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quarta-feira, 7 de novembro de 2012
Gonzaga, Gonzaguinha - nossas histórias
E Luiz Gonzaga - de pai para filho foi uma viagem intensa ao coração do país, à cultura musicial onde vivi na infância - meu pai amava o Gonzaga e todas as canções dele fazem parte de meu imaginário afetivo. Além disso, tem o próprio sertão, a cidade de Exu, de onde vem e para onde volta o cantor em momentos distintos da carreira e da vida, e o filme caminha por aqueles mundos secos e ermos - também me lembro desse universo, estive ali até os sete anos, quando vim para o Rio, e tudo aquilo é parte de um momento fundador para mim.
Além disso, a escolha pelo foco da relação entre pai e filho não poderia ser mais acertada: Gonzaguinha é tambem parte de uma história pessoal e política, suas canções carregam sempre a emoção de falar de uma época dura, são gritos de uma geração de que fiz parte, com ele gritei e dancei todos os sons, todos os protestos - e o filme dá a dimensão da tragédia que foi perdê-lo num acidente de carro tão jovem, com tanto a fazer ainda em sua arte. Quando ele solta a voz nesses versos não há como não se emocionar intensamente.
O filme acerta em tudo, até mesmo ao carregar no drama dessa reaproximação entre pai e filho, além de ter conseguido atores absolutamente convincentes e muitíssimo parecidos com seus personagens: Gonzaga adulto, vivido pelo desconhecido (para mim) Nivaldo Expedido não apenas parece muito com o cantor nordestino, como tem um ar doce e maroto, que lhe faz parecer quase um sósia do original; o mesmo se pode dizer do ator que faz Gonzaguinha (Julio Andrade), conseguiu uma caracterização absurdamente semelhante ao cantor, na seriedade da expressão, na tristeza que o acompanha desde a infância, e que se pode compreender então de onde vem - tudo perfeito. Um filme de resgate não apenas do vínculo entre pai e filho, o que ele faz; mas também de aproximação com um núcleo de nossa cultura que está lá, acho que em todos nós, desde sempre.
E mais um dos motivos de orgulho: ninguém sai enquanto os créditos (longos) aparecem na tela porque é ao som de uma canção de Gonzaguinha (O que é, o que é, não tenho certeza), e eu fico ali olhando como crescemos em termos de indústria de cinema - pra mim, que sou leiga, olhar e ver aquele mundo de gente que tornou possível esse trabalho, e as subdivisões em Unidades várias, como nos créditos de filmes estrangeiros - Unit 1 etc - me deu a dimensão de uma indústria nossa, e super, mega profissional - muito orgulho de estar vendo isso acontecer.
E pra terminar, enquanto eu olhava os créditos e as lágriamas desciam, porque Gonzaguinha cantava e me ressituava no (meu) tempo e no modo como eu o vivera, uma senhora a meu lado também não arredava o pé - ou melhor, os pés, dançando alegre e animadamente. Eu devia ter ido com ela àquele show - teria aprendido a expressar mais as emoções pela dança, quem sabe.
sexta-feira, 19 de outubro de 2012
Sudoeste
Nem vou me atrever a comentar extensivamente esse filme, porque não conheço cinema nesse nível que ele propõe. Acho que é um trabalho que estudiosos da área vão reconhecer como obra de arte, certamente, até eu mesma reconheço esse traço nele.
Percebo também que o preto e branco é necessário para contar essa história, mas não sei a função do granulado na película, que surge com frequência, talvez para marcar um tempo mais remoto, o 'há muito tempo', mas não estou certa.
De todo modo, não é um filme fácil, mas é uma experiência de intensidades, de fotografia belíssima, atuações fortes e precisas das atrizes: Simone Spoladore, Léa Garcia, Mariana Lima e Dira Paes estão todas plenas - pareceu-me um filme de mulheres fortes e trágicas. Os dois atores são coadjuvantes dessas mulheres, dessas histórias que elas representam de modo tão denso, veraz e voraz. Os olhares dizem muito (o de Léa Garcia, na cena de abertura, o de Dira Paes, mesmo o da menina em vários momentos). A tragédia nesse filme pertence ao universo feminino, faz parte de certos aspectos de sua condição, e de seu estar naquele mundo - no isolamento fundamental em que se encontram. Mais não conseguiria dizer.
Percebo também que o preto e branco é necessário para contar essa história, mas não sei a função do granulado na película, que surge com frequência, talvez para marcar um tempo mais remoto, o 'há muito tempo', mas não estou certa.
De todo modo, não é um filme fácil, mas é uma experiência de intensidades, de fotografia belíssima, atuações fortes e precisas das atrizes: Simone Spoladore, Léa Garcia, Mariana Lima e Dira Paes estão todas plenas - pareceu-me um filme de mulheres fortes e trágicas. Os dois atores são coadjuvantes dessas mulheres, dessas histórias que elas representam de modo tão denso, veraz e voraz. Os olhares dizem muito (o de Léa Garcia, na cena de abertura, o de Dira Paes, mesmo o da menina em vários momentos). A tragédia nesse filme pertence ao universo feminino, faz parte de certos aspectos de sua condição, e de seu estar naquele mundo - no isolamento fundamental em que se encontram. Mais não conseguiria dizer.
quarta-feira, 19 de setembro de 2012
Tropicália
Achei meio 'acabado' como documentário, a maior parte do material está quase sem tratamento, com visual muito prejudicado, mas isso tem seu encanto retrô, claro.
Algumas cenas são emocionantes, outras desnecessárias, e a mais emocionante para mim é ver Caetano - sempre ele - cantando à capela uma canção no exílio que eu juro que sabia o nome e acabei de esquecer - mas não dá pra esquecer seus olhos lindissimamente tristes, de uma tristeza infinitamente bela. Tom Zé continua a falar coisas que eu - modestamente - não atino com o sentido, nunca atinei. As musas Gal e Bethânia, lindas, Gal com a voz na melhor potência, perfeita - sempre bate uma nostalgia, não tem jeito. Na rápida menção à passeata dos 100 mil, por exemplo, e sempre que vejo algum doc sobre ela tento me ver ali, e olha que eu tive a maior dificuldade para ir, tinha medo da multidão (hoje não sei se ainda tenho medo, mas não gosto de jeito nenhum). Depois de toda aquela festa de liberdade, todos pro Amarelinho, que ninguém é de ferro. Oh, tempos - bons e jovens e ávidos... enfim.
Pareceu que o final rende um tributo aos dois grandes cofundadores do movimento, Cae e Gil, no modo como ambos olham em retrospectiva para as imagens, com ar entre a surpresa e a aprovação, mas a cena final em que Caetano reconhece a mãe que passa brevemente na tela, sobretudo se se pensa que ela está completando esse mês cento e cinco anos, é muito lindinha (aliás, tenho o maior carinho pela dona Canô, e achei a foto de Bethânia beijando seu rosto de uma beleza comovente, por isso reproduzo a foto aqui). As canções todas são pura nostalgia, e lindas. No cômputo geral, gostei de ver.
Edgar de Souza / AgNews
domingo, 12 de agosto de 2012
À beira do caminho
É quando ele se depara com um menino escondido dentro do seu caminhão, e não o abandona, como parece sua intenção inicial. Ele é um cara dos 'abandonos' - vai largando as coisas, as pessoas, as cidades, tudo que dói ele acha que se deixar pra lá deixa de doer. Mas ele pega o garoto, dá essa carona e a vida se infiltra junto com ele, vai corroendo a morte no sorriso do garoto, na presença apenas dele.
Nesse momento, uma outra história está apenas começando, e ela vale a pena ser contada, e vale a pena ser vista - e ouvida. Há muito de brega na dor excessiva, em qualquer dor excessiva, e quando as canções de Roberto Carlos a pontuam é perfeito, nós reconhecemos aquele universo, qualquer um de nós, brasileiros de qualquer idade (acho), tem em sua história pessoal uma melodia dele, que (re)conta algum momento de nossa vida. No filme, as canções são inscrições na alma do homem, em sua história de amor e de perda, e elas nos tocam porque são nossas também, nos pertencem de algum modo, e nos assuminos bregas com fervor, muito bom tudo aquilo.
E João Miguel, que vive o homem perdido e achado, visceral numa entrega comovente e bela; o menino é o ótimo Vinicius Nascimento - que convence, nos passa tudo que precisa passar, mesmo as reticências e os silêncios necessários; e Dira Paes, maravilha da natureza, rosto iluminado e forte numa das cenas mais bonitas de amor. Muito bom filme, muito nós mesmos, e é bom nos ver no cinema.
PS: Fiquei acompanhando os créditos no final para tentar saber quem eram os intérpretes de algumas canções - não os vi, mas fiquei pasma com a quantidade de gente que tornou possível esse filme, são muitas, uma multidão - impressionante como precisa de gente para fazer acontecer uma obra.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Santoro etc
O filme O que esperar quando você está esperando, com Santoro e Jennifer e a turma toda de pais e mães que se reúnem para compartilhar alegrias e incômodos de gestações, filhos pequenos et caterva é uma comédia ótima em sua leveza e personagens engraçados, trapalhões, alegres, simples - enfim, um filme que se vê como distração de primeira, onde todo mundo faz direito as ações simples que o diretor pede. Tudo funciona, e a gente sai feliz por ver o Santoro trabalhando tão corretamente e enturmado com a galera. Ele está onde quer estar, e o faz muito bem.
Já A primeira coisa bela achei meio devagar e não daria mesmo as cinco estrelas que a revista que assino lhe confere. A mulher é só muito alegre e bonita, não parece suficiente para ter deixado como herança tanto trauma no filho, faltou a ele uma boa terapia, mas já era pra ser encucado mesmo, com ou sem mãe 'excessiva'.
Sobre Batman, o cavaleiro das trevas ressurge: sempre soube que há matérias pagas na Veja, tive contato escancarado com esse fato quando Hilda Hilst morreu e logo depois uma longa matéria na revista alçou Lya Luft ao patamar de imensa esritora brasileira, que ela não é, na singela opinião de quem leu sua obra ficcional (romances) e escreveu um longo ensaio sobre ela (há vários anos). Na ocasião, fiquei muda de espanto e dor, como se a memória de Hilst tivesse sido brutalmente traída. Depois, entendi que Lya não tinha de ser indigitada por coisa alguma, os dois fatos não se misturam: Hilda morreu, lástima completa para todos nós e para a literatura brasiliera, ponto. Lya conseguiu na mesma época uma excelente agente que a colocou como cronista da Veja, com ampla matéria de capa de várias páginas, e onde ela escreve semanalmelnte com galhardia, diga-se de passagem.
Isso para dizer que fui ver Batman porque a resenha de Isabela Boscov na revista - como ela escreve bem, como admiro quem escreve assim! - era uma ode a sua grandeza e magnificência, como se esse terceiro filme coroasse com honras essa grande obra em progresso. Bom, a Boscov escreveu, eu acredito. Não era. Não foi. Não é. Achei ruim o filme, de uma violência muito grande, e a cena inicial que ela acha admirável não passa, para mim, de atrocidade gratuita - jogar gente de avião voando não tem absolutamente nada de grandioso ou belo. O filme é um mega jogo de videogame, com um psicopata horroroso detonando a cidade, um pouco como, em menor escala, ocorreu na cena real de um cinema em Denver, Colorado, na estréia desse filme, onde pelo menos doze pessoas morreram, como todos vimos. Ou seria o contrário, ou seja, o psicopata achou que o filme sobre o psicopata era real e resolveu copiar, ou ... enfim. E o final me pareceu totalmente estapafúrdio - tudo bem que invenção a gente precisa desligar o sensor de realidade, mas a paixão daqueles dois personagens no final, em que o monstruoso Bane se revela o amor da vida de uma personagem, e isso totalmente out of the blue, não cola de jeito nenhum. O filme só se salva, com todas essas restrições, pela bela Anne Hathaway, nem mesmo o Bale está assim com esse poder todo. E a Boscov será lida agora com todo cuidado - sempre terá um estilo admirável, mas o que diz deverá ser mediado e meditado por esta escriba antes de ser levado a sério.
Já A primeira coisa bela achei meio devagar e não daria mesmo as cinco estrelas que a revista que assino lhe confere. A mulher é só muito alegre e bonita, não parece suficiente para ter deixado como herança tanto trauma no filho, faltou a ele uma boa terapia, mas já era pra ser encucado mesmo, com ou sem mãe 'excessiva'.
Sobre Batman, o cavaleiro das trevas ressurge: sempre soube que há matérias pagas na Veja, tive contato escancarado com esse fato quando Hilda Hilst morreu e logo depois uma longa matéria na revista alçou Lya Luft ao patamar de imensa esritora brasileira, que ela não é, na singela opinião de quem leu sua obra ficcional (romances) e escreveu um longo ensaio sobre ela (há vários anos). Na ocasião, fiquei muda de espanto e dor, como se a memória de Hilst tivesse sido brutalmente traída. Depois, entendi que Lya não tinha de ser indigitada por coisa alguma, os dois fatos não se misturam: Hilda morreu, lástima completa para todos nós e para a literatura brasiliera, ponto. Lya conseguiu na mesma época uma excelente agente que a colocou como cronista da Veja, com ampla matéria de capa de várias páginas, e onde ela escreve semanalmelnte com galhardia, diga-se de passagem.
Isso para dizer que fui ver Batman porque a resenha de Isabela Boscov na revista - como ela escreve bem, como admiro quem escreve assim! - era uma ode a sua grandeza e magnificência, como se esse terceiro filme coroasse com honras essa grande obra em progresso. Bom, a Boscov escreveu, eu acredito. Não era. Não foi. Não é. Achei ruim o filme, de uma violência muito grande, e a cena inicial que ela acha admirável não passa, para mim, de atrocidade gratuita - jogar gente de avião voando não tem absolutamente nada de grandioso ou belo. O filme é um mega jogo de videogame, com um psicopata horroroso detonando a cidade, um pouco como, em menor escala, ocorreu na cena real de um cinema em Denver, Colorado, na estréia desse filme, onde pelo menos doze pessoas morreram, como todos vimos. Ou seria o contrário, ou seja, o psicopata achou que o filme sobre o psicopata era real e resolveu copiar, ou ... enfim. E o final me pareceu totalmente estapafúrdio - tudo bem que invenção a gente precisa desligar o sensor de realidade, mas a paixão daqueles dois personagens no final, em que o monstruoso Bane se revela o amor da vida de uma personagem, e isso totalmente out of the blue, não cola de jeito nenhum. O filme só se salva, com todas essas restrições, pela bela Anne Hathaway, nem mesmo o Bale está assim com esse poder todo. E a Boscov será lida agora com todo cuidado - sempre terá um estilo admirável, mas o que diz deverá ser mediado e meditado por esta escriba antes de ser levado a sério.
sábado, 14 de julho de 2012
Na estrada
On the road, do Walter Salles, é um filme interessante, bem feito, com excelentes atuações, até mesmo da quase sempre inexpressiva Kristen Stewart, mas a história dessas almas à procura de sentido tem data, esse existencialismo, filmado com cuidadosa atenção ao texto do Kerouac, já expirou, e as questões que eles discutem atiçam menos minhas emoções. E podia ter sido um pouquinho mais editado, ficou longo e um tanto cansativo em alguns momentos.
Além disso, é um filme de rapazes, para rapazes, entre rapazes - mulheres só entram com a contribuição milionária de seus órgãos genitais: boas putas*, que nem assim conseguem apaziguar a fome de mais sexo, drogas e experiências novas passíveis de ser encontradas em sempre outros e diversos lugares. Nesse sentido, ao expressar a insatisfação intrínseca dessa geração, o filme de Salles encontra seu mais legítimo lugar na minuciosa escuta, e expressão fílmica, da obra de Kerouac que, por sua vez, dá voz ao vazio existencial e geracional do pós guerra, cuja saída se apresentou como a de ir comendo a terra e a estrada, adentrando o país para buscar, no percurso, imprimir algum sentido ao caos, ao que ainda não tinha forma, nem peso.
Tanto o livro (que li na juventude, como quase toda minha geração), quanto o filme exploram esse vigor do desespero, o desejo insano de fazer um sentido que, naquele momento, poderia estar resiliente na palavra escrita, mais precisamente na literatura. E é sobre isso também que trata o filme - ao mesmo tempo que a turma de perdidos come a estrada em busca de preencher o vazio, as palavras vão se tornando mais e mais as parceiras necessárias ao protagonista. Nesse tempo, a literatura ainda tinha o peso e a força de uma possível redenção, ou se apresentava como a outra via, mais satisfatória talvez, à corrida para o nada que a estrada aparentava.
Percebe-se em cada trabalho de interpretação um cuidado extremado, e neles, nos atores, reside uma de suas melhores qualidades: Viggo Mortensen faz uma quase ponta como Old Bull Lee, alter ego de William S. Burroughs, e no pouco tempo em que aparece resplandece, fica depois na memória tudo que fez, o modo como se moveu, falou, a marca do grande momento de interpretação, do grande ator; Kristen Stewart, pela segunda vez, me convenceu de que é uma atriz e não apenas a eterna adolescente-perdida-por-vampiros da saga que lhe deu fama e fortuna - a primeira vez em que a vi atuando de verdade foi em 'Corações perdidos' ('Welcome to the Rileys'), que passou aqui em junho do ano passado. Ela está muito bem, solta os bichos todos em vários - e necessários - momentos, dançando e transando; tanto Tom Sturridge, que faz um jovem Carlo Marx (alterego de Allen Ginsberg) perdido de amores pelos versos e de ciúmes de Dean e suas paixões vorazes; quanto Garrett Hedlund, que faz Dean Moriarty (alter ego de Neal Cassidy), e o protagonista Sam Riley, que vive Sal Paradise/Jack Kerouac, trabalham de modo visceral, percebe-se neles todos a entrega ao projeto de ser e estar inteiros nas emoções, nos excessos, na vontade de ser aqueles indivíduos perenemente perdidos, em busca mais de si mesmos do que de respostas às tão infindáveis questões quanto as estradas que não se cansam de percorrer. Não é só a América que eles percorrem - sua voracidade é por todos os caminhos, sobretudo os que poderiam levar a si mesmos, a alguma coisa de consistente em si mesmos. As outras mulheres, além da Marylou de Stewart, passam mais depressa pelas vidas deles e pelas telas - Kirsten Dunst (eterna fascinação de 'Melancolia'); Alice Braga; Amy Adams; Elisabeth Moss. Como já disse, o filme é deles, de um tempo em que o sentido da vida social ainda latejava em calças jeans apertadas, cigarros intensos e buscas desesperadas pelo amigo mais próximo - e, aqui, qualquer maneira de amor não apenas vale a pena, como é rito de salvação.
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* Está certo, Dean Moriarty é quem faz sexo por dinheiro (e um sexo, além de tudo, que ele acha meio desprezível) e seria então 'the real whore', mas parece que essa categoria não deve ser e talvez não possa ser aplicada àqueles seres, homens e mulheres, que estavam em busca de algo muito mais transcendental (acho que o termo aqui se mostra adequado, quando pensado para aqueles loucos tempos), de modo que o sexo era apenas uma das radicais experimentações dos sentidos, das sensações, dos prazeres extremos de que eles e (algumas) elas estavam em busca frenética, e que se mostrava necessário ao conhecimento do mundo e de si.
Nesse sentido, a posição de Marylou parece então, ao contrário do que afirmei, altamente transgressora, ao infringir todos os códigos esperados para uma mulher de seu tempo, além de se mostrar antípoda da 'mulher do lar' (em que se deixa enredar Camille, por exemplo, a mulher com quem se casa Moriarty, e personagem de Dunst, para ser muito infeliz), da mulher que fica à espera do homem. Cair na estrada com os bad boys era poder vivenciar experiências de transgressão impensáveis para sua situação de gênero então. Mas vou manter a expressão errada lá em cima, que me permitiu essa retificação fundamental, porque continuo - hoje, com meus olhos adestrados por várias décadas de conquistas importantes no campo feminista - com a sensação de que a Marylou, se aproveitou para si de modo radical a viagem 'dos meninos', se aderiu e tirou proveito das transgressões todas, também serviu de objeto sexual (ativo, sem dúvida, mas objeto) para os divertimentos entre os machos. A cena de sexo entre os três parece disso exemplar: é Marylou quem pede a Dean a presença do amigo na cama, mas acho que ali a coisa forte rola muito mais entre os dois homens do que entre ela e eles. Para Dean, ela é a 'xana mais gostosa de todo o estado' (a frase é mais ou menos essa); já com Sal ele quer aprender a escrever, ele quer 'viajar' até o fim do mundo, ele se mostra seduzido e embevecido. Ele o ama, mesmo o abandonando com febre numa espelunca de beira de estrada, porque é irresponsável. Enfim, essa é uma conversa sem fim...
sábado, 5 de maio de 2012
Dois filmes
Estou detestando esse novo leiaute que me enfiaram goela abaixo, oh chatice!
Mas sobre Paraísos artificiais, me pareceu mais um erótico-pornô-bicho-grilo-nostálgico-de-Woodstock, ou apenas um filme pra mostrar a juventude dourada que cheira, bebe e toma todas as pílulas pra viver e transar... não sei, mas fiquei assim meio afastada, olhando de longe esse universo do qual não faço parte, e que não me interessa tanto, tive a sensação de uma coisa um tanto antiga, meio anos 60, sei não, aí taca de fazer as meninas lindas e os meninos idem transarem todas, porque são jovens, livres e ávidos por novas e insensatas experiências... me perguntei algumas vezes: é só isso? Achei pouco, e as atuações são medianas, embora o moço lindo tenha algumas expressões convincentes, o mesmo não achei da Dill, que mais é bela do que atriz que me tenha convencido. Mas posso apenas não ter entrado no universo do filme, não sei.
Já a Camila Pitanga, que também vive cenas quentíssimas em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, e aparece belissimamente nua, convence inteiramente como grande atriz - acho mesmo que é o melhor trabalho dela no cinema (o que não significa muito porque não vejo novela e não sei como ela tem atuado em TV), mas ela fez outro filme muito bom com o Lázaro Ramos (Saneamento básico, o filme, 2007) e estava muito bem também. Aqui dá show de bola, e o ator que faz o amante (Gustavo Machado) idem, além do filme ser ótimo, gostei demais, e nem liguei pro momento 'libelo social', um discurso bobíssimo que fica meio solto na história, mas é rápido e não prejudica o todo, na minha singela opinião.
Mas sobre Paraísos artificiais, me pareceu mais um erótico-pornô-bicho-grilo-nostálgico-de-Woodstock, ou apenas um filme pra mostrar a juventude dourada que cheira, bebe e toma todas as pílulas pra viver e transar... não sei, mas fiquei assim meio afastada, olhando de longe esse universo do qual não faço parte, e que não me interessa tanto, tive a sensação de uma coisa um tanto antiga, meio anos 60, sei não, aí taca de fazer as meninas lindas e os meninos idem transarem todas, porque são jovens, livres e ávidos por novas e insensatas experiências... me perguntei algumas vezes: é só isso? Achei pouco, e as atuações são medianas, embora o moço lindo tenha algumas expressões convincentes, o mesmo não achei da Dill, que mais é bela do que atriz que me tenha convencido. Mas posso apenas não ter entrado no universo do filme, não sei.
Já a Camila Pitanga, que também vive cenas quentíssimas em Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios, e aparece belissimamente nua, convence inteiramente como grande atriz - acho mesmo que é o melhor trabalho dela no cinema (o que não significa muito porque não vejo novela e não sei como ela tem atuado em TV), mas ela fez outro filme muito bom com o Lázaro Ramos (Saneamento básico, o filme, 2007) e estava muito bem também. Aqui dá show de bola, e o ator que faz o amante (Gustavo Machado) idem, além do filme ser ótimo, gostei demais, e nem liguei pro momento 'libelo social', um discurso bobíssimo que fica meio solto na história, mas é rápido e não prejudica o todo, na minha singela opinião.
sábado, 24 de março de 2012
Eu sou a mosca...
Tudo no documentário do Walter Carvalho Raul - o início, o fim e o meio é ótimo: a escolha dos diversos depoimentos, em que se destacam os das mulheres de Raul, através de quem ficamos sabendo que ele devia ser um amante interessantíssimo, e uma pessoa difícil no auge do vício; o de Paulo Coelho, corajoso em certa medida, e sereno ao assumir publicamente ter sido o responsável por apresentar as drogas ao amigo; o de Caetano, de algum modo avalizando a postura do músico que tirou Raul do semi- esquecimento em que ele se encontrava, e sobre quem pairava a pecha de ter-se aproveitado do artista em seu final de vida.
A montagem é primorosa, porque busca ser imparcial com as visões e leituras tanto das várias mulheres com quem ele viveu, quanto dos parceiros musicais, dos amigos, dos fãs e seguidores, dos que o conheceram ou acompanharam sua carreira. Foi emocionante em vários momentos, não apenas por retratar indiretamente um pedaço da história que eu também vivi, mas por compor um perfil do cantor a partir de um mosaico de situações, sempre de forma irretocavelmente ética, honesta, íntegra, empenhando-se em compor as diversas facetas dessa figura especial, bem como seu lugar na história da música brasileira. Foi ótimo conhecê-lo melhor, ouvir de novo as canções que cantamos com força e fé na juventude, e ser de novo tocada pelas visões e deslumbramentos dessa metamorfose ambulante.
E a cena do Paulo Coelho com a mosca é emblemática e perfeita, sob diversos pontos de vista: o inseto aparecer num lugar em que ele não existia (e eu acredito nisso); a montagem feita, de modo a permitir um caminhão de leituras, especialmente pelo que o escritor significou na vida do Raul e pelo tipo de escolhas que fez posteriormente em sua vida (dizer-se um mago; escrever livros medíocres e tornar-se podre de rico; usar em sua literatura esse pretenso conhecimento esotérico etc, etc); a mosca que vai e vem, e que ele - Paulo - reluta em matar, mas que desmente de modo brusco e repentino, enfim, tudo parece ter sido um golpe de sorte mais que perfeito - para o filme, para a cena, para as (possíveis) interpretações.
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terça-feira, 6 de março de 2012
Dois filmes
Trouxe os dois filmes brasileiros para cá só para organizar melhor.
Billi Pig: quando eu ainda estudava coisas teóricas, fiz com Affonso Romano de Sant'Anna um curso sobre Carnavalização, com apoio na obra de Bakhtin. Naquele então, já achava que tal teoria era uma espécie de prêt-à-porter, servia a inúmeras situações no terreno de qualquer forma de arte em que a ordem estivesse virada de ponta cabeça, e no Brasil não faltam 'espaços' ou 'objetos artísticos' para exemplificá-la. Isso tudo para dizer que o máximo onde posso chegar para entender a intenção de Billi Pig é por aí, só que um pouco mais - como direi - folgazã? Senão o que será o filme? Uma chanchada non-sense? Talvez. Divertido? Poucas vezes. Engraçado? Alguns momentos. Bons intérpretes? Bons, mas como falam um texto muito doido, quase nada (me) convenceu. Enfim, acho que se pode fazer melhor, muito melhor, com tantos atores tarimbados, juntos com a bela Grazzi.
Reis e ratos: o que é esse filme? Não entendi para onde ele quer ir, não vi quase graça nenhuma nele, e um personagem não pode ser mais repulsivo, no sentido de nojento, do que o de Rodrigo Santoro, mas também não tem muito sentido, aliás, quase nada faz assim um sentido muito grande, acho que ele é absolutamente dispensável na carreira dos três atores.
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sexta-feira, 20 de janeiro de 2012
Tom Jobim forever
A música segundo Tom Jobim é EXTRAORDINÁRIO. E cada letra dessa palavra pode ser lida como um verso, uma nota, uma canção, um barulho, um marulho, um aceno. Além disso, há História de ponta a ponta, minha história, pelo menos, aquela em que eu estive presente, em alguns momentos, por contiguidade temporal, se isso existe. E há as magníficas cantoras, músicos, cantores - o filme abre com uma Gal deslumbrante, a Gal de quem fui fanzoca assumida (eu e toda a minha geração), nossas melhores vozes interpretando Jobim, e também Sinatra, algumas grandes divas do jazz, pelo menos um pianista magistral (Oscar Peterson, acho), enfim um filme lindíssimo, emocionante, sobretudo para quem reconhece as vozes, os rostos, os traços do tempo, e os ama.
Esse filme me deu, pela primeira vez de modo claro e intenso, a percepção da importância de se deixar um legado, qualquer legado, para o tempo que virá depois que desaparecermos. Entendi por inteiro a força da arte, por que ela é necessária a cada um de nós. E vi de modo novo que se a arte tem essa função - fundar um sentido de pertencimento em quem fica - cada pessoa importa, cada vida importa, por mais simples que ela tenha sido. E todos aqueles que já morreram e que aparecem no filme (a maioria) estão mais vivos e mais presentes hoje em minha vida do que jamais.
Desse filme, nasceu a vontade e a necessidade de usar o tempo que me resta em alguma coisa que possa pertencer a todos, ou pelo menos, a todos que me viram nesse mundo e souberam que eu existi. Não sei o que seria isso, mas vou tentar encontrar.
Nelson Pereira dos Santos, Dora Jobim e Tom: toda beleza que há.
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Esse filme me deu, pela primeira vez de modo claro e intenso, a percepção da importância de se deixar um legado, qualquer legado, para o tempo que virá depois que desaparecermos. Entendi por inteiro a força da arte, por que ela é necessária a cada um de nós. E vi de modo novo que se a arte tem essa função - fundar um sentido de pertencimento em quem fica - cada pessoa importa, cada vida importa, por mais simples que ela tenha sido. E todos aqueles que já morreram e que aparecem no filme (a maioria) estão mais vivos e mais presentes hoje em minha vida do que jamais.
Desse filme, nasceu a vontade e a necessidade de usar o tempo que me resta em alguma coisa que possa pertencer a todos, ou pelo menos, a todos que me viram nesse mundo e souberam que eu existi. Não sei o que seria isso, mas vou tentar encontrar.
Nelson Pereira dos Santos, Dora Jobim e Tom: toda beleza que há.
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