terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Ida e volta

Cheguei em Vila Velha ano passado nesse mês de dezembro. Ia tangida pela opressão das obrigações familiares, sufocada por responsabilidades que não deveriam ter sido assumidas tão radicalmente, mas de que não havia como fugir - quando se trata de mãe, e de desamparo, não abandono. E sou de abandonar - abandono fácil lugares, cidades, pessoas que deixaram de me dizer alguma coisa. Mas não os desamparados, os sob minha guarda ou que dependem de mim. O problema ainda parece ser encontrar os limites, sempre tive dificuldades com os limites.

De todo modo, parece ser hora de voltar, e essa não é uma decisão fácil, porque não sou do time do "Rio, eu te amo" incondicional, sou das que veem uma das mais belas cidades do mundo imersa numa crise estrutural, onde a cultura passeia de mãos dadas com os desmandos, a crise de valores geral que assola o país, e os governantes. Uma cidade tomada pela especulação, sobretudo imobiliária; uma cidade difícil de ser abandonada, porque o que resta da família, a mãe sobretudo, que está no fim de sua vida difícil e atribulada, não arreda pé daqui, não abre mão da beleza que salta à vista. 


Ela não vê os problemas, não enxerga nada que não seja uma história de emancipação, de superação da pobreza pelo trabalho árduo, de sobrevivência com dignidade e liberdade, um tipo de conquista para uma mulher viúva e sozinha que, penso, só uma grande metrópole, como o Rio, poderia assegurar-lhe. Se se somar a esse gigantesco passo individual uma beleza deslumbrante, amizades construídas, espaços conquistados, entende-se perfeitamente que ela tenha fincado os pés, e a alma, nesta cidade, onde já comprou há décadas o jazigo final - uma transação inegociável, inadiável, irremovível. 

Agora, resta montar o quebra-cabeças dessa volta. 

quinta-feira, 13 de novembro de 2014

Manoel de Barros atravessa as estrelas

Para não esquecer.

Poeta Lucia encontra poeta Manoel - e nós lemos as estrelas com que ambos povoam nossa parca existência com palavras-pirilampos. Nenhum poeta morre jamais.

Paulinho Assunção adicionou 2 novas fotos.
[LUCIA CASTELLO BRANCO: "PASSARINHO DESAPARECEU DE CANTAR"]
Só hoje soube, Manoel, que você já estava de partida. Acho que quem primeiro me avisou foi o silêncio em torno da manhã. Depois, meu coração ficou vazio e pensei: “um lápis sobre a península”. A imagem me pareceu sozinha e eu me lembrei daquela estrada, aquela que é deserta por dois motivos: por abandono ou por desprezo.
Pensei no seu livro que nunca foi publicado: “Nossa Senhora da Minha Escuridão”. E tive saudades do menino que me deu de presente a metade do título de um livro impublicável. Como me deu, no mais generoso dos gestos, sua letrinha miúda, em tantas cartas, em tantas pequenas confissões.
Pensei na menina que foi a seu encontro depois de dez anos de “nunca te vi, sempre te amei”. E no seu sorriso largo, ao me dizer: “sua alma também é linda”. E lembrei do seixo que te servia de bengala para caminhar. E do livro de Francis Ponge, deixado sobre a mesa de cabeceira. E das doses de uísque, nas conversas sobre poesia. E daquela frase, que nunca vou esquecer: “Agora tu vais ter que perder a tua melancolia”.
Mas foi também você quem me disse, citando Cioran, que, “num mundo sem melancolia, os rouxinóis se poriam a arrotar”. E agora, Manoel, o que faço ao te ver assim, lá do alto, soprando minha melancolia de suas alturas de urubuir?
Queria estar ao pé da sua cama, no hospital, para te ler poemas. Os seus, de preferência. Assim eu começaria: “Sobre meu corpo se deitou a noite”. E seria, para os seus sonhos, o colchão de espumas. Mas fico aqui, de tão longe tão perto, imaginando que você dorme sobre a poesia e que ela, para sempre, há de te embalar. Ela, estrela maior – Stella – a velar o poeta.
Enquanto você dorme, Manoel, eu acordo a madrugada. Tenho vontade de gritar: “Ouçam, há um ruído na espessura do silêncio, um rasgão a anunciar uma era sem palavras”. E logo penso que o meu sabiá com trevas não suportaria tamanha estridência. Então me calo e ouço baixinho a sua voz: “Deixe, deixe, meu amor, tudo vai acabar. A gente vai desaparecendo que nem Carlitos no final da estrada. Deixe, deixe, meu amor”.
Lucia Castello Branco


sábado, 8 de novembro de 2014

Alcir Pécora - sobre a não-escrita necessária

Alcir Pécora escreveu nessa data, no site de crítica citado, um texto magnífico que eu necessito deixar aqui transcrito para me lembrar no futuro, quando achar que não fiz nada da minha vida porque faltou escrever a sério alguma coisa no campo da ficção. Só posso agradecer porque seus olhos e palavras me disseram o óbvio que, por ser óbvio, eu não via: não é, não foi, não será necessário. Se o fosse, já teria sido.

Sublinhei o que mais me tocou.


O inconfessável: escrever não é preciso


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fazer o que seja é inútil.
Não fazer nada é inútil. Mas entre fazer e não fazer
mais vale o inútil do não-fazer
(O Artista Inconfessável. Museu de Tudo, 1975, João Cabral, adulterado)


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1. Ao contrário do que usualmente se supõe, a passagem dos anos não tem obrigação nenhuma de revelar algum grande autor ou mesmo um autor apenas razoavelmente bom. A regra estava valendo para o passado que revelou tantos autores extraordinários, quanto vale para os próximos cem ou mil anos, que talvez nunca vejam nenhum outro, assim como podem ver centenas deles. Se grandes autores apareceram com regularidade, ou aparecerão da mesma forma, isto são contingências, não necessidade ou decorrência lógica de um conjunto quantitativo sempre crescente de escritos.
2. Antologias de autores promissores ou novos lançamentos de escritores contemporâneos não cessam de aparecer, por piores que sejam eles. Alguns são jovens, outros são célebres, outros são simples amigos do editor: qualquer coisa basta. Por isso mesmo, nada é suficiente como critério de edição, e o publicado basicamente ajuda a encobrir a percepção evidente de que não há nada de relevante sendo escrito, e nem mesmo há indícios de que essa relevância possa ser descoberta outra vez no domínio da literatura.
3. Não parece haver nada relevante sendo escrito, e esta é a mais provável razão desse poço, desse mar de coisa escrita.
4. A suposta necessidade de aparecimento de novos grandes autores é, no melhor dos casos, apenas uma reação contra a situação de contingência radical que é a nossa. Nada garante, entretanto, que, no futuro, leremos algum novo grande autor, a despeito de todos os grandes que existiram antes. A despeito mesmo da probabilidade amigável de que, num mundo sem fim, algum escritor decente se ponha de pé, e ande, assim como num mundo de macacos há boa probabilidade de que um deles possa tomar um desvio inesperado em sua evolução e virar homem.
5. Probabilidade, mesmo uma boa probabilidade, não é necessidade, mas apenas média projetada de eventos. Resulta, portanto, que um grande autor é o resultado imponderável de um conjunto de circunstâncias e ocorrências inesperadas sem qualquer garantia de repetição de seus termos de existência.
6. A suposta necessidade, já agora como hipótese medianamente ruim, se apresenta como um efeito psicológico primário associado a uma estratégia usual de mercado que finge lançar novos produtos “definitivos” a cada dia. Isto posto, é certo que nenhum crime contra-natura foi cometido, quando se percebe como são poucos os escritores brasileiros surgidos nos últimos 30 anos a que se poderia aplicar a categoria de autor a sério.
7. Agora, na pior das hipóteses possíveis, as publicações de novos bem como as novas publicações, salvo raríssimas e imponderáveis exceções, nascem da crença efetiva de que eles tenham realmente qualidades de grande autor. Evidentemente, há pouco a fazer em casos assim. Pode-se, por exemplo, tentar falar mal da antologia ou dos autores em questão, mas não há a menor chance de que eles não se julguem perseguidos pessoalmente por um crítico desonesto e mau-caráter. Um ou outro (os melhores deles), com muita sorte, deixarão de escrever, mas a maioria absoluta – ao menos enquanto continuar sem sucesso – tratará apenas de aumentar a cumplicidade e a camaradagem que guarda entre si (cf. Leopardi,Pensieri: il mondo è una lega di birbanti contro gli uomini da bene).
8. Se me perguntarem o que imagino definir a seriedade de um escritor, o que me vem primeiro à cabeça é justamente a ideia de alguém que busca resistir à vulgarização do escrito. Isto é, penso em alguém que admite, mesmo contra o seu mais íntimo desejo e a sua mais teimosa vontade, que absolutamente nada o obriga a escrever, a não ser uma falácia lógica tomada como falso imperativo de cultura.
9. Uma vez que seja assim, o escritor sério deve pensar mil vezes antes de se pôr a escrever. De preferência, como efeito de ter pensado seriamente no assunto, deve inclinar-se a não fazê-lo. Não admira, deste ponto de vista, que um pensador sério como Giorgio Agamben, imagine que Bartleby, o escrivão que se recusa a escrever, seja o melhor exemplo de um escritor que conhece a sua contingência e não abusa de sua condição fazendo o que faria melhor desde que não o fizesse. Quer dizer, quanto melhor fosse potencialmente o escritor, menos poderia sê-lo em ato, por absoluto pudor de tornar-se apenas um cotejador e copiador de uma montanha de outros escritos, já produzidos, sem senso nem motivo a não ser o de girar a própria engrenagem burocrática de escrever.
10. Mas não precisamos chegar à inteligência superior de Bartleby ou àquela que o criou, ele mesmo personagem de uma obra-prima altamente improvável. Se escrever não é preciso, alguma autocrítica não faria mal ao aspirante de escritor ou ao escritor de ofício. Ao contrário, faria um bem enorme, a ele e a nós. Luis Antonio Verney, homem de não poucas luzes, insistia em que o pretendente talvez fosse mais útil, ou menos irrelevante, trabalhando com rigor em alguma outra coisa mais à medida de seu talento, que fosse igualmente mais útil à república.
11. Se escrever não é preciso, devemos absolutamente concordar com Horácio quando nos diz que não é razoável retirar do poço os escritores que tiverem o bom senso de se atirar lá, fingindo inspiração ou loucura. Simplesmente não é civil salvar escritores da morte prematura.
12. Pessoalmente, por incorrigível vezo de criação católica, sugeriria aos jovens pretendentes que, se não têm um poço por perto, tentassem antes a vida como copydesk, ou como tradutor de algum texto de escritor reconhecidamente superior de outros tempos e lugares (se bem que, muito provavelmente, neste caso, eles acabariam por arrastá-lo para a mediocridade em que vivem), ou mesmo, em último caso – mas último caso mesmo –, que puxassem o saco de alguém que lhes descolasse alguns trabalhinhos free lance numa página de cultura ou numa editora mainstream.
13. Quaisquer dessas atividades modestas — mas não baixas, pois apenas puxar o saco é verdadeiramente baixo, embora não tanto quanto escrever porcamente (cf. Bernardo Soares e o horror dos aleijões da página mal escrita) –, além de tantas outras atividades verdadeiramente medíocres que podemos imaginar, valem muito mais a pena do que escrever, tanto em termos públicos quanto pessoais. Ao menos, são atividades seguramente menos irritantes para os outros, obrigados (por educação ou por sentimento cristão) a ler tanta irrelevância escrita. Mas deixar de escrever, sobretudo, será (seria) um enorme alívio para o próprio pretendente a escritor, que se livraria do fardo de afetar um talento que não possui e de ter de se expor continuamente à crítica de algum detrator malvado.
14. Enfim, não adianta disfarçar, escrever, em geral, é apenas deixar-se arrastar pela maré dos lugares comuns sub-letrados. É anunciar mais cedo a própria inexistência, a própria morte irreparável como autor. Publish and Perish, disse muito propriamente Marjorie Perloff.
15. Paradoxalmente, uma maneira de adiar a compreensão simples da absoluta não necessidade de escrever é pretender humildemente que escrever seja justamente apenas mais uma atividade entre outras, e o escritor, alma singela, apenas mais um homem comum, por mais coquette que se apresente em seus gestos e maneiras.
16. Chamo a isso especificamente “pretensão” e não, por exemplo, “desejo”, porque não há um só sujeito, que afirme que escrever seja uma coisa qualquer, que saiba também tirar a consequência óbvia dessa afirmação: a de que seja uma atividade tonta, indiferente e desprovida de valor pessoal ou público como a maioria absoluta de todas as outras atividades comuns e quaisquer.
17. Se não se tratasse de pura afetação arrivista, o escritor pretendente a gente comum teria de concluir que a inserção da literatura no patamar da vida média se traduz como uma simples rotina, um automatismo, cujo pressuposto (necessário, portanto) é apenas a adesão ao lugar comum. Enquanto tal, é basicamente forma de alienação da vontade própria em favor, digamos, do ganha-pão, o que definitivamente nada tem a ver com um projeto de criação artística, autocriação pessoal ou intervenção pública através da literatura produzida.
18. A consequência, pois, da pretensão da escrita como atividade ordinária é a de que escrever não apenas não constitui autores, enquanto criadores, como, ao contrário, submete-os rapidamente ao movimento da prática tosca e maquinal de reprodução do mundo no estado de merda no qual existe.
19. Esse maquinismo fabril-escriturário tem como desfecho infeliz um mar de escritos. Nessas circunstâncias, que papel feio não fazem os escritores! Para fazer deles uma imagem apenas ruim e não odiosa, teríamos de vê-los como um amontoado de corpos devolvidos à praia, pois, como alertava o quinhentista Bernardim Ribeiro, o mar não sofre coisa morta.
20. Na praia inglória, findam sobretudo jovens escritores, novas promessas, futuros talentos. De modo algum, entretanto, devemos nos comover, pelo mesmo motivo que repreendia Virgílio a Dante, enquanto observavam os sofrimentos dos precitos: é simplesmente justo. Ademais, não faz a menor diferença para nós: juventude, novidade e futuro são apenas faces simpáticas do mesmo engano que dissolve a qualificação ou a excelência do autor na banalidade do escrito.
21. Exatamente porque escrever não é preciso, escrever pode ser tudo menos uma atividade entre outras quaisquer. Escrever é um ato que, de saída, já deve uma explicação: ele tem de reinventar a sua própria relevância, a cada vez, ou então condenar-se a ser apenas uma ideia torta de novidade: o retorno do mesmo, piorado.
22. Cada escritor, conformado com a condição de exercer uma atividade ordinária, dissolve a sua vida numa linha que enuncia inexoravelmente o mesmo: o escrito é apenas uma forma de morte vil.
23. Isto é o que se pode dizer dos autores e da literatura mediana, que é o único ofício que não admite mediania virtuosa: Horácio revém. Isto é, em matéria literária, ou se é radicalmente bom, ou se é radicalmente imprestável.
24. Da crítica, entretanto, não se pode dizer o mesmo. Longe de se atirar com a força e a ingenuidade estúpida da juventude contra o mar de quantidade que a devora e contra o qual nada pode (a não ser acreditar baixamente que a banalidade é a destinação universal da escrita), a crítica foi sendo morta na cama, enquanto dormia, e seu corpo paulatinamente sendo substituído por simulacros que Foucault (cf.) chamou certa vez de meninos bonitos da cultura.
25. A especialidade dos meninos bonitos, na perfeita inversão que caracteriza a atividade dos invasores de corpos, não é evidentemente a crítica, mas o seu contrário: o colunismo social.
26. A crise aqui é a total falta de crise. A desistência da crise é a matéria básica de que se formam os bodysnatchers durante o sono da crítica. Eles são sempre gente boa, simpática, quase variantes sem mandato de vereadores e deputados, cuja habilidade profissional se mede pelo coeficiente de agilidade com que barganham os votos dos leitores pelo tráfego entre os agentes institucionais da literatura, vale dizer, grupos universitários de poder, lobbies de editoras, cadernos culturais da grande mídia, revistas literárias com algum público ou prestígio etc. O coeficiente de barganha se nutre da capacidade de estabelecimento de um círculo de cumplicidade, autoproteção e confirmação mútua entre todos os participantes do sistema de tráfego em questão.
27. Claro que isto tudo pressupõe a adesão, mesmo inconsciente, a lugares comuns e paradigmas teóricos conhecidos e transformados já em imperativos políticos e institucionais de circunstância, os quais são, por definição, conservadores – o que nos traz de volta ao autor enquanto prático de uma atividade ordinária. Neste aspecto, o diferencial do dublê de crítico é a faculdade de se manter completamente cego diante de tudo que possa revelar o profundo desinteresse, o imenso tédio das práticas literárias contemporâneas.
28. Os meninos bonitos estão lá, no meio da névoa cerrada do presente sem futuro, pintando freneticamente de luz as sombras de sono e banalidade de que são feitos. Com seu farol tingido, asseguram aos passantes que tudo vai bem, que aquele mar não é abismo, que aquele poço tem fundo, que novos grandes autores estão surgindo naturalmente, que novas obras-primas continuam a ser geradas, e até que a literatura de “nosso país” é fecunda e pujante.
29. Quando se chega a esse anúncio maravilhoso, o sistema de tráfego de banalidades está completo. O escritor qualquer coisa encontra o seu crítico sem crise. Admiram-se, respeitam-se, amam-se.
30. Se os meninos bonitos fossem mais que invasores de corpos, os quais despossuíram de crítica, tudo o que deveriam ou poderiam fazer era iluminar as trevas da própria cegueira, a obnubilação do sono, o cerco implacável do nevoeiro feito de tédio, ignorância, arrivismo e inconsequência a que estamos submetidos quando escrevemos.
31. Escrever como atividade média é o grau zero da necessidade e da utilidade.
32. Neste cenário de horror banal, mas que curiosamente se representa como euforia de criação, pouquíssima gente destoa. Isto ocorre porque quase toda gente acha, com razão, que pode fazer parte do elenco de “grandes autores”, ultimamente identificado com a mediania das atividades quaisquer. Claro que, nessas circunstâncias, muito mais difícil e desejável é, por exemplo, obter um bom emprego.
33. Os poucos e raros que desacreditam de escrever, isto é, que não entendem a escrita como atividade necessária e mediana, entendem também que praticá-la é apenas confirmá-la moribunda ou já defunta, mas não enterrá-la de vez. Escrever, frequentemente, é apenas um cadáver que passeia, um defunto que procria e multiplica, como o homem; ou que faz cento por um, como o sêmen de Deus, mas cujos frutos apenas proliferam a secura e o vazio.
34. Se escrever é prática vulgar e inútil, melhor é não-fazer (ao contrário do que pensava Cabral, que tinha, entretanto, razão, enquanto era ele a fazê-lo).
35. Nenhum motivo é bastante para escrever. Não precisamos de entretenimentos. Precisamos ainda menos de ficção, de estética, de fazer de conta que não estamos saturados de ficção no campo comum da atividade medíocre. Não precisamos de mais atividade na roda.
36. A condição do escrever é a crise. A literatura que vale a pena que escreve responde pela destruição do escrito ou simplesmente já não responde a nada.
37. O mar não sofre coisa morta etc.







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Alcir Pécora é professor livre-docente de literatura na Unicamp, onde leciona desde 1977. Autor de estudos a propósito de literatura colonial brasileira, e, em particular, do sermonário do Padre Vieira. Crítico e colaborador de jornais e periódicos científicos, no Brasil e no exterior. Entre suas publicações, destacam-se: Teatro do Sacramento (Edusp/Editora da Unicamp, 94); Máquina de Gêneros (Edusp, 2001); As Excelências do Governador (Companhia das Letras, 2002); Rudimentos da Vida Coletiva (Ateliê, 2003). Organizou dois volumes de Sermões (Hedra, 2000/ 2001), além das antologias A Arte de Morrer (Nova Alexandria, 1994) e Escritos Históricos e Políticos (Martins Fontes, 1995), todos a propósito da obra de Vieira. É organizador da edição das obras completas de Hilda Hilst pela Editora Globo.
http://www.musarara.com.br/o-inconfessavel-escrever-nao-e-preciso#comment-2142


terça-feira, 21 de outubro de 2014

No blog de Raquel Rolnik

Decidi não repostar qualquer informação sobre eleições no facebook, mas esse artigo de Raquel Rolnik vem para esse espaço, porque quero me lembrar dos motivos por que votei em Dilma no segundo turno, tendo votado em Luciana Genro no primeiro. E porque essas eleições talvez imprimam mudanças em meu projeto de vida atual, se um ou outro candidato vencer.

Não poderia, nem saberia, dizer melhor, e fica aqui como memória para quando as eleições terminarem e um dos dois iniciar esse novo momento em nossa história social e política.
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Voto em Dilma no segundo turno


*Coluna publicada originalmente na seção “Tendências/Debates”, da Folha de S. Paulo.
Daqui:
http://raquelrolnik.wordpress.com/2014/10/21/raquel-rolnik-voto-em-dilma-no-segundo-turno/


sábado, 18 de outubro de 2014

o gás e o cigarro


Não sei se o mesmo ocorre em Vitória, mas aqui em Vila Velha temos uma população que, forçosamente, precisa ser de não fumantes.

Não tenho ideia de como eles conseguem mas, estando aqui desde dezembro do ano passado, ainda não vi nenhuma ocorrência de incêndio, ou explosão - acho incrível isso, porque praticamente todos os edifícios, dos menores aos muito altos, têm esse mesmo sistema de gás, em que imensos botijões ficam praticamente na rua, protegidos por grades, em pequenos espaços, na parte da frente dos prédios.

Sempre que passo dou uma olhada, investigando se tem alguma guimba de cigarro - não tem, e talvez se tivesse eu não estaria aqui escrevendo bobagens. De tempos em tempos, vem um caminhão de gás e enche os botijões, às vezes acompanho o trabalho olhando da varanda, torcendo pra que nenhum maluco passe naquele momento com um cigarro aceso. E, confesso, tenho um pouco de medo de um apocalipse geral, se um desses prédios explodir, porque imagino que será uma tragédia em cascata, um após o outro - vai parecer efeito especial de cinema americano, e um bocado de gente (eu, inclusive) fazendo o caminho das nuvens.

domingo, 12 de outubro de 2014

A vingança da chia

Todos sabemos que a chia é uma semente pretinha, de tamanho micro, que faz maravilhas pela saúde nossa - emagrece, combate colesterol, o diabetes, tem ômega 3 e variadas vitaminas, vem do México e pode ser colocada em praticamente qualquer alimento. Mas ninguém sabe o que pode acontecer quando um recipiente de plástico contendo cento e vinte gramas da dita cuja abre e se esparrama dentro de uma geladeira cheia de panelas e potes e coisas, se aloja em todas as prateleiras, e cai ao chão esparramando-se por baixo da geladeira e pela cozinha afora. 

Para uma pessoa com certo nível de obsessão, aqueles pontos pretos em quase todo recanto da cozinha são uma batalha a ser travada milímetro a milímetro, durando horas cada peleja. Hoje acordei com disposição de eliminar o que fosse possível dos restantes grãos de ontem à noite. 
Aliás, um parêntese - todo dia alguma coisa cai da minha mão e, no momento em que comecei a limpar as tralhas das prateleiras, o prato com o melão cortado ontem também foi ao chão, mas esse foi fichinha de limpar perto da chia. 
Essa, não há como tirar todos os grãos - nem que se leve a vida toda, porque eles são micro e têm a capacidade de grudar em qualquer coisa úmida, daí que será má ideia usar o paninho da pia para limpá-lo, ou o pano de chão úmido. Em tudo ela se impregna, adere, vai-se alojando no tecido, e inchando - sim, porque a chia incha com água, e não sai do pano úmido nem quando ele seca, fica grudada ali, te desafiando a tirá-la - uma por uma, a unha. 

Continuarei a usar chia em minha dieta, até porque ela só traz benefícios, mas tomando cuidados com se fosse um recém-nascido quando manuseá-la, e nunca mais deixá-la fora de um pote hermeticamente fechado. 

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Em trânsito

Voltei, por algum tempo, home. Sinto que aqui é minha casa agora, mas ainda é imperativo voltar ao Rio com relativa frequência, embora eu acredite que essa situação não possa se sustentar indefinidamente.

[Desta vez, achei que tinha deixado acesa a luz da cozinha, e como ela já havia dado um pequeno curto uma vez, decidi autorizar o porteiro a cortar a luz do apartamento. Volto, nada estava aceso e todos os congelados foram perdidos.]

Começo a sentir necessidade de me empenhar em um novo trabalho, um desafio, uma incumbência, fora a de cuidar de todos/as.

Também me deu vontade de ler, finalmente, Ulysses, que comprei na tradução do Caetano Galindo (Cia das Letras), de voltar a ler os tantos outros à espera, com alguma decência e regularidade. Pretendo abandonar um pouco aquela outra plataforma, onde todos falam bobagens o tempo quase todo (eu, inclusive), melhor escrevê-las com alguma sintaxe, talvez.

O outro Leminski chegou, não sei quando vou começar a ler,  porque estou no meio (em kindle) de Vidas provisórias, do Edney Silvestre, já passei por algumas cenas barras-pesadas de tortura, mas acho que o romance engrena muito bem, vou terminar em breve. Nesse campo, também preciso de retomar um sistema mais regular, horários e alguma disciplina, parar com a desordem do ócio.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

abadessa e a poesia


Uma vez, há anos, fiz um leitura de vidas passadas, dessas em que se colocam os dados de nascimento numa máquina e saem características do que se foi em outras vidas - deu que fui uma abadessa, vivi numa espécie de claustro, em grande isolamento e fiz muita caridade, dentre outras coisas.

Devo estar reencarnando as antigas vidas.





E já que falamos de vidas passadas, esse foi o primeiro poema que escrevi, e achei que poderia ser alguma coisa no campo da literatura, que eu amava de paixão. Não foi, nem fui. Mas ganhei dez! e uma enorme alegria.

terça-feira, 2 de setembro de 2014

O Leminski do amigo

O fato é que escrever dá trabalho - seja por diletantismo, seja por obrigação, do momento em que você põe os dedos no teclado, ou a caneta na mão, face a uma folha em branco, o ato se torna já uma constrição. Mas há também essa coisa em aberto, pedindo para ser dita, não sei que nome dar - se fosse escritora, e do século passado, diria que seu nome pode ser inspiração. Não sou nem uma coisa, nem outra.

Mas há que dizer algo, se algo precisa ser dito. E comentei com uma amiga sobre a façanha de ter terminado de ler, entre poucos outros livros, Minhas lembranças de Leminski, de Domingos Pellegrini, e da sensação esquisita que tal leitura me deixou.

Acho que há excesso de sentimentos atravessando essas memórias - e a vontade de ser honesto com relação à lembrança do amigo, daí que as mazelas pessoais, os vícios, as idiossincrasias da pessoa, tudo aparece como se fosse não uma confidência, mas um segredo que só um amigo que o compartilhou pode revelar. E, na verdade, não me interessou muito saber a frequência, ou falta de, com que Leminski tomava banhos; nem que bebia escondido da mulher, ou que bebeu até morrer. Não me diz absolutamente nada sobre a obra dele que, na verdade, é o que me importa, e sempre será. Acho que o homem sempre estará a reboque, quando se trata do autor de uma obra importante - como a de Leminski me parece ser.

Tampouco gosto do estilo, essa prosa sem nuances, meio afirmativa, tipo: "Os médicos bem sabem que o alcoolismo é uma doença que se pega bebendo, que se cultiva bebendo e que só se abandona quase morrendo, quando o corpo e a família já sofreram tanto que o sujeito encara o sacrifício da abstinência" (p. 83); ou de um mal disfarçado desdém, face a algumas qualidades do amigo - como sua habilidade em "chutar" em várias línguas e fazer crer que falava todas: "Lançar frases noutro idioma, de repente, é recurso de Leminski que, intencionalmente ou não, firma-lhe a fama de poliglota." (p.102); ou quando o amigo-biógrafo incorpora trejeitos próprios do estilo do biografado, e sai neologismando.

Como nem tudo é defeito, penso que a mesma obsessão em 'tudo relatar', em ser fiel à lenda e à imagem do amigo traz informações novas sobre o autor, como o processo de escrever as autobiografias; a crítica feita à forma meio por alto com que Leminski retraçou a vida de Cruz e Souza, e acho bom o gesto honesto de disponibilizar num "Posts", ao final, a carta de Alice Ruiz, em que ela não deixa pedra sobre pedra sobre por que não apoiava o projeto desta biografia, com as ressalvas quanto a expor traços da vida que não ajudariam em nada a conhecer a obra. Sumariamente: "Caso não arrede pé do seu 'estilo' detrator do Paulo pessoa, fique à vontade para isso (publicar na internet). Não somos movidas a ameaças. A decisão é sua." (p 190). Há ainda vários outros depoimentos de apoios, vindos de leitores da primeira publicação do texto, via internet.

O que ficou de mais forte após a leitura foi a vontade de confrontá-la à biografia escrita por Toninho Vaz - O bandido que sabia latim, que fui achar apenas na estantevirtual, a preço de livro esgotado.

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Domingos Pellegrini. Minhas lembranças de Leminski. São Paulo:Geração Editorial, 2014.

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Te escrevo para dizer

Ainda não recomecei porque não sei que rumo dar a essas notas.

Quando parei, já estava meio confuso o meio de campo - havia comentários sobre filmes, basicamente, quase nada sobre livros, que continuam sendo pouco lidos, embora comprados regularmente.

Houve uma postagem retirada de um conjunto de textos que escrevi sobre fotografias de minha infância, e que eu pretendo/pretendia um dia transformar em diário de uma época, e hoje não sei o que será, ou se será. Não por ser autobiográfico, o que as fotos já dizem, mas por haver climas tensos e alguns dramas, e não sei a quem se destinaria tal diário, quando em letras e frases e páginas.

Houve essa última exposição dos livros, e o consequente explicitar do nome real e da pessoa sob o pseudônimo de clara lopez, o que já se vinha desenhando no facebook, sobretudo quando escrevi a resenha do livro de minha amiga Eliana Bueno, sobre Santo Antonio, e ela espalhou aos amigos quem era a autora, mas convivo bem com ambos - ou ambas.

Enfim, sinto falta desse espaço - primeiro, de escrita; segundo, de comunicação. Mesmo não tendo o retorno de leitores, sei pelas estatísticas que várias pessoas (se não forem alienígenas, o que eu adoraria) visitam o blog e, suponho, o leem.

Não sei que rumo dar a essa volta (se volta for), e talvez não precise dar um rumo, só escrever, e se for para conversar, converso então com o blog da marina dabliú que postou aqui um áudio com a voz de Adélia Prado falando um de seus mais belos poemas. Logo que comecei a ouvir, parei, porque não suporto ouvir poemas, sejam ditos por intérpretes, sejam ditos por seus próprios autores. Considero, basicamente, que aquele poema que eu ouço não é o que eu li, o que guardei em mim. E os de Adélia, sobretudo, me pertencem de um modo especial, porque convivi com eles à exaustão, há muitos anos, e ainda lembro dos significados que emprestei a cada um, e de seu timbre em mim.

Então, quando comecei a ouvir na voz de Adélia aquele poema de amor - tão visceral, e ao mesmo tempo tão singelo -,  parei o som. Mas voltei, ouvi tudo e reconheci o poema novo que ela me apresentava - senti a mesma ternura como se lido pela primeira vez. Ela encontrou na voz a simplicidade molecular de sua estrutura na fala, que corresponde inteiro às linhas que eu percorri e ainda guardo na memória - e no afeto.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

terra ou mar

Começando a ter saudades daqui.
Qualquer hora volto - só não sei a cara que a casa terá então.

terça-feira, 1 de julho de 2014

caitituando - quase todos

Muito simpaticamente o autor do blogue, Jônatas, me enviou por email esse post, em que publica a orelha de meu livro sobre Adélia.

1) Como a orelha diz, foi meu primeiro livro, resultado de dissertação de Mestrado, sobre a poesia de Adélia. Não havia muitos estudos sobre ela na ocasião. Publicado em 1994 pela Editora da UFG.

  O vazio e o pleno - a poesia de Adélia Prado













E já que o primeiro veio à baila, pela postagem do rapaz, eu mesma posto os outros, que se seguiram ao primeiro:

2) Tese de Doutorado, publicada em 1997 pela EdUFF. Basicamente, trata-se de apresentação e análise de alguns temas mais constantes da crítica feminista das representações, a partir de textos de autores/as que me pareceram importantes na época. Deu um trabalho enorme escrever, como toda tese.




3) Ensaios sobre a obra de Hilda Hilst, livro publicado em 2000 pela Editora Mulheres. Foi um trabalho ambicioso, apesar do livrinho minúsculo, um dos primeiros a sistematizar um estudo sobre a autora. Eu gosto dele, mas tem um erro grave, de minha responsabilidade, que não pude consertar antes da publicação, e a editora republicou depois com muitos outros problemas de revisão, sem meu conhecimento, só fui saber anos depois. Enfim, uma pena.


4) Conjunto de ensaios sobre autoras brasileiras, resultado de pesquisas financiadas pelo Cnpq. Publicado em 2004 pela 7Sois, editora independente de Fortaleza. 

Os autores de que trato: Ana Cristina Cesar; Hilda Hilst; Machado e Clarice; Lya Luft (a ficcionista); Gilka Machado; Marilene Felinto.













5) Três ensaios sobre mulheres críticas (acadêmicas) brasileiras, resultados de pesquisa para o Cnpq, reunidos em livro por uma editora bem simples (e barata), a Oficina de Livros, e publicado em 2008.
As autoras estudadas: Heloisa Buarque de Hollanda; Eneida Maria de Souza; Flora Sussekind.













Há outros que eu apenas organizei, sobretudo para a editora Tempo Brasileiro, com ensaios variados sobre Clarice Lispector, principalmente. É isso sobre o assunto.


segunda-feira, 19 de maio de 2014

Praia do futuro

                                                       Para Egídio 

Já tantos disseram e comentaram e analisaram o filme que vou apenas pontuar o que achei forte, especialmente, em Praia do futuro, de Karim Aïnouz (2014).

1. Um ritmo tenso, descosido, sem linearidade, cuja forma está absolutamente de acordo com o conteúdo: aqueles três homens ziguezagueiam em busca de caminhos - literalmente expressos pelas braçadas mar a dentro, de um; pelo trabalho com e meio de transporte na moto, de outro; pelo andar sem rumo em busca do irmão por uma Berlim estranha e estrangeira para o terceiro. A primeira cena de sexo entra pela cara do espectador como uma rajada de bala: ninguém ali está para amenidades, meus senhores, o papo aqui é curto, e direto (foi nesse momento que um casal de idosos saiu devagarinho da sala).

2. Um amor e um erotismo fortes e másculos - não há mimimi por ali, tudo é cheio de tesão, intensidades e descobertas. Na verdade, quando o filme termina, meu primeiro pensamento, além de seguir atávica aquela paisagem final gelidamente bela foi: filme macho pacas! Um amor entre homens, que se amam como homens, com direito a expressões de afeto coreografadas como uma luta de boxe, e sexo sem expressões de ternura. Salvo depois, sobretudo em um dado momento em que Donato passeia pela rua depois do amor com Konrad, com aqueles incríveis cabelos cacheados, e a expressão de enlevo que Wagner imprime ao rosto me acompanha até agora - o meio sorriso é mais bonito e terno que o da Monalisa, e de uma delicadeza, uma graça e um afeto absolutos. Wagner, com a perícia dos grandes artistas, domina tudo nesse filme.

3. O tema do estranho e do estrangeiro que percorre toda a estória é um leitmotiv extremamente bem realizado, porque ele se apresenta tanto para cada indivíduo, em sua busca pessoal de auto conhecimento (o homem viaja de moto com o amigo para conhecer-se no mundo; o outro viaja para o estrangeiro para se conhecer e se descobrir no amor; o menino viaja para desvendar seu passado e seu futuro com o irmão-pai), quanto no sentido mais amplo, do homem face ao estrangeiro que ele é em cada lugar e ao estranho que ele é para o outro, o que se deixa ler na duplicidade e ambiguidade do título - Praia do futuro remete tanto ao lugar da capital nordestina que acolhe visitantes estrangeiros de vários partes do mundo, quanto condensa em seu sintagma um possível caminho de constituição metafórica dos personagens.


4. O Parangolé que Donato usa, numa cena belíssima, lá naqueles confins de uma praia que não tem mar, símbolo da ligação dos irmãos e memória afetiva desencavada nas entranhas do gelo e do vento (um vento que na cidade de cá se conhece como brisa), vem para lembrar que dá para carregar o país para onde se vai, na verdade o país nos carrega onde quer que estejamos. Esse é o mote para a declaração de amor do irmão para o outro, o filho-abandonado: ele foi porque precisava, mas estava de volta porque nunca deixara de amá-lo, lá atrás - no país, na cidade e na província que sempre seria a sua, e cuja identidade essa foto - essa imagem - flagra como sinete de pertencimento, tatuagem na pele da cultura, e do próprio corpo.



segunda-feira, 5 de maio de 2014

Memórias (1) - Uns sapatos e seu cheiro



O cheiro dos sapatos novos jamais me abandonou. Aquele 
cheiro específico, misturado com odor de papel novo, cola, 
couro, novidade, cheiro de gente de verdade.

Eu era menina, devia ter uns seis, cinco anos, morava nos 

cafundós do Ceará (para registro: Alto Santo). Meu tio tinha vindo
do Rio de Janeiro, do outro lado do mundo, para nos visitar, 
trouxe todo o luxo com que jamais sonhara - máquina de tirar 
fotos, roupas, sabonetes, muitas novidades. Minha mãe, mesmo 
paupérrima, comprou os sapatos em Mossoró, segundo me disse. 

Esse cheiro que eu reconheci muitas vezes depois de adulta, com

um sentimento que, tenho certeza, Proust descreveu quando falou do gosto da madeleine
nostalgia, esgarçamento, distância, tempo, alegria, existência, futuro bom pressentido, outra 
vida. Tento não esquecer, mas o cheiro me escapa, faço força para lembrar e o encontro às 
vezes inesperadamente. Jamais poderei compartilhar o que significa isso na minha história, 
a não ser como 'marca', 'sinete' inscrito na percepção dos cheiros.

Já o vestido fora feito por ela que, muito pobre, tinha um orgulho imenso do bordado de 

sianinha sobre o TV8 (sim, era o nome do tecido) marinho, reforçado com goma ao passar
para ficar armado, sinônimo de elegância. O vestido pinicava, o bolero esquentava, mas a 
mãe não abria mão da singela elegância dos filhos, fazia sacrifícios e ela mesma cuidava
para que os três parecessem "gente".

Mas fora da foto, a gente se vestia exatamente como a menina encostada na parede. Ela 

parece diferente de nós, mas não era, e ficou na foto na marra...

terça-feira, 29 de abril de 2014

Irandhir

Hoje, domingo, 27 de abril, é um dia especial: não apenas vi, como tive a audácia de me aproximar do Irandhir Santos, que percebi num relance no hall do Estação Rio, sentado com um amigo, cabelos compridos levantados num meio coque, muito belo.

Eu passei, olhei, parei diante dele e disse: (...) Seu rosto iluminou-se num sorriso - O sorriso -, e respondeu algo que eu entendi como 'que legal, muito obrigado', enquanto o amigo murmurava, voz enfática, 'abraça ela' e ele já se levantava e me abraçava sorrindo e eu dizia 'e ainda ganho abraço que maravilha'. Daí deixei-os, feliz, para entrar na sala e ver O grande mestre.

Passei boa parte do filme tentando lembrar o nome dele, depois os filmes que eu vira com ele. Primeiro lembrei o nome Irandhir, depois só me vinha à mente Serra pelada, onde ele nem está, e muito depois (isso tudo vendo o belo filme sobre lutas marciais) lembrei de O som ao redor, aquele clima opressivo, ele andando pra lá e pra cá, buscando perigos; e Tropa de elite 2, em que faz o deputado Diogo Fraga, que leva o tenente-coronel Nascimento à tribuna da Câmara, para acusar metade do plenário de corrupção; e só em casa me veio o nome do filme em que ele resplandece, tomado pela fúria dos deuses da interpretação, do deboche e da magia criativa: Tatuagem, que comentei nesse post do FestRio 2013.

Essa cultura mambembe, de que trata Tatuagem, essa moldura afetiva, em que tudo fica meio sem borda, e um clima de ninguém é de ninguém, além de fazer parte do way of life de uma parte da geração dos setenta/oitenta, compõe também o perfil de um tempo no país em que alargar os limites do permitido era uma forma de resistência, uma maneira de ser contra - a ditadura, a repressão, o desconhecido-que-se-ouvia-em-sussurros-por-todo-lado. Há também uma pegada tropicália, um abocanhar tudo de cultura que pudesse fazer vibrar o coração. Ver Irandhir foi como rever um pedaço de nossa cultura geral, e não apenas fílmica, mas também uma parte de minha própria história nela. Como na frase clichê, ele - sim - me representa.


sábado, 26 de abril de 2014

Um: Hoje eu quero voltar sozinho. Dois: Pelo malo.

Saí de um, logo depois vi o outro. O um: Hoje quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro, 2014). O outro: Pelo malo (Mariana Rondón, 2014). Em comum: jovens adolescentes em um, de classe média informada; jovem pré adolescente em outro, de classe muito pobre, e oprimida ainda pela ignorância. O bem que o um me fez, o outro me desfez.

O que um tem de emocionante: primeiro, a celeuma exterior, a efervescência de enormes parcelas de jovens, de todos os cantos do país, pedindo para que o filme passe em suas cidades - é um clamor forte, muito alto, e isso precisa ser lido, precisa ser ouvido. O que eu ouço é a voz de jovens querendo entender sua sexualidade e, sobretudo, ter certeza de que ele é um ser absolutamente normal, que gostar de outro ser do mesmo sexo não lhe assegura passagem direta para o inferno. Eles querem - eu acho - a força do coletivo que os autoriza a ter os desejos que têm; eles querem amar e ser aceitos e se sentir parte da turma, qualquer turma que queiram, e não a que lhes imputem. O que o fillme faz por eles é, primeiro, tratar como normal o que é normal - quando Leo diz que talvez esteja apaixonado por Gabriel, sua amiga não faz nenhuma cena, no máximo diz que não esperava aquilo, talvez porque ela mesma tinha esperanças de vir a ser a primeira a beijar o amigo. Mais que isso, o diretor e roteirista faz com que um jovem cego (portanto, diferente dos outros desde o nascimento) e que se descobre gay, que sofre bullyng no colégio, que tem uma mãe castradora, mas um pai e uma avó com quem ele pode contar, ou seja, duas bases de suporte afetivo - que esse jovem encontre sua sexualidade sem grandes traumas ou paranóias e, além disso, seja correspondido em sua primeira paixão - isso, em si, já é coisa à beça, e ele sai inteiro do embate.

Além disso, o filme é singelo e delicado no modo como encena o encontro desse amor - são jovens de certo modo puros, é quase um conto de fadas, sem vilões, sem violências, sem posturas amorais de nenhum personagem. Tudo simples, bonito, inaugural - como as vidas que eles prenunciam, e que desejamos sejam boas, plenas, com as melhores realizações. É o que desejamos para nossos filhos.

O dois deveria ter sido visto outro dia, mas não foi. E não é um conto de fadas, não é edificante, não traz nenhum final feliz, não é permeado de delicadezas ou amenidades. Mesmo o humor, que sempre vem das tentativas singelas do menino em ter um cabelo liso, a despeito da natureza encaracolada do seu, para vir a se tornar um cantor de sucessos, mesmo esse riso é meio triste, porque sobre uma fantasia infantil veiculada pela cultura massificada, plastificada e bestificada de um país que reconhecemos como sendo a Venezuela do senhor-de-todos-os-populismos, pela cena dos vários solidários com seu câncer, no ato de raspar a cabeça. A família composta de mãe, filho e criança pequena está em busca de alguma saída para a falta de... tudo: não há emrprego, não há afeto entre mãe e filho (ou, ao menos, eles não sabem como expressar esse afeto sem ser rudes), não há clareza dela em relação ao que ele deseja com aquela mania de alisar o cabelo e cantar: seria seu filho um maricón? E ainda a ignorância, a fome e as tantas necessidades - fazer sexo com o patrão em troca do antigo emprego, deixar a porta aberta para que o filho veja (e se torne homem?) - toda uma gama de crueldades e opacidades e grosserias que a dura vida e a duríssima pobreza impõe. O filme é um retrato falado das mazelas impostas por um certo tipo de contrato social, que tanto parece de lá, como de cá. As vidas que ele encena caminham sem leveza em direção à busca de sobrevivência, de suas formas possíveis. Eu saí da sala triste, sem nenhum consolo face à desolação, não apenas de nossos hermanos de lá, mas de vários cantos de cá.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Histórias que contamos

Acabei de ver na TV, encantada, o documentário Histórias que contamos (Canadá, 2012), de Sarah Polley, que faz um percurso interessantíssimo sobre um tema aparentemente sem nenhuma importância para qualquer outra pessoa, além de sua própria família, mas que vai prendendo a atenção de quem vê pelo brilhantismo dos desdobramentos das histórias contadas e lembradas, sobretudo a de sua mãe, e dela própria, Sarah, já que o filme acaba se revelando também a história de seu nascimento, da paixão fora do casamento de que ela é o fruto,e de que só tomou conhecimento na idade adulta.

É fascinante a maneira como ela vai voltando no tempo e recolhendo depoimentos de amigos, conhecidos, parentes que conheceram os envolvidos, a mãe, sobretudo, e como ela junta os retalhos de uma colcha preciosa não apenas com depoimentos, mas igualmelnte com filmes de épocas passadas, de sua infância, da juventude dos pais, dos amigos, tudo encaixado de forma precisa, de modo que os eventos fluem como se feito para estar ali, nesse documentário que ela elabora agora, reconstruindo o que parece ter sido filmado para ele, tantos anos depois. É de uma delicadeza e de uma inteligência absolutas.

E para coroar a série de engenhosidades desse filme, o que se vê também é uma história escrita pelo pai que a criou como filha até a idade adulta, cujo choque com a revelação de que Sarah não é sua filha biológica o leva a escrever compulsivamete, para entender, para aceitar e perdoar a mulher a quem nunca deixou de amar. Um filme, definitivamente, apaixonante.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cinema Varilux 2014

Vi alguns filmes do Festival Varilux 2014, menos do que gostaria porque agora moro numa cidade pequena e qualquer diversão fílmica fica longe e, outro pecado, só tem cinema em shopping. Fazendo as contas, três dias indo e vindo a 52 o táxi, além de alguns cafés e pães de queijo, fizeram desse um dos mais caros que já segui, ever. E não vi todos, mas vi metade dos dezesseis, ou metade mais um se considerar que Os incompreendidos, do Truffaut, é acessível fora do festival, e acho que já vi a primeira versão há milênios. De todo modo, achei a maioria dos que vi bem medianos, nenhum de tirar o fôlego, e mais comédias do que de ação dramática, de que gosto mais.

Uma viagem extraordinária (2013, Jean-Pierre Jeunet) com Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Kyle Catlett é um filme bonito, do tipo-fofíssima-criança-prodígio-à-procura-de-si- mesma, com um ator mirim muito impressionante e uma mãe vivida pela ótima Bonham Carter. O filme mistura a aventura da road movie, ou melhor, da train movie, do menino que parte para pegar um prêmio que ganhou, mas ao mesmo tempo ficamos sabendo de outros motivos mais profundos e tocantes, que o levam a sair de casa - trata-se menos de uma expedição pela ciência e muito mais uma aventura para se entender e compreender um acontecimento fundamental de que ele fez parte. Muito bom, um dos melhores que vi.

Suzanne (2012, Katell Quilévéré), com Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy. A história dessa moça, Suzanne, me ajudou a entender como é o processo das pessoas que não podem, mas não conseguem mesmo ficar longe de problemas. Sim, claro, é por amor, grande parte das encrencas em que ela se mete é por amor, mas como a moça demora pra aprender vai me dando um pouco de irritação. No final, não contente, ela ainda volta pra cadeia pra purgar um pouco mais os pecados. Não achei muita coisa além disso.

Eu, mamãe e os meninos (2013, Guillaume Gallienne), com Guillaume Galliene, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger. Esse parece ser um filme bem ambicioso, porque trabalha o tempo todo insinuando, sugerindo e mostrando situações de um rapaz possivelmente gay que, ao final, dá uma volta em todo mundo. Ele é engraçado, tem humor ferino, sofre bullying e dá vexames muitas vezes - tudo segundo um certo figurino meio estereotipado do gay. O ator faz muito bem tudo que faz: ele mesmo e sua mãe, uma personagem bem cruel, sobretudo em sua relação com esse filho, especialmente.

Toda a história está bem armada para direcionar o espectador ao modelo um tanto fake de homossexual, corroborado pelos que estão a sua volta - familiares, amigos, colegas. Mesmo o riso é uma coisa meio cúmplice do estereótipo - rimos do que todo mundo ri quando um gay faz "cenas". O que acontece no terço final, ou quase ao final, é uma revirolta que me pareceu meio artificial, embora o filme suporte o turning point sem se destruir. De repente, o riso fica parado na face e vemos um ator em cena, conversando conosco, sua platéia, a respeito do que se pensou que se viu. Ele vai fechar a peça em que atua, contando a história dele e de sua mãe, e ao mesmo tempo vamos sendo apresentados ao verdadeiro Guillaume. Trata-se de uma jogada de cena, e também de uma visada mais esperta do que propriamente dramática, embora haja drama também nas cenas, o que me fez ficar numa posição dúbia quanto ao valor do que vi, do que vejo. Foi como ter sido passada para trás, ter sofrido um golpe de esperteza - muito bem feito, com ótimas atuações, mas insidioso, e golpe. De todo modo, ele vale ser visto sobretudo pelo tour de force do ator (e diretor) que faz o protagonista, muito bom nos dois papéis.

Um belo domingo (Nicole Garcia, 2013), com Louise Bourgoin, Pierre Rochefort, Dominique Sanda trabalha a ideia do homem solitário, do jovem interessante que guarda um segredo e que será revelado por artimanhas do amor por uma mulher, e do afeto por seu filho. A história dele é bem interessante, e o filme é muito bom de ver, tem aspectos não simplistas quanto aos valores da vida, da grande riqueza e das escolhas que importam na vida de cada um. Nos tempos de hoje, colocar em cena alguém que abdica de enorme herança em favor de um projeto pessoal no caminho da simplicidade é quase um conto da carochinha, mas a história é muito bem conduzida de modo que aceitamos aquela decisão como a coisa certa - tomar a decisão sobre os rumos que quer dar a si mesmo, sobre o melhor caminho e o que a vida realmente significa para ele, já é parte da constituição e da cura do interessantíssimo rapaz. E, afinal, ele ganhou o amor e um filho - a vida pulsa generosa para ele nesse momento, e ele vê isso, agora, pode reconhcer os dons que recebe - e escolher. Filme ótimo, a que se assiste com prazer.

Uma juíza sem juízo (Albert Dupontel, 2012), com Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié trata de um daqueles imbroglios entre pessoas bem diferentes, em todos os sentidos (classe social, valores) e como ao final a vida dá uma volta nelas, que terão de rever seus próprios valores e se adequar à movida dos novos e repentinos acontecimentos em torno deles. É interessante, sobretudo por conta da rigidez dos valores da juíza, e de como ela vai ter que rever quase tudo que pensou e construiu depois de bebemorar numa festa de final de ano da empresa (sempre elas, as tais festas, onde a desrepressão vigora). A atriz principal faz o papel de modo contido, com pontuais crises de histeria, e tudo fica bem divertido.

Um amor em Paris (Marc Fitoussi, 2013), com Isabelle Huppert, Jean-Pierre Darroussin é um típico filme francês, no sentido mais chão de tratar de forma contida, mas clara, a maneira como os franceses abordam a traição no casamento. É um filme para os dois atores, que brilham mesmo, ele talvez mais do que ela, que achei meio já-vi-aquela-expressão-antes. Bem mediano.

Grandes garotos (Anthony Marciano, 2012), com Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain foi um dos mais engraçados, sobretudo porque explora a relação entre um homem mais velho e desiludido com a vida, e um jovem com todos os projetos em andamento, num momento em que ambos precisam engrenar uma outra marcha em suas vidas. Os dois são ótimos atores, belos, e o jovem vivido por Alex Boubil, além de tudo, tem de altura o que carrega de charme e talento. E a atriz que faz a mulher do casal mais velho é a mesma Sandrine Kiberlain, a juíza do outro filme. (Vistos seguidos uns aos outros, nos deparamos com os mesmos atores algumas vezes em vários filmes, fica meio engraçado). Mas desse filme também gostei bem.