Mostrando postagens com marcador valter hugo mãe. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador valter hugo mãe. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O filho de mil homens

Um livro difícil, e as razões para isso situam-se talvez num dos procedimentos formais inerentes à grandeza mesma da obra, ou seja, o modo de narrar, a voz do sujeito da enunciação que, no afã de chegar ao cerne do coração, dos pensamentos e do modo de ser de seus personagens, dá voz a uma espécie de violência contra os seres mais desprotegidos - as mulheres, os diferentes, os que não vivem conforme as regras do senso comum - o homossexual, para ser mais preciso, mas também os solitários, os esquisitos.

Evidentemente, o autor não está compactuando com os absurdos preconceitos que sua imaginação flagra nos homens simples de seu universo ficcional (e nos complexos da vida real também), ao contrário, ele os denuncia - mas para ser fiel à inteireza completa das iniquidades pensadas, sentidas e faladas pela doxa, ele cola o ouvido e a pena minuciosa e contundentemente em todas as situações, palavras e sentimentos iníquos de seus personagens, o que fez esta leitora ficar, em vários momentos, muito irritada com o que lia, em especial porque se trata de expressar como os preconceitos atuam sobre os desfavorecidos socialmente, como são maltratados pelos que lhe estão próximos, tanto a mulher quanto o homem que se descobre homossexual - e ele faz isso tão bem, ecoa tão realisticamente as barbaridades enunciadas pelas criaturas de papel que contamina de certo modo @ leitor@.

O modo como Valter Hugo explora a diferença - um homem gay não pode dizer que o é, os homens e as mulheres que o cercam consideram-no uma aberração, mesmo depois que se casa para cumprir algum tipo de expectativa social -, dentre outros temas e sub temas, constitui um painel das violências cotidianas e banais contra aqueles que fogem ao convencional, tanto mais impressivas quanto exploradas por um escritor cuja frase e estilo são absolutamente indispensáveis a nossa inteligência e sensibilidade.

Em minha leitura, há muitas páginas com parágrafos sublinhados, por sua acurácia certeira, uns; por sua beleza intrínseca, outros; por sua poesia, em vários momentos, nessa história de filhos que procuram pais, pais que querem filhos e as dificuldades de todos em lidar com o outro, mesmo que os seres em questão estejam todos à míngua de afetos, de companhias - e de conhecer-se, aceitar-se, amar-se.

A Maria pensou que tinha uma filha que era perdida e que o melhor que podia acontecer-lhe era ficar com o homem maricas e calar-se para sempre. Tantos anos passados naquela condição de solteira, a Maria ainda achava que a filha tinha obrigação de se ter inteira, adoçada e inteira, como uma mercadoria muito paciente à espera de comprador. Perante a impaciência, um homem execrável já era melhor do que nada. 

Ele vinha como de costume, e a Isaura deixou que dissesse mais. Era uma ideia comum, essa de os homens maricas procurarem mulheres enjeitadas para casamentos de aparência. Alguns chegavam a ser felizes na maneira como geriam as suas famílias e os seus desejos sexuais. O povo diria o que lhe aprouvesse, mas também compreenderia o propósito desesperado da Isaura, a mulher feia e de ar doente que ninguém curaria nem quereria. [p. 54]

O Crisóstomo deitou-se delicadamente ao seu lado e poderia ser até que apenas conversassem. Aquele era o sentimento mais intenso do mundo. O Crisóstomo então levantou-se, atravessou o quarto, saiu, foi ver o Camilo deitado e beijá-lo para dormir e disse-lhe: nunca limites o amor, filho, nunca por preconceito algum limites o amor. O miúdo perguntou: porque dizes isso, pai. O pescador respondeu: porque é o único modo de também tu, um dia, te sentires o dobro do que és. [p. 128]

____
Valter Hugo Mãe. O filho de mil homens. São Paulo:Cosac Naify, 2011.

quinta-feira, 27 de junho de 2013

A máquina de fazer espanhóis


O que torna o livro A máquina de fazer espanhóis, de valter hugo mãe, uma obra-prima inconteste é o modo de construir a frase, o tom, a sintaxe, uma certa ironia fina que ele trabalha com a maestria de gênio da língua, sobretudo porque tal ironia exaspera-se pela decisão - sábia - de manter o texto no original português de Portugal, o que para nós, leitores brasileiros, soa como uma  espécie de eco histriônico, como se além de tratar a velhice, a decrepitude, a morte, o largar-o-velho-pai-no-asilo com humor ferino ao longo de toda a narrativa, também houvesse essa outra língua que nos acena, duplica vozes de uma cultura que nos pertence mas não é inteiramente nós. Do mesmo modo que a grande cultura clássica portuguesa vibra na obra de várias maneiras: claramente, através da delícia de personagem que é o joão esteves, saído do poema "Tabacaria", de Fernando Pessoa, e habitante pra lá de metafísico desse asilo-muito-louco, que de habitantes loucos não tem nada.

Além disso, somam-se também registros da história de Portugal, da ditadutra salazarista, dos grandes poetas e das grandes aventuras náuticas, em geral relidas por uma voz  ácida quanto à decadência ante o antigo fausto, de que resulta ver-se o país na tal máquina de fazer espanhóis, metáfora de uma Europa onde melhor reluz seu ouro .

Claro que outro espanto espantoso do livro é haver esse autor tão jovem falando com tamanha desenvoltura de tais temas enervantes e escalavrantes - com uma propriedade que eu diria - esfuziante? Bom, citar é sempre cortar e mostrar o que o livro não é, porque uma parte jamais será o que o todo forma (e isso se coloca para os excertos das obras anteriores), mas fazer o quê, então escolho meio aleatoriamente:

quando o vi pela primeira vez achei que era uma ironia vir partilhar o quarto com o senhor medeiros. era perfeitamente o medeiros sem metafísica. vejam. aparentemente não acontece nada com ele. está para lá de todas as coisas e já não lhe dá mais nada senão o tempo. mas depois percebi que isso não era verdade. que um vegetal destes grandes tem ainda metafísica suficiente para muitas noites de agonia. e a mim aflige-me estar aqui confinado ao pé dele, a ver como se esvai e sem saber o que raio veio fazer ou pensar. sou mais velho do que ele. eu sou mais velho do que ele e estou para aqui discernindo o cu das calças. que me dizem a isto. digam-me se não é a violência na terceira idade. isto é violência na terceira idade. sabem por quê, porque o nosso inimigo é o corpo. porque o corpo é que nos ataca. estamos finalmente perante o mais terrível dos animais, o nosso próprio bicho, o bicho que somos. que decide que é chegado o momento de começar a desligar-nos os sentidos e decide como e quando devemos padecer de que tipo de dor ou loucura. pois eu que tenho cem anos e podia ser vosso pai quero dizer-vos que ser-se velho é viver contra o corpo. o estupor do bicho que nós somos e que já não nos suporta mais. a violência na terceira idade.
    
[...] pasmávamos ainda como se não fosse coisa de acreditar que o joão esteves um dia tivesse vivido em lisboa e frequentado a tabacaria alves com naturalidade suficiente para ser genuíno dentro de um poema de fernando pessoa. o anísio finalmente disse, que filho da mãe de  sortudo. nem rimos. estávamos demasiado atónitos para beliscarmos aquela fantasia tão grande.  (p. 126-7).

____
valter hugo mãe. A máquina de fazer espanhóis. São Paulo: Cosac Naify, 2011.