Começando pelo começo, a História abreviada da literatura portátil, do Vila-Matas, e referência para ambos os autores mencionados, é uma obra que não se enquadra em quase nada do que chamamos 'literatura', em seu modo convencional de existir - vários mundos reais e inventados caminham numa narrativa que seduz pela apropriação desatinada e desbragada de nomes reais do cânone literário e artístico da modernidade, em meio a acontecimentos nada convencionais, ou melhor, louquíssimos e muitas vezes engraçadíssimos. Lê-se com prazer aquele mundo meio Alice no país das maravilhas, em que também os personagens do último filme de Woody Allen, Meia noite em Paris, passeiam fantasmagoricamente e ludicamente por suas páginas. Numa lógica muito particular, transitam pelas histórias mirabolantes "odradeks, golens, bucarestes e todo tipo de criaturas que povoam a solidão daqueles que, em tensa convivência com o duplo, se isolam para trabalhar." (p. 101). Walter Benjamin é uma figura incorporada à narrativa, de modo sistemático, e está presente igualmente no livro de Paulo Roberto Pires. Em outro momento, volto a comentar mais detidamente o livro impagável do Vila.A primeira referência que tive de Se um de nós dois morrer foi no site da Cora Rónai, que veio lendo o livro no dia do lançamento e adorando. Curiosa, fiquei um tempo procurando por ele, achei por fim na Blooks do Unibanco Arteplex, onde não gosto de comprar porque não dão desconto algum. Li finalmente todo o livro do Pires e o começo é mesmo muito estimulante, o que vai mudando da metade para o final. O livro começa muito bem, prometendo uma história interessantíssima (e bem escrita, no estilo quase coloquial do personagem-escritor-defunto), sobre um homem, Théo, autor de um único livro de sucesso, e eventual amante que, ao morrer, deixa para a amiga-ex-amante um testamento e dinheiro para realizar suas últimas vontades, uma delas a de que suas cinzas sejam enterradas em vários locais do cemitério de Montparnasse, em Paris, claro.
Nessa, digamos, primeira parte, o livro é uma delícia de ler, em sua homenagem a Paris (de novo o filme de Allen passeia na memória do leitor), descrições de passeios, lugares, hotéis, referências a pessoas reais e mesmo próximas a certo tipo de leitor. Por exemplo, a referência a Silviano Santiago e seu Keith Jarrett no Blue Note (1996) me remete a um período muito intenso da minha relação pessoal com o livro (mas sobretudo com Stella Manhattan e Em liberdade), com esse autor e também ex-professor no mestrado, relação cheia de complicações e admirações tensas. De todo modo, há uma tela de nomes, referências e acontecimentos que, no caso do autor brasileiro, aproximam muito o mundo literário criado ao universo de um certo tipo de intelectual brasileiro, que viajou a Paris, ama essa cidade e leu alguns livros de referência citados - Benjamin em especial.
O problema maior do livro acontece quando se abre a segunda carta, com o segundo pedido feito pelo morto a sua amiga: entregar a Enrique Vila-Matas uma pasta contendo um conjunto de textos inacabados do que seria uma possível segunda obra desse autor de obra única. O conteúdo dessa pasta será então a matéria dessa parte do livro, copiado tal qual Sofia a encontrou. E aqui existem alguns problemas, de que vou comentar alguns a seguir. Antes, alguns trechos da prosa de Pires:
"(Lembra que eu pensava em escrever um livro em que cada conto fosse batizado de acordo com um standard americano? Como você sabe, o mestre Silviano Santiago fez primeiro - e muito melhor do que eu poderia sonhar em conseguir. Agora, só me resta esta patética e pouco concreta obra póstuma: Keith Jarrett em Montparnasse. O que é por definição muito melhor do que, admita, um Liberace no Caju ou Bené Nunes no Irajá.)" (p. 16).
"Tinha um projeto, que vivia adiando, de fotografar todos os dias de sua vida e, depois de selecionar o mais irrelevante dos momentos, escrever um texto que deveria acompanhar a imagem. Mas a convivência com Théo parecia ter esterilizado de alguma forma sua capacidade de expressar-se. Fotografava todos os dias, selecionava as melhores imagens numa pasta, mas, diante delas, não lhe vinha uma única linha." (p. 19)
Aqui, como em tantos outros momentos, não há como não ter à memória a obra de Sophie Calle, também mencionada em algum momento da narrativa, bem como não receber com empatia o penchant para esse tipo de trabalho com a 'fotografia das coisas mínimas', com que essa leitora também muito se compraz.
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Enrique Vila-Matas. História abreviada da literatura portátil. Tradução Júlio Pimentel Pinto. São Paulo: Cosac Naify, 2011.
Paulo Roberto Pires. Se um de nós dois morrer. Rio de Janeiro: Objetiva, 2011.
