A suivre... é já um título sugestivo – seguir alguém e/ou ser seguida é basicamente o que se faz ao longo das 149 páginas desse volume. Aqui, o enfado parece ser o motor das ações da protagonista, que segue Maria, no Leviatã: “Os primeiros meses foram solitários e desnorteantes. Não tinha amigos, não tinha uma vida de que se pudesse falar, e a cidade parecia ameaçadora e estranha, como se nunca tivesse estado lá. Sem motivo consciente, passou a seguir estranhos pelas ruas, escolhendo alguém aleatoriamente, ao sair de casa de manhã, e permitindo que essa escolha decidisse seu rumo pelo resto do dia.” (Leviatã, p. 69).
Composto de três partes – ‘Préambule’, ‘Suite vénitienne’, ‘La filature’ -, a primeira constitui uma espécie de diário, escrito à mão e nem sempre legível, que dá algum trabalho de ler, razão por que passei meio batida por ela, mas para quem se interessar, uma mínima porção:
A ‘Suite vénetienne’ segue os passos de Maria, com a diferença de que a personagem de Calle segue o homem até Veneza: “Algum tempo depois, um homem tentou seduzi-la na rua. Achando-o por demais desinteressante, rejeitou-o. Na mesma noite, por pura coincidência, encontrou-o na inauguração de uma galeria no SoHo. Conversaram de novo e então descobriu que o homem partiria na manhã seguinte para Nova Orleans com a namorada. Maria decidiu ir também e segui-lo com a máquina fotográfica durante sua estada.” (Leviatã, p. 70).
Esse é um dos mais obsessivos percursos empreendidos pela personagem, que vasculha Veneza em busca de um desconhecido, já que não tem a menor idéia de onde ele vai hospedar-se. Uma das grandes utilidades dessa busca louca é que o livro acaba se tornando uma excelente fonte para a prática do idioma francês, já que tudo é minuciosamente descrito e mostrado em fotos, além de nos fazer conhecer inúmeros hotéis venezianos, já que ela enumera grande quantidade deles:
A história vira um pouco detetivesca, há um enredo nessa busca insensata e frenética, e o leitor segue não apenas curioso por seu desfecho, mas também para saber até onde vai a obsessão dessa moça: será que ela vai encontrar o homem que persegue por treze dias? E o que fará, quando (e se) o encontrar?
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Em ‘La filature’ (algo como ‘A vigilância’), ela cria o artifício de contratar um detetive particular para que a siga e fotografe cada um de seus (dela) passos, e o mais interessante da história é comparar a versão dela, a vigiada, com a dele, o detetive. Há visões diferentes para o mesmo fato, até mesmo horários distintos para a mesma cena, quando o cansaço do homem faz minguar seu tempo de campana em algumas horas. Ainda aqui, o interesse maior reside na curiosidade do leitor face ao vaivém da protagonista e, em certa medida, na cumplicidade voyeurística que se estabelece entre ele e as aventuras que ela se propõe, de modo sistematicamente aleatório.
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Sophie Calle. A suivre.... In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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