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quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Mais um ano (republicado)

Mais um ano. Mike Leigh (FestRio 2012) - Nota 9,5

Um filme de 2010 que só agora pudemos ver, onde Mike Leigh faz um trabalho de mestre, num filme belíssimo, tocante, transparente em sua leitura da solidão e da natureza humanas. 
É generosa sua forma de lidar com as carências de afeto, de calor e de amizade de alguns personagens, sobretudo quando retrata uma mulher madura que ainda não se deu conta inteiramente de quem é, e não consegue aceitar completamente o nível de suas reais necessidades afetivas.

Ela pertence àquele rol de seres muito perdidos, cujos anos vividos parecem não ter ensinado o suficiente sobre esse dado estrutural e fundante de nossa humanidade: somos e estamos sós, embora alguns de nós consigam fazer-se acompanhar durante um percurso da vida, longo ou breve, pelo ente amado, pelo amigo, pela família possível, com quem se tecem histórias, compartilham-se vivências - ao final, na velhice a que hopefully se chega, essa tessitura de afetos será uma espécie de norte, cada vez mais necessário, para melhor caminhar em direção ao que nos aguarda a todos.

O que Leigh constrói é uma narrativa fílmica de como cada um enfrenta basicamente a solidão. O casal maduro, magnificamente interpretado por Jim Broadbent e Ruth Sheen, que se mantém unido e amoroso, que tem no manuseio da terra uma fonte de alegrias e vitalização - será o ponto de convergência onde aportam os vários personagens a sua volta. Ali eles conversam, desabafam, choram, riem, bebem (bastante, aliás - lembrei de HH: a vida é líquida), contam histórias - tecem os fios de suas existências e os entrelaçam uns aos outros, como se dá com amigos, com os que cruzam nossos caminhos.

Mas ficou no ar (para mim) um certo travo e custei a encontrar a motivo: acho que é esse núcleo indestrutível que o casal idoso constrói em torno de si, de afeto e cumplicidade - penso que está mais no campo da utopia, de uma idealização que não encontra eco em minha memória. Fiquei pensando que havia um tanto de bom mocismo ali e isso, confesso, me incomodou um pouco. Mas nada que impeça o real prazer de fazer parte, por alguns instantes, daquele universo de afetos.

Take this waltz

Take this waltz, Sarah Polley, 2012 

Às vezes, rever um filme faz-nos vê-lo melhor, redescobrindo suas qualidades, ou encontrando-as sob outro ângulo. Revi ontem Take this waltz (que título interessante no original) - traduzido como "Entre o amor e a paixão", e fiquei encantada. Não lembrava que a direção é da Sarah Polley, bem como o roteiro, e ele ficou de molho de 2009 até 2011, quando começou a ser produzido por ela também.

O que me fez grudar na tela são algumas qualidades que me parecem um certo modo Sarah Polley de trabalhar, que eu vejo como uma acentuada atenção ao universo psíquico e social da mulher, enxugada ao máximo das visões e versões estereotipadas que nos cercam. Por exemplo, o banho das mulheres depois da piscina, quando a personagem de Michelle Williams, adorabilíssima, faz xixi durante uma aula de hidroginástica, num frouxo de riso - existem três delas com corpos ótimos, em nus frontais e naturais, e algumas outras com corpos fora do padrão, em nus frontais e naturais. Nada ali é feito pra mostrar o corpo, mas pra mostrar o banho, numa cena de conversa entre mulheres muito boa.

E tem a paixão - e o amor. O filme explora os momentos do casamento em seu fluir, onde a insatisfação está presente claramente, mas um deles não vê, ou não pode ver. E também os vários momentos em que eles mostram sua parceria, os jogos de intimidade que, entre esses dois, ocorrem pela referência às várias formas de crueldade, de morte macabra, que se vê em filmes de terror ou de terrir, tipo 'vou esfolar sua pele com raspador de batata' - esses são momentos realmente sem graça para mim, não consigo achar humor nisso, e parece no filme que há uma espécie de "leitura" de algo que já rendeu aproximação entre eles, risos, e talvez não funcione mais.

E há a paixão entre Margot e Daniel (esse Luke Kirby, muita beleza e ternura na aura dele todo!). Um personagem homem muito parecido com o personagem mulher que a própria Sarah faz no filme onde eu a conheci - "A vida secreta das palavaas" (Isabel Coixet, 2005), ou seja, estranhos seres, introspectivos, com trabalhos inusuais, que dizem um pouco de seus modos particulares de estar na vida - no caso dele, carregador de riquixá para ganhar algum dinheiro, e também fotógrafo-pintor, e um amante sensível, que tem a cena mais deslumbrante sobre como fazer uma mulher feliz (ela, a Margot que está a sua frente, na mesa do bar) só quase murmurando e olhando pra ela e descrevendo todas as ações m.i.n.u.c.i.o.s.a.m.e.n.t.e - olhando-a com um jeito maroto, um tanto enigmático - melhor, impossível.

E tem também uma alcoólatra, em duas cenas onde o essencial da doença é dito, de modo claro, expressivo, perfeito. As falas do roteiro são uma marca de qualidade Polley, que não desperdiça palavras, nem ao vento, nem à tolice.

E o final perfeito: nada como voltar a uma roda gigante onde já se foi feliz com alguém para tentar achar a graça em si mesma, consigo mesma - Margot tem um longo percurso a sua frente, mas achará seu caminho, e sua escrita. 


domingo, 4 de março de 2012

Cinema etc

Uma semana e uns vinte pontos depois, estou de volta a minha casa, o melhor lugar para estar depois de um hotel cinco estrelas, em que um dia me hospedarei.

Tentei ver o filme do Brad Pitt em um cinema num shopping que fica mais distante, mas não consegui ficar nem vinte minutos: não gosto de beisebol, não gosto daquela cultura de quase idolatria pelos jogadores e pelo jogo (e, aqui, tenho horror a jogo do Flamengo, confesso), achei o Pitt até convincente (embora longe de merecer qualquer Oscar), mas não tive paciência para aquele mundo chatíssimo. Fui-me. Mas cometi a heresia de ver uma coisa abominavelmente ruim, que é o filme do Adam Sandler, em que eu estava absolutamente sozinha na sala de cinema, fiquei até meio apreensiva - e se entra um maluco aqui? Não entrou, e fiquei até o fim para aproveitar o ar. Não há muito a dizer, esse é o mico dos micos, e por incrível que pareça o Al Pacino paga mico, sim, por estar no filme, mas não achei patética sua participação, ele consegue manter-se - eu disse, manter-se - sem esborrachar-se no chão. Porque para estar numa fita de décima sem contaminação grave do trabalho só sendo um grande ator. Há momentos em que o Sandler parece não acreditar que está diante de uma lenda, num filme miserável como aquele. Enfim, valeu Pacino, seu mico, se foi divertido pra você, está perdoado.

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Agora que o Oscar se foi, minhas rápidas impressões sobre alguns filmes, só para registro:

A separação: uma conversa que não me interessa muito, mas é claro que o filme é bom, só não gostei tanto assim, porque essas culturas muito avessas às mulheres tendem a me entediar, vou ficando distante (afetivamente) daquele mundo e só posso me render às qualidades técnicas da coisa. Por isso, em nível máximo, o mundo das burcas me repele com violência, não suporto nem ler sobre.

A fonte das mulheres: trata de uma cultura também um tanto hostil às mulheres, onde elas têm papel subalterno, mas fazem uma pequena e poderosa revolução contra a exploração e o filme ganha cores, charme e a minha simpatia. Uma parábola singela sobre os bastidores do poder feminino, talvez.

As mulheres do sexto andar: Muito simpática comédia, leve, engraçada, boa de ver, super relax, em que as empregadas terminam por comandar as funções que importam.

O artista: sim, ele ganhou um monte de prêmios, um feito ainda maior por ser filme estrangeiro, mas eu achei assim... meio sem graça. Vi todo o filme com certo enfado, parecia faltar alguma coisa (não era apenas a voz), o enredo meio banal, os atores não me encantaram especialmente. Na verdade, o único ator realmente convincente e interessante pra mim foi o cãozinho - ele faz coisa à beça, inclusive salvar a vida de seu dono, se bem me lembro.

A dama de ferro: mais uma ótima atuação da grande dama do cinema, acho que já comentei em outro lugar, não sei até onde o filme romanceia a vida da Thatcher, mas acho que o faz ao tratá-la como uma senhora meio perdida que rememora as lembranças dos dias de poder, à sombra do fantasma do marido, com quem conversa, meio senilmente. Lembro do seu governo e de como ela foi odiada pelas restrições impostas aos ingleses, mas o filme prendeu minha atenção, acho que pelo trabalho da Meryl, muito bom.

Drive: menos do que eu esperava, e li a resenha super elogiosa da Boscov na Veja, não concordo com ela, mas a respeito. O filme é mais lento do que um thriller de ação deve ser e o Goslyng, belo como sempre, está praticamente sem expressão, de tanto querer ser durão e não expor as emoções às intempéries da vida. Fica meio artificial todo o tempo, e há momentos de uma violência absurda, que irrompe de repente e esmiúça o flagelo - tipo, melhor olhar pro lado porque ninguém realmente tem de ver aquilo. A Carrey Mulligan está ótima e lindíssima, tem uma cena de perfil em que fica um escândalo de bonita. Por ela, e por seu amor, é que ele ensaia uma expressão um pouco mais doce, embora uma das cenas violentas ocorra com ela presente no elevador, inesperadamente. De todo modo, acho que vale ser visto, só não é o filmaço que eu aguardava.
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sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Havaí por aí


Revi hoje Os descendentes porque Lucia Malla falou aqui umas coisas tão legais sobre o modo como o filme trata o Havaí, sobre sua relação com aquele lugar e como ele se tornou uma possibilidade de felicidade para ela. Não resisti e fui especialmente para reolhar o paraíso, porque também busco um lugar pra chamar de meu e ainda não encontrei - além de conferir again a beleza do Clooney - ele é mesmo um homem muito bonito e interessante. Mas sua atuação me pareceu como da primeira vez: nada que mereça o Oscar, só mediana. Gostei muito mais de outros trabalhos seus.

E o lugar - bem, não seria meu lugar para viver até o fim dos dias. É lindo, paradisíaco, praias belíssimas, mas sou muito urbana, preciso de tudo por perto, não apenas mar onde me perder ou me afogar. Aliás, acho que não gostaria de morar colada ao mar, teria muita angústia com aquela imensidão que só propõe perguntas sem respostas, além do bater constante das ondas que me deixaria louca em poucos meses. Amo o mar, mas como visitas, que são adoráveis na chegada e melhor ainda na partida; gosto de visitá-lo, vê-lo, estar nele, mas ele lá e eu cá, no meu apartamento - não casa, apartamento.

De resto, o que me ficou do filme dessa vez - além do Clooney, claro - foi sobretudo o rapaz que faz companhia à filha mais velha durante todo o filme. Da primeira vez, achei-o um mané total; agora, fiquei com a imagem dele gravada, seu jeito displicentíssimo de ser e de se comportar, o ar meio abobado, uma figura muito interessante. Ah, e que papel o da mulher em coma - caramba, precisa gostar muito da profissão (ou de estar com o Clooney) para submeter-se àquilo: closes imensos de um rosto tornado tristemente feio. Enfim, ossos do ofício - e nem uma chance de estatueta pra ela, triste.

PS para Egídio: Eu gostei do filme, sim, é uma crônica delicada sobre as dificuldades inerentes às relações familiares e afetivas, em que o personagem do Clooney se vê forçado a enfrentar várias situações de impasse, em diferentes níveis. O final no sofá tomando sorvete, bem... é um filme americano, não é possível não haver nenhum clichê.

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domingo, 1 de janeiro de 2012

Vários: Margin call - o dia antes do fim; O último dançarino de Mao; Românticos anônimos; Tudo pelo poder; As canções; Missão impossível - protocolo fantasma; Noite de ano novo; Roubo nas alturas

Margin Call - o dia antes do fim: dá pra entender o economês, mas não muito bem a dinâmica que levou o mundo ao colapso, ou seja, a coisa toda já vinha acontecendo há anos, sem que alguém tivesse o bom senso de intervir, as coisas sendo levadas com um cinismo cujas consequências estão ainda a nossa volta. Entendi também como é que os figurões conseguiram sair do maior calote já dado nas finanças do mundo ainda com muitos milhões nos bolsos.

O último dançarino de Mao:  Bom filme, grande dançarino, e como a história se passa na época de Mao, claro, fica aquela coisa de que a América é o paraíso na terra. De todo modo, ótima atuação de Bruce Greenwood, que faz um gay contido, coordenador do corpo de ballet da cidade, e do bailarino mesmo, Chi Cao, que não sei se é ator mas dança muito. 

Românticos anônimos: fofíssimo filme, a cara da cultura francesa, com seu amor ao chocolate, e super delicado no tratamento do amor entre tímidos. Humor, delicadeza, singeleza - tudo perfeito.

Tudo pelo poder:  Muito bom, tanto George Clooney, quanto Ryan Gosling e Philip Seymour Hoffman dão show num trabalho de elucidações sobre como funcionam as engrenagens que levam um polítco ao poder, ou qualquer poderoso a sua cadeira, acho. Pode não haver sexo com estagiária sempre, mas há sempre conchavos, acordos, venalidades - lá, cá, em qualquer lugar.

As canções: gostei muito, é um documentário bem simples, marca do Coutinho - uma cadeira, um anônimo falando de seus momentos marcantes ao som de uma canção. Como soi acontecer, há melodrama, há drama, simpatias, graças, há de tudo quando se coloca a alma de uma pessoa à vista de todos. Gostei especialmente do rapaz que canta a canção que fez para o pai, muito bonito e tocante.

Missão impossível - protocolo fantasma: um sujeito de um jornal carioca estava mal humorado no dia em que foi escalado pelo patrão para ver o filme e colocou lá no espaço de crítica, que ele assina e ganha dinheiro para isso, um bonequinho dormindo. Não dá pra levar a sério esse cara. O filme é muito bom, muito bem produzido, mais contido, é verdade, do que os outros, mas com todos aqueles ingredientes que fazem essa franquia render bem até agora. O Tom está mais maduro, mais bonito, e acho que está ficando melhor ator nesse tipo de trabalho, que exige mais fôlego do que propriamente atuação. Enfim, gostei muito, dentro do gênero.

Noite de ano novo: diversão sem maiores complexidades, com uma penca de gente famosa para agradar todo mundo, típico filme de final de ano, mas distrai bem.

Roubo nas alturas: divertidíssimo, sobretudo quando Eddie Murphy entra em cena, em ótima forma, o que me deixou muito feliz, porque era uma pena ver um ator com a história no cinema que ele tem pagar tantos micos como ele já pagou em comédias patéticas. Enfim, o filme tem muitos momentos engraçados, a história é ótima, prima em segundo grau do enredo de Margin call, mas aqui todos saem redimidos, enfim.


sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Cinema em contagotas

Amor a toda prova: muito boa diversão, vale o tempo e o ingresso. É mais que isso - comédia romântica das boas, daquelas em que você torce, se emociona e se identifica com cada um que fica ou que parte. E vamos combinar: Ryan Gosling é um gato, idem a Juliana, e os casais formados por ambos são belos;

Contágio: nada daquelas cenas mirabolantes de filmes-catástrofe, tudo low-profile, até meio decepcionante para quem foi ver achando que ia ficar paranóico - nada disso, tudo clean e leve, podem ir sem susto. Eu gostei, mas fiquei esperando todo o tempo a adrenalina, que não veio;

Copacabana: valeu a intenção de fazer uma delicadeza com nosso país, mas acho que a Isabelle Huppert não convence muito como balzaca-bicho-grilo. De todo modo, faz um personagem interessante, difícil não simpatizar com sua proposta de mandar a chatice às favas - e ela manda bem;

Entre segredos e mentiras: filme barra pesada sob a aparência de singeleza; serial killer brabo, visto por ângulos diferentes daqueles a que o cinemão nos acostumou, e por não explícita a violência parece maior; prende a atenção, e Ryan Gosling se revela bom ator em drama também, e desde Melancolia Kirsten Dunst fincou os pés na calçada das grandes interpretações, embora aqui faça a mocinha que já fez em outros filmes, mas bem;

Medianeras, Buenos Aires na era do amor virtual: meio bobinho, meio arrastado, mas vi até o final. Há quem goste da exploração da arquitetura da cidade, eu gostei mais da historinha propriamente dita, mas algo não flui no filme, não sei o que é;

O palhaço: tem força, sobretudo a força interpretativa de Selton e Paulo, tem lirismo, tem beleza e tem cenas de circo muito boas. O filme fica aquém do que eu esperava, mesmo assim muito bom, vale muito vê-lo;

Os 3 mosqueteiros: diversão apenas, sem muito mais, e a ponte no final para uma sequência é paupérrima, mas vale a ida ao cinema;

Riscado: bom roteiro, boa atuação da atriz principal, Karine Teles, mas poderia ter sido encurtado em no mínimo meia hora, ou seja, como média metragem estaria muito bem, acho;

Um sonho de amor: gostei muito, uma bela história de amor, em filme cuja força reside sobretudo no encanto e talento da sempre especial Tilda Swinton - a luz dessa mulher ilumina tudo a sua volta;

Uma doce mentira: diversão boa, com aquela Audrey Tautou meio sem expressão de alguns de seus filmes; o personagem masculino é uma graça de homem e de ator, Sami Bouajila;

Winter, o golfinho: fui ver pela resenha de não sei que jornal, que alertava para a diferença desse filme em relação a todos os outros de redenção-através-de-um-animal. Não há diferença alguma, é um filme sobre redenção-através-de-um-animal como todos os outros, a gente viu um, viu todos, mas dependendo do dia, pode trazer um pouco de relax e algumas lágrimas;

O mineiro e o queijo: fofíssimo documentário do Helvécio Ratton, que faz um trabalho de respeito, informação e divulgação desse aspecto da cultura de Minas, com todas as peculiaridades que essa atividade comporta, assim como o tratamento que dá aos queijeiros, gente simples, que fala simples mas sabe o que diz, com aquele humor peculiar do mineiro. Uma delícia de ver, saí com vontade de visitar todos aqueles sítios, e comer muito queijo do Serro e Canastra.

PS. Tentei isso que digo aí no final: fui à feirinha da Senador Correia no domingo, comprei um pedaço de queijo canastra com um moço que sempre está lá, perto do grupo que toca chorinho, e me ferrei - agora que sou uma 'mulher-com-gastrite-crônica' comer um pedacinho dele foi mortal - dor, dor e dor. Arghhh!
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sábado, 8 de outubro de 2011

Retalhos do FestRio

Comprei alguns ingressos para o FestRio, dentre os quais já vi Gatos velhos, um filme triste e duro, mas ótimo. A velhinha é a minha cara quando eu for assim velhinha, é de uma crueza face ao campo dos afetos maternais que eu compreendo profundamente. Também o modo como o marido a protege, uma forma de amar absolutamente radical, sem quase nada receber: amor real, de longo tempo, talvez quase memória do que já terá sido uma paixão arrebatadora, hoje ecos nos gestos contidos mas protetores, mesmo quando ela tira de seu ombro o braço que tenta protegê-la. Velhinha dura. Sorte que ela o tem, ou seu fim seria tristíssimo.

Tentei ver Gatos de Paris, que comprei sem saber que era desenho animado, mas o que me fez desistir dele é que havia umas 300 criancinhas tentando entrar na sala, daí dei meia volta e entreguei o bilhete à bilheteira, que não pode devolver o dinheiro porque blá blá blá.  Hoje vi  Não me esqueça, Istambul, longo demais e de que gostei de uma ou duas histórias, a da velhinha apressada que se perde, sobretudo, e a dos amantes separados por séculos de brigas religiosas e políticas. Depois entrei em outra sala e vi grande parte de Todas as canções falam de mim, até um certo momento em que eu já sabia mais ou menos onde aquilo ia dar, ou seja, me falta hoje paciência para os imbroglios do amor na geração dos trinta, esse aprendizado que, embora comovente em alguns momentos, não me diz muita coisa. Me toca mais a velhinha crudela do que a mocinha que vai e vem nas ondas de seu coração instável.

Amanhã verei Sete atos de misericórdia, nada sei about, e na segunda vou ver o filme do Almodóvar, só espero que não esteja lotado, desejo meio vão, creio. Nos poucos dias a que fui já reconheci duas pessoas assíduas. Um deles, no primeiro dia, na primeira sessão, gritava saudando cada espectador que entrava, como se estivessem se reencontrando na colônia de férias. Ele literalmente gritava do meio da sala de exibição: E AÍ, FULANO, TUDO BEEEM? COMO VAI, PRAZER EM REVÊ-LO, assim mesmo em maiúscula, ou seja, aos berros, enquanto o fulano procurava, meio envergonhado, um lugar para sentar. Estranho isso, e me incomoda muito, tanto que já estou levando protetor de ouvidos para as sessões, sei lá quantos outros malucos não vão se cumprimentar ainda.

Ainda tenho ingresso para Inquietos e De mãos livres, não sei se li sinopse, e se li não lembro, falo depois sobre.
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Em tempo: hoje é sexta, dia 14/10, não vi Sete atos de misericórdia porque era domingo e me deu uma preguiça louca de sair, então perdi o ingresso por laziness, fazer o quê. Mas vi ontem um filme português difícil de gostar, porque mal costurado, mas gostei afinal - Quinze pontos na alma. Parece coisa esotérica, e é mesmo, no sentido de hermético, pouco compreensível em vários momentos, e falho em outros, mas não saí da sala e vi o desenrolar das ações daquela mulher com atenção. Seria pura maldade dizer que o filme se salva pelas roupas impecáveis que ela usa, deslumbrantes de chiques (os personagens são ricos e entediados portugueses), mas não é verdade,  há interesse na história do homem que beija e se joga invisivelmente da ponte, e do périplo dessa desconhecida em busca de entender - numa viagem que será muito mais longa do que ela supunha. Enfim, o filme é difícil, tem buracos  no roteiro, mas se vê com interesse.
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segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Ainda os ecos

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Então, para espantar a desesperança de Melancolia, fui ver A árvore da vida, e diante da confusa narrativa que o diretor nos apresenta, do filme-que-teima-em-não-acontecer-para-mim, vi ainda os ecos do outro na longa, longuíssima série de fotos de espaços, animais, rochas, mares, rios, gases, galáxias, nebulosas, dinossauros, maluquices, ou seja, na longuíssima viagem que o diretor faz a uma pre-história lá dele, numa meio lisérgica viagem em que objetos do espaço semelhantes a  - cometas?  pedaços de outros planetas? coisas? - chocam-se com a superfície do que suponho ser a Terra, e de novo o acúmulo deixado pelo 'outro' me vem, ecoa em mim.

Então, do filme mesmo do Malick pouco restou - um Brad Pitt que eu já respeitava de outros filmes, e que carrega nas costas o que resta de ação dessa árvore. Um filme com mais furos e buracos e ausências do que me será possível reportar. Parece que ele levou quase um ano editando a obra. Meu Deus, quanto trabalho para tão ... sei lá, que sei eu.

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sexta-feira, 27 de maio de 2011

Piratas

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De Piratas do Caribe 4, pode-se dizer: o contrário de 'frescor'- repetitivo, sem graça, nada de novo, monótono, erro de mão, chatinho.

Enfim, preste atenção, queridíssimo Depp, não se trata apenas de fazer rios de dinheiro, é preciso ter um filme ótimo também.

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domingo, 1 de maio de 2011

Me rendo

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Na verdade, o tempo correto da forma verbal do título é "Me rendi" ao formato de exposição dos blogs que eu sigo através dos links de suas atualizações. Eu fazia esse circuito olhando o blogroll da anna v, achava mais prático e me sentia meio impedida de fazer o mesmo aqui, porque me via meio exposta e cobrada quando entrava em algum blog e o linha estava lá, sem atualização há tempos. Enfim, percebi que há uma crise na sistemática de atualizações de vários blogs, mas quem gosta de escrever nesse tipo de espaço acaba voltando, mesmo sem frequência regular, e está tudo bem assim. Então, meu povo, vamos trabalhar porque agora o linha exporá nossa laziness ::))

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Fui ver O sonho bollywoodiano e achei, na ordem: chato, mal feito, bobo, ruim como documentário e como ficção. Se for visto pelo viés documentário, que ele tem, não quero ir à India de jeito nenhum - nada daquele universo me pegou: não creio mais em saídas "espontâneas" ou escapadelas para longe a fim de resolver problemas de grana, emprego ou para encontrar um sentido para a vida olhando a miséria dos outros - e as meninas não convencem nem Madre Teresa de Calcutá de que precisam ir tão longe para ganhar algum (não sei por que a pobre madre apareceu aqui, aliás, sei, é por conta da enorme miséria da India que é presença  preponderante no filme, e que é vista pelo olhar das três protagonistas como se fosse uma "paisagem" - explicar isso requereria mais teclados e palavras do que estou podendo agora). De todo modo, nada me interessou ali, algumas falas chegam a ser patéticas, tipo "a dor é o elemento comum a todas as culturas" e blá, blá, blá. A única coisa interessante - ia dizer o garotinho que ensina as meninas a dançar, mas acho tão pouco para o enorme tempo que fiquei ali vendo nada, mas enfim, vá lá: o menino que ensina as moças a dançar foi a única coisa que me fez sorrir um pouco, ele é uma gracinha.
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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Quatro filmes: O turista; Tio Boonmee; Além da vida; Biutiful

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O turista é uma bobagem de filme, e a Isabela Boscov tem razão quanto ao papel rebaixado de Johnny Depp, mesmo ele sendo tão protagonista quanto ela, a bela, a indescritivelmente bela Angelina Jolie. Nunca tinha visto uma coisa assim: um filme que filma basicamente uma mulher belíssima sendo isso apenas: uma mulher belíssima.

Tudo gira em torno do encanto e da sedução que ela possa ativar por onde passa. E me deu na verdade um sentimento muito grande de nostalgia: ver aquele rosto perfeito em grandes closes - nenhuma ruga, nenhum dano à pele, cabelo sedoso, dentes um pouco proeminentes mas naquela boca de poder incontornável, enfim, todos os signos da beleza expressos de forma contundente - e pensar que aquilo também fenecerá, a pele murchará, a beleza mudará para algo menos do que expressa nesse momento em seu estado de arte. Então, o que ficou do filme, para mim, foi isso: Angelina bela como a beleza pode ser, e Depp tentando segui-la por todo canto, sem alcançar-lhe a estatura. Acho que até ele ficou meio cego para todo o resto - representar, por exemplo.

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Tio Boonmee foi uma das coisas mais chatas que já tentei ver nos últimos tempos. Não achei poético, nem vi interesse naquela forma de vida simplória do personagem, e em alguns momentos me pareceu até mesmo patético - quando o filho se transmuta em macaco, a fantasia dele é ridícula, o filme é chato, mas aguentei quase até o fim, com bravura. Muito ruim.

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Além da vida é um digno representante da filmografia de Clint Eastwood. Delicado, bem feito, forte, com todos os atores empenhados em fazer um trabalho de excelente qualidade. Sem abrir mão da imersão nos valores da cultura estadunidense (na forma ambiciosa com que o irmão do personagem de Matt Damon quer ganhar dinheiro às custas de seu dom), Clint mergulha num universo - a vida além da morte - que poderia se tornar piegas ou redundar numa bobagem, mas ele segura com mãos firmes as histórias e caminha com seus personagens de modo absolutamente convincente até o final, de algum modo redentor.

Já se falou bastante na cena inicial do tsunami, e também quero observar: é mesmo magistral e me trouxe de volta os mesmos sentimentos de estar presenciando uma hecatombe sem precedentes naquele dezembro de 2004, ano em que cheguei a Fortaleza. Haveria algum prenúncio para mim naquela tragédia?

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Quanto a Biutiful, de todos os filmes atuais pareceu-me o mais significativo, o mais intenso, o mais complexo, o mais extraordinário Javier Bardem em atuação. Nele, o ator vive com paixão, em grandes e convincentes closes, o papel de um homem atravessado por questões duríssimas da vida contemporânea: compaixão pelos que sofrem, sobretudo pelos imigrantes ilegais que são enxame hoje em qualquer país que ofereça trabalho-quase-escravo e sobrevivência. Ao mesmo tempo, ele também precisa fazer pactos com os diabos todos que o circundam, para ganhar algum e sustentar os dois filhos, cuja mãe muito louca só lhes acrescenta problemas.

Não penso em redenção quando vejo o incansável trabalho de Sísifo desse personagem, Uxbal – nome que ecoa antigos deuses de antigas civilizações maias, astecas, ou estou delirando -, mas um homem fincado com os dois pés e todo o corpo na vida, mergulhado até os ossos em tudo que ela oferece: toda a dor do mundo, e também a necessidade de fazer o que precisa ser feito, de viver o que se apresenta a ele sem hesitações ou rodeios.

Uxbal é um herói trágico, sim, de coragem e fragilidade exasperantes, que vive, vive, vai tecendo o dia, mesmo quando a morte lhe é anunciada para breve. Não aquela ‘indesejada’ que todos enfrentaremos um dia, mortais que somos, mas a próxima, iminente e irrecorrível – a morte em dois meses, de câncer irreversível. Uxbal urina sangue mas continua a trabalhar, a agir, a fazer tudo que pode por todos, por si, pelos filhos, pela mulher enlouquecida – até que vai findando numa cama, sem muito alarde, seu prazo termina e ele morre silenciosamente. Sentimos, na platéia, ecoar os passos dele nas vidas que continuam ali fora, no burburinho de que ele fez parte, sempre – e, em certa medida, nos passos que nos levam para fora da tela, e do cinema.


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PS. Não faz a menor diferença para meus leitores fantasmas, mas voltarei a ficar de molho por pelo menos um mês. Eu só é que sinto falta de escrever, ou de querer escrever e não poder. Enfim, tendinite é uma chatice, só espero que tenha cura.


segunda-feira, 29 de março de 2010

Um sonho possível

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Achei o filme com a Bullock apenas entretenimento, não há muito a dizer - uma senhora rica se enternece com um rapaz negro, pobre e meio limitado. Esse interesse muda a vida do rapaz e ele se torna um jogador de sucesso. Ponto. Agora, por que ela ganhou o Oscar por essa interpretação, não tenho a menor idéia. Acho que o altruísmo que ela interpreta foi agraciado.

PS. O documentário com o Macalé, comentado aí embaixo, passou domingo no Canal Brasil. Vi de novo e gostei de novo.

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segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

no comments

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Já que não falo sobre filmes ruins, me absterei de comentar Praça Saens Peña; Do começo ao fim; e sobretudo, mas sobretudo, Diário de Sintra.

Cidadão Boiselen ficará na rubrica "filme complicado à beça de se dizer qualquer coisa", pro bem e pro mal.

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domingo, 3 de janeiro de 2010

Três filmes

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Nova Iorque, eu te amo vale por algumas das muitas histórias de que se compõe, e também por tantos bons atores que aparecem quase em pontas, de tão pequenas as participações às vezes. Muito boa a do rapaz negro confundido com uma babá, mas que é o pai da menina (branca), e dança lindamente; a do casal de velhinhos - ele, o impagável Eli Wallach, o mesmo ator de O amor não tira férias - e, na verdade, quase o mesmo personagem, ranzinza e mal-humorado, mas muito engraçado; e uma das melhores historietas mostra uma Julie Christie muito semelhante ao papel que fez em Longe dela, uma senhora que lembra e esquece, e que carrega no rosto uma densidade dramática e uma doçura comoventes.

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Gostei muito de Um segredo em família, embora os primerios trinta minutos tenham me parecido um tanto confusos. Depois que o segredo é revelado ao garoto, o filme engrena e fica muito bom, tensão e drama envolvendo a perseguição aos judeus na Segunda Guerra, mas submetidos a uma história de amor forte e convincente, que atravessa gerações. Talvez aí a única nota dissonante - as mudanças físicas dos atores às vezes não acompanham os anos que passaram, mas nem por isso o filme fica diminuído, continua ótimo.

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Procurando Elly é um drama muito bom, mas quase absurdo de tão "inteiramente outro", ou seja, trata de valores de uma cultura que está muito distante de mim, inclusive afetivamente. Não consegui empatia com o grupo de casais jovens, que sai para descansar no fim de semana e termina numa casa de praia meio abandonada, com acontecimentos que vão num crescendo até o final hiper dramático. 

O que parecia um encontro alegre e movido pela farra acaba virando um dramalhão cada vez mais patético, até chegar as raias do inverossímel, embora eu saiba que tudo aquilo faz parte dos valores da sociedade iraniana. Mas justamente por fazer uma abordagem dos valores de ordem moral que regem o comportamento dos homens com relação às mulheres é que fui ficando cada mais irritada.

Ao fim da projeção, saí com alívio daquele mundo, agradecendo por não ter nascido naquela cultura. De todo modo, ótimas atuações e bom filme, mesmo que não para mim.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Mulheres aquém

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Ontem saí para ver A vida íntima de Pippa Lee, mas já no Arteplex percebi que ele só vai estrear a partir de sábado, então entrei na sala de Um namorado para minha esposa, que tem uma protagonista fazendo o papel de uma das mais chatas mulheres de todo o universo. Se eu fosse o marido daquele ser já teria talvez arrancado sua (dela) língua, mas ele tem uma idéia mais atirada, embora também eficaz: arranja um sujeito que tem por missão fazê-la apaixonar-se por ele, além de também dar um jeito em sua ociosidade, arrumando-lhe um emprego de locutora, cujo salário ele (o marido) paga, tudo isso contado num tom entre a comédia e a farsa.

Claro que nem tudo sai como esperado - todo mundo percebe que aquele trato não vai dar muito certo. O filme também tem altos e baixos, mas no geral a comediazinha cumpre seu papel, sem grandes arroubos. Mas a mulher continua chata até o fim.

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Já Partir é mais complicado de comentar, porque é um bom filme, o espectador fica ligado na estória, tem cenas mui calientes de amor entre ele (Sergi Lopez) e ela (Kristin Scott Thomas, muito bonita), mas há alguma coisa de retrógrado nesse dramalhão amoroso que não tem fim.

Basicamente, achei que a personagem vive esse romanção meio extemporaneamente, ou melhor, meio adolescentemente. A mulher já deve ter uns 40 anos e fica total e absolutamente tomada de paixão pelo homem de outro nível social e econômico, o que é muito comum. Incomum é o ficar, naquela altura de sua vida, totalmente à mercê da paixão, do marido, do acaso e, quero crer, da burrice. Porque ela não raciocina - e isso não quer dizer que o amor-paixão seja mesmo irracional. Ela não raciocina para os tempos atuais, para o tempo dela, para o meu tempo, para qualquer parâmetro. Até o filho adolescente tem mais tino do que ela. Por quê?

Vejamos: o marido (médico, rico e burguês) enraivecido e ciumento tira tudo dela, depois de muitos anos de casamento - a casa, o emprego, os filhos, o cartão de crédito e todo o resto. Ela fica na miséria e só lhe resta o amante e a paixão, que aos poucos vai degringolando à míngua de recursos materiais (essa coisa de um amor e uma cabana nunca deu certo nem em priscas eras...).
Ela não atina com uma solução inteligente para nada, só consegue aproveitar a saída da família num fim de semana para pilhar objetos de valor da casa e se dá mal. Sempre se dá mal, e me irritou muito essa desmedida falta de tino.

Enfim, a gente percebe que aquilo não vai dar em lugar nenhum. Mas ela dá um fim a tudo, e tome mais dramalhão. Ficamos, no final, com a imagens dos dois amantes no alto do morro, ela chorando abraçada a ele. Mais clichê, impossível!

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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A saga vampiresca

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Depois de ver Crepúsculo mais de uma vez na TV, onde tem passado insistentemente, resolvi ir ao cinema ver Lua nova. Os dois protagonistas continuam atuando de forma medíocre, mas ninguém desgruda os olhos da tela. O que tem essa saga para prender a atenção até de uma old lady como essa escriba, que nem gosta tanto dos romances-folhetim do século dezenove, salvo talvez Senhora, do Alencar, porque Aurélia joga duro com Fernando antes de sucumbir e é uma grande personagem?


Enfim, voltando à saga, acho que o mais poderoso chamariz de ambos os filmes é o erotismo mesmo, o desejo desses dois que não vai nunca além de beijos muito castos e cuidadosos para não atiçar a sanha vampiresca do rapaz. Então, a moça sofre de uma paixão desmedida, ele também, claro, e há a tensão camuflando o tesão, o que nos leva a outro aspecto bem século dezenove, que diz respeito à pudicícia.


Num século que quase não tem mais novas maneiras para despir os homens ou as mulheres publicamente, nem como mostrar o sexo e a vulgaridade, os dois personagens passam os dois filmes vestindo jeans e camiseta, e quando ele, no final deste último filme, tira a blusa em close num gesto de quase suicida, o que se vê é um ser com baixíssimo sex appeal, se se leva em conta o modelo de beleza física masculina atual, magérrimo, desvanecendo-se todo. O outro rapaz apaixonado pela moça - o amigo lobo - parece ter feito intensivo de malhação e seria o protótipo dessa beleza padrão, este sim, um homão musculoso, mas, hélas, não é ele o amor de Bella.


Então, diria que o que prende na saga é também o que faz todo filme ultra romântico funcionar : amor impossível, sacrifícios pelo amado ou amada, muitas lutas e aventuras em sua defesa e, nesse caso específico, um vampiro tão bom sujeito que a gente torce demais para que ele, afinal, dê a mordida pela qual Bella espera há tanto tempo e o desejo possa realizar-se.

Mas não foi ainda agora que isso ocorreu. Primeiro, ele há de pedi-la em casamento, o que faz com aquela carinha empoada de branco e o batom meio excessivo mais inacreditáveis da face da terra. Aguardemos, pois, os próximos lances desse jogo. Chegaremos a ver os filhotes vampirinhos do casal? Qui le saurait jamais... Seria o caso de ler o próximo livro e descobrir? Menos, Clara, menos...


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sábado, 28 de novembro de 2009

Julie e Julia

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Enquanto meu trem desvia num atalho e eu torço pra ele não descarrilar de  novo, vou seguindo os filmes que talvez me alegrem o dia, o que não foi o caso de Julie e Julia - mesmo. Vi o trailer desse filme e gostei muito, achei que seria divertido assisti-lo, mesmo tratando de um assunto, digamos, filmicamente sem graça como a culinária. Adoro comer bem, acho o máximo quem sabe e gosta de fazer pratos rápidos e gostosos, eu também sei fazer alguns, embora com bastante preguiça de mexer em panelas, mas um filme que funcione sobre esse assunto ainda precisa ser feito.

(A festa de Babette, obra prima, não conta, porque não tem como tema a feitura de um livro de culinária, para espantar o tédio, mas trata de amor, fraternidade, solidão, os acasos memoráveis da vida, além da arte de criar pratos magistrais).

De todo modo, achei tudo muuuito chato e, sobretudo, mas sobretudo a Meryl Streep está chatíssima - o sotaque, que eu acho que é britânico, não sei, é irritante; o tom da voz passa longe do agradável; não consegui acreditar na simpatia da personagem pelos franceses, talvez um pouco pela comida francesa, mas o livro dela, a obra magistral, o novo paradigma da cultura literária da humanidade - como eles gostam de compreender todas as suas singelas produções - é um livro que traduz e adapta as receitas francesas para o padrão de gosto deles lá (os estadunidenses, porque é deles que se trata, afinal). Essa atuação da Streep só consegue ser mais chata do que a que ela faz em Mamma Mia!, um espanto de filme sem graça.

(Na verdade, devo dizer que esses são os dois únicos filmes em que realmente não gosto do trabalho dela, mas talvez seja porque os filmes são ruins. Em geral, gosto muito das atuações que já vi).

Ainda, aquele pezinho condescendente no fascismo mccartista do filme, que não faz crítica nem enfrentameto, só matiza de leve o autoritarismo do pai de Julia, numa breve cena, que nos mostra, no entanto, seu poder e influência, sob os quais se regula o emprego do marido de Julia, e portanto ambos vivem a boa vida parisiense um pouco atados àquele mundo degradado. Enfim, há coisas meio podres sob o véu de tédio e comidas à volta da jovem senhora e seu amável husband.

Já a parte da Julie é menos desagradável, menos chata, mas igualmente insossa. A única coisa que escapa, para mim, nesse filme, são algumas comidas que essa Julie faz - não tenho vontade de fazer, claro, parece que dão o maior trabalhão, mas adoraria estar naquela mesa dela.

Por fim, os dois maridos são uns verdadeiros santos, tirando a saída de casa com retorno do marido de Julie, eles não existem, não existiram e não existirão. E é só.

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domingo, 15 de novembro de 2009

2012

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Dos filmes-catástrofe que já vi, esse 2012 fica muito próximo daquela partida ao meio magistral do Titanic. Tem um momento, a partir das primeiras rachaduras no chão, que a coisa engrena e a gente não desgruda mais o olho da tela e dá adeus à verossimilhança, atitude mais do que sensata para ver esse tipo de filme. 

Está certo que o cérebro não desliga no automático, e fico ainda constrangida com aquele ideário fajuto deles a respeito de certos valores que são inteiramente fictícios, mas eles postulam com a maior cara de pau do universo - como diz vosso presidente, nunca na história da indústria um cinema foi tão idiotamente ideológico como o cinema deles tem sido, sobretudo nesse cinemão em que entram ação enlouquecida, salvação da humanidade, gestos de altruísmo, defesa do indivíduo comum, capaz de redimir o coletivo tirânico e/ou injusto, recolocando tudo nos devidos eixos, não faltando o presidente negro que oferece sua vida em holocausto para salvar quem (ou o quê)? A humanidade, claro.

(Meu cérebro indesligável pensava em como o Bush real estava a milhas de distância daquele ideal, mas enfim...). Ah, e tem também a indefectível bandeira estadunidense, é quase como uma praga, não há filme B (ou C ou D, todo o alfabeto, digamos) sem a tal bandeira, nos lugares mais inesperados.

Bom, mas tirando isso tudo, tem ação à beça, os caras sabem fazer essa coisa funcionar, tudo é muito rápido e emocionante e a gente quase não respira, oprimida pela hecatombe incomensurável e inexorável que devasta tudo e até mesmo - hélas, horrores - nosso Cristo Redentor tomba tangido pelas águas e pelos fogos que viram a terra de ponta-cabeça. No final, ... bom, são muitas emoções, é melhor ir lá ver.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Picadinho de filmes

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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.

Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado que o faz sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.

Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.  

Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.

E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.

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sábado, 17 de outubro de 2009

Distrito 9

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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.

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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.

Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.

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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.

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