Evidentemente, o autor não está compactuando com os absurdos preconceitos que sua imaginação flagra nos homens simples de seu universo ficcional (e nos complexos da vida real também), ao contrário, ele os denuncia - mas para ser fiel à inteireza completa das iniquidades pensadas, sentidas e faladas pela doxa, ele cola o ouvido e a pena minuciosa e contundentemente em todas as situações, palavras e sentimentos iníquos de seus personagens, o que fez esta leitora ficar, em vários momentos, muito irritada com o que lia, em especial porque se trata de expressar como os preconceitos atuam sobre os desfavorecidos socialmente, como são maltratados pelos que lhe estão próximos, tanto a mulher quanto o homem que se descobre homossexual - e ele faz isso tão bem, ecoa tão realisticamente as barbaridades enunciadas pelas criaturas de papel que contamina de certo modo @ leitor@.
O modo como Valter Hugo explora a diferença - um homem gay não pode dizer que o é, os homens e as mulheres que o cercam consideram-no uma aberração, mesmo depois que se casa para cumprir algum tipo de expectativa social -, dentre outros temas e sub temas, constitui um painel das violências cotidianas e banais contra aqueles que fogem ao convencional, tanto mais impressivas quanto exploradas por um escritor cuja frase e estilo são absolutamente indispensáveis a nossa inteligência e sensibilidade.
Em minha leitura, há muitas páginas com parágrafos sublinhados, por sua acurácia certeira, uns; por sua beleza intrínseca, outros; por sua poesia, em vários momentos, nessa história de filhos que procuram pais, pais que querem filhos e as dificuldades de todos em lidar com o outro, mesmo que os seres em questão estejam todos à míngua de afetos, de companhias - e de conhecer-se, aceitar-se, amar-se.
A Maria pensou que tinha uma filha que era perdida e que o melhor que podia acontecer-lhe era ficar com o homem maricas e calar-se para sempre. Tantos anos passados naquela condição de solteira, a Maria ainda achava que a filha tinha obrigação de se ter inteira, adoçada e inteira, como uma mercadoria muito paciente à espera de comprador. Perante a impaciência, um homem execrável já era melhor do que nada.
Ele vinha como de costume, e a Isaura deixou que dissesse mais. Era uma ideia comum, essa de os homens maricas procurarem mulheres enjeitadas para casamentos de aparência. Alguns chegavam a ser felizes na maneira como geriam as suas famílias e os seus desejos sexuais. O povo diria o que lhe aprouvesse, mas também compreenderia o propósito desesperado da Isaura, a mulher feia e de ar doente que ninguém curaria nem quereria. [p. 54]
O Crisóstomo deitou-se delicadamente ao seu lado e poderia ser até que apenas conversassem. Aquele era o sentimento mais intenso do mundo. O Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és. [p. 128]
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Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo:Cosac Naify, 2011.

