quinta-feira, 23 de junho de 2016

Paulina

Paulina (Santiago Mitre, 2015). Com Dolores Fonzi, Oscar Martinez, Esteban Lamothe.
    Paulina me parece um filme muito difícil de comentar, porque qualquer que seja a perspectiva, para não ser politicamente incorreta, ela precisa estar colada à decisão da protagonista. E não estou. Não vejo altruísmo, nem grandeza, nem compactuo com a visão dela, Paulina, com relação ao problema que ela se propôs ajudar a resolver, nem com suas escolhas difíceis.
    E a história acontece em torno de mudanças de vida, e de políticas salvacionistas – ela quer salvar os desafortunados, e para isso abandona seu curso de doutorado em direito, seu lugar privilegiado na escala social, seu trabalho, seu pai, sua vida, enfim, e aceita fazer parte de um projeto social em que dará aulas para jovens na periferia de Buenos Aires.
    Se o eixo gira em torno de valores, de ética, de processos sociais injustos e de posturas abnegadas, quem vê precisa tomar uma posição, e isso não será uma tarefa fácil, porque ela mesma, a protagonista, nos oferece todos os argumentos pelos quais suas opções são guiadas, ou seja, ela não está agindo de modo ingênuo, ao contrário, sabe o que quer, e suas escolhas são firmes, vigorosas.
    Eu vejo sua tenacidade, e me vejo ali, nessa qualidade, só que no polo oposto – eu vejo com os olhos de quem veio da pedreira, e levou anos, muitos anos, para chegar ao doutorado que Paulina desdenha. Paulina só pode desdenhar seu lugar de origem, porque ela não o conquistou, mas recebeu de herança. Eu só posso olhar com desconfiança para quem abre mão de um bem que a mim custou tanto alcançar. E vejo Paulina perdida, nem lá nem cá, sequer generosidade eu vejo em seu projeto. E como abrir mão de, para dizer o mínimo, “educar” seus molestadores? Ela quer resolver na conversa, no nível pessoal, mas estupro é estupro, e se fosse com a outra mulher continuaria a ser um estupro. Paulina, no entanto, condescende, porque são pobres seus algozes.
    Na verdade, acho que Paulina não sente, ela pouco sente, ao menos assim me pareceu o rosto quase impassível que narra os fatos – não há emoções naquele rosto, é quase como se seu corpo pudesse ser o lugar de um ritual de sacrifício.
    Enfim, um filme difícil. E a cena final, à subida dos créditos, mostra a protagonista em sua caminhada, rumo e direção anódinos, apenas caminhando, indo, o rosto em close mostrando ambiguamente um andar ao encontro de sua decisão: solitária, dura, sem paixão.


Órfãos do Eldorado

Gosto de tudo em Órfãos do Eldorado: a exuberância das matas, dos rios, das águas, dos desejos - tudo nele é excesso e paixão desmedida, numa fotografia deslumbrante, e o brasilzão pulsando nas histórias, nos casos contados, e Arminto, meio Macunaíma, procurando sua Ci, mãe do mato, mato a dentro, rio a fora, mais o Hatoum fazendo pontinha e entregando peixe a ele, dentro d'água, que lindeza. E que belas e fortes cenas com Florita, sim também para elas. E preciso ler o livro.


Big Jato

Big Jato (Cláudio Assis, 2016). Com Matheus Nachtergaele, Rafael Nicário, Marcella Cartaxo.

O filme todo é bom, mas alguns aspectos são melhores. Por exemplo: Matheus – o que é aquilo que vemos nesse ser tão incomensuravelmente grande e bom e magnífico que empresta voz, corpo, alma, tiques e transcendência para viver dois irmãos bem diferentes um do outro, e criar essa diferença no geral e no particular, no temperamento, nos tiques, nos detalhes, e acaba sendo um exercício comovente ver a entrega do ator às minúcias de caracterização, à entrega apaixonada aos dois homens que ele incorpora. Marcela Cartaxo também está excelente como a mulher do motorista do caminhão Big Jato, o limpa-fossas do sertão. 

Nesse papel, Matheus faz um homem ébrio quase todo o tempo, que anda com o filho na boleia do caminhão pra lá e pra cá, conversando, aconselhando, falando as verdades simples que o menino precisa aprender, para crescer como um homem, semelhante à filosofia de para-choque inscrita na traseira do veículo: “Quem não reage, rasteja”. Filosofia que perpassa todos os personagens, em níveis variados de perspicácia, no que se poderia chamar de papo de botequim elevado ao nível do bom cinema, e cuja síntese são as  sacadas existenciais do personagem de Jards Macalé, a meu ver, o mais fraco elo do conjunto de atuações, mesmo seus “ensinamentos’ me pareceram aquém do que se poderia esperar. Mas o menino vai-se transformando em rapaz e precisa ouvir, aprender, talvez ser convencido de que a poesia, sua vocação, não serve para o mundo, diz-lhe o pai caminhoneiro; ao que o tio locutor da rádio local, incorrigível bon vivant, responde dando-lhe por presente uma máquina de escrever, de onde poemas poderão brotar, salvo se o pai, num momento de ira e bebedeira, espatifá-la no chão.

O filme transita, assim, entre os valores de um mundo nordestino, masculino e machista por excelência, jogado sobre os ombros de um jovem em busca de quem é, ou de quem pode vir a ser, mais as cirandas da vida familiar desse núcleo, composto por pai, mãe, três filhos homens e uma menina. Estranhamente, nesse universo de valores machistas arraigados, o rapaz-que-pinta-unhas é menos discriminado, ou assediado pelo pai bravo, do que o que-vive-nas-nuvens-das-palavras. Parece que a questão do trabalho fala mais alto aqui, o ganhar a vida e o pão importa mais do que mostrar-se ou não afeminado.

E vemos na tela, então, uma espécie de poema em imagens sobre a aridez e a ternura possíveis num contexto cultural sobredeterminado, em que se tenta viver um pouco além dos limites inarredáveis da pobreza material e intelectual, na tentativa de escapar ao confinamento geográfico, existencial, material. E Nachtergaele, penso, é o grande motor que faz a engrenagem da peça toda mover-se, com a força e maestria das grandes artes.