segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Último dia


Hoje foi nosso último dia no alongamento do Glória. Houve algumas lágrimas, mas as belezas do lugar se impuseram sobre as tristezas. Quase todas as fotos foram tiradas por Antonio, e ficaram lindinhas :)

















nina, alda, antonio.
























































































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quinta-feira, 25 de setembro de 2008

Lemon tree


Quando vemos um filme com Lemon tree percebemos como estamos intoxicados pela cultura estadunidense, seja no cinema, seja na TV. E percebemos como é bom ver representadas outras experiências de vida, culturais, outras diferenças. Parece que tudo é mais verdadeiro, mais próximo de nossa vida real. Isso se dá porque o filme recorta um momento particular no cotidiano de uma mulher e acompanha sua luta contra o "sistema" para manter sua terra e seus limoeiros, que não são apenas isso.

Como tudo que importa, ambos estão permeados de história, de memórias da infância, da relação amorosa com o pai. A mulher luta na verdade para que um pedaço de sua vida permaneça. Eu entendo quando o homem que trabalha para ela diz que as árvores são gente, naquele contexto são mesmo, e então somos todos adversários do ministro da Defesa de Israel, a causa da mulher é a nossa causa.

O filme é também sobre integridade, sobre não dobrar-se face aos poderes, quaisquer que sejam. Também sobre a solidão absurda de uma mulher, na verdade de duas mulheres, porque a do ministro está vivendo uma vida à sombra dele; de como certas culturas oprimem especialmente uma pessoa porque ela é uma mulher.

Mas é um filme também sobre cumplicidade, aquela possível entre dois seres cujas existências se cruzam em lugares sociais diferentes, mas que deixam entrever algo em comum entre elas, apesar de tudo - talvez o "não-poder", modos distintos e sutis de opressão que afligem ambas.
Trata-se de um filme com uma personagem feminina forte, cheia de nuanças, delicadezas, e resistências. A atriz tem um rosto expressivo, belo, quase natural, e também nós acabamos com vontade de tomar a limonada que ela prepara - que é sempre de limão, claro, portanto azedo, mas que todos acham uma delícia.

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sábado, 20 de setembro de 2008

She is the one



Eis a origem de tudo.
Eis a força, a sabedoria,
o ajudar quem precisa,
a vontade de viver
inquebrantável.

quinta-feira, 18 de setembro de 2008

Ensaio sobre a cegueira - o filme


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Vi o Ensaio na primeira sessão do primeiro dia em exibição, mas só agora me animo a dizer sobre ele algumas palavras. Primeiro, não há como desvincular a leitura do filme da leitura do blog do Meirelles e/ou do livro do Saramago. No caso específico deste filme, as três formas de representação estão imbricadas, e minha leitura do filme está atravessada pela dos dois outros suportes. Isso acontece porque o filme procura ser bastante fiel ao livro, e acho que consegue, em quase todo ele, mas há algo que não funciona inteiramente, assim como o livro também tem seus percalços, sobretudo na vontade filosofante do Saramago, às vezes excessiva.

Alguns bons filmes que tenho visto me ensinam coisas técnicas sobre essa arte, na verdade, ensinam a qualquer espectador atento e que goste de cinema. Não lembro qual me fez sair da sessão com idéias mais claras a respeito de montagem; o último bom que vi (Mistérios do samba) me falou sobre como o fotograma pode ser uma sucessão de belas fotografias; e Blindness me deu a impressão de que houve cortes em demasia na montagem, algo parece descosido, não engrena totalmente, embora eu tenha gostado do filme, se por gostar se entender um profundo sentimento de desamparo e desalento ao fim da exibição, o mesmo que senti quando terminei de ler o livro e me via caminhando com bandos de cegos a minha volta. É bonito, e é triste ao mesmo tempo. Por isso é bom, porque toca profundamente em vários momentos. O livro mais que o filme, talvez, mas não estou certa.

De todo modo, eu jamais saberei tampouco se essa sensação de 'montagem' explícita acontece porque existe e enfraquece o filme, ou porque eu li com muita avidez o blog do diretor, onde que ele detalha em minúcias o processo todo. Não sei se queria ver as cenas de estupro que foram cortadas, algumas das quais chocaram mulheres nos testes com platéias, mas certamente eu teria gostado de ver mais a Sandra Oh, de quem ele fala tão bem no blog e que só aparece rapidamente (ele diz que criou essa mínima aparição especialmente para ela, que pediu para estar no filme, afetivamente). Mas os atores estão muito bons, a música é forte, e eu gostei de ter visto o filme.

Impressiona mesmo ver São Paulo destruída, parece que os furacões da temporada passaram por lá. Outras coisas que impressionam no filme (porque agora vemos), e que já estavam no livro (e então imaginávamos): impressiona a imundície do lugar, o sem rumo de tudo e de todos; impressiona como a mulher do médico (Julianne Moore, muito boa) consegue se manter humana apesar de tudo, e como ela só consegue matar um único homem, o chefe da casamata 3 (Gael García Bernal, impagável), quando vários deles que participaram do estupro coletivo mereciam ser punidos; impressiona o modo como ela perdoa o marido e fala baixinho no ouvido da prostituta com quem ele a havia traído, como ela mantém a sanidade e como parece serena, apesar das barbaridades que presencia. E percebo agora que quase tudo de importante recai sobre os ombros desta mulher. Ela provê, cuida, protege, orienta, leva o grupo pro banheiro no asilo, depois para casa fora dele, procura comida numa cidade devastada, dá banho, dá comida.
Enfim, seria apenas porque ela é a única que enxerga e que pode então cumprir tudo isso, ou haveria alguma coisa mais em relação ao papel e à função da mulher, no livro e no filme, de que não me dei conta então e que só percebo agora? Talvez reveja para tirar algumas dúvidas.




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terça-feira, 16 de setembro de 2008

bad days


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Não estou muito bem, nada grave, espero, mas sem ânimo para postar. Acho que volto semana que vem, ou antes, se melhorar.

domingo, 14 de setembro de 2008

na feira da glória




Hoje fui comer tapioca na feira da Glória e levei a máquina, claro. A tapioca não dá para dividir com vocês, mas essas cores... só me arrependi de não ter trazido a melancia...:)





















































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quinta-feira, 11 de setembro de 2008

paisagens




Eu realmente estou me achando a fotógrafa... Só ando com a máquina na bolsa e tudo que vejo, vejo enquadrado. Não sei se a coisa é viciante mesmo, ou se eu tenho um temperamento de addict para quase tudo em que me envolvo. De todo modo, mais algumas fotinhas tiradas aqui de casa.

























































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Linha sem passe


Linha de passe: filme chato, muito chaaato. Alguém tinha que dizer ao Walter Salles que ninguém aguenta mais a arte feita em cima da pobreza e dos pobres brasileiros. Eu sei que ele é bem intencionado, que faz coisas boas para os atores pobres que descobre em seus filmes, acredito até que faça muito trabalho social que a gente não sabe, mas, convenhamos, não dá para aguentar esse tipo de arte. Porque todo mundo, mas todo mundo neste país está cansado de saber das injustiças, da miséria, das condições absolutamente degradantes em que mora e vive grande parte desse imenso contingente de sem-quase-tudo, embora se diga que "nunca antes na história desse país" se fez tanto pelos pobres.

O Walter é um moço educadíssimo, fino, rico, muito rico (como se sabe também, os banqueiros "nunca antes na história desse país" ganharam tanto dinheiro...), e acha que precisa, do alto de sua cobertura não-sei-aonde, denunciar essa miséria, acolhê-lha artisticamente, fazer alguma coisa, entende? Então fez o Central do Brasil, e eu até gostei: muita miséria também, mas numa história comovente, um roteiro criativo, alguma coisa a dizer, com a Fernandona ajudando à beça.

Mas esse Linha de passe, faça-me o favor: não tem enredo, não tem atores, não tem história, não tem nada (tá certo, a atriz que ganhou o prêmio tem uma expressão forte e sofrida, e o menino negro é uma fofura, mas só isso não faz um bom filme). E aquela família fica empacada ali naquela tristeza só, a gente vendo que não tem saída, não tem mesmo nenhuma saída pra eles e o filme fazendo aqueles closes imensos, como se com isso pudesse gritar para nós: vejam, vejam o que está acontecendo agora!

Sim, eu sei, Waltinho, eu venho de lá. Eu vivo cá, no Catete, ou em Copacabana, em qualquer lugar eu vejo. Todo dia eu vejo. E também me lembro, eu tenho memória. Além disso, eu li Vidas Secas, que foi publicado em 1938, e li por volta dos quinze anos, ou seja, há muitas décadas atrás. E tenho vivido no Brasil todo esse tempo. E tenho visto como os governos manipulam, enganam, sonegam, enriquecem os ricos e dão esmolas aos pobres. Vi como e quando nossa "reserva moral e ética", que em algum momento Lula e o PT representaram para muitos de nós, se transformou nos escândalos mais devassos, e como nossas escolas continuam um lixo completo, e nossos hospitais matam mais do que curam.

Então, Waltinho, eu, se tivesse a grana preta que você tem, e o tanto de bons sentimentos que certamente te movem (e eu acredito nisso, não estou ironizando) eu adotava uma favela, e não apenas os trabalhadores mirins dos seus filmes. Uma favela inteira, ou um bairro pobre, tanto faz. Pode ser pequena, claro, também não precisa ser a Rocinha. Quem sabe a Cidade Líder, onde você filmou o Linha de passe. E aí colocava lá um ótimo hospital, com bons e bem pagos médicos, e uma escola com bons e bem pagos professores, onde as crianças pudessem ficar o dia todo aprendendo e brincando, aprendendo e brincando e comendo. Sem bandidos. Sem balas perdidas. Já pensou heim, Waltinho. Isso sim, era o filme que eu queria ver.

terça-feira, 9 de setembro de 2008

miscelânea





São Sebastião, na pracinha da Glória















Na Glória.













Esse prédio, na rua do Russel, é lindinho (mas vi um apartamento à venda nele que era um abacaxi).



















No Museu da República.















Idem.
















Morador vizinho ao apartamento de minha irmã.












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segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Minúsculos assassinatos


O livro da Fal Azevedo sugere muitas e inarredáveis perguntas a respeito da relação entre a literatura, o objeto livro e os textos produzidos sem cessar por blogueiros muitíssimo competentes, seguidos de perto por seus leitores vorazes, muitas vezes eles também co-partícipes de elaborações coletivas, em geral formando um grupo movido pelo afeto, cumplicidade e por uma certa vocação à confidência.
O que ocorre na passagem do blog ao livro, e sua permanência, vai depender do talento do, já agora, escritor de literatura.
Na obra em questão, há mais ganhos do que perdas porque, basicamente, a autora escreve muitíssimo bem, o que significa que tem domínio sobre a língua e a linguagem literária, as imagens têm força para tocar e emocionar o leitor, os vários tons narrativos funcionam e um humor corrosivo solapa qualquer resquício de mundo 'mulherzinha', embora a narrativa seja pontuada pela perspectiva feminina no modo como dramatiza o cotidiano e suas pequenas (e grandes) tragédias.
A proposta de alternar passado e um presente enunciativo acabou não funcionando para mim: comecei a ler obedecendo a estrutura, mas lá pela página vinte resolvi que precisava saber o que se seguiria aos acontecimentos narrados, passei a ler um bloco inteiro e depois voltei para ler o outro bloco, e já perto do final retomei a leitura concomitante. Preferi a infração.
Trata-se de um livro que se lê de um fôlego, tocante algumas vezes, duro em outras, irônico e engraçado também. Mas acho que as receitas de drinques o enfraquecem, bem como a recorrência excessiva aos emails, embora alguns textos anexados sejam muito bons, como esse:
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Cartão-postal da Vera: "Alma, quando a gente escolhe não dizer a palavra mais dura não é nada disso de amadurecer ou amolecer. É porque a gente quer continaur o jogo. Sabe frescobol? Pro jogo continuar, você tem que ajeitar a bola pro outro, se esforçar pra alcançar a bola que veio, jogar pra cima pra dar tempo pro outro chegar, abaixar, esticar. Agora, se você não quer continuar o jogo, você dá logo uma raquetada e vai embora. Beijos para todos. Volto dia 19. Vera. [p. 177].
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Sim, claro que se pode propor uma leitura para as receitas dos drinques. Elas começam a aparecer um pouco depois do acidente que mata a filha da narradora e protagonista, Alma, um dos momentos mais intensos e dramáticos da obra. Alma está deitada, de ressaca e a filha sai para a escola:
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Eu mal me lembro daquele começo de manhã. Sei que ela entrou no meu quarto e me cutucou e tentou me acordar e me chamou, porque era isso que ela fazia todas as manhãs.
[...]
Sei que estava de ressaca, resmunguei e não me levantei, sei que a empregada lhe deu café, como todas as manhãs. Sei que ela pegou a lancheira e a mochila e desceu para esperar a perua da escola, como todas as manhãs.
[...]
Quando ouvi a porta da frente bater, acordei. E me lembrei do maldito cheque da excursão que eu, evidentemente, não havia feito.
[...]
Consegui me arrastar para fora da cama e fui até a janela para gritar que ela subisse para pegar a bosta do cheque.
[...]
Cheguei à janela a tempo de ver o ônibus desgorvenado que subiu na calçada. Eu mal me lembro daquela manhã.
[...]
Enterrei minha filha numa quinta-feira ensolarada, ao lado de meus avós e minhas irmãs, o que me deu um certo conforto, mesmo que pareça absurdo... [...] [p. 112-113].
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É possível que as receitas obedeçam a uma necessidade da narradora de expor aquilo que fere ou feriu, ou apenas de brincar, de fazer bricolagem com os diversos estilos e gêneros discursivos, amalgamando tudo que "faz parte da vida". Mas nem por isso me parece necessário para a economia do texto.
Este sobrevive por si mesmo, e seus melhores momentos se dão ainda quando a narradora conta suas histórias, expondo as feridas que, como em toda boa obra, são também as nossas, pertencem a cada leitor que delas se apropria.
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Minúsculos assassinatos e alguns copos de leite. Fal Azevedo. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

domingo, 7 de setembro de 2008

Homem comum



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Depois de quase nove meses, consegui enfim terminar Homem comum, do Philip Roth. Não vou resenhar o livro, só alguns comentários breves:

- não me parece que o texto do Roth tenha a mesma força que o do Auster (a comparação vem a propósito de que fiquei todo esse tempo largando um autor e pegando livros do outro);
- gosto infinitamente mais do jogo ficcional do Auster;
- o livro em questão conta um historinha de um homem cheio de mazelas, sem jamais chegar a um momento realmente dramático; tudo nele é morno;
- as frases são quase tolinhas. Por exemplo: "O pior de ser insuportavelmente sozinho era ter de suportar a situação - senão ele afundaria."; "Mas, tendo pintado quase todos os dias desde que se mudara para a praia, havia perdido o interesse. A necessidade premente de pintar havia passado; a empolgação pela atividade com que pretendia preencher o resto de seus dias se dissipara. Ele não tinha mais idéias." [p. 77.]

- o homem pode ser comum, o personagem também, mas o escritor não pode, nem sua linguagem literária.


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Philip Roth. Homem comum. Tradução Paulo Henriques Britto. São Paulo, Cia das Letras, 2007.
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quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Em águas profundas


Antes de citar alguns trechos do livro do Lynch, observo o seguinte: o interesse daquilo que a obra diz, para mim, está ligado ao fato de que ele não é um escritor de livros de auto-ajuda. Trata-se de um cineasta de talento, que narra sua própria experiência pessoal não apenas com o trabalho (os filmes que fez, a pintura, a disponibilidade para a arte), mas também com essa técnica de auto-conhecimento, que serve para a vida dele, que ele acha enriquecedora, e eu acho que serviria também para a minha vida.

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"Na realidade, a vida artística implica liberdade. Eu também acho que isso parece um pouco egoísta, mas não é assim. Isso só significa que se precisa de tempo.
Bushnell Keeler, o pai do meu amigo Toby, sempre dizia "Se você quer uma hora de boa pintura, terá de dispor de quatro horas só para si".
Isso é basicamente verdadeiro. Ninguém começa a pintar de cara. Antes você tem de se sentar por algum tempo e elabora uma idéia, para só depois colocá-la em prática da melhor forma possível. [...] O negócio é então se sentar e estudar e estudar e estudar; de repente se dá um salto da cadeira e se passa a fazer a próxima coisa." [p.11-12].

"Os pequenos peixes nadam na superfície, mas os grandes peixes nadam em águas profundas. Se você conseguir expandir o cesto de pesca - sua consciência-, poderá pegar peixes maiores.

Veja como isso funciona: dentro de cada ser humano existe um oceano de consciência pura e vibrante. Quando 'transcendemos' através da Meditação Transcendental, mergulhamos nesse oceano de pura consciência. Você se joga nele. E ele se sente feliz com isso. E o faz vibrar com essa alegria. Quando experimentamos a consciêcia pura, animamos e expandimos esse oceano. Ele começa a se desprender e a crescer.

Se sua consciência tem o tamanho de uma bola de golfe, seu entendimento terá o mesmo tamanho quando você ler um livro; e assim será quando olhar por uma janela, quando se levantar de manhã, quando perceber as coisas e durante o transcorrer do seu dia." [p.27-28].

"Muitas pessoas experimentam a transcendência, mas sem se dar conta disso. Você pode ter a experiência da transcendência antes de cair no sono. Muitas vezes você ainda está acordado, sente uma espécie de queda, vê uma luz branca e estremece de felicidade. E diz "Deus do céu!". Quando saímos de um estado de consciência para o outro - da vigília para o sono, por exemplo - passamos por uma espécie de vazio. É nesse vazio que você pode transcender." [p.53].

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"O artista precisa entender o conflito e o estresse. Essas coisas lhe instigam idéias. Mas garanto que estresse demais imobiliza a criatividade. E se há muito conflito, isso se interpõe à criatividade. Podemos entender o conflito, sem necessariamente viver dentro dele.
Nas histórias, nos mundos para onde nos transportamos, existe sofrimento, confusão, sombras, tensão e raiva. Contudo, o cineasta não tem que sofrer para mostrar o sofrimento. Você pode mostrar o sofrimento, apresentar a condição humana, sem internalizar essas coisas. Você é quem orquestra tudo isso, mas de fora. Deixe o sofrimento para os seus personagens." [p. 101].

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Em águas profundas. Criatividade e meditação. David Lynch. Tradução Márcia Frazão. Rio de Janeiro: Gryphus, 2008.

quarta-feira, 3 de setembro de 2008

O mistério do samba: um dia bom


Ontem, terça-feira, foi um dia atípico em minha vida, bem movimentado. Começou com um email de um grande amigo, falando do jeito mais belo sobre um filme que havia visto, de como ele havia sido tocado pela força de nossa história - nós, que viemos do subúrbio carioca -, pela beleza das raízes tão fortes de nossa cultura sendo mostradas de um modo intenso, verdadeiro, alegre e tocante. Ele dizia que precisamos de filmes como esse, e o sentido geral do comentário era: que dão uma forma mais consistente a nós mesmos, que nos provêem com uma história em que nos reconhecemos, com formas que de algum modo nos pertencem. O filme é Mistério do samba, e acho obrigatório para todas as gerações.

No meu caso, muito do que vivi está ali, tanto do que sou também.
(Sem querer achar que sou entendida no assunto (não sou), mas qualquer leigo percebe que a fotografia do filme é um escândalo de bonita, só por essa foto de divulgação que eu coloquei já se percebe. Mas há muito mais, quase metade do filme é feito com fotogramas (será esse o nome?) absurdamente bonitos. Demais).

Ainda ao final do email esse amigo dizia, entre parênteses, quase en passant, que na saída havia comprado o livrinho do David Lynch e sentara no café a ler. Entendi, porque mesmo quando quase não diz, ele sempre fala comigo. Comprei o Lynch, claro, e aproveitando que o Minúsculos assassinatos, da Fal Azevedo, estava tão disponível com aquelas duas partes de romãs absurdamente belas, levei também.

No comecinho da noite, outra cena rara: o marido de uma prima de minha mãe, Alexandre Plosk, estava lançando O homem invisível, seu segundo livro, lá no outro estado brasileiro chamado Leblon. Fomos então cumprimentá-lo, naquela hora em que todos os carros são lentos, mas tivemos sorte, rezamos as rezas e tudo deu certo.

Conclusão: já li o livro do Lynch, Em águas profundas - é rápido, bom, leve, instrutivo, no melhor sentido, porque o cara não é nenhum tolo, ao contrário. Eu quero aprender e fazer essa meditação transcendental de que ele fala. Muito.

O livro do Alexandre folheado já me diz que vou lê-lo. O da Fal, começado, me diz que é imperdível. E o Homem comum, oba, já estou no fim.
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Em águas profundas. Criatividade e meditação. David Lynch. Tradução Márcia Frazão. Rio de Janeiro: Gryphus, 2008.


segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Grupo Corpo


Fomos ver no domingo o último dia do Grupo Corpo no Municipal. Gostei muito, sobretudo da segunda parte, Breu, composta pelo Rodrigo Pederneiras em 2007. A primeira parte, com uma obra mais antiga ( "21", de 1992), demorou um pouco a engrenar.

O teatro estava lotado, e depois da meia hora inicial o público já estava de olhinho aceso, quando os dançarinos mostraram por que fazem parte de um dos melhores grupos de dança brasileira. Dançam muito, e há uma malemolência extremamente técnica e sofisticada em cada movimento; há momentos de extrema beleza, de tocante emoção, sobretudo nas 'danças no chão', numa arte que eu acho muito difícil de realizar, mais que todas, porque tem de criar emoção apenas com o corpo, em sintonia com a música.
Estavam lá Antonio e Nina, e Lu ficou impressionada com a grandeza do teatro. Foi um fim de tarde ótimo.

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Homem no escuro


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Estou tentando ler, desde janeiro, Homem comum, do Philip Roth, mas não sei o que há com o livro que não engrena de jeito nenhum. Não é o caso de desistir, acho que deve ser um ótimo livro, mas enquanto ele não acontece na minha vida, li Homem no escuro, do Paul Auster, quase de uma assentada só. Essa é a quarta obra dele que leio, mas não cheguei ainda ao Leviatã (devo admitir que esse fascínio pelo autor estende-se também às capas e ao trabalho gráfico da Companhia das Letras, amo o colorido das capas de cada um dos livros, e essa preta está igualmente linda).

Bom, o Auster sabe escrever, sabe seduzir o leitor, isso é inegável. Mesmo quando o livro é menos que ótimo, caso de Desvarios no Brooklyn, ele sempre sabe o que está fazendo.

No caso de Homem no escuro, há também o recurso a várias estórias sendo contadas ao mesmo tempo, técnica que ele domina com maestria e que me parece ser uma das forças de sua literatura. Aqui, correm juntas a estória propriamente dita sobre um homem (o narrador) que separou-se da mulher, sofreu um grave acidente e volta a morar com a filha Miriam, que escreve a biografia de Rose Hawthorne, a filha do escritor estadunidense, a que vem juntar-se alguns meses depois sua neta, Katya, estudante de cinema, quando perde o namorado num ato terrorista iraquiano, filmado e veiculado na internet ad infinitum, com requintes de sadismo e crueldade. A moça dedica-se, no momento, a ver filmes e anestesiar-se da realidade intolerável. Em função disso, há percepções interessantíssimas sobre filmes e cinema em geral, como em:

Fugir para dentro de um filme não é como fugir para dentro de um livro. Os livros nos obrigam a lhes dar algo em troca, a exercitar a inteligência e a imaginação, ao passo que podemos ver um filme - e até gostar dele - num estado de passividade mecânica. (p. 19).


O modo como o narrador apresenta suas 'micro-ficções dentro da ficção' é sempre perturbador, porque a coisa acontece meio abruptamente, e em pelo menos mais um romance ele abandona um desses personagens a sua própria sorte (em Noite do oráculo, Bowen acaba trancado num quarto e o narrador joga a chave fora. Fiquei dias aflita com aquele homem trancado para sempre entre quatro paredes...). Aqui, ele simplesmente tem uma insônia e começa a criar o personagem cuja função será, ao longo da narrativa, matar seu criador, esse mesmo narrador:

Eu o coloco num buraco. Parece ser um bom início, um jeito promissor de tocar a história. Colocar um homem adormecido num buraco e depois ver o que acontece quando ele acorda e tenta rastejar dali. Estou falando de um buraco fundo, na terra, uns três metros de profundidade, escavado de modo a formar um círculo perfeito, com paredes internas escarpadas, de terra grossa e bem compacta, tão dura que a superfície tem uma textura de cerâmica, talvez até de vidro. (p.9).

Pois então, esse homem aparentemente sem saída será resgatado por uma organização que ... O que importa dizer aqui é que a ficçao de Auster é sempre uma aposta ganha. Ele já está na minha lista de autores de quem posso comprar qualquer livro, e não há erro. O próximo será Leviatã, mas antes tentarei pela enésima vez engrenar o Homem comum. Última tentativa.
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Homem no escuro. Paul Auster. Tradução Rubens Figueiredo. São Paulo: Cia das Letras, 2008.

Cidadão de quinta


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Uma das expressões mais claras do que seja nossa cidadania de quinta.
Todo dia Lu fala de algum colega que foi assaltado saindo da escola. Os malandros perguntam se mora perto ou longe, mas assaltam de qualquer modo.

Outro dia vinha eu pela rua da Glória e tive de entrar numa loja por conta de um grupo de meninos, não muito amigável, que se aproximava. Eu, que já sou reclusa, vou acabar virando prisioneira de fato.


01/09/2008 - ODia

Túneis já não isolam mais a violência no Rio Antes menos expostos, bairros da Zona Sul viram áreas de risco - Vânia Cunha

Rio - Rotina de assaltos está transformando bairros da Zona Sul — principalmente, Laranjeiras, Botafogo, Catete, Largo do Machado e Flamengo — em locais de medo. Dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) revelam que, de janeiro a maio deste ano, foram registrados 112 furtos de veículos e 23 roubos a pedestres a mais que no mesmo período de 2007 na área do 2º BPM (Botafogo). Sitiada, a população busca alternativas.
Presidente da Associação de Moradores e Amigos de Laranjeiras, Marcos Vinícius Seixas diz que há um ‘toque de recolher natural’, já que todos evitam sair às ruas depois das 20h. Ele criou uma rede de comunicação: “São 500 e-mails cadastrados. Passamos os telefones das polícias, para que qualquer um possa comunicar as emergências”, conta.

Marcos luta por policiamento comunitário. “Pedimos ao secretário de Segurança (José Mariano Beltrame) que a guarda do Palácio Guanabara estendesse o patrulhamento a outras ruas. Se tivesse pelo menos um policial em cada uma das nove áreas do bairro, isso inibiria a ação dos bandidos”, diz.
Quem vai a Botafogo sabe que deve ter cuidado, principalmente nas passagens subterrâneas junto à praia. “As pessoas se arriscam a atravessar as pistas, com medo de serem roubadas no túnel. Os ladrões usam até cacos de lâmpadas”, reclama a presidente da Associação dos Amigos da Praia de Botafogo, Maria Alice Costa.

Junto com ela, o coordenador de esportes do bairro, Gerson Guerreiro, recolhe assinaturas para enviar à Secretaria de Segurança. “Queremos cabine da PM e um quadriciclo para o patrulhamento. Perdemos 30% dos alunos dos projetos esportivos”, lembra Guerreiro.

População de rua é agravante
O secretário municipal de Assistência Social, Marcelo Garcia, afirma que a população de rua cresceu 40% desde o ano passado, devido a fatores como a migração das favelas. “Para não morrer nas mãos de traficantes ou milicianos, muitos fogem de comunidades em Jacarepaguá e Zona Oeste, por exemplo. Mas há a falta de abrigos e as operações em Copacabana e Ipanema, que fazem com que migrem para bairros vizinhos ”, observa.
Em nota, a Secretaria Estadual de Governo informou que as operações CopaBacana e IpaBacana coibem irregularidades e acolhem moradores de rua. O delegado da 9ª DP (Catete), Fábio Costa, reconhece a onda de violência que atinge a Zona Sul. Tanto que mapeou as áreas com maior incidência de roubos: avenidas Augusto Severo e Beira-Mar, na Glória, e Infante Dom Henrique, no Flamengo; Caminho do Aterro; Praia do Flamengo; e ruas da Glória e das Laranjeiras.
“Esses endereços concentram 65% dos roubos. A maior parte dos crimes é cometida por homens entre 20 e 25 anos”, afirma. Segundo ele, não há como fazer patrulhamento ostensivo. “A PM tem conhecimento desse dado”, alerta Fábio. O delegado quer criar um banco de dados para cadastrar adolescentes recolhidos pela prefeitura. A idéia é pedir à Vara da Infância e ao Ministério Público que os coloque em abrigos por mais tempo.

MÃE CRIOU SITE PARA VÍTIMAS
A historiadora Carmem (nome fictício) criou comunidade no Orkut para conscientizar sobre a importância de mobilização. A atitude veio em reação ao assalto que a filha sofreu, há duas semanas, quando voltava da escola, no Catete. Além de roubarem o celular, três homens agrediram a jovem, de 15 anos.
“A intenção era desabafar, para não explodir de raiva. Minha filha ficou quatro dias trancada, com medo de sair de casa. O médico disse a ela que agora é realmente carioca, porque foi assaltada. Não nos resta escolha, a não ser nos mobilizarmos contra todo esse desrespeito que tomou conta da cidade”, diz Carmem, que registrou o assalto e comunicou ao Disque-Denúncia (2253-1177) roubos que colegas da menina sofreram. Procurado, o comandante do 2º BPM (Botafogo), coronel Gilleade Amaro, não retornou.

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