Pois é, eu acredito que tudo faz parte de um concerto de forças que une objetos e gente aqui e ali e que as coisas de que você precisa te procuram também, quando você as quer muito. Então deu-se que as energias da Carrie, do sublimesucubos, em torno do grupo de leituras para Ana Karenina, no sublimesconversacoes, me fizeram dar uma passada no Beta de Aquarius, sebo ótimo que fica na Buarque de Macedo, atrás do dito livro, que não tinha, mas tinha outro do Tolstoi que eu olhei assim pro título e pensei: ele também escreveu auto-ajuda! E comprei. Vejam vocês, eu já tive muitas vezes essa conversa com um amigo querido sobre escrever um best-seller para as massas, não precisava nem ser do tipo harry potter, mas algo convincente e conveniente para ambos - nós e o público pagante. Enfim, lendo o livro do Tolstoi descubro que:
1) ele também sonhou em atingir as grandes massas, levando para elas cultura e a sabedoria acumuladas pelos séculos;
2) o formato da obra, composto de pensamentos recolhidos das mais diferentes origens e autores, é semelhante tanto ao livro de auto-ajuda (de altíssima qualidade, bien sûr), quanto à dinâmica dos blogs, porque, primeiro, ele quer efetivamente auxiliar as pessoas para que elas sejam melhores, qualidade que o contato com os altos pensamentos das grandes obras pode gerar e, segundo, ele busca isso através dos parágrafos curtos, da frase parábola e do comentário síntese, escritos com o propósito de tornar simples e acessível ao maior número possível de leitores aquilo que os textos dizem;
3) ele era um cristão convicto, e o livro foi proibido durante o regime soviético em razão de suas inúmeras citações religiosas. Hoje, que não há mais regime soviético, ele pode igualmente ser menosprezado pelas mesmas razões;
4) eu gostei demais de encontrar esse livro, é o tipo de obra que você acha quando precisa e que não se lê de forma corrida, mas aos poucos, aqui e ali, refletindo, um pouco no espírito com que o autor o fez;
5) por fim, alguns trechos do Prefácio feito por Peter Sekirin, que dizem da obra:
A idéia original para a obra parece ter ocorrido a Tolstoi em meados da década de 1880. Sua primeira conceituação documentada de Calendário da Sabedoria - "Um pensamento sábio para cada dia do ano, dos maiores filósofos de todos os tempos e todos os povos" - aparece em 1884. Ele escreveu em seu diário a 15 de março daquele ano: "Tenho de criar um círculo de leituras para mim mesmo: Epicteto, Marco Aurélio, Lao-Tzu, Buda, Pascal, o Novo Testamento. Isso é necessário para todo mundo."
O processo de coleta desses pensamentos levou mais de 15 anos. Tolstoi começou a escrever entre dezembro de 1902 e janeiro de 1903. Com quase 80 anos, caiu gravemente doente; enquanto meditava acerca do significado da vida e da morte, foi inspirado a começar a reunir o que então chamou 'Um pensamento sábio para cada dia'. Quando, afinal, enviou o livro a seus editores, Tolstoi escreveu em seu diário:
"Senti que me elevara a grande altura espiritual e moral ao comunicar-me com os melhores e mais sábios indivíduos cujos livros eu lera e cujos pensamentos selecionara para o meu 'Círculo de Leituras."
Tolstoi preparou uma terceira edição revista, abreviada e simplificada que foi impressa com o novo título 'O caminho da vida', em 1910, seu último ano de vida. Desejava tornar o livro facilmente compreensível até mesmo para os mais simples e menos educados - os camponeses e as crianças. Muito provavelmente, Tolstoi comparava o 'Calendário da Sabedoria' com 'Guerra e Paz', quando escreveu que 'criar um livro para as massas, para milhões de pessoas... é incomparavelmente mais importante e frutífero do que compor um romance do tipo que diverte alguns membros das classes abastadas durante algum tempo e depois é esquecido. A região dessa arte dos mais simples e acessíveis é enorme e está até aqui intocada."
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Tolstoi, Pensamentos para uma vida feliz - Calendário da sabedoria. Tradução Bárbara Heliodora. São Paulo: Prestígio, 2005. Prefácio de Peter Sekirin.