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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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sábado, 24 de outubro de 2009
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Santo sujo
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
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O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
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O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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