quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

A criada

A Criada, dir. Chong-Wook Park, com Kim Min-hee, Kim Tae-ri, Ha Jung-woo, Jo Jin Woong, So-ri Moon.

Notações esparsas sob espanto, ou conversa sobre a sordidez dos homens:

1) Os vários planos funcionam como folhas (de livros raros), ou véus, capas, silêncios e segredos que vão aos poucos sendo desvendados, surpreendendo e fascinando cada vez mais o espectador;

2) Assim como se dá com a leitura dos livros - raros, exóticos, eróticos, detalhistas - feita pela herdeira e dona do dinheiro, a quem o tio subjuga desde a infância, até a encontrarmos adulta e bela, em plena função de leitora de histórias para uma platéia formada por homens ávidos de perversidades e/ou prazeres voyeurísticos - o filme também encena um certo Kama Sutra, com delicadeza e extrema eroticidade: há as técnicas do jogo nas páginas dos livros, e também as vemos na descoberta dos corpos por e entre as duas mulheres. Nesse momento, há deslumbramentos, cenas inovadoras e convincentes no campo do desejo e da expressão sexual femininos, que nos alumbram em seu mister de: ver, tocar, emaranhar-se, encantar-se - todos os instrumentos de seus corpos ativos, como tantos anos daquelas leituras adestraram, fizeram conhecer, tornaram o que era papel uma coisa real, visceral, a partir de onde - saberemos em breve, outra do parafuso acontecerá. Na verdade, outras. Mais: tudo está no cérebro, e na linguagem, e então nos corpos.

3) As tramas imbricam-se, penetram-se, reviravoltam-se, e o que parecia um caminho mostra-se outro, e depois outro, e vamos de surpresa em surpresa, de encantamento em encantamento pela sagacidade do diretor ao tornar as duas protagonistas sábias em tramas, disfarces, engenhos. Engenhosidade que diz respeito tanto ao modo de filmar, como ao modo de narrar as histórias todas, que ora se imbricam, ora se distanciam do que se esperava, num jogo de esconde que permeia o filme inteiro. 

4) O tio centraliza o poder masculino, esse que será solapado à medida que o engenho e a astúcia das moças se aprimoram. Ao poder patriarcal opõe-se então uma sabedoria feminina ancestral, que usa aqueles que se julgam seus donos para sabotá-los, sem declarar qualquer guerra, somente seguindo um código próprio, e inteligência, tecendo (as moças) como fiandeiras seu destino em outro lugar, enquanto encenam o que delas se espera, como num jogo de xadrez sofisticadíssimo, em que o xeque-mate deixa o oponente sem saída, sem perdão, sem destino.

Um dos filmes mais feministas que vi esse ano, no sentido amplo de que toma pelas mãos duas mulheres e faz com que elas conquistem vários domínios e espaços - reais e imaginários - antes império dos homens, seus donos e senhores. Elas revertem todo o aparato opressor e empreendem a conquista da liberdade - de si, de seus corpos, de sua sexualidade, sua vida, sua história - como as querem, e onde, e quando. Como diz meu neto, com relação às sobremesas que crio para ele: nota mil!

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