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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Brincante, Walter Carvalho

Brincante. Walter Carvalho, 2014. Nota 9

Brincante me comoveu em vários momentos, em sua proposta de apresentar o universo cultural de Antonio Nóbrega, esse artista originalíssimo, cujo trabalho envolve pesquisa etnográfica, resgate de canções e danças folclóricas de várias regiões do país, sobre cujas bases ele aporta novas inflexões e intensidades. É muito bonito ver o encontro de seu trabalho com a herança de Mário de Andrade, em que se identifica um par à altura, num filme belissimamente fotografado, não fora o diretor um de nossos melhores talentos nesse campo.

O filme compõe-se de esquetes pontuados tanto pela figura do personagem Tonheta, como pelo percurso do casal num caminhão, no qual carregam circo e fantasia pelo sertão adentro. Simultaneamente no interior do país, de onde retira a matéria prima de sua reflexão sobre a arte, e também ocupando espaços heterogêneos dentro da grande metrópole, Nóbrega passeia sua dança e sua arte pelos quatros cantos, imprimindo força, energia e intensa beleza a cada momento, em cada movimento.

Uma das inúmeras alegrias do espectador é ver como os jovens de seu Instituto dançam bem, como são intensos, viscerais, energéticos, tomando o frevo com experiência local para reinterpretá-lo e expandi-lo como dança contemporânea e universal. Se o frevo tem essa dimensão de pontuar um lugar cultural, em sua força centrífuga, será entretanto um extraordinário número de dança quase extática a condensar uma das vertentes dramáticas fundantes de uma estética que talvez se possa chamar "do árido" e "do seco", metáforas de um sertão que também compõe o universo de que se nutre a arte empenhada de Nóbrega.

O número apresenta homens e mulheres literalmente nascendo da terra e do barro, movendo-se lentamente cobertos por areia, contorcendo-se numa dança quase liturgia, à maneira dos poemas sobre o rio, de João Cabral de Melo Neto, como se lê nesse excerto de O cão sem plumas: "Aquele rio ... / Sabia dos caranguejos / de lodo e ferrugem. // Sabia da lama / como de uma mucosa. / Devia saber dos povos."

Um filme imprescindível para nos conhecermos - longe das selfies de pura vaidade, compõe um de nossos melhores retratos, e um dos mais expressivos momentos de nosso cinema.