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segunda-feira, 5 de maio de 2014

Memórias (1) - Uns sapatos e seu cheiro



O cheiro dos sapatos novos jamais me abandonou. Aquele 
cheiro específico, misturado com odor de papel novo, cola, 
couro, novidade, cheiro de gente de verdade.

Eu era menina, devia ter uns seis, cinco anos, morava nos 

cafundós do Ceará (para registro: Alto Santo). Meu tio tinha vindo
do Rio de Janeiro, do outro lado do mundo, para nos visitar, 
trouxe todo o luxo com que jamais sonhara - máquina de tirar 
fotos, roupas, sabonetes, muitas novidades. Minha mãe, mesmo 
paupérrima, comprou os sapatos em Mossoró, segundo me disse. 

Esse cheiro que eu reconheci muitas vezes depois de adulta, com

um sentimento que, tenho certeza, Proust descreveu quando falou do gosto da madeleine
nostalgia, esgarçamento, distância, tempo, alegria, existência, futuro bom pressentido, outra 
vida. Tento não esquecer, mas o cheiro me escapa, faço força para lembrar e o encontro às 
vezes inesperadamente. Jamais poderei compartilhar o que significa isso na minha história, 
a não ser como 'marca', 'sinete' inscrito na percepção dos cheiros.

Já o vestido fora feito por ela que, muito pobre, tinha um orgulho imenso do bordado de 

sianinha sobre o TV8 (sim, era o nome do tecido) marinho, reforçado com goma ao passar
para ficar armado, sinônimo de elegância. O vestido pinicava, o bolero esquentava, mas a 
mãe não abria mão da singela elegância dos filhos, fazia sacrifícios e ela mesma cuidava
para que os três parecessem "gente".

Mas fora da foto, a gente se vestia exatamente como a menina encostada na parede. Ela 

parece diferente de nós, mas não era, e ficou na foto na marra...