sexta-feira, 29 de julho de 2011

Potiche e um certo modo de ser e envelhecer

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Postiche é uma experiência cinematográfica muito interessante - uma das impressões mais fortes é ver aquela dupla impagável, ícones da história do cinema francês, e pensar: são bichos de cinema, ambos, Catherine Deneuve e o onipresente Gérard Dépardieu. Sabem tudo de big screen, namoram a tela, fazem amor com ela, seduzem e se deixam seduzir pela câmera. Há momentos em que tenho a íntima sensação de que eles filmam entre eles, para eles, curtem horrores toda aquela coisa.

E o filme é uma produção francesa avant la lettre, tudo respira um certo modo de ser francês: o modo de tratar o adultério, o jeito blasé da atriz e da personagem de Catherine, o gostar dos pequenos prazeres da vida, de que a cena final me parece antológica, não apenas dessa particularidade, mas do cinema ele mesmo - ali se revela o caráter de encenação da coisa, e também se percebe uma homenagem não só aos dois atores, mas ao cinema francês. Senti todo o tempo que Ozon fez o filme para homenagear esses ícones e, de algum modo, o cinema francês. A música que Catherine canta, olhando diretamente no olho do espectador ao final, eu leio como uma brincadeira, uma homenagem a todos que estamos vivos, amadurecemos e queremos continuar na festa da vida, com alegrias e conquistas.

Ela já foi lindíssima, está com o rosto um tanto deformado pelo botox; ele está barrigudo excessivamente - mas ambos continuam sendo uma referência de arte, de empenho por um ofício, de uma certa história de cinema de que compartilhamos em grande medida. O olhar cúmplice para a câmera e o sorriso maroto nos irmana - sim, a vida ainda pode ser muito bela, a despeito de nossas imperfeições, do tempo e suas marcas - as boas e as nem tanto,  ambas indispensáveis para o ser que somos hoje.

Filme adorável, ça va sans dire.
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terça-feira, 26 de julho de 2011

Aracaju - boa, bonita e nem tão barata

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Passei quatro dias em Aracaju, no ótimo Celi Praia hotel (a melhor ducha que já tive o prazer de conhecer, ever) e achei a cidade ótima para descansar, além de muito bonitinha - não linda, mas bonita. O tempo era instável, mas até disso gostei: uma hora sol forte, daqui a pouco chuva, depois sol de novo, à noitinha brisa ou vento forte - ou seja, muitas variações interessantes, ninguém se entedia por ali.

A cidade é limpíssima, não vi nem guimba de cigarro no chão, pode-se andar na orla do bairro Atalaia sem problemas (a bicicleta é meio de transporte bastante usado), mesmo à noite, mas pro carioca paranóico dá uma certa aflição, nessa época não havia muita gente caminhando e há grandes espaços vazios em torno. Uma pena, porque o pouco turismo faz os preços subirem, mesmo na pequena loja do oceanário que abriga o projeto Tamar: um lápis com a ponta em forma de tartaruga custa 7 reais, achei bem caro. Mas o oceanário é bonito, quase em frente ao hotel há um grande espaço dedicado às crianças, o que faz a cidade bem child friendly. A comida também não é barata, mas foi dos melhores peixes que já comi em viagem, e o restaurante nota mil é mesmo o "Pitu com pirão da Eliane", dá para ir a pé de quase qualquer lugar da orla (sessão coruja: tiramos uma foto juntas ::).

Como tem muito, mas muito vento nessa época, uma praia próxima é quase toda ocupada por jovens que praticam kitesurf, um visual lindo. Vai-se de táxi aos complexos de restaurantes maiores nas praias próximas, mas nem de longe eles se equiparam aos mega empreendimentos semelhantes que conheci na praia do Futuro, em Fortaleza, comparação inevitável para quem já viveu lá.

Eu voltaria a Aracaju, lugar super tranquilo (pelo menos nessa época) para se descansar e, para quem gosta, curtir praia.














































































































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segunda-feira, 18 de julho de 2011

O homem ao lado, com spoilers

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De tudo que vi em O homem ao lado, parece que o importante ocorre mesmo no final. Toda a conversa que permeia o filme inteiro, os vaivéns dos personagens em torno daquela janela, tudo parece querer chegar a esse final imprevisível, como a vida é imprevisível. Indecidível: ele  deixa o homem morrer e resolve seu problema? Vai subindo a escada para abandoná-lo ou para pedir ajuda? O telefone ocupado da ambulância ajudou a consciência culpada do homem, deu-lhe a justificativa de que ele precisava para deixá-lo morrer? Ele morreria de qualquer modo, antes mesmo de a ajuda chegar? Por quanto tempo suportará aquele homem a culpa por ter deixado o outro morrer, sem muito esforço para impedir e/ou ajudar alguém que tomou um tiro porque foi proteger a filha do vizinho contra três assaltantes armados?

Ficamos no final pensando que aquele desfecho foi uma armação para atingir nossos corações de morte. E nos lembrar que a vida é frágil e breve e num átimo tudo se evola.
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Quanto a Blue Valentine (horrivelmente traduzido para Namorados para sempre, argh), muito emocionante aquela luta insana contra o fim de uma relação de dois jovens que se casaram basicamente porque ela ficou grávida, e nem era dele, talvez, e as vicissitudes da vida, os sonhos irrealizados, a frustração, o perrengue das coisas que não avançam, o cotidiano que vai comendo pelas bordas todo  encanto, todo o frescor que fecundara antes a vida de ambos. Como é triste e melancólico esse filme, como trabalham bem tanto a Michelle Williams, quanto o Ryan Gosling, ela dá um show de interpretação e tem um dos narizes mais lindos do cinema - acho que natural, quase certa disso.

De todo modo, falo do nariz dela para disfarçar a tristeza enorme que esse filme carrega. É muito bom, mas muito triste. E também porque vejo muito perto de mim uma paisagem semelhante a essa via sem saída.  

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sexta-feira, 15 de julho de 2011

Mundo português 2

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Parece que o 'mundo português', por algum acaso muito próprio à vida, anda me enviando mensagens. Essa aqui é extraordinariamente clara. Quiça tivéssemos um Marinho à altura desse aí:



PS. vi primeiro no blog da cora rónai 

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quarta-feira, 13 de julho de 2011

Mundo português


A Cosac Naify bateu o recorde na entrega de livros: comprei ontem e hoje já chegaram os quatro títulos, dos quais já li o conto ótimo do Eça de Queiroz, Um dia de chuva. Os outros são: História abreviada da literatura portátil, Enrique Vila-Matas; Vermelho amargo, Bartolomeu Campos de Queirós; A máquina da fazer espanhóis, de valter hugo mãe, todos folheados em livraria, todos lindos e, ao primeiro contato e alguns comentários lidos, muito bons. E o melhor: preços para professor na Cosac é sempre em torno de vinte. 
 O conto do Eça é um achado, mesmo com alguns problemas de pontuação, que não sei se foram mantidos por obediência à edição original, ou se a revisão cochilou, mas o texto é tão bom que a gente passa batida pelas vírgulas mal colocadas*.

Não parei de ler até terminar, de uma assentada, até porque é um conto, o livro é lindo, as ilustrações são bonitas, diferentes, e o estilo é inconfundível, assim como o filme bem interessante que está passando, Singularidades de uma rapariga loura, baseado também num conto de Eça: ambos têm não apenas a dicção portuguesa, um certo timbre de lentidão, de humor, um ritmo particular que advém da cultura portuguesa e do estilo de Eça. Me peguei várias vezes rindo ao longo da leitura, e também me dizendo: como escreve bem esse sujeito.


Antonio Candido faz um comentário corretíssimo na quarta capa: “O enredo é simples, tecido tchekhovianamente com quase nada, fino e leve como teia de aranha. [...] Narrativa de atmosfera, cujo princípio estrutural é a surda competição entre a chuva que fecha o mundo e a imagem solar da moça que rompe as brumas.”


E é nesse modo de fazer avançar o pensamento do protagonista José Ernesto em direção a essa moça, totalmente ausente do horizonte real ou imaginário, que a graça do conto se faz, num trabalho de mestre de construção narrativa, estilo e técnica.
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*No site da Cosac, a nota de Candido esclarece a respeito do estabelecimento de texto: “Embora mais irregular, o texto estabelecido por Beatriz Berrini continua encantando pela graça e originalidade, a ponto de podermos dizer que, se é inacabado como redação, é completo como composição, sendo uma pequena obra-prima sem polimento final”.


Em: http://editora.cosacnaify.com.br/ObraApresentacao/11429/Um-dia-de-chuva.aspx
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Eça de Queiroz. Um dia de chuva. Texto estabelecido e notas por Beatriz Berrini. Ilustrações: Guazzelli. São Paulo: Cosac Naify, 2011.

terça-feira, 5 de julho de 2011

Midnight in Paris

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São muitas as razões para amar Midnigth in Paris, para rever o filme com o mesmo encantamento da primeira vez. Acho que todo mundo assiste às cenas iniciais – takes breves em vários cantinhos ou monumentos da cidade – já com o olhar embevecido de reconhecimento de algum bom momento que passou por ali; ou de quem reconhece de fotos, mas nunca foi naquele lugar, e o filme pontua essa lacuna, faz nascer o desejo de preenchê-la, faz sonhar com o dia em que se conferirá a estampa, o desenho, o cheiro, a cor, enfim. E isso pode ocorrer com qualquer lugar em Paris, literalmente, não apenas os marcados pelo olhar de Allen.

Outa boa sacada foi torná-lo leve, mas cheio de glamour, irônico, divertido, sarcástico, tudo isso ao juntar atores em personagens feitos para eles – ou assim parece. Todos estão perfeitos, até a primeira dama escorregando na rigidez da interpretação está perfeita – afinal, ninguém esquece que ela está ali brincando de vender os atributos de uma cidade que – pasmem! – prescinde dela para existir em toda sua majestade. De todo modo, Carla Bruni é mais um plus que o mago Allen trouxe para o universo mágico do filme.

O roteiro, propriamente dito, é magistral, pela singeleza e pela perspicácia. Ele mexe e brinca com vários mitemas que configuram a cidade, segundo o imaginário de seus admiradores, lendo-os através dos olhos de seus “rivais culturais” estadunidenses, de onde as tiradas irônicas, o sarcasmo, as piadas meio cruéis. Não falta o rico reacionário de direita, versus o artista movido pela imaginação, alimentada em altíssima voltagem por todos os apelos da cidade, representados pelo pai da noiva (interpretada por Rachel McAdams), e pelo protagonista, Gui, vivido com perfeição por Owen Wilson – aliás, ele é a cara de um certo modo de ser norte-americano, meio apatetado, meio perdido, que caiu como uma luva para o personagem, é o mais convincente artista-escritor às voltas com o bloqueio criativo, absolutamente encantador.

Mas todos estão ótimos: Rachel McAdams como uma noiva seduzida pelo “pedante” marido da amiga, conferencista em Sorbonne; Kathy Bates, impagável como Gertrude Stein; e todos os artistas que perambulam pelas eras por onde o filme passeia, marcados por seus temperamentos e pelos traços do legado artístico que deixaram: Hemingway, Picasso, Scott e Zelda Fitzgerald, Braque, Matisse, Miró, isso tudo até eles voltarem no tempo mais um pouco e chegarem onde queria a amante de Picasso, Adriana, vivida por Marion Cotillard, cuja era de eleição foi a Belle Époque.

Por obra e graça da magia do filme, estamos agora num salão dessa época, onde os dois personagens veem solitário em sua mesa ninguém menos que Toulouse-Lautrec. Aproximam-se para cumprimentá-lo e surge Gauguin, já seduzindo a bela Adriana, para tristeza de Gui, que parte dali deixando sua musa no tempo que ela escolheu como ideal para viver e ser mais feliz.

Dentre todos os jogos de humor e inteligência que o filme oferece, esse se qualifica entre os melhores: não há quem já não tenha pensado em algum momento, mesmo que de relance, que outro seria o tempo melhor para se viver – há (e haverá sempre, para alguns) um momento histórico em que a vida haveria de fluir mais fácil, mais bela, mais assim ou assado – sempre melhor, lá.

Quando, quase no final, Gauguin (se não me engano) advoga que os bons tempos teriam ficado na Renascença a gente ri. Mas pensa também como é difícil ser o que se é, no tempo que se tem – para viver, inclusive.

Como se tudo isso não bastasse, a trilha sonora é maravilhosa, o tema que embala as "viagens" de Gui é muito perfeito, a gente 'toca' a música e a imaginação ao mesmo tempo. Grande filme, delícia de ver e rever.

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Uma resenha impecável, inclusive pela errata*, feita pelo comentarista do New York Times:
http://www.nytimes.com/2011/05/28/movies/midnight-in-paris-a-historical-view.html

* Eu também tinha ‘errado’ o filme do Buñuel, achava o mesmo que ele.
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