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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Child of God

Criança de Deus (Child Of God), EUA, 2013. Dir: James Franco - Nota: 9

O filme é muito bom, na verdade um tour de force do ator Scott Haze, que leva o filme inteiro em sua interpretação brutal, na pele de um homem que perdeu o pai aos dez anos e, vivendo a esmo e no ermo da cidadezinha, vai-se tornando cada vez menos um homem, e cada vez mais um sujeito doente de solidão, que o leva aos poucos a uma forma de loucura, mas com um sentido agudo de sobrevivência, buscando descobrir como sair das situações difíceis que aquela sua existência comporta. A partir de um certo momento, esse estado esgarça-se, e ele se aproxima de práticas mais bestiais, e será desse lugar, em que todos os sentidos retesam-se para garantir a sobrevivência, que ele se vê um quase selvagem, matando a sangue frio para manter sua recém descoberta possibilidade amorosa: a necrofilia.

O modo como o diretor James Franco apresenta sua história não permite ao espectador julgar as ações desse (quase) homem de um ponto de vista das normas sociais – ele é acompanhado pela câmera, pulando e caçando, evacuando e matando um bicho aqui e ali para alimentar-se, de modo que quando ele mata um homem quase sem pensar,e depois a mulher, não há aparentemente nenhuma mudança brusca – o pássaro morto mata sua fome de comida; a mulher morta mata sua fome de sexo e de amor. Assim, acompanhamos sua degradação na escala humana, rumo a seu estado mais duro e mais brutal, ao mesmo tempo em que vai-se movendo para o mais fundo da caverna, achando os buracos onde se abrigar e guardar os que lhe aprouveram amar - a mulher, os bichos de pelúcia.

Mas perder é de sua natureza de ser híbrido - entre bicho e gente, então ele perde o braço. Mas não a vida. Essa segue a trilha dentro das pedras, por um caminho que só os íntimos da natureza conhecem, e ergue-se por fim em meio a uma campina vasta – essa cena final, em que ele corre e grunhe de alegria, mostra um ser que caminha para um lugar indecidível na escala dos valores humanos, talvez. O que ele será ou fará, a partir de então, só pode ser dito em relatos de lendas, escritas ou filmadas. Ele adentra, para nós, sua mais funda, e terrível, invenção.

Um grande filme, em que se percebe como Franco acertou ao deixar seu ator agir, e filmá-lo quase como o documentário de uma loucura anunciada. E sem esse ator, sem essa entrega absurda e visceral do ator ao personagem, não haveria o filme sobre essa gestação de insanidade por absoluta falta de tudo - passo a passo. Muito bom, e muito terrível.

(Apenas um detalhe, de pouca importância, talvez, soou falso, mas mesmo esse ambíguo mínimo detalhe serve ao filme, ou seja, diz que ali há representação, e é disso que se trata aqui, visceralmente: os dentes quase sempre expostos do ator desmentem a vida selvagem do personagem, em sua perfeição e brancura).