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quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Com ela

Tempo.
Melhor esperar com ela do que sozinho, nessa tela em branco: Wislawa Szymborska.


Alguns gostam de poesia

Alguns —
quer dizer que nem todos.
Nem sequer a maior parte mas sim uma minoria.
Não contando as escolas onde se tem que,
e quanto a poetas,
dessas pessoas, em mil, haverá duas.

Gostam —
mas gosta-se também de sopa de espaguete,
dos galanteios e da cor azul,
do velho cachecol,
brindar à nossa gente,
fazer festas ao cão.

De poesia —
mas que é isso a poesia?
Muitas e vacilantes respostas
já foram dadas à questão.
Por mim não sei e insisto que não sei
e esta insistência é corrimão que me salva.


__________
Tradução de Júlio Sousa Gomes, publicada no livro Paisagem com Grão de Areia, Lisboa: Relógio d’água, 1996.

NOTA: cento e sessenta e oito pessoas, em tese, passaram por aqui desde que deixei o poema dela e me afastei. Só um deixou comentário. O que será que isso signfica? E de onde vem esse povaréu todo, o que buscam aqui? - que coisa mais esquisita. (Isso foi ontem, 17/09, terça-feira.


Hoje, quarta, 18/09, já são cento e setenta e três almas penadas a vagar por aqui. Não entendo como podem chegar tantos fantasmas apenas farejando um título tão comum: 'com ela'. Mais do que isso não posso atinar, a não ser um delírio coletivo.

Domingo, 22/09 = 199 almas penadas passaram por aqui, caracas. Enfim.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Esboço de leitura - poemas de uma polonesa


Certa gente


Certa gente fugindo de outra gente.
Em certo país sob o sol
e algumas nuvens.

Deixam para trás certo tudo o que é seu,
campos semeados, umas galinhas, cães,
espelhos nos quais agora se fita o fogo.

Trazem às costas trouxas e potes
quanto mais vazios tanto mais pesados a cada dia.

No silêncio alguém cai de exaustão,
na algazarra alguém rouba de alguém o pão
e o filho morto de alguém é sacudido.

À sua frente uma estrada sempre errada,
uma ponte, mas não a de que precisam,
sobre um rio curiosamente rosado.
Ao redor uns disparos, ora mais perto, ora mais longe,
no alto um avião meio rodopiante.

Viria a calhar certa invisibilidade,
uma parda rochosidade
ou melhor ainda a inexistência
por um tempo breve ou mesmo longo.

Algo ainda vai acontecer, mas onde e o quê.
Alguém vai lhes barrar o caminho, mas quando, quem,
em quantas formas e com que intenções.
Se tiver escolha,
talvez não queira ser inimigo,
e os deixe com alguma vida.    [p. 105-6]


Com certa nostalgia de uma nova função, que ainda não encontrei, peguei esse poema da senhora  Szymborska, poeta polonesa cuja obra vem recebendo calorosa acolhida, em vários espaços, e tentei entender por que a gente diz que a poesia dela é muito boa, de tal modo a levá-la ao Nobel em 1996, e cuja morte recente aumenta o interesse por seu trabalho.

Diria que esse poema é muito bom sobretudo por causa do tom - uma certa neutralidade utilizada para falar de um tema candente: os flagelados pelas guerras. E isso começa pelo título: 'certa' gente não é um povo específico, uma gente específica - é indefinida, pode ser qualquer gente - eles, nós, talvez. E nessa dúvida - nós? - já estamos dentro do poema.

Ao longo de sua leitura, esse processo será recorrente ("certa gente fugindo de outra gente"), reforçado não apenas semanticamente, pelo uso dos indefinidos, mas na construção formal das estrofes, em sua aparente 'desarrumação', quase aleatoriamente distribuídas em: 3 versos; 3 vs; 2 vs; 3 vs; 5 vs; 4 vs; 6 vs.

O tom sugestivo, utilizado na captação de um cenáro nebuloso, turvo, conturbado, cria a atmosfera de desalento, pinta um quadro impressionista sobre um tema que seria - digamos - expressionista: por exemplo, em "uma ponte, mas não a de que precisam, / sobre um rio curiosamente rosado." O fato de água estar tingida de sangue, de ter havido sangue ("there will be blood" me surgiu à mente, frase de filme, certamente), luta, é dito de um modo aparentemente displicente, como se o sujeito que escreve não quisesse imprimir força, ou potência, àquilo que já em si parece dramático. Há quase uma esquiva, ao mesmo tempo em que esse olhar de relance enfatiza a crueza da situação, porque nos faz pensar ser tão intenso o drama que não se pode nele deter o olhar, não se deve mirá-lo por longo tempo, ou haverá muito sofrimento.

As imagens são inusitadas, e belas, e em sua aparente leveza encenam a força da dissolução que constitui o evento trágico, como se lê em: "Viria a calhar certa invisibilidade, / uma parda rochosidade / ou melhor ainda a inexistência / por um tempo breve ou mesmo longo".  Acho que esses versos são precisos quanto a um dos modos de construir sua dicção poética: há leveza, e também um certo humor corrosivo, e ironia nessas imagens, como se ao grupo humano sob tal flagelo fosse desejável (e quem sabe possível) o dom da escolha e, ainda melhor, o dom da invisibilidade.

Por isso sua poesia (nos) importa: com um aparente quase nada, pintam-se cenas de extrema dureza, com palavras de extrema leveza. Isso - só para mestres.
_______
Wislawa Szymborska. Poemas. Tradução Regina Przybycien. São Paulo: Cia das Letras, 2011.