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quinta-feira, 15 de março de 2012
Formas do nada - PHB
E como tardes perfeitas são raras, quando não inesperadas, no mesmo dia da exposição do Doisneau passei pela Livraria Leonardo da Vinci, olhei as vitrines e dei com o novo livro do Paulo Henriques Britto, poeta que amo demais da conta, Formas do nada, publicado agora em março. A orelha de Heloisa Jahn é ótima, e esse poema também. Se calhar, volto a falar dele depois. E não vou falar da lapiseira Pentel 0,9 que achei num camelô por um precinho super, aí também já seria covardia :)
Madrigal
Desista: não vai dar certo.
O mundo é o mesmo de sempre,
desejo é uma coisa cega.
Desista, enquanto é tempo.
As mãos não sabem o que pegam,
os pés vão aonde não sabem.
As cartas estão marcadas:
vai dar desgraça na certa.
O mundo é sempre a esmo,
desejo é uma porta aberta.
Desista, que a vida é incerta.
Ou insista. Dá no mesmo. [p. 70]
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Paulo Henriques Britto. Formas do nada. São Paulo: Cia das Letras, 2012.
sexta-feira, 9 de julho de 2010
homenagem aos três anos e Macau - PHB
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Eu deveria fazer isso no dia 16 de julho, aniversário de 3 anos desse linha, mas canto parabéns hoje, agora mesmo, publicando o primeiro post que achei aqui e, por acaso, uma homenagem muito merecida ao Paulo Henriques Britto e seu belíssimo Macau. Como não tenho podido ler quase nada, nem tenho ido ao cinema (minto, fui ver O profeta, mas como não comento mais filme chatíssimo, nada a declarar), vai aqui uma reciclagem básica de alguma coisa boa.
Ah, a data entre parênteses depois do "leio hoje" explica-se porque esse post já é uma retomada do primeiro blog que eu tive, de ótima memória, chamado Vagamentes, que dorme o sono dos justos forever.
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segunda-feira, 16 de julho de 2007
Macau
Leio hoje (16/11/2004) no Informe da Veja que Macau, de Paulo Henriques Britto, ganhou o prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira (100 mil reais) e fiquei feliz. Tanto o poeta, quanto o livro são magníficos e merecem esse reconhecimento. Paulo é um dos maiores poetas da minha geração, e para mim o que melhor trabalha e recicla o material do alto modernismo, em voz particular e lírica pessoalíssima. Um poema da série "Fisiologia da composição" para meu raro leitor se animar e ler todo Macau:
III
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
****
Outro poema, do mesmo Macau (leiam o livro, vale a doçura, o prazer, a alegria), da série 'Dez sonetóides mancos':
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei
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Eu deveria fazer isso no dia 16 de julho, aniversário de 3 anos desse linha, mas canto parabéns hoje, agora mesmo, publicando o primeiro post que achei aqui e, por acaso, uma homenagem muito merecida ao Paulo Henriques Britto e seu belíssimo Macau. Como não tenho podido ler quase nada, nem tenho ido ao cinema (minto, fui ver O profeta, mas como não comento mais filme chatíssimo, nada a declarar), vai aqui uma reciclagem básica de alguma coisa boa.
Ah, a data entre parênteses depois do "leio hoje" explica-se porque esse post já é uma retomada do primeiro blog que eu tive, de ótima memória, chamado Vagamentes, que dorme o sono dos justos forever.
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segunda-feira, 16 de julho de 2007
Macau
Leio hoje (16/11/2004) no Informe da Veja que Macau, de Paulo Henriques Britto, ganhou o prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira (100 mil reais) e fiquei feliz. Tanto o poeta, quanto o livro são magníficos e merecem esse reconhecimento. Paulo é um dos maiores poetas da minha geração, e para mim o que melhor trabalha e recicla o material do alto modernismo, em voz particular e lírica pessoalíssima. Um poema da série "Fisiologia da composição" para meu raro leitor se animar e ler todo Macau:
III
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
****
Outro poema, do mesmo Macau (leiam o livro, vale a doçura, o prazer, a alegria), da série 'Dez sonetóides mancos':
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei
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sábado, 28 de julho de 2007
Tarde - Paulo Henriques Brito
Sim, amo de paixão a poesia de Paulo Henriques Brito, e alguns poemas de seu último Tarde (São Paulo: Cia das Letras, 2007) bateram mais fundo, como o primeiro do ciclco 'Uma doença', por exemplo:
Há doenças que são mais que doenças,
que não apenas são à vida infensas
como oferecem algumas recompensas
que tornam mais urgente e mais difícil
o já por vezes inviável ofício
de habitar o íngreme edifício
de não-se-estar-conforme-se-devia
e administrar a frágil fantasia
de que se é o que ninguém seria
se não tivesse (insistentemente)
de convencer-se a si (e a toda gente)
que não se está (mesmo estando) doente.
[p. 25]
De resto, o livro todo vem num tom meio soturno, trágico, noturno, o que é meio incomum nessa poética. Parece que o poeta chegou a um limiar qualquer, a um beco sem saída. Não apenas o futuro parece emparedado, mas o passado diz respeito a um compte-rendu sem muito a celebrar, como se lêem vários poemas de 'Crespuscular'
I
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.
Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.
Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,
fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)
[p. 83]
Há doenças que são mais que doenças,
que não apenas são à vida infensas
como oferecem algumas recompensas
que tornam mais urgente e mais difícil
o já por vezes inviável ofício
de habitar o íngreme edifício
de não-se-estar-conforme-se-devia
e administrar a frágil fantasia
de que se é o que ninguém seria
se não tivesse (insistentemente)
de convencer-se a si (e a toda gente)
que não se está (mesmo estando) doente.
[p. 25]
De resto, o livro todo vem num tom meio soturno, trágico, noturno, o que é meio incomum nessa poética. Parece que o poeta chegou a um limiar qualquer, a um beco sem saída. Não apenas o futuro parece emparedado, mas o passado diz respeito a um compte-rendu sem muito a celebrar, como se lêem vários poemas de 'Crespuscular'
I
Chegamos tarde. (Era sempre maio,
sempre madrugada. Tudo era turvo.
Éramos em bando. Por medo. Ou tédio.
Havia um lobo à solta na cidade
aberta, e uma loucura provisória
era a nossa premissa, nossa promessa.
Era preciso estar o tempo todo
atento, em transe, em trânsito, no assédio
a um ou outro flanco do lobo,
fugindo de junho, perseguindo o agora,
correndo o risco de ser só um rascunho.
Éramos em branco. Por um triz. Por ora.)
[p. 83]
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Macau
Leio hoje (16/11/2004) no Informe da Veja que Macau, de Paulo Henriques Britto, ganhou o prêmio Portugal Telecom de Literatura Brasileira (100 mil reais) e fiquei feliz. Tanto o poeta, quanto o livro são magníficos e merecem esse reconhecimento. Paulo é um dos maiores poetas da minha geração, e pra mim o que melhor trabalha e recicla o material do alto modernismo, em voz particular e lírica pessoalíssima. Um poema da série "Fisiologia da composição" para meu raro leitor se animar e ler todo Macau:
III
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
Outro poema, do mesmo Macau (leiam o livro, vale a doçura, o prazer, a alegria), da série Dez sonetóides mancos:
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei.
III
Também os anjos mudam de poleiro
de vez em quando, se rareia o alpiste
indeglutível que é seu alimento.
Porém você não se conforma, e insiste,
procura em vão possíveis substitutos
que tenham o efeito de atrair de volta
esses seres ariscos, esses putos
que se recusam a ouvir os teus apelos,
como se fossem mesmo coisas outras
que não tua própria vontade de tê-los
sempre a postos, em eterna prontidão,
a salpicar na tua boca ávida
o alpiste acre-doce da (com perdão
da péssima palavra) inspiração.
Outro poema, do mesmo Macau (leiam o livro, vale a doçura, o prazer, a alegria), da série Dez sonetóides mancos:
VIII
Eu não disse? Não tinha ninguém
batendo à tua porta a essa hora
da noite, como era de esperar.
ninguém impaciente do lado de fora
com uma pasta cheia de papéis
importantíssimos aguardando apenas
a tua assinatura pra virar lei
em vez de letra morta - e, arrastando os pés,
condescendente, você vem e abre a porta
pra noite escura: ninguém. Bem que eu falei.
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