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segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Ainda o Tezza

Gostei tanto de O filho eterno, do Tezza, que estou lendo outros livros dele. Comecei O fantasma da infância, mas demorou a engatar e peguei outro, Aventuras provisórias, que acabei de ler. O narrador aqui continua aquele ser indócil, duro, com suas obsessões e fraquezas, o que não diz nada, mas é disso mesmo que vive o romance: as aventuras desse personagem em torno do seu universo, em que a mãe, o amigo torturado pela ditadura, as amantes, a mulher burrinha com quem ele se casa, a experiência comunitária, enfim, o mundo das relações amorosas e afetivas constituem a trama narrativa. O que cativa especialmente nem são tanto as histórias desses seres envolvidos em suas pequenas guerras cotidianas, mas a linguagem ágil, o domínio que o autor tem do modo de narrar, embora eu pessoalmente considere esse (se comparado com O filho) um romance mais "macho", cheio de clichês do universo masculino, do vaivém das mulheres, do amor-dor-bebida-ressaca etc, mas com muitos momentos intensos, de boas sacações e lirismo. Vejamos esse:

"Penso e peso o rompimento, o momento final, e continuo sem compreender por que nos separamos - ou por que eu detonei a separação. Mas ainda não é isso: é por que aconteceu daquele modo, tão estupidamente, sem dignidade. Não merecíamos um fim de festa tão tosco. A falta de filhos, minha mãe, o cheiro de incenso, tudo isso são miudezas, têm de fazer parte da vida, porque não estamos numa redoma asséptica. Vivemos na poeira, no resfriado, na chuva, na foice, no suor, no medo, no arrepio. Vivemos nos esbarrando bêbados e burros, tagarelando sem propósito. Mesmo assim, deveríamos contar com uma breve margem de segurança, que não nos quebrasse tanto." (Aventuras provisórias, Record, 2007, p. 80).

Então a coisa fica assim: há os delizes dos ecos, das frases com aliterações e repetições fáceis ('fim de festa tão tosco'), mas o homem é um ótimo romancista, sem dúvida.


terça-feira, 14 de agosto de 2007

entrevista do Tezza

Ao invés de mais comentários sobre O filho eterno, remeto para a entrevista do autor que está em

http://portal.rpc.com.br/gazetadopovo/impressa/cadernog/conteudo.phtml?id=684690&tit

domingo, 12 de agosto de 2007

O filho eterno é ótimo

Por que O filho eterno, do Cristovão Tezza (Rio de Janeiro: Record, 2007), é tão bom: porque mantendo tensão constante entre vida e ficção, radicaliza na criação de uma estória pungente, verdadeira, dura, sem pieguices, cruel mesmo, que coloca em xeque os sentimentos de decepção de um pai face ao nascimento de seu primeiro filho com síndrome de Down.

Nunca antes havia lido nada tão contundente sobre esse universo e, no ajuste de contas com sua história que o narrador nos propõe, somos levados a rever nossos próprios preconceitos, nossa hipocrisia face ao "inteiramente outro". E como se trata de uma obra-prima, o livro empreende um ajuste de contas não apenas com o filho, com sua história particular e familiar, mas com acontecimentos que formaram nossa cultura recente, discutindo alguns dos temas dos que viveram jovens os anos 70. Há muitas sacadas interessantes ao longo da obra sobre as experiências pessoais do narrador, que não estão desconectadas da reflexão sobre quem somos e por que somos ainda esse país tão sem saída. Sobre a ditadura:

[...] uma ditadura militar, por si só, é a derrota da lei -- os anos 1970 foram universalmente marcados pela idéia da corrosão legal. Vamos encurtar caminho de uma vez, diziam todos, à esquerda e à direita. Antes, se Deus não existisse, tudo era permitido; como Deus já é carta fora do baralho, agora tudo é permitido se o Estado é criminoso. (p. 91).

Há ainda muito a comentar sobre esse pai e seu Felipe.
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Cristovão Tezza, O filho eterno. Rio de Janeiro: Record:2007.