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segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Literatura de Adriana Lisboa

Colocando em ordem os filmes que vi ultimamente, percebi que há bem mais filmes do que livros comentados aqui, e isso vai ocorrer também nesse 2010 porque tenho trabalho acadêmico para terminar e não vou poder ler o que quiser, menos ainda escrever sobre leituras que não sejam ligadas ao trabalho (sobre Hilda Hilst). Mas cinema não posso deixar de ir, senão fico maluca, então haverá, provavelmente, comentários sobre filmes.

De todo modo, aí vai essa que talvez seja uma das poucas resenhas que escreverei - e de uma autora que eu gostei muito de conhecer. 
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Eternidade

   Um dia nasci. Foi às onze horas da manhã e sob o signo de touro. Um dia vou morrer (ainda não sei o horário nem o signo dessa morte).
   Nada ficará de mim: não continuo nos filhos, que são autônomos, com sua vida e sua morte independentes de mim. Não continuo nas árvores que plantei nem nos livros que escrevi, nem nos pães que assei, nem na poeira que esqueci de varrer para baixo do tapete.
   Enquanto estou viva é que continuo. Minha vida é o milagre da eternidade sem passado e sem futuro, porque se mede pelo tempo presente. Meus dias são cada um de uma vez. E eu não tenho porquê. Só existo, até que deixe de existir. O resto me ultrapassa. (p. 83).
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Amor

   Não havia muitas cadeiras na sala de aula. Todas as que havia eram velhas e algumas estavam quebradas. Universidade estadual. O curso era às terças-feiras, das três às seis da tarde, horário exato em que o sol roçava aquela parede do prédio antes de se pôr atrás de outro prédio. As vidraças eram recobertas com aquela película plástica que amortece o sol. Roxa.
   Flávio sentou-se em sua cadeira, de frente para a turma de nove alunos. O sol retangular e roxo passeava devagar pela sala, encontrando seus pés, encontrando suas pernas. Afastou um pouco a cadeira. Mas o sol continuava passeando, aquecendo e arroxeando as palavras de um e outro, as paredes normalmente brancas, o quadro-negro normalmente verde. Entre as três e as seis horas da tarde, o sol brincou de perseguir Flávio em sua sala de aula, e a cadeira foi se afastando, mas para trás, um pouco mais para o lado, agora para a frente.
   Depois o sol finalmente se pôs, apagando o retângulo roxo do chão, uma sombra veio espreitar. Os carros rugiam lá longe, na grande avenida, a quilômetros, a séculos dali. (p.43).
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   Uma das coisas de que gosto nesses dois livros de Adriana Lisboa é uma certa intimidade gerada pelo conhecimento de lugares e⁄ou referências a pessoas reais, próximas de meu imaginário, como ocorre com o professor Flávio, de ‘Amor’, um dos micro contos de Caligrafias, ou a passagem em que os personagens Haruki e Celina, de Rakushisha, se conhecem, nos arredores do Largo do Machado e Rua do Catete, bairro ondo moro. O interessante é que a ficção de Machado já deveria ter-me acostumado a ler o nome do bairro impresso em letras literárias, mas na ficção de Adriana há uma outra pulsação, como se o peso da História em Machado tornasse o Catete uma figuração a mais, ao passo que na literatura da jovem escritora carioca a intimidade com o prosaico, a descrição de cenas banais, e com freqüência poéticas, constrói um bairro extremamente próximo, reconhecível com um “ah!, que coisa, eu sei do que ela está falando...”

   Como nesses momentos de Rakushisha:

   A chuva fina deixava o mundo luminoso diante dos olhos de Haruki. O asfalto puído da Machado de Assis brilhava. Os carros estacionados brilhavam. Folhas de árvores. Grades à entrada dos edifícios. Até o som das coisas brilhava na chuva, as rodas dos carros sobre o asfalto, uma freada brusca e a buzina, o rádio do porteiro.
   Era preciso reconhecer e reverenciar esses momentos. Eles eram rápidos e raros. Momentos em que sem nenhum motivo aparente tudo parecia entrar nos eixos, ajustar-se, encaixar-se. Acabavam-se as perguntas e a necessidade delas. Acabava-se a pressa, o ter aonde ir, o vir de algum lugar.   
   Simplesmente as solas dos sapatos batiam na calçada úmida e pronto, o mundo prescendia de outro significados.
   Um pé depois do outro.
   Momentos rápidos e raros. Aquele ali se desfez de repente, no cruzamento com a rua do Catete. Haruki notou que perdia alguma coisa, chegou a olhar para trás automaticamente, para ver se dava com um pedaço de si caído na calçada. Mas era o instante que se desmanchava, colher de sal dentro d’água. E Haruki sacudia a colherinha, desmanchava o instante, porque não tinha como ser diferente, se a gente não mata as epifanias elas nos matam, e atravessava a rua na direção familiar da entrada do metrô. (p. 17).


   É claro que o “eu sei do que ela está falando” diz respeito a muito mais do que um simples reconhecimento topográfico. Diz respeito igualmente a uma certa dicção ao mesmo tempo simples e forte de sua escrita. Há poesia no que ela escreve, e quase sempre esse é um traço forte; há também, intensamente, um mundo de sensações, de sentimentos às vezes voláteis, percepções agudas de momentos (as chamadas epifanias) que a aproximam, sem dúvida, de Clarice, mas também impõem seu timbre próprio e particular.   
   Porque a impressão que se tem ao ler Rakushisha, por exemplo, é que Adriana reconhece o débito mas caminha com suas próprias pernas, encontra seu modo próprio de dizer o que quer, o que precisa ser dito. Assim, a história desse encontro entre Celina e Haruki, que se anuncia como uma história típica de amor, mas acaba se transformando em outra coisa, muito mais interessante, a meu ver, porque mais contemporânea, nesse encontro-desencontro próprio dos que vivem meio ‘em trânsito’ (não apenas nos lugares, mas na existência):


   E se os nossos encontros não vierem com o rótulo da família, do cartório, da aliança, da hora do jantar, do jornal à porta pela manhã, das compras de supermercado, dos chinelos ao pé da cama, da tábua do vaso do banheiro, das escovas de dente, da biblioteca e da discoteca, dos recados presos na geladeira, das xícaras de café sobre a pia com um círculo preto ao fundo, da toalha de banho habitual, do lugar habitual à mesa, da marca preferida de xampu, da secretária eletrônica, da regulagem da torradeira e do retrovisor do carro, das contas ao final do mês, dos amigos em comum?
   E se for preciso assumir a fragilidade de nós mesmos na fragilidade daquilo que somos juntos? Viajantes? (p. 121-22).


   Portanto, não é de sentimentos atados, ou eternos, que se trata aqui, mas de pressões, pequenos e profundos sulcos feitos pelas mãos de cada um na existência do outro que lhe perpassa a vida, como os sinais que ela persegue desse poeta, Matsuo Bashô, na Cabana dos Caquis Caídos, ou seus poemas, haicais, nem sempre de fácil entendimento, mas que ela percorre indo e vindo, apreendendo novas possibilidades e compartilhando-as com o leitor. Trata-se, então, também, de uma espécie de bildungsroman, um romance de aprendizagem - das delicadezas da vida.
   Assim também os blocos narrativos, os tempos que vão ao passado e vêm ao presente como fluxos, em que a vida dos personagens se tecem aos poucos, se cruzam, se afastam, e tudo faz sentido, tudo é convincente, tudo é vida – e viagem.
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Adriana Lisboa. Caligrafias. Rio de Janeiro: Rocco, 2004.
Adriana Lisboa. Rakushisha. Rio de Janeiro: Rocco, 2007.