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sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um livro em fuga

Eu deveria ter conhecido a literatura do Edgar Telles Ribeiro quando saiu seu primeiro e muito elogiado romance O criado mudo (1991), com boa recepção, se não me engano um dos candidatos ao finado prêmio Nestlé de Literatura. Lembro que olhava sempre para o livro e me dizia - preciso ler esse livro, deve ser bom, todo mundo diz que é bom. Os anos foram passando, eu acabei dando o livro em uma das minhas mudanças (a cada mudança de estado, uma parte da minha biblioteca foi ficando com meus ex-alunos. Desta última vez, dei umas oito caixas grandes de livros para um grupo de ótimos alunos, fizemos uma despedida no play do prédio onde eu morava, eles ficaram felicíssimos com os livros, e eu também, por dá-los. Acho o fim da picada professor que não empresta livro a aluno, ou não facilita o acesso ao conhecimento).

De todo modo, quando vi o autor numa entrevista bem simpática com o Edney Silvestre, no Espaço Aberto, pensei que estava na hora de conhecê-lo e fui ler Um livro em fuga, que parece emblemático do tipo de literatura que faz, pelos comentários que li de outras obras suas.

Sem dúvida, ele tem um estilo, ou seja, tem uma identidade literária, escreve com a independência dos que buscam forjar seu próprio caminho, e esse caminho literário tem a ver com seu percurso existencial e profissional. Deste escritor se pode dizer, então, que ele escreve sobre o que conhece, na medida em que fala de um personagem diplomata, como ele, que ora está no Brasil, cuidando da mãe doente e tentando rever a ex-mulher, ora está em cidades asiáticas de nomes exóticos - Kublai, Samarkan, Sumai, exercendo o que parece ser o leve ofício da diplomacia, de onde ele retira tudo de que necessita para escrever: tempo disponível, situações diferentes e pessoas interessantes, de culturas diversas, sobre quem se pode sempre formular hipóteses de vidas, construir histórias, inventar destinos. E é isso que ele faz, numa prosa elegante, leve e irônica, em que nomes e acontecimentos reais (a menção a uma palestra do diplomata Guimarães Rosa; uma forte e breve narração sobre o tsunami que varreu a praia onde ele se encontra no momento) se misturam ao que supostamente seria invenção, incorporados ao romance e 'naturalizados' ao longo da narrativa.

Uma qualidade da obra diz respeito às intervenções desse narrador, sua postura face ao que conta e a seus (possíveis) leitores: há quase sempre um viés fortemente irônico, que solapa qualquer pretensão a 'grande obra'; ele não se poupa e chega mesmo a fazer uma personagem zombar de vários títulos de seus romances, bem como da pífia vendagem, deixando entrever, com freqüência, um fino e atento leitor de Machado.

Pensei em meus livros. Encontravam-se, eles próprios, povoados por esses momentos, fato que certa vez levara um poeta amigo meu a invadir minha sala de trabalho aos gritos: "Meu querido, eu estava no almoço do capítulo 27, eu estava lá..." E não é outro meu desejo secreto, o de que meus leitores se comportem como penetras em minhas festas. E que brindem comigo, sempre que possível. Jamais faltará vinho para um leitor atento. Desde que seja ágil o suficiente para viajar comigo, pois o meu é um livro em fuga.  (p. 127).

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Edgar Telles Ribeiro. Um livro em fuga. Rio de Janeiro: Record, 2008.