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Invictus é um filme belíssimo, um épico sobre como um líder consegue unir uma nação em torno do esporte, com interpretação magistral de Morgan Freeman. Não sei exatamente como o Clint Eastwood conseguiu filmar aquele jogo de rúgbi num estádio lotado, uma multidão absurda torcendo não apenas por um time, mas por uma causa.
Isso tudo soa como uma deslavada apelação ideológica e sentimental, e não sei como o mesmo Eastwood que não me convenceu em Gran Torino – também um filme sobre valores de solidariedade e aceitação do outro, que eu simplesmente não engoli, nesse Invictus, também altamente manipulador de sentimentos, me deixou totalmente cúmplice, entregue às grandes e também delicadas emoções que ele desperta – isso ocorre até com quem não é tão fã assim de esportes, e acha a confusão dos estádios algo para se manter distância.
Mas esta Copa da África do Sul tem o poder de tornar cada espectador um africâner, um torcedor fanático que deseja o sucesso do time, dos jogadores, da nação. Além disso, também fiquei querendo saber mais sobre o processo todo, e fui ao google obter alguma informação. Encontrei esse texto de alguém que eu não sei quem é, mas que disse tudo o que senti em relação ao filme, por isso me aproprio do texto, agradeço e passo adiante.
(copiado daqui - não resisti :)
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As a South African, I can tell you the entertaining, inspiring and enjoyable "Invictus" exceeded all my expectations., 13 December 2009
Author: grantaubin from South Africa
As a South African who saw this film on Friday morning, I can tell you you the entertaining, inspiring and enjoyable "Invictus" exceeded all my expectations.
It really is a true story of epic proportions yet it's told with an intimate feel, and it is at least 98% accurate to the events of the time. Clint gets all the big details and so many of the little details right, but he never goes over the top. He directs with minimum fuss and achieves maximum effect, just letting the powerful story unfold without getting in its way.
I watched the 1995 Rugby World Cup and saw Madiba come out in the Springbok jersey. It was a wondrous sight. And when Joel Stransky slotted that drop kick over in the dying minutes and the Boks won, I wept and cheered along with everyone else. After the match millions of South African - of all races - celebrated. It was an amazing time. It was the birth of the "Rainbow Nation". Nelson Mandela is the greatest and most beloved of all South Africans. The man is a living legend, but so human and real. When he was President he brought hope to all South Africans, white and black. We, in my country, will never stop loving this incredible man. Clint Eastwood and Morgan Freeman did South Africa and our beloved Madiba proud. Francois Pienaar is also an amazing South African, an intelligent, big-hearted rugby played who always lead by example, and Matt Damon's performance as him was superb. I was glued to the screen for every second of the film's running time (I didn't even move from my seat until the final credit rolled and the house lights came on), and I was moved to tears on several occasions. The final scene was especially touching.
Freeman's performance was magical and I can see him getting as Oscar nomination. If you think his Mandela was too cool to be true, think again. Mandela really is this cool. A brave and intelligent man whose courage and strength of character should serve as an example to people all over the world. After being unjustly imprisoned for nearly 30 years by a cruel and repressive regime, he emerged to run a country and teach its people the meaning of forgiveness and reconciliation.
I thoroughly recommend the authentically detailed, historically accurate "Invictus" to film lovers, Eastwood fans, Nelson Mandela fans and sports fans everywhere in the world. South Africans would be crazy to miss this excellent film, but it deserves to be a hit all over the globe. Let's hope it is.
Viva Clint Eastwood, viva Morgan Freeman, viva Madiba.
PS. I'm a huge fan of Clint Eastwood as both an actor and a director.
Of the films Eastwood has directed, my favorites, in no particular order, are "Unforgiven", "Million Dollar Baby", "Gran Torino", "The Outlaw Josey Wales", "Letters From Iwo Jima", "The Bridges of Madison County","Bird" and "Invictus". Yes, it's really that good. "Invictus" is another winner from Clint. He just seems to get better with age. What a creative roll he is currently on.
PPS. "Invictus" is one of the best sporting movies I have ever seen. But it's also about more than sport.
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sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
duas notas e um PS
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Faltando a inspiração para maiores fôlegos, duas observações:
1. Depois que a cris mencionou o fato em um post, eu fiquei muito cabreira e fiquei de confirmar a coisa, o que fiz e constatei : os banheiros do Arteplex Botafogo não são totalmente confiáveis - se a pessoa abaixar um tiquinho a cabeça vê pelo reflexo do chão a outra ao lado, e isso ocorre nos dois espaços diferentes de banheiros. Acho que é o caso de pedir que os responsáveis pelo estabelecimento tomem uma providência.
2. Eu li essa nova edição da Cosac do Alice, e gostei demais, mas pelo trailler do filme do Tim Burton, que eu vi aqui, esse será um dos poucos casos em que um filme superará um ótimo (e clássico) livro, o que saberemos quando ele entrar em cartaz, quem sabe na próxima sexta.
PS. Dia histórico: aprendi hoje, nesse momento, a fazer remissão de links, e sozinha! Olhei pra cima, vi escrito 'link' e olha só que maravilha! Salveeee!!! ::))
(PS 2. Tentando aprender a remissão a um post específico, com auxílio luxuoso de Melissa, não sei se já cheguei nesse nível de performance).
PS 3. E já que estamos no clima de Alice, essa aí me dei de presente em homenagem a tudo - mas principalmente ao livro :)
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Faltando a inspiração para maiores fôlegos, duas observações:
1. Depois que a cris mencionou o fato em um post, eu fiquei muito cabreira e fiquei de confirmar a coisa, o que fiz e constatei : os banheiros do Arteplex Botafogo não são totalmente confiáveis - se a pessoa abaixar um tiquinho a cabeça vê pelo reflexo do chão a outra ao lado, e isso ocorre nos dois espaços diferentes de banheiros. Acho que é o caso de pedir que os responsáveis pelo estabelecimento tomem uma providência.
2. Eu li essa nova edição da Cosac do Alice, e gostei demais, mas pelo trailler do filme do Tim Burton, que eu vi aqui, esse será um dos poucos casos em que um filme superará um ótimo (e clássico) livro, o que saberemos quando ele entrar em cartaz, quem sabe na próxima sexta.
PS. Dia histórico: aprendi hoje, nesse momento, a fazer remissão de links, e sozinha! Olhei pra cima, vi escrito 'link' e olha só que maravilha! Salveeee!!! ::))
(PS 2. Tentando aprender a remissão a um post específico, com auxílio luxuoso de Melissa, não sei se já cheguei nesse nível de performance).
PS 3. E já que estamos no clima de Alice, essa aí me dei de presente em homenagem a tudo - mas principalmente ao livro :)
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terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Amor sem escalas
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Amor sem escalas é um filme tristíssimo, apesar do (ou sobretudo pelo) cinismo que George Clooney empresta ao personagem - ele faz aquela cara de homem-mai-sexy-do-mundo para dizer as coisas mais cruéis às pessoas que ele tem, por dever de ofício, de demitir.
Saído do bojo da crise financeira mundial, e do desemprego em massa estadunidense, o filme faz o que o cinema holywoodiano faz de melhor: edulcora a barra pesada, faz piada da desgraça e põe o Clooney para nos fazer achar tudo levinho, bonitinho, engraçadinho. Mas o que se vê é muito triste, inclusive esse homem e sua solidão absurda, sonhando o sonho (meio infantil, acho) de completar um milhão de milhas.
Dizendo assim parece que não gostei do filme, mas gostei. As duas mulheres que contracenam com o "astro rei" estão ótimas, e Vera Farmiga (que nome estranho) dá show de bola, apesar de que o final (não, não vou contar) é um tanto inverossímel, ou melhor, é mais uma daquelas jogadas cênicas para épater, porque tudo que antes se passara entre os dois (e, na verdade, entre os três personagens ao longo do filme), levava o espectador a esperar o esperado. Não tendo vindo, e vindo o que veio, soou meio falso, aquela mulher não estava com aquela bola toda, mas posso estar enganada.
Enfim, há alguns senões, e o cinismo é apenas um deles, nesse caso. Mas o Clooney está muito bem como o belo Clooney.
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Melissa escreveu essas observações ótimas sobre o filme no espaço dos comentários, e achei-as tão boas que elas vêm para complementar as linhas acima, com o aval dela, claro:
Adorei o Ryan do começo do filme: cínico, porém honesto, satisfeito com suas escolhas, com as suas inúmeras e deliciosamente superficiais relações com o sexo oposto, meio gauche, charmosérrimo, pra cima, de bem com a vida e sonhando com seu milhão de milhas (sonho totalmente childish, okay, mas e daí?). Okay, okay, eu me identifiquei com ele sim.
Aí, começa o bombardeio dos valores: filhos, casa e família, pra cima dele. E, por razões imperscrutáveis, ele se torna vulnerável a estes valores (dos quais antes debochava tão irresistivelmente). Valores que acabam desencadeando uma baita crise existencial neste personagem outrora tão simpático e bem resolvido, a qual culmina numa grande decepção amorosa, que, por sua vez, o transforma em apenas mais um sujeito amargo e tristonho.
Adorei o tom de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come do filme. Ou seja: não importa se você casa e tem filhos e tem uma casa quentinha pra chamar de sua, não importa se você é um solteirão convicto indisponível afetivamente, você sempre pode ser altamente infeliz e dolorosamente solitário. Mas, no meu otimista entender, você também sempre pode não ser!
Observações:
1- Achei inverossímil aquele plot twist da Alex. Mas gostei dele. Tipo: love hurts e famílias aparentemente felizes não costumam passar disso mesmo.
2- Achei muito interessante quando ela dá a deixa pra ele de que se ele quiser continuar transando, será muito bem recebido.
3- Diverti-me quando ela dá a entender que por ele não ter uma esposa chifruda e filhotes pentelhos pra sustentar, e ela sim, ela não apenas é uma pessoa mais madura e adulta do que ele, mas é também uma pessoa melhor. Juro que achei engraçada de tão surreal esta lógica dela.
Enfim, vivamos e deixemos viver. O lance é nos conhecermos, fazermos nossas (sempre angustiantes) escolhas e fazermos o melhor possível com elas. Se a coisa começar a não funcionar, a não satisfazer, mudemos, mas só vale se for por convicção e não por conta da pressão do maldito espírito de rebanho. C'est ça!
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Amor sem escalas é um filme tristíssimo, apesar do (ou sobretudo pelo) cinismo que George Clooney empresta ao personagem - ele faz aquela cara de homem-mai-sexy-do-mundo para dizer as coisas mais cruéis às pessoas que ele tem, por dever de ofício, de demitir.
Saído do bojo da crise financeira mundial, e do desemprego em massa estadunidense, o filme faz o que o cinema holywoodiano faz de melhor: edulcora a barra pesada, faz piada da desgraça e põe o Clooney para nos fazer achar tudo levinho, bonitinho, engraçadinho. Mas o que se vê é muito triste, inclusive esse homem e sua solidão absurda, sonhando o sonho (meio infantil, acho) de completar um milhão de milhas.
Dizendo assim parece que não gostei do filme, mas gostei. As duas mulheres que contracenam com o "astro rei" estão ótimas, e Vera Farmiga (que nome estranho) dá show de bola, apesar de que o final (não, não vou contar) é um tanto inverossímel, ou melhor, é mais uma daquelas jogadas cênicas para épater, porque tudo que antes se passara entre os dois (e, na verdade, entre os três personagens ao longo do filme), levava o espectador a esperar o esperado. Não tendo vindo, e vindo o que veio, soou meio falso, aquela mulher não estava com aquela bola toda, mas posso estar enganada.
Enfim, há alguns senões, e o cinismo é apenas um deles, nesse caso. Mas o Clooney está muito bem como o belo Clooney.
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Melissa escreveu essas observações ótimas sobre o filme no espaço dos comentários, e achei-as tão boas que elas vêm para complementar as linhas acima, com o aval dela, claro:
Adorei o Ryan do começo do filme: cínico, porém honesto, satisfeito com suas escolhas, com as suas inúmeras e deliciosamente superficiais relações com o sexo oposto, meio gauche, charmosérrimo, pra cima, de bem com a vida e sonhando com seu milhão de milhas (sonho totalmente childish, okay, mas e daí?). Okay, okay, eu me identifiquei com ele sim.
Aí, começa o bombardeio dos valores: filhos, casa e família, pra cima dele. E, por razões imperscrutáveis, ele se torna vulnerável a estes valores (dos quais antes debochava tão irresistivelmente). Valores que acabam desencadeando uma baita crise existencial neste personagem outrora tão simpático e bem resolvido, a qual culmina numa grande decepção amorosa, que, por sua vez, o transforma em apenas mais um sujeito amargo e tristonho.
Adorei o tom de se correr o bicho pega, se ficar o bicho come do filme. Ou seja: não importa se você casa e tem filhos e tem uma casa quentinha pra chamar de sua, não importa se você é um solteirão convicto indisponível afetivamente, você sempre pode ser altamente infeliz e dolorosamente solitário. Mas, no meu otimista entender, você também sempre pode não ser!
Observações:
1- Achei inverossímil aquele plot twist da Alex. Mas gostei dele. Tipo: love hurts e famílias aparentemente felizes não costumam passar disso mesmo.
2- Achei muito interessante quando ela dá a deixa pra ele de que se ele quiser continuar transando, será muito bem recebido.
3- Diverti-me quando ela dá a entender que por ele não ter uma esposa chifruda e filhotes pentelhos pra sustentar, e ela sim, ela não apenas é uma pessoa mais madura e adulta do que ele, mas é também uma pessoa melhor. Juro que achei engraçada de tão surreal esta lógica dela.
Enfim, vivamos e deixemos viver. O lance é nos conhecermos, fazermos nossas (sempre angustiantes) escolhas e fazermos o melhor possível com elas. Se a coisa começar a não funcionar, a não satisfazer, mudemos, mas só vale se for por convicção e não por conta da pressão do maldito espírito de rebanho. C'est ça!
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domingo, 24 de janeiro de 2010
preguiça e calor
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
humpf
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Acho que essa coisa de blogue já morreu e esqueceram de me avisar...:)
Tem nada não, vou continuar tagarelando sozinha até decisão em contrário.
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Acho que essa coisa de blogue já morreu e esqueceram de me avisar...:)
Tem nada não, vou continuar tagarelando sozinha até decisão em contrário.
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O filme sobre o baião
Levei minha mãe para ver O homem que engarrafava nuvens, ela saiu dizendo que conhecia aquilo tudo, tanto os lugares, quanto as músicas, e é verdade - tem 84 anos e passou boa parte da vida ao som do baião de Gonzaga e de Humberto Teixeira.
Dessa vez, pude escolher minhas cenas inesquecíveis:
* Bebel Gilberto, num momento de êxtase, reconhecendo a beleza do baião, diz: "hum, ai, isso é bom!";
* Gil falando sobre as duas grandes famílias reais musicais brasileiras, sua linhagem mais nobre: o samba e o baião;
* Bethânia cantando Asa branca;
* Caetano dizendo que o verso "e fosses a Paraíba", de uma canção que ele fez no exílio, dizia respeito a Humberto - ele diz isso com uma expressão tão bonita;
* Lenine cantando numa interpretação cheia de graça e ginga 'Qui nem jiló';
* A animação da galera no pub novaiorquino, ao som da sanfona;
* A alegria de relance de Marília Gabriela, num momento com Raul Seixas;
* O depoimento do "artesão da sanfona", um homem muito engraçado e interessante;
Enfim, o filme é adorável, amei ver de novo, fazer o quê, sou dessas bandas.
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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Dois filmes bem distintos
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Vício frenético, de Werner Herzog, tem um Nicolas Cage em atuação brilhante, todo o tempo chapadíssimo, elétrico, o corpo sem um momento de repouso, com uma expressão meio louca de quem não descansa nunca, e cheira o tempo todo.
O corpo meio aleijado, de banda, compõe ainda melhor a figura desse homem absolutamente amoral, que é ao mesmo tempo um policial que soluciona um crime bárbaro, mas que também comete as maiores atrocidades contra quem quer que seja, para conseguir droga sobretudo. No fim, o quadro familiar é apenas aparente - ele continua pelas noites, quase um bicho insone, em busca de qualquer coisa que apazigue um buraco dentro da alma, e que parece jamais ter fim.
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Jà Ervas daninhas é um espanto, porque o Alain Resnais já tem 88 anos e fez um filme muitíssimo interessante, embora não de todo fácil (de acompanhar e de compreender). Trata-se de uma discussão sobre as complexidades das relações, dos desejos, das lembranças, dos tiques de cada um, e o diretor brinca com isso de várias maneiras, seja repetindo cenas, um pouco para dizer da recorrência - da memória, dos atos, das vivências, seja voltando a elas sob outro ângulo, ou mesmo de forma inteiramente diferente da versão anterior.
Percebe-se que Resnais faz uma reflexão muito boa sobre nossas vicissitudes, não apenas amorosas, mas comportamentais, vivenciais, e que sente prazer no que está contando, brinca com o espectador, mandando às favas a coerência e mesmo, algumas vezes, a inteligibilidade.
Mesmo o final, aparentemente trágico, tem pouco de trágico - a coisa toda fica leve, como se aquelas vidas fossem o que realmente são - um grãozinho de areia em meio à vasta imensidão das energias do que chamamos vida. Filme intrigante, com alguns momentos de ótimo humor.
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Vício frenético, de Werner Herzog, tem um Nicolas Cage em atuação brilhante, todo o tempo chapadíssimo, elétrico, o corpo sem um momento de repouso, com uma expressão meio louca de quem não descansa nunca, e cheira o tempo todo.
O corpo meio aleijado, de banda, compõe ainda melhor a figura desse homem absolutamente amoral, que é ao mesmo tempo um policial que soluciona um crime bárbaro, mas que também comete as maiores atrocidades contra quem quer que seja, para conseguir droga sobretudo. No fim, o quadro familiar é apenas aparente - ele continua pelas noites, quase um bicho insone, em busca de qualquer coisa que apazigue um buraco dentro da alma, e que parece jamais ter fim.
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Jà Ervas daninhas é um espanto, porque o Alain Resnais já tem 88 anos e fez um filme muitíssimo interessante, embora não de todo fácil (de acompanhar e de compreender). Trata-se de uma discussão sobre as complexidades das relações, dos desejos, das lembranças, dos tiques de cada um, e o diretor brinca com isso de várias maneiras, seja repetindo cenas, um pouco para dizer da recorrência - da memória, dos atos, das vivências, seja voltando a elas sob outro ângulo, ou mesmo de forma inteiramente diferente da versão anterior.
Percebe-se que Resnais faz uma reflexão muito boa sobre nossas vicissitudes, não apenas amorosas, mas comportamentais, vivenciais, e que sente prazer no que está contando, brinca com o espectador, mandando às favas a coerência e mesmo, algumas vezes, a inteligibilidade.
Mesmo o final, aparentemente trágico, tem pouco de trágico - a coisa toda fica leve, como se aquelas vidas fossem o que realmente são - um grãozinho de areia em meio à vasta imensidão das energias do que chamamos vida. Filme intrigante, com alguns momentos de ótimo humor.
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sexta-feira, 15 de janeiro de 2010
O homem que engarrafava nuvens
Achei lindíssimo O homem que engarrafava nuvens. Na verdade, chorei em alguns momentos, emocionada com a beleza da música de Humberto Teixeira, com os depoimentos de alguns craques da nossa melhor MPB e com as interpretações magistrais deles - cantam lindissimamente Gal acompanhada por Sivuca, Fagner, Chico, Bebel Gilberto (muito bem), Caetano, Bethanea, numa magistral interpretação, Lenine (maravilhoso), um rapaz, Lirinha, do Cordel do Fogo Encantado, que faz ótimos depoimentos e canta com a força e um certo estilo mangue beat, muito bom.
Tem também cenas de arquivos ótimas, e uma delas mostra a Marília Gabriela bem jovem entrevistando o Raul Seixas, que também canta uma canção de Humberto, e daí fiquei pensando que Marília tem um bocado de história pra contar; uma impagável Silvana Mangano cantando 'O baião' em italiano, enfim, há muito com que se emocionar vendo e, sobretudo, ouvindo o documentário de Lírio Ferreira.
Quando entra em cena Denise Dumont, a filha de Humberto e produtora, roteirista e acho que responsável pela energia do filme, a voltagem sobe porque ela demonstra uma sinceridade comovente nessa espécie de acerto de contas com a memória do pai - quer realmente entender a importância dele não apenas em sua vida, mas na memória cultural e musical do país.
Se não bastasse isso tudo, que é coisa à beça, trata-se de um dos melhores retratos sobre a importância do baião no cadinho que dá o tônus e o vigor da música brasileira. E, last but not least, ouvir o David Byrne cantando 'Asa branca' em inglês, absolutamente empolgado, e vê-lo passeando de bicicleta por Nova Iorque ao som da nossa música é imperdível. Na verdade, todo o filme é imperdível.
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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
no comments
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Já que não falo sobre filmes ruins, me absterei de comentar Praça Saens Peña; Do começo ao fim; e sobretudo, mas sobretudo, Diário de Sintra.
Cidadão Boiselen ficará na rubrica "filme complicado à beça de se dizer qualquer coisa", pro bem e pro mal.
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Já que não falo sobre filmes ruins, me absterei de comentar Praça Saens Peña; Do começo ao fim; e sobretudo, mas sobretudo, Diário de Sintra.
Cidadão Boiselen ficará na rubrica "filme complicado à beça de se dizer qualquer coisa", pro bem e pro mal.
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sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Sherlock Holmes
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Bom demais o filme, cheio de charme e picardia, além de ação em ritmo frenético e trilha sonora de primeira. Há também um clima meio sombrio, uma pegada de filme noir que conversa com a memória das histórias em quadrinhos, tudo muitíssimo bem dirigido, encenado, coreografado, interpretado. Aliás, os cenários são uma atração a mais - guindastes enormes, roldanas, correntes, barcos estranhos num universo cheio de estranhezas, feitiços, mistérios ocultos, neblinas e esquinas.
Além do clima e de todo o resto, tem ele, claro, o mago e belo Robert Downey Jr., de quem acho que estou me tornando tiete. Ele faz um trabalho escandalosamente bom, coadjuvado por um igualmente ótimo Jude Law e uma espertíssima Rachel McAdams, uma bandida super gente fina, mais sedutora do que má, e por quem Sherlock bate as pestanas mais de uma vez.
De todo modo, o filme é mesmo dele, cujo personagem toma do Johnny Depp de Piratas do Caribe aquele ar entre o deboche e o blasé (sem esquecer um leve maneirismo gay, no caso de Sherlock, e menos leve no caso do capitão Jack) e convence em todos os momentos, até mesmo quando enfrenta com seu corpo franzino um homão de quase 2 metros de altura, ou enfrenta outro fortão numa luta de ringue. Tudo isso com um jeito atormentado de ser absolutamente sedutor. Grande filme, ótimas atuações, Downey Jr. insuperável.
O Guy Ritchie virou um grande diretor para mim, que nunca havia visto nada dele, nem mesmo aquele filme que passa sempre na TV, o dos canos fumegantes, porque sempre achei muito chatinho aqueles homens-que-vivem-agarrados-e-lutando. Enfim, não resta dúvida tampouco sobre as ambições do homem em tornar seu projeto uma franquia - o final é um claro convite aos próximos capítulos de uma saga emocionante. Aliás, convite aceito.
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Bom demais o filme, cheio de charme e picardia, além de ação em ritmo frenético e trilha sonora de primeira. Há também um clima meio sombrio, uma pegada de filme noir que conversa com a memória das histórias em quadrinhos, tudo muitíssimo bem dirigido, encenado, coreografado, interpretado. Aliás, os cenários são uma atração a mais - guindastes enormes, roldanas, correntes, barcos estranhos num universo cheio de estranhezas, feitiços, mistérios ocultos, neblinas e esquinas.
Além do clima e de todo o resto, tem ele, claro, o mago e belo Robert Downey Jr., de quem acho que estou me tornando tiete. Ele faz um trabalho escandalosamente bom, coadjuvado por um igualmente ótimo Jude Law e uma espertíssima Rachel McAdams, uma bandida super gente fina, mais sedutora do que má, e por quem Sherlock bate as pestanas mais de uma vez.
De todo modo, o filme é mesmo dele, cujo personagem toma do Johnny Depp de Piratas do Caribe aquele ar entre o deboche e o blasé (sem esquecer um leve maneirismo gay, no caso de Sherlock, e menos leve no caso do capitão Jack) e convence em todos os momentos, até mesmo quando enfrenta com seu corpo franzino um homão de quase 2 metros de altura, ou enfrenta outro fortão numa luta de ringue. Tudo isso com um jeito atormentado de ser absolutamente sedutor. Grande filme, ótimas atuações, Downey Jr. insuperável.
O Guy Ritchie virou um grande diretor para mim, que nunca havia visto nada dele, nem mesmo aquele filme que passa sempre na TV, o dos canos fumegantes, porque sempre achei muito chatinho aqueles homens-que-vivem-agarrados-e-lutando. Enfim, não resta dúvida tampouco sobre as ambições do homem em tornar seu projeto uma franquia - o final é um claro convite aos próximos capítulos de uma saga emocionante. Aliás, convite aceito.
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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010
Literatura de Adriana Lisboa
Colocando em ordem os filmes que vi ultimamente, percebi que há bem mais filmes do que livros comentados aqui, e isso vai ocorrer também nesse 2010 porque tenho trabalho acadêmico para terminar e não vou poder ler o que quiser, menos ainda escrever sobre leituras que não sejam ligadas ao trabalho (sobre Hilda Hilst). Mas cinema não posso deixar de ir, senão fico maluca, então haverá, provavelmente, comentários sobre filmes.
De todo modo, aí vai essa que talvez seja uma das poucas resenhas que escreverei - e de uma autora que eu gostei muito de conhecer.
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Eternidade
Um dia nasci. Foi às onze horas da manhã e sob o signo de touro. Um dia vou morrer (ainda não sei o horário nem o signo dessa morte).
Nada ficará de mim: não continuo nos filhos, que são autônomos, com sua vida e sua morte independentes de mim. Não continuo nas árvores que plantei nem nos livros que escrevi, nem nos pães que assei, nem na poeira que esqueci de varrer para baixo do tapete.
Enquanto estou viva é que continuo. Minha vida é o milagre da eternidade sem passado e sem futuro, porque se mede pelo tempo presente. Meus dias são cada um de uma vez. E eu não tenho porquê. Só existo, até que deixe de existir. O resto me ultrapassa. (p. 83).
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Amor
Não havia muitas cadeiras na sala de aula. Todas as que havia eram velhas e algumas estavam quebradas. Universidade estadual. O curso era às terças-feiras, das três às seis da tarde, horário exato em que o sol roçava aquela parede do prédio antes de se pôr atrás de outro prédio. As vidraças eram recobertas com aquela película plástica que amortece o sol. Roxa.
Flávio sentou-se em sua cadeira, de frente para a turma de nove alunos. O sol retangular e roxo passeava devagar pela sala, encontrando seus pés, encontrando suas pernas. Afastou um pouco a cadeira. Mas o sol continuava passeando, aquecendo e arroxeando as palavras de um e outro, as paredes normalmente brancas, o quadro-negro normalmente verde. Entre as três e as seis horas da tarde, o sol brincou de perseguir Flávio em sua sala de aula, e a cadeira foi se afastando, mas para trás, um pouco mais para o lado, agora para a frente.
Depois o sol finalmente se pôs, apagando o retângulo roxo do chão, uma sombra veio espreitar. Os carros rugiam lá longe, na grande avenida, a quilômetros, a séculos dali. (p.43).
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Uma das coisas de que gosto nesses dois livros de Adriana Lisboa é uma certa intimidade gerada pelo conhecimento de lugares e⁄ou referências a pessoas reais, próximas de meu imaginário, como ocorre com o professor Flávio, de ‘Amor’, um dos micro contos de Caligrafias, ou a passagem em que os personagens Haruki e Celina, de Rakushisha, se conhecem, nos arredores do Largo do Machado e Rua do Catete, bairro ondo moro. O interessante é que a ficção de Machado já deveria ter-me acostumado a ler o nome do bairro impresso em letras literárias, mas na ficção de Adriana há uma outra pulsação, como se o peso da História em Machado tornasse o Catete uma figuração a mais, ao passo que na literatura da jovem escritora carioca a intimidade com o prosaico, a descrição de cenas banais, e com freqüência poéticas, constrói um bairro extremamente próximo, reconhecível com um “ah!, que coisa, eu sei do que ela está falando...”
Como nesses momentos de Rakushisha:
A chuva fina deixava o mundo luminoso diante dos olhos de Haruki. O asfalto puído da Machado de Assis brilhava. Os carros estacionados brilhavam. Folhas de árvores. Grades à entrada dos edifícios. Até o som das coisas brilhava na chuva, as rodas dos carros sobre o asfalto, uma freada brusca e a buzina, o rádio do porteiro.
Era preciso reconhecer e reverenciar esses momentos. Eles eram rápidos e raros. Momentos em que sem nenhum motivo aparente tudo parecia entrar nos eixos, ajustar-se, encaixar-se. Acabavam-se as perguntas e a necessidade delas. Acabava-se a pressa, o ter aonde ir, o vir de algum lugar.
Simplesmente as solas dos sapatos batiam na calçada úmida e pronto, o mundo prescendia de outro significados.
Um pé depois do outro.
Momentos rápidos e raros. Aquele ali se desfez de repente, no cruzamento com a rua do Catete. Haruki notou que perdia alguma coisa, chegou a olhar para trás automaticamente, para ver se dava com um pedaço de si caído na calçada. Mas era o instante que se desmanchava, colher de sal dentro d’água. E Haruki sacudia a colherinha, desmanchava o instante, porque não tinha como ser diferente, se a gente não mata as epifanias elas nos matam, e atravessava a rua na direção familiar da entrada do metrô. (p. 17).
É claro que o “eu sei do que ela está falando” diz respeito a muito mais do que um simples reconhecimento topográfico. Diz respeito igualmente a uma certa dicção ao mesmo tempo simples e forte de sua escrita. Há poesia no que ela escreve, e quase sempre esse é um traço forte; há também, intensamente, um mundo de sensações, de sentimentos às vezes voláteis, percepções agudas de momentos (as chamadas epifanias) que a aproximam, sem dúvida, de Clarice, mas também impõem seu timbre próprio e particular.
Porque a impressão que se tem ao ler Rakushisha, por exemplo, é que Adriana reconhece o débito mas caminha com suas próprias pernas, encontra seu modo próprio de dizer o que quer, o que precisa ser dito. Assim, a história desse encontro entre Celina e Haruki, que se anuncia como uma história típica de amor, mas acaba se transformando em outra coisa, muito mais interessante, a meu ver, porque mais contemporânea, nesse encontro-desencontro próprio dos que vivem meio ‘em trânsito’ (não apenas nos lugares, mas na existência):
E se os nossos encontros não vierem com o rótulo da família, do cartório, da aliança, da hora do jantar, do jornal à porta pela manhã, das compras de supermercado, dos chinelos ao pé da cama, da tábua do vaso do banheiro, das escovas de dente, da biblioteca e da discoteca, dos recados presos na geladeira, das xícaras de café sobre a pia com um círculo preto ao fundo, da toalha de banho habitual, do lugar habitual à mesa, da marca preferida de xampu, da secretária eletrônica, da regulagem da torradeira e do retrovisor do carro, das contas ao final do mês, dos amigos em comum?
E se for preciso assumir a fragilidade de nós mesmos na fragilidade daquilo que somos juntos? Viajantes? (p. 121-22).
Portanto, não é de sentimentos atados, ou eternos, que se trata aqui, mas de pressões, pequenos e profundos sulcos feitos pelas mãos de cada um na existência do outro que lhe perpassa a vida, como os sinais que ela persegue desse poeta, Matsuo Bashô, na Cabana dos Caquis Caídos, ou seus poemas, haicais, nem sempre de fácil entendimento, mas que ela percorre indo e vindo, apreendendo novas possibilidades e compartilhando-as com o leitor. Trata-se, então, também, de uma espécie de bildungsroman, um romance de aprendizagem - das delicadezas da vida.
Assim também os blocos narrativos, os tempos que vão ao passado e vêm ao presente como fluxos, em que a vida dos personagens se tecem aos poucos, se cruzam, se afastam, e tudo faz sentido, tudo é convincente, tudo é vida – e viagem.
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Adriana Lisboa. Caligrafias. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
Adriana Lisboa. Rakushisha. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
De todo modo, aí vai essa que talvez seja uma das poucas resenhas que escreverei - e de uma autora que eu gostei muito de conhecer.
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Eternidade
Um dia nasci. Foi às onze horas da manhã e sob o signo de touro. Um dia vou morrer (ainda não sei o horário nem o signo dessa morte).
Nada ficará de mim: não continuo nos filhos, que são autônomos, com sua vida e sua morte independentes de mim. Não continuo nas árvores que plantei nem nos livros que escrevi, nem nos pães que assei, nem na poeira que esqueci de varrer para baixo do tapete.
Enquanto estou viva é que continuo. Minha vida é o milagre da eternidade sem passado e sem futuro, porque se mede pelo tempo presente. Meus dias são cada um de uma vez. E eu não tenho porquê. Só existo, até que deixe de existir. O resto me ultrapassa. (p. 83).
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Amor
Não havia muitas cadeiras na sala de aula. Todas as que havia eram velhas e algumas estavam quebradas. Universidade estadual. O curso era às terças-feiras, das três às seis da tarde, horário exato em que o sol roçava aquela parede do prédio antes de se pôr atrás de outro prédio. As vidraças eram recobertas com aquela película plástica que amortece o sol. Roxa.
Flávio sentou-se em sua cadeira, de frente para a turma de nove alunos. O sol retangular e roxo passeava devagar pela sala, encontrando seus pés, encontrando suas pernas. Afastou um pouco a cadeira. Mas o sol continuava passeando, aquecendo e arroxeando as palavras de um e outro, as paredes normalmente brancas, o quadro-negro normalmente verde. Entre as três e as seis horas da tarde, o sol brincou de perseguir Flávio em sua sala de aula, e a cadeira foi se afastando, mas para trás, um pouco mais para o lado, agora para a frente.
Depois o sol finalmente se pôs, apagando o retângulo roxo do chão, uma sombra veio espreitar. Os carros rugiam lá longe, na grande avenida, a quilômetros, a séculos dali. (p.43).
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Uma das coisas de que gosto nesses dois livros de Adriana Lisboa é uma certa intimidade gerada pelo conhecimento de lugares e⁄ou referências a pessoas reais, próximas de meu imaginário, como ocorre com o professor Flávio, de ‘Amor’, um dos micro contos de Caligrafias, ou a passagem em que os personagens Haruki e Celina, de Rakushisha, se conhecem, nos arredores do Largo do Machado e Rua do Catete, bairro ondo moro. O interessante é que a ficção de Machado já deveria ter-me acostumado a ler o nome do bairro impresso em letras literárias, mas na ficção de Adriana há uma outra pulsação, como se o peso da História em Machado tornasse o Catete uma figuração a mais, ao passo que na literatura da jovem escritora carioca a intimidade com o prosaico, a descrição de cenas banais, e com freqüência poéticas, constrói um bairro extremamente próximo, reconhecível com um “ah!, que coisa, eu sei do que ela está falando...”
Como nesses momentos de Rakushisha:
A chuva fina deixava o mundo luminoso diante dos olhos de Haruki. O asfalto puído da Machado de Assis brilhava. Os carros estacionados brilhavam. Folhas de árvores. Grades à entrada dos edifícios. Até o som das coisas brilhava na chuva, as rodas dos carros sobre o asfalto, uma freada brusca e a buzina, o rádio do porteiro.
Era preciso reconhecer e reverenciar esses momentos. Eles eram rápidos e raros. Momentos em que sem nenhum motivo aparente tudo parecia entrar nos eixos, ajustar-se, encaixar-se. Acabavam-se as perguntas e a necessidade delas. Acabava-se a pressa, o ter aonde ir, o vir de algum lugar.
Simplesmente as solas dos sapatos batiam na calçada úmida e pronto, o mundo prescendia de outro significados.
Um pé depois do outro.
Momentos rápidos e raros. Aquele ali se desfez de repente, no cruzamento com a rua do Catete. Haruki notou que perdia alguma coisa, chegou a olhar para trás automaticamente, para ver se dava com um pedaço de si caído na calçada. Mas era o instante que se desmanchava, colher de sal dentro d’água. E Haruki sacudia a colherinha, desmanchava o instante, porque não tinha como ser diferente, se a gente não mata as epifanias elas nos matam, e atravessava a rua na direção familiar da entrada do metrô. (p. 17).
É claro que o “eu sei do que ela está falando” diz respeito a muito mais do que um simples reconhecimento topográfico. Diz respeito igualmente a uma certa dicção ao mesmo tempo simples e forte de sua escrita. Há poesia no que ela escreve, e quase sempre esse é um traço forte; há também, intensamente, um mundo de sensações, de sentimentos às vezes voláteis, percepções agudas de momentos (as chamadas epifanias) que a aproximam, sem dúvida, de Clarice, mas também impõem seu timbre próprio e particular.
Porque a impressão que se tem ao ler Rakushisha, por exemplo, é que Adriana reconhece o débito mas caminha com suas próprias pernas, encontra seu modo próprio de dizer o que quer, o que precisa ser dito. Assim, a história desse encontro entre Celina e Haruki, que se anuncia como uma história típica de amor, mas acaba se transformando em outra coisa, muito mais interessante, a meu ver, porque mais contemporânea, nesse encontro-desencontro próprio dos que vivem meio ‘em trânsito’ (não apenas nos lugares, mas na existência):
E se os nossos encontros não vierem com o rótulo da família, do cartório, da aliança, da hora do jantar, do jornal à porta pela manhã, das compras de supermercado, dos chinelos ao pé da cama, da tábua do vaso do banheiro, das escovas de dente, da biblioteca e da discoteca, dos recados presos na geladeira, das xícaras de café sobre a pia com um círculo preto ao fundo, da toalha de banho habitual, do lugar habitual à mesa, da marca preferida de xampu, da secretária eletrônica, da regulagem da torradeira e do retrovisor do carro, das contas ao final do mês, dos amigos em comum?
E se for preciso assumir a fragilidade de nós mesmos na fragilidade daquilo que somos juntos? Viajantes? (p. 121-22).
Portanto, não é de sentimentos atados, ou eternos, que se trata aqui, mas de pressões, pequenos e profundos sulcos feitos pelas mãos de cada um na existência do outro que lhe perpassa a vida, como os sinais que ela persegue desse poeta, Matsuo Bashô, na Cabana dos Caquis Caídos, ou seus poemas, haicais, nem sempre de fácil entendimento, mas que ela percorre indo e vindo, apreendendo novas possibilidades e compartilhando-as com o leitor. Trata-se, então, também, de uma espécie de bildungsroman, um romance de aprendizagem - das delicadezas da vida.
Assim também os blocos narrativos, os tempos que vão ao passado e vêm ao presente como fluxos, em que a vida dos personagens se tecem aos poucos, se cruzam, se afastam, e tudo faz sentido, tudo é convincente, tudo é vida – e viagem.
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Adriana Lisboa. Caligrafias. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
Adriana Lisboa. Rakushisha. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.
Tilibra 2010
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Aí vai a Tilibra desse ano, sem a qual não vivo. Como se pode observar, caiu água em cima das páginas e eu considerei uma espécie de bênção de Iemanjá, talvez por eu não ter ido pular as sete ondinhas na noite de réveillon. De todo modo, considero-me perdoada e abençoada...:)
Aí vai a Tilibra desse ano, sem a qual não vivo. Como se pode observar, caiu água em cima das páginas e eu considerei uma espécie de bênção de Iemanjá, talvez por eu não ter ido pular as sete ondinhas na noite de réveillon. De todo modo, considero-me perdoada e abençoada...:)
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domingo, 3 de janeiro de 2010
Três filmes
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Nova Iorque, eu te amo vale por algumas das muitas histórias de que se compõe, e também por tantos bons atores que aparecem quase em pontas, de tão pequenas as participações às vezes. Muito boa a do rapaz negro confundido com uma babá, mas que é o pai da menina (branca), e dança lindamente; a do casal de velhinhos - ele, o impagável Eli Wallach, o mesmo ator de O amor não tira férias - e, na verdade, quase o mesmo personagem, ranzinza e mal-humorado, mas muito engraçado; e uma das melhores historietas mostra uma Julie Christie muito semelhante ao papel que fez em Longe dela, uma senhora que lembra e esquece, e que carrega no rosto uma densidade dramática e uma doçura comoventes.
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Gostei muito de Um segredo em família, embora os primerios trinta minutos tenham me parecido um tanto confusos. Depois que o segredo é revelado ao garoto, o filme engrena e fica muito bom, tensão e drama envolvendo a perseguição aos judeus na Segunda Guerra, mas submetidos a uma história de amor forte e convincente, que atravessa gerações. Talvez aí a única nota dissonante - as mudanças físicas dos atores às vezes não acompanham os anos que passaram, mas nem por isso o filme fica diminuído, continua ótimo.
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Já Procurando Elly é um drama muito bom, mas quase absurdo de tão "inteiramente outro", ou seja, trata de valores de uma cultura que está muito distante de mim, inclusive afetivamente. Não consegui empatia com o grupo de casais jovens, que sai para descansar no fim de semana e termina numa casa de praia meio abandonada, com acontecimentos que vão num crescendo até o final hiper dramático.
O que parecia um encontro alegre e movido pela farra acaba virando um dramalhão cada vez mais patético, até chegar as raias do inverossímel, embora eu saiba que tudo aquilo faz parte dos valores da sociedade iraniana. Mas justamente por fazer uma abordagem dos valores de ordem moral que regem o comportamento dos homens com relação às mulheres é que fui ficando cada mais irritada.
Ao fim da projeção, saí com alívio daquele mundo, agradecendo por não ter nascido naquela cultura. De todo modo, ótimas atuações e bom filme, mesmo que não para mim.
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Nova Iorque, eu te amo vale por algumas das muitas histórias de que se compõe, e também por tantos bons atores que aparecem quase em pontas, de tão pequenas as participações às vezes. Muito boa a do rapaz negro confundido com uma babá, mas que é o pai da menina (branca), e dança lindamente; a do casal de velhinhos - ele, o impagável Eli Wallach, o mesmo ator de O amor não tira férias - e, na verdade, quase o mesmo personagem, ranzinza e mal-humorado, mas muito engraçado; e uma das melhores historietas mostra uma Julie Christie muito semelhante ao papel que fez em Longe dela, uma senhora que lembra e esquece, e que carrega no rosto uma densidade dramática e uma doçura comoventes.
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Gostei muito de Um segredo em família, embora os primerios trinta minutos tenham me parecido um tanto confusos. Depois que o segredo é revelado ao garoto, o filme engrena e fica muito bom, tensão e drama envolvendo a perseguição aos judeus na Segunda Guerra, mas submetidos a uma história de amor forte e convincente, que atravessa gerações. Talvez aí a única nota dissonante - as mudanças físicas dos atores às vezes não acompanham os anos que passaram, mas nem por isso o filme fica diminuído, continua ótimo.
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Já Procurando Elly é um drama muito bom, mas quase absurdo de tão "inteiramente outro", ou seja, trata de valores de uma cultura que está muito distante de mim, inclusive afetivamente. Não consegui empatia com o grupo de casais jovens, que sai para descansar no fim de semana e termina numa casa de praia meio abandonada, com acontecimentos que vão num crescendo até o final hiper dramático.
O que parecia um encontro alegre e movido pela farra acaba virando um dramalhão cada vez mais patético, até chegar as raias do inverossímel, embora eu saiba que tudo aquilo faz parte dos valores da sociedade iraniana. Mas justamente por fazer uma abordagem dos valores de ordem moral que regem o comportamento dos homens com relação às mulheres é que fui ficando cada mais irritada.
Ao fim da projeção, saí com alívio daquele mundo, agradecendo por não ter nascido naquela cultura. De todo modo, ótimas atuações e bom filme, mesmo que não para mim.
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na real
Hoje resolvi fazer programa de turista e como o dia estava lindo merecia uma ida ao bondinho do Pão de Açúcar.
Concluímos isso eu e centenas de turistas que faziam uma fila quilométrica para o mesmo lugar.
Dei meia volta, claro, e caí na real - o Rio nesse momento é quase só deles.
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Concluímos isso eu e centenas de turistas que faziam uma fila quilométrica para o mesmo lugar.
Dei meia volta, claro, e caí na real - o Rio nesse momento é quase só deles.
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