Filme difícil de assistir por sua contundência ao mostrar episódios de extermínio de pessoas de origem cigana na Hungria, ocorridos entre 2008 e 2009, Apenas o vento (Bence Fliegauf, 2012) já está em cartaz há bastante tempo, e só agora pude entender a razão de sua longevidade no circuito - sua qualidade fílmica e de denúncia, sem ser em momento algum panfletário.
Tendo como referência o mote do andarilho, como são reconhecidos os ciganos, o filme acompanha de perto, muitas vezes em closes intensos, como esse da belíssima personagem adolescente (Gyöngyi Lendvai), as idas e vindas da mãe, vivida por Katalin Toldi, do filho, um expressivo e intenso Lajos Sárkány, todos indo pra lá e pra cá, em caminhos sem rumo, como os do filho, mas atento a tudo e a todos, sentindo no ar o que está por vir; indo e vindo da escola, no caso da filha, ou a caminho dos vários empregos, como faz a mãe.
Um dos aspectos mais impactantes do filme é a violência contumaz contra um povo, a contínua sensação de se estar acuado, acossado por uma foice que sentimos cairá a qualquer momento, sobre qualquer uma daquelas cabeças, que não tem de quem se valer. Daí a solidão absurda desses seres, o deambular constante, como feras acuadas, de que são emblemáticos a mãe, fortíssima em sua expressão de medo contido, e o menino, que caminha a esmo tentando sentir-se seguro em algum canto - até achar um canto real como refúgio, no meio do mato - mas até essa gruta será descoberta por alguém, ainda que amigo.
O filme nos deixa atônitos, com dó de todos nós, que vivemos esses tempos de barbárie e, de certo modo, nos torna cúmplices por omissão dos crimes cometidos por nosso semelhante, contra nossos irmãos. Minha mãe, uma senhora muito simples, tem uma frase que considero um ensinamento profundo: ninguém deve sentir-se sozinho no mundo, porque todo vivente é filho de Deus e, portanto, é meu irmão. No limite, para o bem e para o mal.
quarta-feira, 30 de outubro de 2013
terça-feira, 29 de outubro de 2013
Eu, Anna
Ela conhece um homem num encontro no clube dos solteiros e a partir daí os acontecimentos em torno dela começam a ficar confusos, ambíguos e perigosos. Não sabemos, por um longo tempo, se ela é uma vítima ou uma agente do mal disfarçada, só percebemos sua atitude ambígua, seu jeito desconfiado, suas esquisitices, e ao mesmo tempo torcendo para que a crescente aproximação desse outro estranho ser, o investigador, nos revele finalmente a chave do mistério de Anna, e do filme. E ele o faz. Quando finalmente compreendemos o que houve, através dos flashbacks, entendemos também que o filme trata, sobretudo, de compaixão e de perdão. E percebemos melhor porque ambos têm os rostos tão marcados, e porque as marcas dela, em especial, carregam histórias pungentes de vida, cicatrizes contra as quais sua luta será sempre ma batalha perdida. E ele compreende, e a apoia incondicionalmente. Então, o filme é também sobre isso - amor, mesmo face ao inelutável. E sobretudo em momentos difíceis. Um filme que vale ser visto, com final verdadeiramente tocante, e convincente.
sábado, 26 de outubro de 2013
O conselheiro do crime
Existe um texto de Hilda Hilst, cujo nome não lembro, em que ela cria uma cena meio bestial tendo um bebê como personagem, uma dessas imagens grotescas de que sua literatura se alimenta e que me chocou, em certo sentido - era/é uma cena que não existia para mim, não fazia parte de meu imaginário e passou a existir, do modo como só a literatura pode criar existências - de seres, coisas, tempos, atmosferas e tudo mais que há ou poderá haver. Não gostei de tê-la conhecido, não a queria para mim, mas não se pode escolher que presentes um artista pode criar, menos ainda oferecer a seu público.
De certo modo, Ridley Scott, nesse seu estranho O conselheiro do crime (2013), criou uma cena inaugural no grande cinema de Hollywood - isso porque tal observação não se aplica ao terreno dos filmes eróticos, cuja amplidão e profundidade desconheço. Refiro-me ao cinema comum, para espectadores padrão, como nós. E essa cena estranha, em seu quase deboche, dá o tom, penso eu, do clima geral do que se vê na tela, e pode ser sumarizada como uma grande angular dos, em princípio, órgãos genitais de Malkina, personagem vivida por Cameron Diaz, que se senta sobre o para-brisa do carro preferido de seu amante Reiner, vivido pelo sempre ótimo Javier Bardem, com as pernas abertas em linha reta, onde encena uma transa com o vidro, tendo Bardem como espectador atônito, quase aterrorizado, dentro do carro. O olhar assustadíssimo dele para aquela-coisa-toda faz o público rir, não há como não rir de uma coisa tão descabida, exagerada, kitsch, louca e exibicionista à exaustão.
Acho que a exasperação erótica desta e de outras cenas fica mais na sugestão do que na coisa em si, embora nada seja poupado. Isso ocorre porque não há interesse em manipular o espectador para esse campo, tudo é tratado com muita rapidez, as cenas encadeiam-se numa sequência meio alucinada, em que os fios se perdem e se acham mais à frente, embora alguns fiquem no ar, parecendo, no entanto, esses vazios fazer parte da trama. E de que se trata, afinal? De crimes e contrabandos e dinheiro aos milhões, indo e vindo, e passando de mãos, até que uma roda da engrenagem emperra em algum lugar (não sabemos onde, nem quais os responsáveis) e começa a morrer gente, de forma meio bárbara, e veloz. Parece que todos estão sob o cutelo de algum ser pairando em algum lugar, que tudo sabe e tudo vê. Meio aflitivo, e meio confuso, mas ninguém deixa de ver um segundo para não se perder ainda mais.
E há ainda as considerações morais sobre a inevitabilidade das escolhas feitas, de como não há volta em certos caminhos que se tomam; de como não há escapatória para determinados atos, além de muitas conversas de cunho moralizante (nunca um diamante revelou-se tão rico em sentidos - pílulas para a vida). O elenco, estelar - Brad Pitt, Michael Fassbender (o counselor, uma ironia à parte), Penélope Cruz, Cameron Diaz, Rosie Perez, Bruno Ganz, todos entram e saem com a rapidez das ações que passam na tela, mas todos cumprem à risca os exageros que o roteiro lhes impõe. Para mim, Bardem sempre parece se sair melhor, até porque a cena mais escatológica coube a ele presenciar, mas Cameron também inova em sua recorrente galeria de mocinhas românticas. Hollywood parece ter resolvido entronizar suas divas em mais uma categoria - a de cruéis chefonas do crime, organizado ou não, onde se mostram muito, muito más.
De certo modo, Ridley Scott, nesse seu estranho O conselheiro do crime (2013), criou uma cena inaugural no grande cinema de Hollywood - isso porque tal observação não se aplica ao terreno dos filmes eróticos, cuja amplidão e profundidade desconheço. Refiro-me ao cinema comum, para espectadores padrão, como nós. E essa cena estranha, em seu quase deboche, dá o tom, penso eu, do clima geral do que se vê na tela, e pode ser sumarizada como uma grande angular dos, em princípio, órgãos genitais de Malkina, personagem vivida por Cameron Diaz, que se senta sobre o para-brisa do carro preferido de seu amante Reiner, vivido pelo sempre ótimo Javier Bardem, com as pernas abertas em linha reta, onde encena uma transa com o vidro, tendo Bardem como espectador atônito, quase aterrorizado, dentro do carro. O olhar assustadíssimo dele para aquela-coisa-toda faz o público rir, não há como não rir de uma coisa tão descabida, exagerada, kitsch, louca e exibicionista à exaustão.
Acho que a exasperação erótica desta e de outras cenas fica mais na sugestão do que na coisa em si, embora nada seja poupado. Isso ocorre porque não há interesse em manipular o espectador para esse campo, tudo é tratado com muita rapidez, as cenas encadeiam-se numa sequência meio alucinada, em que os fios se perdem e se acham mais à frente, embora alguns fiquem no ar, parecendo, no entanto, esses vazios fazer parte da trama. E de que se trata, afinal? De crimes e contrabandos e dinheiro aos milhões, indo e vindo, e passando de mãos, até que uma roda da engrenagem emperra em algum lugar (não sabemos onde, nem quais os responsáveis) e começa a morrer gente, de forma meio bárbara, e veloz. Parece que todos estão sob o cutelo de algum ser pairando em algum lugar, que tudo sabe e tudo vê. Meio aflitivo, e meio confuso, mas ninguém deixa de ver um segundo para não se perder ainda mais.
E há ainda as considerações morais sobre a inevitabilidade das escolhas feitas, de como não há volta em certos caminhos que se tomam; de como não há escapatória para determinados atos, além de muitas conversas de cunho moralizante (nunca um diamante revelou-se tão rico em sentidos - pílulas para a vida). O elenco, estelar - Brad Pitt, Michael Fassbender (o counselor, uma ironia à parte), Penélope Cruz, Cameron Diaz, Rosie Perez, Bruno Ganz, todos entram e saem com a rapidez das ações que passam na tela, mas todos cumprem à risca os exageros que o roteiro lhes impõe. Para mim, Bardem sempre parece se sair melhor, até porque a cena mais escatológica coube a ele presenciar, mas Cameron também inova em sua recorrente galeria de mocinhas românticas. Hollywood parece ter resolvido entronizar suas divas em mais uma categoria - a de cruéis chefonas do crime, organizado ou não, onde se mostram muito, muito más.
sexta-feira, 18 de outubro de 2013
Mato sem cachorro
Simpaticíssima comédia, onde o humor foge um pouco ao tom de escracho e escatologia que tem dominado esse gênero atualmente por aqui, e se estrutura em torno de situações engraçadas do cotidiano, bem como em atuações muito boas tanto do Gagliasso, que eu não conhecia de cinema, nem sabia que poderia criar um personagem que não vive apenas de sua beleza mas, ao contrário, é bem esculhambado e meio abestado, mas convencendo sempre. O humor mais abusado, mas ainda assim em tom bem 'família', fica por conta de Danilo Gentile, num personagem com sotaque paulista e uma tiradas já conhecidas sobre a eterna rixa Sampa/Rio, fazendo um tipo meio maluco-beleza que nunca se dá bem com as mulheres etc e tal. Já a sempre ótima Leandra Leal continua ótima, bem como uma inesperada Gabriela Duarte vivendo uma espécie de mulher Rebordosa, bebum boca suja, e muito bem. Já Henrique Diaz me decepcionou, porque me pareceu reconhecer em seus trejeitos os mesmos que já vira na peça ótima que ele protagonizou com maestria há alguns meses no Oi Futuro - tudo de voz e entonação e trejeitos aqui, estão igualmente lá.
Há também outro lado super bacana do filme, que é a trilha sonora, uma mistura brasileiríssima de brega com rock e todo tipo de música, a propósito de haver uma banda iniciante em cena e o Gagliasso passar o tempo mixando trechos e estilos, numa combinação quase surreal de sons e estilos, que dá certíssimo. O Magal e a Sandy são figurantes de luxo, e esse é o deslize mais grave do filme, acho - Magal tinha de fazer alguma coisa, não necessariamente cantar (ele canta na trilha a impagável 'Sandra Rosa Madalena'), e na apresentação final da banda tinham de ter feito o show para nós, espectadores, e cantado aquela composição de loucos e lindíssima que ensaiaram antes. Ficou meio chocho o final, com o júri sem expressão e sem o fecho da canção que, de certo modo, esperávamos todos. Parece que faltou fôlego à produção na última reta.
Mas vale muito a ida ao cinema, e apesar das falas em off criticarem a idéia de família tradicional, é para ela que se encaminham os personagens, e esse happy end amplo e irrestrito, a par de estarmos muito habituados a ele das comédias estadunidenses, mostra que descobrimos, afinal, outros caminhos para nossa própria forma de rir, tendo aprendido com eles, que fazem isso com sucesso há milênios, alguns de seus melhores macetes. Agora parece que nós também podemos fazer, e bem, que ótimo.
Há também outro lado super bacana do filme, que é a trilha sonora, uma mistura brasileiríssima de brega com rock e todo tipo de música, a propósito de haver uma banda iniciante em cena e o Gagliasso passar o tempo mixando trechos e estilos, numa combinação quase surreal de sons e estilos, que dá certíssimo. O Magal e a Sandy são figurantes de luxo, e esse é o deslize mais grave do filme, acho - Magal tinha de fazer alguma coisa, não necessariamente cantar (ele canta na trilha a impagável 'Sandra Rosa Madalena'), e na apresentação final da banda tinham de ter feito o show para nós, espectadores, e cantado aquela composição de loucos e lindíssima que ensaiaram antes. Ficou meio chocho o final, com o júri sem expressão e sem o fecho da canção que, de certo modo, esperávamos todos. Parece que faltou fôlego à produção na última reta.
Mas vale muito a ida ao cinema, e apesar das falas em off criticarem a idéia de família tradicional, é para ela que se encaminham os personagens, e esse happy end amplo e irrestrito, a par de estarmos muito habituados a ele das comédias estadunidenses, mostra que descobrimos, afinal, outros caminhos para nossa própria forma de rir, tendo aprendido com eles, que fazem isso com sucesso há milênios, alguns de seus melhores macetes. Agora parece que nós também podemos fazer, e bem, que ótimo.
sexta-feira, 11 de outubro de 2013
Only lovers left alive
O filme emana leveza, bom humor, sofisticação, inteligência, tudo isso vindo de uma dupla que fica o tempo todo com a mesma roupa, meio sujinha e antiga, mas cheia de estilo. Estilo também é o que não falta ao modo de encenar o tédio em que estão imersos esses dois, Eve e Adam, mais a irmã dela, Ava, em aparição não muito longa, uma jovem impaciente e estabanada, que acaba sugando o único vivente amigo do talentosíssimo músico Adam, flagrado no tempo em que o filme se passa em uma crise existencial aguda, entediado com a incompetência dos humanos, que ele chama de zumbies, quanto à gerência do espaço-tempo, esse, numa Detroit detonada, abandonada, meio cemitério de mortos-vivos, por onde os dois amam passear quando a noite cai.
Há também um clima noir, ultra romântico e meio dark, quando mais não seja porque Adam sente saudades de Byron, dos amigos músicos que ao longo dos séculos foram seus parceiros de vida, de artes, de sons, e cujas fotos ele traz em sua parede, como os zumbies fazem, ou faziam, com as fotos de parentes amados espalhados pela casa. E há, quase no final, uma cantora extremamente talentosa, Jasmine seu nome lá (não a conheço), que ele ouve em Tânger, meio bêbado de sede e sono, meio à deriva enquanto a amada vai buscar-lhe um presente - ele a ouve e a câmera vai caminhando junto com ele até a porta do bar onde ela canta - mas o que é aquela voz, quem é essa que canta expelindo a alma numa interpretação soberba, em dor e excelência? Lembra Amy, e o comentário dele a respeito de fama me pareceu muito adequado - a Amy, e aos tempos nossos, sobretudo. Belíssimo filme, bem vinda volta, a meus olhos, essa do Jarmusch.
terça-feira, 8 de outubro de 2013
Mais quatro: Obsessão; Ça brûle; Nebraska; Gravidade
Obsessão : Lee Daniels, 2013. Um dos melhores filmes vistos até agora, muito, muito bom, com uma Nicole Kidman perfeita no papel de uma mulher qualquer, desmazelada, além de todos os outros, ótimos - Zac Effron, sensual e belo, faz um personagem seduzido, ou melhor, abduzido pela beleza da femme fatale vivida por Nicole; John Kusac, num papel inovador para sua carreira, um matador que ela faz muitíssimo bem, e assustador em suas nuances; Matthew McConaughey, cujo personagem força a direção da história para outro caminho, perturbador e rico em suas consequências, além de trágico; David Oyelowo, cuja cor negra tem importância para aquele mundo histórico, e sobretudo social. Todos muito bons, encaminhamentos inesperados, final forte, atos extremos.
O filme tem aquele clima de desolação das pequenas cidades do interior estadunidense, além de seres à deriva, perdidos em vidas meio sem sentido, a violência à espreita e se esparramando em águas paradas, em enormes bocas de crocodilos exterminados, famintos e eviscerados - metáfora do clima geral de espreita e bote. Famintos todos de contato íntimo, de sexo - Kidman, a sensual-ingênua amante de um presidiário diz muito sobre as ânsias sexuais e a temperatura dos corpos. Mais que bom - excelente.
Ça brûle : Claire Simon, 2008. Com Camille Varenne, Gilbert Melk, Marion Maintenay. Outro filme que captura com maestria o clima de uma cidadezinha de província, no interior da França, cujos moradores vivem suas emoções mais intensas em época de verão, quando turistas a invadem à procura de - sossego. Mas para os jovens e adolescentes, sedentos por emoções, fortes ou não, a cidade tem poucos atrativos, daí ser necessário criar situações para testar não apenas se os sentimentos confusos que habitam seus corpos poderiam ser o tão esperado amor, ou apenas uma inquietação inerente ao nascimento dos afetos - todos.
E uma das jovens cisma, se entedia, perambula, sofre um certo abandono dos pais e, sobretudo, de seu cavalo, que lhe é praticamente tomado, e sofre mais. Tanto que comete um daqueles atos gratuitos, oriundos do puro não-ter-o-que-fazer, com consequências devastadoras, como sugere literalmente o título.
A partir desse ato impensado, o inesperado acontece, e não há como não achar necessário ter dado maiores limites àquela jovem, não ter sido utilizada com ela mais energia, mais conversa, mais afeto, mais presença, mais pais de verdade. Mas não houve, não foi, não deu. E ela fica malíssima na fita, nós ficamos irados com tanta irresponsabilidade, e o final do filme se resolve de um modo meio irritante também. Acho que ela deveria ter sofrido, aprendido mais, ao invés do que aconteceu. Creio que não perdoei o final, de certo modo 'fácil', do filme.
Nebraska: Alexander Payne, 2013. Com Bruce Dern, Will Forte, Bob Odenkrirk. Trata-se de um filme sobre o re-encontro de pai e filho, no momento final da vida do primeiro, quando ele sente necessidade de revisitar um pedaço de si que ficou lá atrás, em algum lugar que, no filme, será representado por um falso bilhete premiado de um milhão. O homem cisma que ganhou aquele prêmio, mas na verdade o que ele precisa é resgatar a si mesmo, sua história, os lugares por onde viveu, antes de seu fim.
Tudo se passa basicamente entre homens, e as mulheres à volta deles ou são bruxas completas, como a do protagonista, ou são coadjuvantes na vida dos outros, como as dos irmãos, tios e amigos antigos. Como pertenço a uma família basicamente matriarcal, em que as mulheres é que fincaram bandeiras no mundo do trabalho (e eventualmente do afeto), achei o filme distante de mim, embora reconheça sua força, sua grandeza, ao tratar o universo da velhice sem condescendência. Trata-se, enfim, de um filme denso e um tanto árido sobre o que se perde ao longo do caminho, sobre o que um filho herda, e estende para além o legado do bem, sobre como um gesto apenas, bem simples, pode ser como um filete de água no mundo seco, sedento e triste do desamparo.
Gravidade : Alfonso Cuarón, 2013, com Sandra Bullock e George Clooney. Achei um dos piores filmes sobre espaço já feitos - e não me refiro a tecnicalidades, porque acho que elas só servem ao filme se houver uma boa história, um bom roteiro, bons intérpretes, e o que vi foi uma excelente atriz pagando mico ao fazer um personagem perdido no espaço que geme o tempo todo, emite sons ininteligíveis, sussurra ais por quase todo o sempre, enquanto a nave é atingida por estilhaços de meteoros - cenas de patetice explícita, achei, tanto maior quanto seu parceiro de voo, o belo Clooney, é capaz durante todo o evento de dizer coisas engraçadas, formar frases com sentido, ter humor e charme - isso tudo sob o furor dessa mesma tempestade. Pena que ele morre, e ela sobrevive dizendo as mesmas poucas sílabas, até o final. Um desastre completo, nenhum dos dois precisava ter feito esse trabalho, e suas carreiras passariam perfeitamente bem sem ele.
O filme tem aquele clima de desolação das pequenas cidades do interior estadunidense, além de seres à deriva, perdidos em vidas meio sem sentido, a violência à espreita e se esparramando em águas paradas, em enormes bocas de crocodilos exterminados, famintos e eviscerados - metáfora do clima geral de espreita e bote. Famintos todos de contato íntimo, de sexo - Kidman, a sensual-ingênua amante de um presidiário diz muito sobre as ânsias sexuais e a temperatura dos corpos. Mais que bom - excelente.
Ça brûle : Claire Simon, 2008. Com Camille Varenne, Gilbert Melk, Marion Maintenay. Outro filme que captura com maestria o clima de uma cidadezinha de província, no interior da França, cujos moradores vivem suas emoções mais intensas em época de verão, quando turistas a invadem à procura de - sossego. Mas para os jovens e adolescentes, sedentos por emoções, fortes ou não, a cidade tem poucos atrativos, daí ser necessário criar situações para testar não apenas se os sentimentos confusos que habitam seus corpos poderiam ser o tão esperado amor, ou apenas uma inquietação inerente ao nascimento dos afetos - todos.
E uma das jovens cisma, se entedia, perambula, sofre um certo abandono dos pais e, sobretudo, de seu cavalo, que lhe é praticamente tomado, e sofre mais. Tanto que comete um daqueles atos gratuitos, oriundos do puro não-ter-o-que-fazer, com consequências devastadoras, como sugere literalmente o título.
A partir desse ato impensado, o inesperado acontece, e não há como não achar necessário ter dado maiores limites àquela jovem, não ter sido utilizada com ela mais energia, mais conversa, mais afeto, mais presença, mais pais de verdade. Mas não houve, não foi, não deu. E ela fica malíssima na fita, nós ficamos irados com tanta irresponsabilidade, e o final do filme se resolve de um modo meio irritante também. Acho que ela deveria ter sofrido, aprendido mais, ao invés do que aconteceu. Creio que não perdoei o final, de certo modo 'fácil', do filme.
Nebraska: Alexander Payne, 2013. Com Bruce Dern, Will Forte, Bob Odenkrirk. Trata-se de um filme sobre o re-encontro de pai e filho, no momento final da vida do primeiro, quando ele sente necessidade de revisitar um pedaço de si que ficou lá atrás, em algum lugar que, no filme, será representado por um falso bilhete premiado de um milhão. O homem cisma que ganhou aquele prêmio, mas na verdade o que ele precisa é resgatar a si mesmo, sua história, os lugares por onde viveu, antes de seu fim.
Tudo se passa basicamente entre homens, e as mulheres à volta deles ou são bruxas completas, como a do protagonista, ou são coadjuvantes na vida dos outros, como as dos irmãos, tios e amigos antigos. Como pertenço a uma família basicamente matriarcal, em que as mulheres é que fincaram bandeiras no mundo do trabalho (e eventualmente do afeto), achei o filme distante de mim, embora reconheça sua força, sua grandeza, ao tratar o universo da velhice sem condescendência. Trata-se, enfim, de um filme denso e um tanto árido sobre o que se perde ao longo do caminho, sobre o que um filho herda, e estende para além o legado do bem, sobre como um gesto apenas, bem simples, pode ser como um filete de água no mundo seco, sedento e triste do desamparo.
Gravidade : Alfonso Cuarón, 2013, com Sandra Bullock e George Clooney. Achei um dos piores filmes sobre espaço já feitos - e não me refiro a tecnicalidades, porque acho que elas só servem ao filme se houver uma boa história, um bom roteiro, bons intérpretes, e o que vi foi uma excelente atriz pagando mico ao fazer um personagem perdido no espaço que geme o tempo todo, emite sons ininteligíveis, sussurra ais por quase todo o sempre, enquanto a nave é atingida por estilhaços de meteoros - cenas de patetice explícita, achei, tanto maior quanto seu parceiro de voo, o belo Clooney, é capaz durante todo o evento de dizer coisas engraçadas, formar frases com sentido, ter humor e charme - isso tudo sob o furor dessa mesma tempestade. Pena que ele morre, e ela sobrevive dizendo as mesmas poucas sílabas, até o final. Um desastre completo, nenhum dos dois precisava ter feito esse trabalho, e suas carreiras passariam perfeitamente bem sem ele.
quinta-feira, 3 de outubro de 2013
Tatuagem
Enfim, um filme sem pudores, e com homens se amando sem pudores. Irandhir faísca na tela, e toda a trupe de atores está fazendo o melhor: Rodrigo Garcia (Paulete), Jesuíta Barbosa (soldado Fininha), Sylvia Prado (Deusa) são alguns dos que fazem daquele pequeno cabaret nos confins do mundo um lugar onde se pode ser quem se é, a arte reina, e se tecem os laços de um trabalho originalíssimo, de que resulta um filme contundente, forte, especial.
Blue Jasmine
Blue Jasmine (Woody Allen, 2013) realiza o encontro desse
autor de tantas obras primas com a brilhante Cate Blanchet de forma magistral.
Um grande filme e uma grande personagem, não apenas uma magistral interpretação
de atriz, mas uma criação de personagem com tudo para ficar no panteão dos
clássicos da cinematografia, ou da literatura.
Sua grandeza reside em exprimir até a última gota ou traço ou gesto uma existência que cada vez mais inapelavelmente vai-se corroendo de uma 'não existência', por assim dizer, na medida em que tudo a sua volta vai-se esborralhando sem que ela tenha controle, ou melhor, quando ela percebe que as coisas não têm volta, ou quando quer enxergar o que já se insinuava há muito, mas ela fingia não ver, a represa já está fazendo muita água, e inunda toda sua vida. Vida ex-cêntrica, sem centro próprio, já que respira em função da boa vida e dos mimos que o marido e seu dinheiro proporcionam, cuja origem são as negociatas fraudulentas - sim, ainda a débacle da economia - até que num rompante emocional, ocasionado por uma traição dele, ela o delata ao FBI. A partir daí, essa vida que não tinha a menor idéia de que não existia por si mesma, começa sua descida rumo ao non sense completo.
É muito forte o modo como o diretor e roteirista, ou seja, o gênio de Allen, conseguem expressar a falência do sistema financeiro de forma ainda nova e pari passu à derrocada moral e psíquica dessa personagem, prenhe de uma tragédia tão agônica que chega a ser hilária. Ambos os sistemas - o financeiro, e o psíquico - estão em compasso de espera para seus momentos finais. Ambos estão em ruínas. Ambos estão apodrecendo, e é esse processo de apodrecimento que o filme flagra.
Blanchet consegue expressar todas - t.o.d.a.s - as nuances de uma mente num certo momento confiante, meio arrogante, sofisticada, blasé - quando na fase 'pseudo' rica; e depois confusa, traída, perdida, aparvalhada, louca - quando perde tudo, isso com detalhes de expressão. É um prêmio e um prazer vê-la atuar aqui. Todos os outros - Alec Baldwin, Silly Hawkins, Peter Sarsgaard, Bobby Cannavale - são rigorosamente seus coadjuvantes, muito bons, mas o filme é dela, sem dúvida. Um grande filme.
Sua grandeza reside em exprimir até a última gota ou traço ou gesto uma existência que cada vez mais inapelavelmente vai-se corroendo de uma 'não existência', por assim dizer, na medida em que tudo a sua volta vai-se esborralhando sem que ela tenha controle, ou melhor, quando ela percebe que as coisas não têm volta, ou quando quer enxergar o que já se insinuava há muito, mas ela fingia não ver, a represa já está fazendo muita água, e inunda toda sua vida. Vida ex-cêntrica, sem centro próprio, já que respira em função da boa vida e dos mimos que o marido e seu dinheiro proporcionam, cuja origem são as negociatas fraudulentas - sim, ainda a débacle da economia - até que num rompante emocional, ocasionado por uma traição dele, ela o delata ao FBI. A partir daí, essa vida que não tinha a menor idéia de que não existia por si mesma, começa sua descida rumo ao non sense completo.
É muito forte o modo como o diretor e roteirista, ou seja, o gênio de Allen, conseguem expressar a falência do sistema financeiro de forma ainda nova e pari passu à derrocada moral e psíquica dessa personagem, prenhe de uma tragédia tão agônica que chega a ser hilária. Ambos os sistemas - o financeiro, e o psíquico - estão em compasso de espera para seus momentos finais. Ambos estão em ruínas. Ambos estão apodrecendo, e é esse processo de apodrecimento que o filme flagra.
Blanchet consegue expressar todas - t.o.d.a.s - as nuances de uma mente num certo momento confiante, meio arrogante, sofisticada, blasé - quando na fase 'pseudo' rica; e depois confusa, traída, perdida, aparvalhada, louca - quando perde tudo, isso com detalhes de expressão. É um prêmio e um prazer vê-la atuar aqui. Todos os outros - Alec Baldwin, Silly Hawkins, Peter Sarsgaard, Bobby Cannavale - são rigorosamente seus coadjuvantes, muito bons, mas o filme é dela, sem dúvida. Um grande filme.
O verão da minha vida; A garota de lugar nenhum
O verão da minha vida (The way back, Nat Faxon, 2013), com Steve Carrell, Toni Colette, Allison Janney, Amanda Peet, Anna Sophia Robb, Sam Rockwell é um filme que todo mundo tem de ver. Não apenas adolescentes, ou pré adolescentes, ou adultos que gostam de coisas leves, ou pesadas, todo mundo.
Por quê? Porque é lindo, é bom, é divertido, é um filme de formação, de passagem entre fases na vida de um jovem, de um possível ferrado garoto que vai-se transformando por seus méritos e um tanto por acaso numa coisa bonita, num homenzinho interessante e mais seguro, tudo isso a despeito do descaso pontual da mãe, uma sempre boa Toni Colette, do desprezo do namorado dela, vivido por um Steve Carell em papel de bad boy, e da indiferença da irmã, em sua fase aborrecente. Tudo funciona bem, mesmo e sobretudo, as trapalhadas da personagem bebum vivida pela hilariante Allison Janney, além do super boa praça e engraçado Sam Rockwell, o responsável pela 'graduação' do personagem de Liam James.
A garota de lugar nenhum (La fille de nulle part, Jean-Claude Brisseau, 2012), com o diretor vivendo o protagonista, mais Virginie Legeay, Claude Moret, Lise Bellynck, trabalha numa clave meio surreal, em que uma moça aparece na casa de um escritor e professor aposentado, depois de ser flagrada na escada levando uma surra de um jovem.
A partir daí eles começam uma relação de amizade permeada por situações estranhas, com fantasmas aparecendo em razão da garota ter um dom para vê-los e premonições a respeito da presença da morte dos que ela ama.
Enfim, um filme sobre estranhos, paralelos mundos, e de concretas solidões, que se encontram emcerto momento de sua trajetória, e na linha final da vida. Pode-se ver com atenção, mas conserva um ar de inusitado.
Por quê? Porque é lindo, é bom, é divertido, é um filme de formação, de passagem entre fases na vida de um jovem, de um possível ferrado garoto que vai-se transformando por seus méritos e um tanto por acaso numa coisa bonita, num homenzinho interessante e mais seguro, tudo isso a despeito do descaso pontual da mãe, uma sempre boa Toni Colette, do desprezo do namorado dela, vivido por um Steve Carell em papel de bad boy, e da indiferença da irmã, em sua fase aborrecente. Tudo funciona bem, mesmo e sobretudo, as trapalhadas da personagem bebum vivida pela hilariante Allison Janney, além do super boa praça e engraçado Sam Rockwell, o responsável pela 'graduação' do personagem de Liam James.
A garota de lugar nenhum (La fille de nulle part, Jean-Claude Brisseau, 2012), com o diretor vivendo o protagonista, mais Virginie Legeay, Claude Moret, Lise Bellynck, trabalha numa clave meio surreal, em que uma moça aparece na casa de um escritor e professor aposentado, depois de ser flagrada na escada levando uma surra de um jovem.A partir daí eles começam uma relação de amizade permeada por situações estranhas, com fantasmas aparecendo em razão da garota ter um dom para vê-los e premonições a respeito da presença da morte dos que ela ama.
Enfim, um filme sobre estranhos, paralelos mundos, e de concretas solidões, que se encontram emcerto momento de sua trajetória, e na linha final da vida. Pode-se ver com atenção, mas conserva um ar de inusitado.
terça-feira, 1 de outubro de 2013
Night moves
Achei o ritmo do filme um problema, me deu sono em vários momentos, mas é interessante a proposta desse Night moves (Kelly Reichardt, 2013), com a boa Dakota Fanning, Peter Sarsgaard e a mesma expressão no rosto de Jesse Eisenberg, rigorosamente a mesma de outros trabalhos - esse rapaz precisa se reinventar, acho.
De todo modo, o filme tem um timing que não condiz com meu temperamento, é leeento, a ida pelo rio leva um século, e gera um clima que deveria ser de tensão, mas se transforma em exasperação. Depois, tudo continua em slow motion, talvez de acordo com o ritmo de vida na pequena comunidade a que pertencem os dois personagens - o que mais me interessou, na verdade, foi esse olhar sobre a pequena agricultura familiar, os trabalhos diários com verduras, legumes (lindos e pujantes), o dia a dia numa pequena fazenda de produtos talvez orgânicos - fiquei com vontade de estar lá.
Há uma idéia interessante movendo o filme, claro, há jovens idealistas que cometem atos cujas consequências inesperadas mudam suas vidas para sempre, e isso é o cerne da história - como foi que tudo deu tão errado? E como, às vezes, não há mesmo volta nos caminhos e atalhos escolhidos, eles os vão levando a cada vez mais estreitos becos sem saída. Só acho que a visada dramática inerente às situações vividas e expostas dilui-se num ritmo excessivamente lento, mas pode ser apenas a visão subjetiva de uma espectadora inquieta.
De todo modo, o filme tem um timing que não condiz com meu temperamento, é leeento, a ida pelo rio leva um século, e gera um clima que deveria ser de tensão, mas se transforma em exasperação. Depois, tudo continua em slow motion, talvez de acordo com o ritmo de vida na pequena comunidade a que pertencem os dois personagens - o que mais me interessou, na verdade, foi esse olhar sobre a pequena agricultura familiar, os trabalhos diários com verduras, legumes (lindos e pujantes), o dia a dia numa pequena fazenda de produtos talvez orgânicos - fiquei com vontade de estar lá.
Há uma idéia interessante movendo o filme, claro, há jovens idealistas que cometem atos cujas consequências inesperadas mudam suas vidas para sempre, e isso é o cerne da história - como foi que tudo deu tão errado? E como, às vezes, não há mesmo volta nos caminhos e atalhos escolhidos, eles os vão levando a cada vez mais estreitos becos sem saída. Só acho que a visada dramática inerente às situações vividas e expostas dilui-se num ritmo excessivamente lento, mas pode ser apenas a visão subjetiva de uma espectadora inquieta.
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