O cheiro dos sapatos novos jamais me abandonou. Aquele
cheiro específico, misturado com odor de papel novo, cola,
couro, novidade, cheiro de gente de verdade.
cheiro específico, misturado com odor de papel novo, cola,
couro, novidade, cheiro de gente de verdade.
Eu era menina, devia ter uns seis, cinco anos, morava nos
cafundós do Ceará (para registro: Alto Santo). Meu tio tinha vindo
do Rio de Janeiro, do outro lado do mundo, para nos visitar, e
trouxe todo o luxo com que jamais sonhara - máquina de tirar
fotos, roupas, sabonetes, muitas novidades. Minha mãe, mesmo
paupérrima, comprou os sapatos em Mossoró, segundo me disse.
Esse cheiro que eu reconheci muitas vezes depois de adulta, com
um sentimento que, tenho certeza, Proust descreveu quando falou do gosto da madeleine:
nostalgia, esgarçamento, distância, tempo, alegria, existência, futuro bom pressentido, outra
vida. Tento não esquecer, mas o cheiro me escapa, faço força para lembrar e o encontro às
vezes inesperadamente. Jamais poderei compartilhar o que significa isso na minha história,
a não ser como 'marca', 'sinete' inscrito na percepção dos cheiros.
Já o vestido fora feito por ela que, muito pobre, tinha um orgulho imenso do bordado de
sianinha sobre o TV8 (sim, era o nome do tecido) marinho, reforçado com goma ao passar
para ficar armado, sinônimo de elegância. O vestido pinicava, o bolero esquentava, mas a
mãe não abria mão da singela elegância dos filhos, fazia sacrifícios e ela mesma cuidava
para que os três parecessem "gente".
Mas fora da foto, a gente se vestia exatamente como a menina encostada na parede. Ela
parece diferente de nós, mas não era, e ficou na foto na marra...
