois de sete anos enclausurada, ela, e desde que nasceu, ele. Aqui, o cerne são as dificuldades inerentes à reconexão com o mundo, para a mãe, e as descobertas que a criança começa a fazer de um universo totalmente desconhecido, que só vislumbrara por escassas imagens de TV . 

A história impressiona pela crueldade da situação nela mesma, embora filmicamente ela funcione talvez menos do que no livro, salvo esses momentos em que a emoção se mescla ao sentimento de claustrofobia e, aos poucos, de incredulidade, quando todo o quadro, e a situação, se revelam a nossa compreensão, finalmente.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2016

Brooklyn



Brooklyn (John Crowley, EUA, 2015). Com Saiorse Ronan, Domhnall Gleeson, Emory Cohen

Nem foi o filme correto, tampouco a atuação igualmente correta da Saiorse Ronam como Eilis Lacey, que me chamaram a atenção nesse filme que me pareceu exemplarmente regular, mas a imagem de mulher que ele contrói, com pontos de contato e outros de afastamento com relação ao excelente Carol, que se passa também na década de cinquenta, e ainda em cartaz. 

Brooklyn explora a vida de uma imigrante irlandesa, uma moça simples e católica, que se muda para o bairro nova-iorquino em busca de uma vida mais rica em experiências, e de emprego. A história flui sem grandes conflitos, nem grandes dramas, salvo os inerentes à vida no exílio: saudades da família, muitas; conquistas profissionais que chegam depois de esforços; amor que chega também de forma simples, sem dramas nem grandes peripécias.

Talvez essa vida sem muitos alardes, esse caminho pela normatividade regulada, e aprovada também pela Igreja, talvez a mediania excessiva, se cabe a antítese, esteja na raiz do contraste que parece haver entre essas duas figuras femininas, tão próximas no tempo em que foram retratadas, e tão distantes uma da outra quanto à figuração de feminino que representam. 


Se Carol, personagem de Cate Blanchett, seria antípoda de Eilis Lacey, é possível que Therese Belivet, a personagem de Rooney Mara, seja sua prima-irmã - no que ambas têm de projetos de vida em seus inícios, suas dificuldades, seus sonhos de uma vida melhor, sua vontade de ascender através do trabalho bem feito. Essa proximidade ocorre até mesmo na forma como o tempo medeia as relações amorosas de ambas, em seu vagar, suas pausas, seu ritmo lento. 

Mas é a Carol de Blanchett que imprime o vigor, a força, o magnetismo, a segurança, a transgressão e o devir na personagem que, para mim, representa a imagem de mulher que nos traduz, e ainda está em construção, mais de meio século depois. Não apenas no modo como está saindo de seu casamento, mas sobretudo no modo como se liberta da armadilha preparada para que se mantenha presa nele, num dos diálogos mais bonitos e libertadores do filme. 

Carol organiza um conjunto de valores, de forças, de temas e de situações que constitui ainda hoje um desafio para a vasta maioria de nós. Mas sem sua coragem e energia estaríamos todas muito aquém dos direitos que vimos desde então arduamente conquistando, e alargando.  


segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

O filho de Saul

O filho de Saul (László Nemes, Hungria, 2015). Com Géza Röhrig, Levente Molnár, Urs Rechn, Todd Charmont, Sándor Zsótér.


Um dos filmes mais difíceis que já vi não apenas nos últimos anos, mas em minha vida. Uma experiência estética angustiante, em razão da câmera histérica que não para um segundo de se movimentar em torno desse homem, desse rosto, desse desespero que constitui a insana tentativa para salvar o corpo de um garoto que ele acredita ser seu filho - esse é o traço estético-formal que mais tem chamado a atenção de todos, críticos e espectadores. 

Mas é o que se ouve por trás, o que se vê de relance, o que se percebe como sombra, gritos, correrias, dores lancinantes - é do que está em segundo plano que o filme trata, e essa, para mim, foi a angústia cortante que me trespassou ao longo da projeção. A horas tantas, não via mais o homem, mas os cenários que ele percorreu, entrando e saindo dos fornos, pedaços de gente sendo puxadas, filas imensas de pessoas indo 'fazer a desinfecção', covas e tiros e mortos e vivos e pedaços e tudo num amontoado delirante, de que aquele homem me pareceu a metonímia: louco, olhando sem se deter, focado em outro ponto de fuga, em outro lugar dentro dele, irracionalmente duro para fazer cumprir o ritual de um enterro quando a seu lado, atrás, em frente, sob qualquer ângulo, só havia morte e pó. 

Uma experiência única, duríssima e desesperante, de devastação.      

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Uma crítica muito boa, aqui:

http://brasil.elpais.com/brasil/2016/01/14/cultura/1452782405_801210.html

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

O regresso

O regresso, Alejandro González Iñárritu (2016). Com Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson etc.

Depois de ver O regresso, a gente sai do cinema pensando que o Iñárritu, ao imaginar o filme, pensou de imediato em Leonardo DiCaprio, e também lembrou de parodiar o verso célebre de Drummond: 'Vai, Leo, ter seu Oscar na vida'. Porque o filme é do Leo, para o Leo, com a alma do Leo, e suas vísceras, quase literalmente. Nem importa mais se ele ganha ou não a estatueta. Acho que o público já deu - eu dou.


O filme marca-se por cenas deslumbrantes, em meio a florestas, árvores esplendorosas, altas, belíssimas, por onde os homens se caçam, se perdem, se matam, se acham, se perseguem, se protegem. E por rios, descidas violentas de águas, descidas em remanso, carregando ou não cadáveres, ou feridos. Há também montanhas geladas, e nevascas, e um céu para onde o Hugh Glass, personagem de DiCaprio, olha com certa frequência, de onde sua amada morta lhe sussurra caminhos, modos de se achar naquelas vastidões, ou brenhas.

E se fundamenta no embate entre a força de um homem, vivido por Leo, claro, contra a traição dos pares, que se tornam inimigos; contra os elementos da natureza (nevasca, frio, chuva) e contra a fúria dos animais, aqui representada pela já notória cena de luta entre ele e um urso grande, muito grande, de onde o personagem sai em frangalhos, mas vivo (é ficção, aventura, e invenção, claro). E onde, basicamente, começa sua viagem épica. Pois trata-se de uma jornada épica, de um homem solitário, em busca de vingança contra a traição e em busca de redenção para o filho.

Por isso, é também um filme de cenas estonteantes, de uma violência bruta, bárbara, e duas sobretudo marcam o espectador: a já mencionada luta com o urso, e o agasalho cavalar que ele se oferece a horas tantas, sob forte nevasca. Queria eu poder explicar melhor do que se trata, porque é muito incrível, mas prometi ser menos 'spoilenta', e calo-me. Mas tudo é grandioso ali, e ele vale muito as duas horas e meia. De ação, heroísmo, e muito sangue.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Que viva Eisenstein!

‘Que Viva Eisenstein! - 10 Dias que Abalaram o México’ (Peter Greenaway). Com Elmer Bäck, Luiz Alberti, Stelio Savante, Maya Zapata.

Pelo trailer, não dava para ver do que o filme trata, verdadeiramente, e que me pareceu ser a iniciação sexual desse personagem Eisenstein, que já chega no quarto do hotel em México tirando toda a roupa, ficando peladão diante dos funcionários e das funcionárias - esses, meio sem saber o que fazer face ao pênis movente. Por aí já se tem a medida do laissez-faire em que se transformará o tempo – muito mais do que dez dias – em que o artista tenta fazer um filme, diz que está fazendo, fala sobre isso com algumas pessoas, elas também meio à deriva na fita, porque o que importa mesmo, o plot e o cerne do interesse deste filme que vemos, é a relação que se estabelece entre o meio infantil, em termos afetivos, e totalmente alucinado, em termos existenciais, Eisenstein, vivido com a precisão dos perdidos, por Bäck, e o rapaz que será seu acompanhante durante todo o tempo ali, o ótimo Luiz Alberti, com seu olhar ironicamente penetrante. 

O filme vagueia meio sem direção em vários momentos (aliás, Frida Kahlo e Diego Rivera estão na porta do hotel para saudar o visitante ilustre, sumindo em seguida da tela, e do filme), talvez para expressar a vanguarda do diretor-personagem, mas é muito firme no propósito de nada esconder quando se trata da relação sexual explícita, erótica, forte e singelamente transgressora entre esses dois homens. Parece ter sido o fiat lux de sua existência, e o filme aposta firmemente no caráter educativo do sexo, ou seja, em sua função de trazer um conhecimento e uma experiência transcendentais e fundamentais àquele que vem de um país comunista, com regras extremamente severas quanto ao uso erótico do corpo, e do sexo entre homens.

Muito interessante também o foco na naturalidade com que a cultura mexicana lida com a morte, não apenas a pequena morte do orgasmo, mas a grande morte, através da ludicidade e fantasias que servem para cooptá-la, fazendo a ligação entre o mundo dos vivos e o dos mortos. Eisenstein acolhe aquela cultura, em tudo oposta à sua, e entrega-se ao novo com a mesma fome com que se descobre amante. O filme, em síntese, vale mais por seu caráter de Bildungsroman, no sentido erótico, do protagonista, do que por seu possível perfil de um diretor genial. Esse ficou confuso, e talvez tenha sido a melhor expressão do próprio Eisenstein, who knows.

Notas:

1) Talvez seja hora de rever o único outro filme que vi de Greenaway, isso já faz muitos e muitos anos: ‘O cozinheiro, o ladrão, sua mulher e o amante’ (1989).

2)  No blog abaixo achei comentário e descrição interessantes sobre as caveiras e as comemorações que ocorrem no Dia dos Mortos em México:

http://mochilabrasil.uol.com.br/blog/dia-de-muertos-mexico


sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Dois filmes em fevereiro


Suíte francesa (Saul Dibb). Com Michelle Williams, Matthias Schoenaerts, Sam Riley, Kristin Scott Thomas.

Um drama romântico, com todos os ingredientes para permanecer na memória, que se passa na segunda guerra mundial, num pequeno povoado francês, com todos os ingredientes do gênero, só que agora com a beleza de Michelle e o charme indiscutível de Matthias. A história é quase a mesma que já vimos tantas vezes no cinema sobre o amor, a solidão das mulheres, cujos maridos foram lutar na guerra, as invasões bárbaras, a ganância da elite, sempre protegendo o seu patrimônio ou suas regalias, custe o que custar. A música é o elemento forte no filme, o que liga os dois protagonistas: uma canção inacabada é tocada ao piano por Bruno, o oficial alemão que ocupa a mansão de Mme. Angellier (Kristin, ótima), sogra de Lucille. É ela que se esgueira para ouvi-la, embevecida, pela porta entreaberta do quarto do inimigo. Estão dadas as cartas para o jogo amoroso começar, entre desejo e culpa, traição e pertencimento. Um filme que se vê com prazer, se não se espera dele nada além de uma boa história de amor, guerra e traição.



O novíssimo testamento (Jaco von Dormael). Com Benoit Poelvoorde, Yolando Moreau, Catherine Deneuve, Pili Groyne, François Damien, Serge Larivière.

O filme é uma comédia bem escrachada sobre um Deus cujo poder se perde sem o uso de seu computador. Ele tem uma esposa, e uma filha, muito zangada pela forma horrorosa como ele se comporta em casa, e no trabalho, razão por que detona o computador do pai, não sem antes mandar para todos os humanos uma mensagem informando a data da morte de cada um, e de todo mundo. Daí vêm as peripécias todas, envolvendo um grupo de 'apóstolos' que a menina vai aliciando ao longo de sua estada na terra, que é onde se encaixa a personagem de Deneuve, numa tirada meio 'A bela e a fera' cuja síntese seria: mulher bela vive um casamento sem afeto nem sexo com um marido pra lá de blasé. Um dia a mulher encontra a filha de Deus, Ea, e esta lhe diz que sua vida está ligada ao circo; partem as duas para um e lá a bela Martine se depara com a jaula do orangotango - que lhe estende um dedo, e as lágrimas rolam no rosto da mulher. É paixão fulminante, e para sempre. Juro! Vão morar juntos, e o marido quando volta encontra a mulher (agora ex, claro) deitada na cama com ele, sim, ele, o orangotango. É por aí um pouco que caminha o tom farsesco e engraçado, quase sempre, do filme. O final é de um feminino um tanto piegas, para minha 'escola da mulher', mas há, sim, uma piscadela para o gênero feminino, mesmo meio torto, acho. Eu ri menos do que a plateia que estava em minha sessão. Mas achei engraçado, quand même.


sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Joy - o nome do sucesso (é o título do filme, claro)


Joy - o nome do sucesso (David O. Russell) Com Jennifer Lawrence, Bradley Cooper, Robert De Niro, Edgar Ramirez.

Sim, parece que já vimos esse time antes, os três de O lado bom da vida (2013), do mesmo diretor, o que me leva a imaginar que possa se tratar de uma mini franquia. Acho que a Jennifer ainda tem tempo de vida e de trabalho para se redimir dessas escolhas pelo sucesso fácil, e a bobagem. Mas acho uma lástima que o De Niro venha perdendo a mão nessas esquinas mal iluminadas dos filmes C menos. 
A história pode ser resumida como uma enorme e longa (são mais de duas horas) sucessão de clichês, que vai desde a família com pessoas desequilibradas (a tal família 'disfuncional'), passando pela mãe divorciada que não pode dar uma vida adequada aos filhos, até a avó sábia e experiente que percebe os dons da neta - dons que são mostrados no filme sob forma de uma historieta que beira o patético (a menina faz personagens de papel e inventa histórias bobinhas para eles), e chega nessa moça adulta que leva um monte de rasteira desses familiares, mas não se rende ao destino e torna-se uma empresária de grande sucesso, fabricando esfregões mais práticos. A Lawrence faz o que sabe fazer - caras, bocas, expressões de surpresa e zanga inconvincentes. O resto do elenco faz as mesmas caretas, e tudo termina numa ode à banalidade e à bobagem, encenadas como lucro e poder de venda, venda, venda. Ou melhor: com a moça, agora imperatriz do esfregão, sentada no trono e recebendo os filhos como se fosse... uma poderosa chefona (aqui De Niro deve ter dado pitaco, só pode). 

Carol - janeiro 2016


Carol (Todd Haynes). Cate Blanchet, Rooney Mara.

Já tinha escrito e publicado esse comentário no facebook, em 15/01, e transcrevo aqui sem mudanças.


Hoje pude entender de outra perspectiva a questão do spoiler - continuo não ligando a mínima, mas não gostaria de ter lido anywhere como termina o filme "Carol" (Todd Haynes). 
Porque ele inscreve-se num percurso de delicadeza e de beleza que faz do filme uma joia, semelhante ao broche que Carol usa algumas vezes, de uma beleza magna, firme, clara, forte. Blanchett imprime essas qualidades a sua Carol, mas há também umas clivagens, umas pausas, reticências que não dizem respeito apenas aos sentimentos que aproximam as duas mulheres, mas aos matizes da época, da situação, da opressão - então maior do que hoje, ou talvez não. E a década de 50 resplandece não apenas no jeito de travar os passos da mulher, das mulheres, mas nas artimanhas e artifícios necessários à vivência do amor fora da cartilha. E de ser mãe também, tudo extrapola a época, o molde, e o filme faz isso acontecer de forma lenta e próxima, no caminho que ambas percorrem, em closes que exprimem sutis e intensas emoções - o algo acontecendo ali, naquele instante-já.

Belíssimo filme, aula magna de interpretação em toques, olhares, luz, contraluz, dança e bailado, sob domínio completo de ambas as protagonistas - Cate Blanchett e Rooney Mara, nomes de cinema.

Mr. Holmes


Mr. Holmes (Bill Condon, 2016). Tudo começa com uma vespa, e o aviso de Holmes para que o menino a sua frente, na cabine do trem, não bata no vidro para espantá-la. Somos nós também advertidos sobre os perigos da vespa, e mais tarde entenderemos melhor sobre esse inseto, sua função, e sobretudo a metáfora que ele representa.

Em seguida, a câmera sai do trem - trens me dão sempre uma sensação boa, de algo que levará à aventura desconhecida -, vai para fora e o vemos em movimento, contra o largo céu de um azul belíssimo, percorrendo uma paisagem de tirar o fôlego, e aí temos o segundo movimento de interesse do filme: uma paisagem deslumbrante, quase sempre em campo aberto, para onde se recolhe Holmes, o homem agora envelhecido que se aposenta de sua função de inspetor. Não sem antes tentar desvendar seu último caso, que se embaralha com sua própria vida, de ontem e de hoje. É nesse imbricamento que vai trabalhar o filme - do ontem e do hoje, da vida e da morte, do que resta e do que se foi, de como lidar com o fim iminente. 

A cumplicidade entre o homem, já no final da vida, e o menino, aparece numa cena inicial rápida e súbita - à sua chegada, colocando as malas no chão seu chapeu cai - num átimo, o menino o pega e entrega ao homem, sob o aviso da mãe e governanta da casa, vivida com excelência por Laura Linney, de que ele deve sair, pois não é permitida sua presença na casa. Esse é o laço inicial que tece a narrativa - o interesse do velho pelo interesse do menino em sua história, essa que ele começou a ler escondido no quarto dele. Dessa cumplicidade nasce o desejo de enfrentar os problemas de memória, que impedem Holmes de lembrar o que houve com a mulher de sua última investigação, essa que o fez abandonar a profissão e viver recluso no campo. Saber o que houve conduz o detetive, e a história, no encalço da mulher, da história dela, e sua solidão atual.

O filme me pareceu uma obra prima, e Ian McKellen faz um Holmes extraordinário, tanto o mais jovem do passado, ágil, desenvolto, como o agora quase senil, aos 93 anos, caminhando em direção a sua história, forçando a memória a dar-lhe de volta uma parte da vida que ela, memória, lhe subtrai. No fim, ganha a partida, e nós, espectadores, vibramos com as possibilidades que a imaginação tem de nos redimir a todos, mesmo (e sobretudo) face à iminência do fim.


domingo, 17 de janeiro de 2016

A grande aposta e congêneres


A grande aposta (Adam McKay, 2016). Com Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling, Steve Carell, Marisa Tomei.

Achei o filme uma das grandes bobagens desse começo de ano. Não me convenceu em nada, e filmes sobre a crise em Wall Street já temos mais e melhores, feitos por essa mesma indústria. Se era para acrescentar explicações mais claras sobre o que foram as hipotecas podres, falharam – poucos espectadores leigos entenderam melhor aquela bagunça; se foi para fazer mais um entertainment às expensas de grandes nomes, tampouco me convenceram – nem o ar de homem muito estupefato do Carrell; nem o cinismo de Gosling, nem a semi-idiotia de Bale, nem – oh, céus – nem “oqueéaquelabarba” de Brad Pitt, fingindo ser o guru mais sábio do pedaço, nada me disse que esse filme era necessário para eu dar a ele duas horas e vinte minutos de minha atenção.

Para não dizer que foi totalmente inútil, me levou a fazer uma pesquisa rápida a respeito de filmes que tratam do mesmo tema, basicamente, Wall Street. Não vi todos, claro, mas fiquei interessada em vários documentários. Pra quem quiser, uma listinha:

****
Enron, os mais espertos da sala (Alex Gibney, 2005, Doc)
Conta a história da ascensão e da falência da Enron, gigante de revenda de energia e gás nos Estados Unidos. O filme aborda desde a formação da companhia texana nos anos 1980 ao perfil dos envolvidos na criação da empresa que, quando entrou em colapso, deixou 20 mil desempregados. Indicado ao Oscar de melhor documentário no ano.

Wall Street - dinheiro e cobiça (Oliver Stone, 1987)
Com Michael Douglas e Charlie Sheen nos papéis principais, "Wall Street - Poder e cobiça" fala sobre os bastidores do mundo dos negócios na década de 1980, seguindo o jovem e ambicioso Bud Fox, um corretor da bolsa interpretado por Sheen. Fox sonha em conhecer o seu ídolo, Gordon Gekko (Michael Douglas) um milionário ganancioso e frio. Quando isso finalmente acontece, Fox se vê parte de um mundo lucrativo, mas também perigoso. Michael Douglas ganhou o Oscar de Melhor Ator por sua atuação.
Capitalismo – uma história de amor (Michael Moore, 2009, Doc)
Análise de como o capitalismo corrompeu os ideais de liberdade previstos na Constituição dos Estados Unidos, visando gerar lucros cada vez maiores para um grupo seleto da sociedade, enquanto a maioria perde cada vez mais direitos.

Quants – os alquimistas de wall street  (Marije Meerman, 2010, Doc)
Mostra que a grande maioria das ações do mercado financeiro mundial são vendidas e compradas por decisões de programa de computador que levam milésimos de segundo


Wall Street – o dinheiro nunca dorme (Oliver Stone, 2010) 
Michael Douglas, Shia LaBeouf, Carey Mulligan.
Sequência do filme "Wall Street - poder e cobiça". O filme tem o personagem de Michael Douglas como figura central. Depois de cumprir pena por fraudes financeiras na cadeia, Gordon Gekko dedica seu tempo a realizar palestras e a escrever um livro com críticas ao comportamento de risco dos mercados. Gekko quer também se reaproximar de sua filha que por ironia do destino está noiva de um corretor de valores.

Trabalho interno – a verdade da crise (Charles Ferguson, 2010, Doc)
Indicado ao Oscar como melhor documentário, “Inside Job” vasculha as entranhas de Wall Street no período que antecedeu a crise de 2008. O filme, que é narrado por Matt Damon, foi baseado em extensa pesquisa e em uma série de entrevistas com políticos, economistas e jornalistas na busca de tentar entender a teia de mentiras e de crimes que levou o mercado financeiro americano ao colapso

Margin Call – o dia antes do fim (J.C. Chandor, 2011)
O filme se passa em uma empresa de investimentos, na fase inicial da crise financeira de 2008. Após uma demissão em massa na empresa, um dos funcionários revela uma falha que alguns personagens tentam resolver enquanto outros tentam esconder o problema.

Grande demais para quebrar (Curtis Hanson, 2011) 
Baseado no livro de mesmo nome do jornalista Andrew Ross Sorkin, o filme conta a história da crise econômica de 2008 do ponto de vista do Secretário do Tesouro americano Henry Paulson. O filme, que foi exibido pelo canal HBO, recebeu 11 indicações ao Emmy Awards 2011.


Chasing  Mardoff (Jeff Prosserman, 2011, Doc)
The film chronicles how Harry Markopolos and his associates spent ten years of investigation in an attempt to expose Bernie Madoff's Ponzi scheme, which scammed an estimated $18 billion from investors.

The flaw (David Sington, 2011, Doc)
David Sington tells the story of the credit bubble which caused the financial crisis, which has brought suffering to millions. Forsaking easy explanations of greedy bankers and incompetent regulators, this film goes to the roots of the forces which caused America and the UK to be gripped by the crazy belief that everyone could be rich and property prices would rise for ever. With a cast of bankers, borrowers, brokers and some of the best economic brains in the world, the film tells a gripping story of delusion, deceit and destruction.

Europe at the Brink – A WSJ Documentary (2012, Doc)
Produzido pelo jornal Wall Street Journal, este documentário coloca seus editores e repórteres para examinar as origens da crise da dívida pública na Europa. O filme analisa ainda a razão pela qual a crise se espalhou de forma feroz pelo continente e ameaça contaminar o mundo inteiro.

Hank – cinco anos depois do colapso (Joe Berlinger, 2013, Doc)
Produzido pela revista Bloomberg Businessweek, o documentário retrata a crise econômica de 2008. O foco é em Henry Paulson, ex-secretário do Tesouro dos Estados Unidos, que explica como convenceu bancos, o congresso americano e candidatos à Presidência a aprovarem US$ 1 trilhão em resgates financeiros. Paulson trabalhou durante três semanas com um único objetivo: prevenir o maior colapso da economia global. O filme é um retrato da liderança sob pressão.

O lobo de Wall Street (Martin Scorsese, 2013) Leonardo DiCaprio
Filme estadunidense de 2013, dirigido por Martin Scorsese, baseado nas memórias de Jordan Belfort, o best-seller de mesmo nome. Foi lançado em dezembro de 2013. 
O roteiro foi escrito por Terence Winter, e estrelado por Leonardo DiCaprio como Belfort, um corretor de títulos de Nova York que dirige uma firma, a Stratton Oakmont, que praticava fraudes de seguro e corrupção em Wall Street na década de 1990.

 

Nota: Além de Wikipedia, goog.le, usei dados de Beatriz Costa, daqui: