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segunda-feira, 12 de janeiro de 2009
Doisneau: modos de ver
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Em homenagem a minha amiga, que lembra ser 'O beijo do hôtel de ville', do Robert Doisneau, uma foto "encenada", cito alguns trechos do artigo de apresentação escrito por Jean-Claude Gautrand, que organizou a edição e tirou uma das fotos do artista (p. 176).
Mas antes, quero observar o seguinte: desde que abri o livro e comecei a olhar as fotos de Doisneau, em nenhum momento me senti em presença de uma 'pose', mesmo quando o objeto olha decididamente para a câmera. É como se a 'pose' (quando e se há) ficasse em segundo plano, não invadisse o espaço todo da significação. E acho também que tudo isso pertence ao campo de uma certa percepção de cada um, do modo como a gente "sente" aquela atmosfera capturada pela foto. Tudo que eu vi dele me emocionou profundamente, e podem nem ser todas elas fotos de bamba, que sei eu...
De novo, é como gostar (muito) da poesia de Adélia Prado... há quem ache brega, há quem ache muito cristão, há quem ache kitsch... eu gosto, vejo tudo isso como traços que compõem a atmosfera da poesia dela, são o chão de uma beleza própria. Enfim:
Durante cerca de seis décadas, Robert Doisneau foi um pescador de águas tranquilas, a anos-luz dos predadores das notícias da actualidade, 'apalpando o seu caminho, levado por sentimentos de atração e repulsa, ao sabor dos acontecimentos e permitindo que sua intuição o conduzisse, mesmo quando esta se tornava indomável...'
Ao longo desses anos, Doisneau captou para nós, dia após dia, 'os gestos comuns das pessoas comuns em situações comuns, confiando-nos as alegrias e descobertas que recolheu nas ruas: 'Há dias em que se sente o simples acto de viver como a própria felicidade... Sentimo-nos tão ricos e o júbilo parece tão excessivo que temos vontade de partilhá-la com os outros.'
Representante desta fotografia humanista que [...] permanecerá como uma das mais belas páginas da história da fotografia, Robert Doisneau não cessou de nos contar histórias cheias de sentimento, poesia e humor, encantando-nos com a sua capacidade de transmitir esta doce cumplicidade, esta relação implícita e fugaz que o unia ao objeto que fotografava.
Nascido em Gentilly, [...] Doisneau permaneceu suburbano até a sua morte, uma vez que nunca deixou o seu apartamento de Montrouge para onde se mudou em 1937.
'No final das contas, o constrangimento tem algo de positivo. Esta censura imposta pela timidez, que me fazia fotografar as pessoas de longe, acabou por resultar neste espaço à volta das pessoas que eu procurei reencontrar mais tarde...'
...Doisneau continua a fotografar, a título pessoal, seu universo suburbano. A sua arma é a paciência, a 'espera pelo milagre'. 'Retirei um prazer malicioso em evidenciar os rejeitados da sociedade, tanto nas pessoas como na escolha dos cenários...', 'cenários que testemunham a dor dos homens e que me parecem carregados de nobreza, os gestos da vida são feitos com simplicidade e os rostos dos que se levantam cedo são muito comoventes.'
Esta conivência, esta cumplicidade que o ligava aos seus modelos, explica largamente algumas das suas composições cuidadosamente encenadas, sobretudo desde o famoso processo do Beijo do Hôtel de Ville, parecem hoje admirar-se. Uma querela inoportuna, uma vez que Doisneau nunca escondeu as suas intervenções em certas fotografia como, por exemplo, a do 'Café preto e branco'. Um artifício que não retira nada à sua autenticidade, escreveu Jean-François Chevrier, visto que os personagens estavam espontaneamente prontos para o jogo do fotógrafo, entrando deliberadamente no seu jogo, de tal forma sua abordagem é delicada, respeitosa e jovial.
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Robert Doisneau. 1912-1994. By Jean-Claude Gautrand. Taschen. Coleção Icons.
quinta-feira, 8 de janeiro de 2009
grande fotógrafo
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O que eu vejo de excepcional no trabalho de Robert Doisneau (1912-1994) são momentos de intenso lirismo, de uma beleza comovente e uma cumplicidade extraordinária com a vida cotidiana e com as pessoas comuns. Seus temas são retirados do inesperado, a gente tem a impressão de que ele estava passando por ali, meio por acaso e de repente surgiu aquela cena imperdível, perfeita, que ele capturou para sempre e nos oferece generosamente. É isso, há generosidade no olhar de Doisneau, não sei como explicar isso, e há também doçura, um amor absurdo por seu objeto (foi o único artista que me fez chorar ao olhar algumas de suas fotos), e ternura.
E há o modo de olhar de seus personagens. Mesmo numa foto com várias pessoas (por exemplo, Bilhar 'La poule au gibier'), podem-se ver todas as expressões de cada um dos presentes, esteja ele de frente ou de lado, é como se eu soubesse o que aquele sujeito estava pensando, ou seja, há espaço para minha subjetividade e minha imaginação em seu trabalho.
Há também esses imensos espaços vazios (diz-se que ele era muito tímido, daí fotografava as pessoas de longe), uma imensidão rodeando às vezes uma criança (A descida para a fábrica), ou duas (A primeira mestra) ou muitas (As batas escolares da Rue de Rivoli), então a solidão está sempre em suas fotos (Três crianças de branco impressiona nesse sentido) e compõe também o sentido de quase todas elas.
Uma das que mais comovem é Crianças dirigindo-se à leitaria, por causa disso mesmo: dois mínimos seres praticamente sozinhos (há alguém mais atrás, quase imperceptível, mas não parece ser um conhecido), elas se movem na calçada, acabaram de atravessar a rua, dirigem-se à leiteria (conforme o cartaz imenso nos diz), está-se no pino do dia (a sombra o denuncia) e eu quero muito, mas muito mesmo proteger aquelas duas (seria um menino o pequeníssimo?), quero muito que elas/eles tenham crescido, estudado, tenham tido uma vida feliz... somos agora nós, eu e elas, ali naquele canto de rua, e torço para que tudo dê certo, tenha dado certo em seu futuro.
E há por fim as cores, as nuanças de preto e branco e cinza e brilhos e sombras absolutamente inacreditáveis. Não há possibilidade de uma foto colorida dizer mais do que essas fotos (me) dizem.
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(A vontade de permanecer em seu bairro, o apego à província e o modo como a experiencia faz da poesia que há na obra de Doisneau um irmão-em-arte de Adélia Prado, talvez).
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