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sábado, 25 de agosto de 2012
Varilux 2012: Americano; O monge; Intocáveis
No último dia da maratona francesa, vi esses três: Americano; O monge; Intocáveis.
Pois então, para as trinta e quatro almas mudas e silenciosas que por aqui passaram esses dias (assim diz o infográfico, que pode estar mentindo, claro), comentários mega subjetivos, como sempre, sobre os filmes.
Americano é um filme dirigido, produzido e com atuação ótima do Mathieu Demy, filho dos grandes Jacques Demy e Agnès Varda, mas que pode assinar simplesmente seu nome, tendo já aprendido o ofício com pais tão candentes. Trata-se de um drama: o filho residente em Paris, onde está sua mulher (não menos que a lindíssima Chiara Mastroiannni, menos estonteante do que no filme anterior que vi dela, mas também ali é covardia comparar) e seu pai, recebe a notícia da morte da mãe na América do Norte. Ele não conviveu muito tempo com ela, tem poucas lembranças dessa fase de sua vida e vai até lá menos pelo enterro do que para vender o apartamento que herdara.
Só que a vida sempre dá rasteiras em todos nós, e suas lembranças voltam em flashes, quando ele se dá conta de que amara a mãe e sentira sua falta, muito. Então surge uma amiga dela, mencionada em uma carta, e para ela o apartamento foi dado em herança. Todo o filme é, então, o périplo desse homem para encontrar essa mulher; encontrando-a, conseguir entender o que ela representou na vida de sua mãe; entendendo, compreender-se, compreender o outro (no caso, a outra), dar um passo além de si mesmo - aceitar-se, amar-se, doar-se. Ficar melhor, ser generoso com quem apenas precisa, sem que necessariamente se conheça. Ótimo filme, questões grandes, intensas e importantes tratadas de modo acertado.
O monge é um filme difícil de aceitar - difícil de eu aceitar, de gostar, porque o mundo religioso, dessa religião punitiva e coercitiva, me incomoda, me distancia emocionalmente dele. Minha impressão é que não tenho nada a ver com aquilo, então não tenho muito a comentar, porque não me entrego àquele mundo, ele não me interessa. Mas há força ali, claro, há intensidade, e o Vincent Cassel faz o personagem com muito fervor, convincente mesmo. De todo modo, não teria escolhido vê-lo se soubesse antes do que tratava. A sinopse me iludiu, achei que era um caso de amor diferente do que é.
Intocáveis: Ameeeei! Achei muito bonito, comovente, e há pelo menos uma cena absolutamente emocionante, forte e lindíssima: a dança do Driss mostrando sua compreensão de música para o patrão e seus amigos, na festa de aniversário. O filme não seria o mesmo sem essa força da natureza, esse deus negro de beleza e carisma chamado Omar Sy, que ilumina tudo por onde passa, como um meteoro no meio do céu. É muito impressionante como ele tem luz, força, energia, como é bonito e como sua figura é adequada ao personagem, porque precisava alguém com força física mesmo para carregar um tetraplégico de lá pra cá, e com sua energia, que se espraia pela tela quando ele surge.
Além disso, precisava ter senso de humor, ser politicamente incorretíssimo, rir um pouco da desgraça, ser cúmplice do chefe, infringir várias regras, ir além do bem comportado. Aliás, penso que o ator François Cluzet (que vi em outro filme do festival, A arte de amar, sem metade do charme que tem aqui) entendeu perfeitamente que estava diante da um ser de luz, que ele precisava 'dialogar' de algum modo com aquele sorriso do Sy e não se poupa - nunca o vi, em filme algum, sorrir de modo tão franco e aberto como aqui. Sua interpretação é não menos do que soberba, porque ele só pode expressar qualquer sentimento pela expressão do rosto, o resto do corpo, do pescoço para baixo, não se mexe, e ele o faz de modo absolutamente convincente. Os dois parecem muito bem entrosados e li aqui que ambos se prometeram interpretar um para o outro, o que se vê bem na tela: ambos estão curtindo muito fazer as peripécias que fazem, ambos sabem que estão intimamente conectados do modo mais convincente para benefício da cena, e do espectador.
O resultado é um filme intenso, aberto, alegre, cuja história pode parecer inverossímel - até porque só uma parcela mínima de quem vê poderia sequer sonhar com as regalias de que desfruta o aristocrata em cuja vida se baseia a história. Também poderia parecer inverossímel a parceria entre esse mesmo aristocrata e um ex-presidiário, além de tudo negro e pobre. Mas filmes existem para nos oferecer outra realidade, melhor e mais bonita. E essa que Intocáveis nos oferece me parece muito interessante, assim como as vidas de ambos reconhecem na parceria com o outro ganhos extraordinários, alegrias e compartilhamentos inusitados, impensáveis se (e quando) separados. Para não dizer que não falei de flores, só uma cena me pareceu desnecessária e sem graça: a das várias barbas que Driss vai aparando no rosto de Philippe e criam vários personagens - poderia ficar sem aquele humor macabro, o filme não precisa desta cena mesmo. Mas todo o resto é imprescindível, e adorável.
quarta-feira, 22 de agosto de 2012
Varilux 2012: Paris-Manhattan; E agora, aonde vamos?; Aqui embaixo
Na maratona do festival de filmes franceses hoje, consegui ver três: Paris-Manhattan; E agora, aonde vamos?; Aqui embaixo.
Dos três, o primeiro, sem dúvida, trouxe mais alegrias a essa espectadora, até porque é comédia leve, e uma homenagem ao cinema de Woody Allen, com a presença luxuosa do diretor vivendo a si mesmo, numa história de uma moça cuja família faz de tudo para vê-la casada. Falando assim parebe bobinho, mas não é não, é ótimo, divertido, charmoso, os dois atores principais são bons e bonitos e interessantes e tudo acaba bem, com o aval de Allen, claro.
E agora aonde vamos? é a história mais rica, embora o filme oscile lá pelo meio e se torne um tanto pesado, mas depois engrena e emociona, sobretudo pela presença da lindíssima atriz de Caramelo, Nadine Labaki, que dirige e atua no filme, mostrando uma visão muito particular sobre as diferenças religiosas num vilarejo mínimo e isolado, em que as mulheres buscam estratégias variadas não apenas para manter a guerra longe deles, mas para que seus homens continuem vivos. Depois de muitos quiprocós, afinal chega-se a um consenso, quando literalmente elas se colocam como os 'outros', os 'opositores', forçando a comunidade, sobretudo masculina, à compreensão de que as diferenças e dissenções são mais inventadas do que reais - e seguem em frente, todos juntos, para enterrar o que se prenuncia como o último morto de sua guerra.
Quanto a Aqui embaixo, me pareceu muito datado, não entendi qual o sentido de se filmar ainda uma vez, e na altura de nossos tempos, a paixão de uma freira por um membro da resistência francesa que, além de tudo, praticamente a estupra num acesso de raiva do tipo "o mundo-não-é-isso-que-você-pensa" ou whatever. Enfim, a memória me traz sempre um enevoado Marcelinho, pão e vinho para aproximar sua atmosfera um tanto retrógrada, cujo final meio patético não evita nem mesmo a condenação por traição, à maneira de uma mártir por amor. Enfim, não me convenceu, nem me cativou, achei chato.
Amanhã, não sei se haverá maratona, mas não quero perder Intouchables (o título vai no original só para sublinhar como gosto de ouvir o idioma, acho bonita a melodia da língua francesa. Aliás, esse festival está cheio de professores de francês e de gente conversando em francês, c'est chouette!).
Dos três, o primeiro, sem dúvida, trouxe mais alegrias a essa espectadora, até porque é comédia leve, e uma homenagem ao cinema de Woody Allen, com a presença luxuosa do diretor vivendo a si mesmo, numa história de uma moça cuja família faz de tudo para vê-la casada. Falando assim parebe bobinho, mas não é não, é ótimo, divertido, charmoso, os dois atores principais são bons e bonitos e interessantes e tudo acaba bem, com o aval de Allen, claro.
E agora aonde vamos? é a história mais rica, embora o filme oscile lá pelo meio e se torne um tanto pesado, mas depois engrena e emociona, sobretudo pela presença da lindíssima atriz de Caramelo, Nadine Labaki, que dirige e atua no filme, mostrando uma visão muito particular sobre as diferenças religiosas num vilarejo mínimo e isolado, em que as mulheres buscam estratégias variadas não apenas para manter a guerra longe deles, mas para que seus homens continuem vivos. Depois de muitos quiprocós, afinal chega-se a um consenso, quando literalmente elas se colocam como os 'outros', os 'opositores', forçando a comunidade, sobretudo masculina, à compreensão de que as diferenças e dissenções são mais inventadas do que reais - e seguem em frente, todos juntos, para enterrar o que se prenuncia como o último morto de sua guerra.
Quanto a Aqui embaixo, me pareceu muito datado, não entendi qual o sentido de se filmar ainda uma vez, e na altura de nossos tempos, a paixão de uma freira por um membro da resistência francesa que, além de tudo, praticamente a estupra num acesso de raiva do tipo "o mundo-não-é-isso-que-você-pensa" ou whatever. Enfim, a memória me traz sempre um enevoado Marcelinho, pão e vinho para aproximar sua atmosfera um tanto retrógrada, cujo final meio patético não evita nem mesmo a condenação por traição, à maneira de uma mártir por amor. Enfim, não me convenceu, nem me cativou, achei chato.
Amanhã, não sei se haverá maratona, mas não quero perder Intouchables (o título vai no original só para sublinhar como gosto de ouvir o idioma, acho bonita a melodia da língua francesa. Aliás, esse festival está cheio de professores de francês e de gente conversando em francês, c'est chouette!).
Varilux 2012: A filha do pai; A arte de amar; A vida vai melhorar
Festival de filmes franceses - presentão para qualquer cinéfilo. Como só descobri hoje, vi três filmes seguidos e amei os três: A filha do pai; A arte de amar; A vida vai melhorar. Amanhã farei, espero, nova maratona. Por coincidência - ou não (ainda vou descobrir), todos os três filmes têm final feliz, o feliz possível para os personagens em questão.
A filha do pai é um filme cheio de valores, de honras e de delicadezas. A protagonista é de uma sinceridade, singeleza e educação finíssimas, quase não vemos mais tais qualidades, seja na ficção, menos ainda na vida cotidiana. Acho que o Daniel Auteuil (diretor e ator) estava nostálgico de coisas verdadeiras, sentimentos nobres e altos vindos da simplicidade, e fez filme para nos lembrar como eles são, como eram e como tudo tem força quando sob sua vigência - deles, valores. Parece inspirado em algum grande escritor clássico russo.
A arte de amar é uma espécie de comédia de erros, em que os equívocos no amor acabam levando a cenas muito engraçadas, mas ao mesmo tempo super leves, românticas, em que o amor finalmente prevalece, não sem algumas confusões. Comédia de costumes, sem um isso de baixaria, ou mau gosto - coisa rara.
A vida vai melhorar foi o mais trágico dos três, expondo a periferia das classes mais pobres da cidade. A coisa vai ficando meio sem saída para o trio de protagonistas: a garçonete, seu filho e o rapaz que trabalha na cozinha de um restaurante mas sonha em ser chef e dono de seu próprio negócio. Muito bom o modo como o nó do capitalismo se trança no pescoço dos dois (na verdade, dos três) e os empurra cada vez mais para longe do sonho de ser minimamente feliz, até beirar a fatalidade. Gostei muito da saída que o diretor oferece ao rapaz, já quase no terço final da história - sentimo-nos (senti-me) completamente cúmplices da rasteira que ele dá em um destino pífio e injusto. De todo modo, exatamente por seu caráter meio de redenção, me pareceu o final "feliz" mais, digamos, imaginativo, embora perfeitamente factível. Ou seja, a barra é mais pesada do que o filme nos deixa ver. Por exemplo: como eles vão viver no Canadá a partir de então, com a moça naquela situação? Eu pensei numas alternativas, mas ... De todo modo, amei também.
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