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Já agora será necessário reler as instruções iniciais oferecidas pela autora em todos os livros, nesse último inclusive, sob o título Gotham Handbook – New York, mode d’emploi, e que é assinado por Sophie Calle e Paul Auster. Então o que era desconfiança no início, o que supúnhamos ser uma brincadeira com as esferas do real e do ficcional adquire agora cores, digamos, mais realistas. Ao mesmo tempo, dificilmente poderíamos acreditar que tais histórias – quase todas as que compõem o conjunto todo - possam ter tido algum caráter de veracidade. No entanto, o escritor que conhecemos sob o nome de Paul Auster, autor, dentre outros, do romance Leviatã, citado, parafraseado e de algum modo copiado nesses livros de Sophie Calle, faz com ela uma dobradinha e subscreve a última obra do conjunto, o que em si já causa enorme estranhamento.
E qual seria a participação dele no projeto? Exatas cinco páginas de conselhos oferecidos a Sophie – que os pede – sobre como tornar melhor a cidade em que ela mora (Nova Iorque). O livro, então, é um compte rendu dessas prescrições que ele propõe a ela, em número de quatro: a) sorrir para as pessoas, as que passam nas ruas inclusive, e sobretudo; b) conversar com desconhecidos, não importa sobre o quê, ou com quem, porque “ce qui compte, c’est de donner quelque chose de toi et de veiller à ce qu’une forme quelconque de contact véritable soit réalisée.” (p. 12); c) não ignorar os infelizes, os sem teto, sair de casa sempre com dois ou três sanduíches para dar aos que têm fome; d) adotar um lugar público e cuidar dele como se fosse sua própria casa: “Choisis un endroit dans la ville et mets-toi à y penser comme s’il t’appartenait. Peu importe où, et peu importe quoi. Un coin de rue, une entrée de métro, un arbre dans le parc. Assume cet endroit comme si tu en étais responsable. Nettoie-le. Embellis-le.” (p. 15).
Bom, essas são as regras do jogo, e o modo como a autora-narradora-protagonista vai desenvolvê-las constitui o interesse do projeto, que se realiza como uma espécie de relatório, documentado por fotos, muitas fotos, de cada etapa e de cada dia em que ela se submeteu às indicações de Auster.
O que me pareceu mais interessante, nesse sentido, foi a adoção do lugar público. Ela escolheu uma cabine de telefone no cruzamento das ruas Greenwich e Harrison (não, não fui verificar se elas existem, mas estou quase certa de que sim), e dela se apossou no dia 20 de setembro de 1994. Ela a limpa, pinta, adorna, coloca duas cadeiras para os clientes, enfeita com flores, e vai a cada dia melhorando o lugar, que vira uma espécie de atração no bairro.
Além disso, mantém no local um livro de visitas, onde os usuários da cabine deixam suas impressões, escrevem bilhetes, alguns hilários, outros solidários, ou ameaçadores, enfim, o projeto realiza-se inteiramente, no sentido de tocar o desconhecido em todos os aspectos, e de entrar em contato com ele do modo mais instigante e obsessivo possível.
Acho que o último livro fecha com brilhantismo esse conjunto de experiências lítero-fotográficas, que flerta abertamente com o aleatório, o imponderável, e faz jus ao que de Maria se diz no Leviatã, livro com que mantém infindos e estreitíssimos laços:
Seu tema era o olhar, o drama de observar e ser observado, e suas peças exibiam as mesmas qualidades que se encontravam na própria Maria: atenção meticulosa aos detalhes, crença nas estruturas arbitrárias, paciência beirando o intolerável. (Leviatã, p. 69).
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Sophie Calle. Gotham Handbook – New York, mode d’emploi. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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segunda-feira, 13 de junho de 2011
domingo, 12 de junho de 2011
Sophie Calle VI
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"Le carnet d’adresses" compõe o sexto pequeno volume desse septiforme e heterodoxo projeto, e segue esse mote do Leviatã: “Muito antes de nenhum de nós conhecê-la, saiu certa manhã para comprar filme para a máquina, viu uma cadernetinha negra de endereços caída no chão e a apanhou. Foi o fato que deu início a toda a infeliz história. Maria abriu a caderneta e de lá saiu voando o demônio, de lá saiu um flagelo de violência, mutilação e morte.”
(p. 72).
De modo que o minúsculo livrinho (tem cinco páginas de textos, nove explicativas que as antecedem e três de fotos) tem por objetivo vir a conhecer o dono da caderneta, achada ao acaso, que a protagonista fotocopia e devolve anonimamente ao dono. Na verdade, ela pretende formar um perfil do proprietário através dos depoimentos dos desconhecidos cujos nomes e indicações aparecem nela: “Tentarei descobri-lo sem jamais o encontrar e fazer dele um retrato com duração aleatória, pois ele dependerá da boa vontade de seus próximos para evocá-lo e da forma que tomarão os acontecimentos.” (‘Le carnet d’adresse’, p.9).
É interessante notar que o menor livrinho do conjunto, o mais curto de enredo e peripécia apresenta pelo menos três páginas que se lêem como ótima literatura, quando os amigos do desconhecido falam dele, descrevem suas qualidades - temos então um perfil de personagem exemplar, um homem muito interessante criado pelos discursos de seus parceiros, e por quem a personagem-narradora morre de amores, sentimento compartilhado igualmente por seus leitores: “J‘avais de la chance, non seulemente cet homme me plaisait mais je n’avais plus peur de le rencontrer prématurement, ce qui aurait mis fin à mon enquête: j’avais rapidement appris qu’il était parti, pour deux mois, au fin fond de la Norvège.” (‘Le carnet d’adresse’, p.18).

Mesmo sem tê-lo conhecido (nem ela, aliás) já senti saudades dele, e concordo igualmente que alguém que se vai aos confins da Noruega tem de ser de algum modo interessante.
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Sophie Calle. Le carnet d'adresses. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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"Le carnet d’adresses" compõe o sexto pequeno volume desse septiforme e heterodoxo projeto, e segue esse mote do Leviatã: “Muito antes de nenhum de nós conhecê-la, saiu certa manhã para comprar filme para a máquina, viu uma cadernetinha negra de endereços caída no chão e a apanhou. Foi o fato que deu início a toda a infeliz história. Maria abriu a caderneta e de lá saiu voando o demônio, de lá saiu um flagelo de violência, mutilação e morte.”
(p. 72).
De modo que o minúsculo livrinho (tem cinco páginas de textos, nove explicativas que as antecedem e três de fotos) tem por objetivo vir a conhecer o dono da caderneta, achada ao acaso, que a protagonista fotocopia e devolve anonimamente ao dono. Na verdade, ela pretende formar um perfil do proprietário através dos depoimentos dos desconhecidos cujos nomes e indicações aparecem nela: “Tentarei descobri-lo sem jamais o encontrar e fazer dele um retrato com duração aleatória, pois ele dependerá da boa vontade de seus próximos para evocá-lo e da forma que tomarão os acontecimentos.” (‘Le carnet d’adresse’, p.9).
É interessante notar que o menor livrinho do conjunto, o mais curto de enredo e peripécia apresenta pelo menos três páginas que se lêem como ótima literatura, quando os amigos do desconhecido falam dele, descrevem suas qualidades - temos então um perfil de personagem exemplar, um homem muito interessante criado pelos discursos de seus parceiros, e por quem a personagem-narradora morre de amores, sentimento compartilhado igualmente por seus leitores: “J‘avais de la chance, non seulemente cet homme me plaisait mais je n’avais plus peur de le rencontrer prématurement, ce qui aurait mis fin à mon enquête: j’avais rapidement appris qu’il était parti, pour deux mois, au fin fond de la Norvège.” (‘Le carnet d’adresse’, p.18).
Mesmo sem tê-lo conhecido (nem ela, aliás) já senti saudades dele, e concordo igualmente que alguém que se vai aos confins da Noruega tem de ser de algum modo interessante.
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Sophie Calle. Le carnet d'adresses. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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sexta-feira, 3 de junho de 2011
Sophie Calle – V
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No livro V, sob o título L’hôtel, a protagonista segue Maria ao arranjar “um emprego temporário de camareira num grande hotel no centro da cidade. Tinha o objetivo de recolher informações sobre os hóspedes, sem se intrometer ou expor.” (Leviatã, p. 70).
A experiência tem lugar por três semanas num hotel de Veneza, e é um dos livros mais exaustivamente documentados, com fotos dos quartos que ela ins-peciona e arruma, flagrados em dias diferentes, com clientes diferentes.
Na verdade, é uma das mais radicais experiências de obsessão e busca pelo: a) detalhe; b) cotidiano de qualquer um de nós; c) minúcias das vidas privadas; d) resposta reversa ao “cuide de você” do ex amado, ao cuidar de vigiar, explorar e invadir, impunemente, a intimidade dos hóspedes.
Trata-se de um texto basicamente documental, ou seja, ela explora as cenas que vê a sua frente, mexe em tudo, futuca bolsas e malas, não se intimida e fotografa até mesmo objetos íntimos de hóspedes descuidadas (é mais que descuido, mas enfim), ouve as conversas que interessam, além de nos fazer cúmplices de sua curiosidade mórbida, quando imergimos nas fantasias a respeito dessas vidas, de que só nos é dado conhecer os pedaços.
Pedaços de vidas, pedaços de cenas, pedaços de histórias, com um surplus de curiosidade: terão sido criados esses cenários, ou eles efetivamente existiram do modo como ela os fotografa? O que é real e o que foi criado para ter existência apenas no livro é uma das várias interrogações que movem o interesse pelo projeto, e por esse livro em particular.
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Sophie Calle. L'hôtel. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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No livro V, sob o título L’hôtel, a protagonista segue Maria ao arranjar “um emprego temporário de camareira num grande hotel no centro da cidade. Tinha o objetivo de recolher informações sobre os hóspedes, sem se intrometer ou expor.” (Leviatã, p. 70).
A experiência tem lugar por três semanas num hotel de Veneza, e é um dos livros mais exaustivamente documentados, com fotos dos quartos que ela ins-peciona e arruma, flagrados em dias diferentes, com clientes diferentes.
Na verdade, é uma das mais radicais experiências de obsessão e busca pelo: a) detalhe; b) cotidiano de qualquer um de nós; c) minúcias das vidas privadas; d) resposta reversa ao “cuide de você” do ex amado, ao cuidar de vigiar, explorar e invadir, impunemente, a intimidade dos hóspedes.
Trata-se de um texto basicamente documental, ou seja, ela explora as cenas que vê a sua frente, mexe em tudo, futuca bolsas e malas, não se intimida e fotografa até mesmo objetos íntimos de hóspedes descuidadas (é mais que descuido, mas enfim), ouve as conversas que interessam, além de nos fazer cúmplices de sua curiosidade mórbida, quando imergimos nas fantasias a respeito dessas vidas, de que só nos é dado conhecer os pedaços.
Pedaços de vidas, pedaços de cenas, pedaços de histórias, com um surplus de curiosidade: terão sido criados esses cenários, ou eles efetivamente existiram do modo como ela os fotografa? O que é real e o que foi criado para ter existência apenas no livro é uma das várias interrogações que movem o interesse pelo projeto, e por esse livro em particular.
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Sophie Calle. L'hôtel. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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segunda-feira, 30 de maio de 2011
Sophie Calle - IV
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A suivre... é já um título sugestivo – seguir alguém e/ou ser seguida é basicamente o que se faz ao longo das 149 páginas desse volume. Aqui, o enfado parece ser o motor das ações da protagonista, que segue Maria, no Leviatã: “Os primeiros meses foram solitários e desnorteantes. Não tinha amigos, não tinha uma vida de que se pudesse falar, e a cidade parecia ameaçadora e estranha, como se nunca tivesse estado lá. Sem motivo consciente, passou a seguir estranhos pelas ruas, escolhendo alguém aleatoriamente, ao sair de casa de manhã, e permitindo que essa escolha decidisse seu rumo pelo resto do dia.” (Leviatã, p. 69).
Composto de três partes – ‘Préambule’, ‘Suite vénitienne’, ‘La filature’ -, a primeira constitui uma espécie de diário, escrito à mão e nem sempre legível, que dá algum trabalho de ler, razão por que passei meio batida por ela, mas para quem se interessar, uma mínima porção:
A ‘Suite vénetienne’ segue os passos de Maria, com a diferença de que a personagem de Calle segue o homem até Veneza: “Algum tempo depois, um homem tentou seduzi-la na rua. Achando-o por demais desinteressante, rejeitou-o. Na mesma noite, por pura coincidência, encontrou-o na inauguração de uma galeria no SoHo. Conversaram de novo e então descobriu que o homem partiria na manhã seguinte para Nova Orleans com a namorada. Maria decidiu ir também e segui-lo com a máquina fotográfica durante sua estada.” (Leviatã, p. 70).
Esse é um dos mais obsessivos percursos empreendidos pela personagem, que vasculha Veneza em busca de um desconhecido, já que não tem a menor idéia de onde ele vai hospedar-se. Uma das grandes utilidades dessa busca louca é que o livro acaba se tornando uma excelente fonte para a prática do idioma francês, já que tudo é minuciosamente descrito e mostrado em fotos, além de nos fazer conhecer inúmeros hotéis venezianos, já que ela enumera grande quantidade deles:

A história vira um pouco detetivesca, há um enredo nessa busca insensata e frenética, e o leitor segue não apenas curioso por seu desfecho, mas também para saber até onde vai a obsessão dessa moça: será que ela vai encontrar o homem que persegue por treze dias? E o que fará, quando (e se) o encontrar?
****
Em ‘La filature’ (algo como ‘A vigilância’), ela cria o artifício de contratar um detetive particular para que a siga e fotografe cada um de seus (dela) passos, e o mais interessante da história é comparar a versão dela, a vigiada, com a dele, o detetive. Há visões diferentes para o mesmo fato, até mesmo horários distintos para a mesma cena, quando o cansaço do homem faz minguar seu tempo de campana em algumas horas. Ainda aqui, o interesse maior reside na curiosidade do leitor face ao vaivém da protagonista e, em certa medida, na cumplicidade voyeurística que se estabelece entre ele e as aventuras que ela se propõe, de modo sistematicamente aleatório.
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Sophie Calle. A suivre.... In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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A suivre... é já um título sugestivo – seguir alguém e/ou ser seguida é basicamente o que se faz ao longo das 149 páginas desse volume. Aqui, o enfado parece ser o motor das ações da protagonista, que segue Maria, no Leviatã: “Os primeiros meses foram solitários e desnorteantes. Não tinha amigos, não tinha uma vida de que se pudesse falar, e a cidade parecia ameaçadora e estranha, como se nunca tivesse estado lá. Sem motivo consciente, passou a seguir estranhos pelas ruas, escolhendo alguém aleatoriamente, ao sair de casa de manhã, e permitindo que essa escolha decidisse seu rumo pelo resto do dia.” (Leviatã, p. 69).
Composto de três partes – ‘Préambule’, ‘Suite vénitienne’, ‘La filature’ -, a primeira constitui uma espécie de diário, escrito à mão e nem sempre legível, que dá algum trabalho de ler, razão por que passei meio batida por ela, mas para quem se interessar, uma mínima porção:
A ‘Suite vénetienne’ segue os passos de Maria, com a diferença de que a personagem de Calle segue o homem até Veneza: “Algum tempo depois, um homem tentou seduzi-la na rua. Achando-o por demais desinteressante, rejeitou-o. Na mesma noite, por pura coincidência, encontrou-o na inauguração de uma galeria no SoHo. Conversaram de novo e então descobriu que o homem partiria na manhã seguinte para Nova Orleans com a namorada. Maria decidiu ir também e segui-lo com a máquina fotográfica durante sua estada.” (Leviatã, p. 70).
Esse é um dos mais obsessivos percursos empreendidos pela personagem, que vasculha Veneza em busca de um desconhecido, já que não tem a menor idéia de onde ele vai hospedar-se. Uma das grandes utilidades dessa busca louca é que o livro acaba se tornando uma excelente fonte para a prática do idioma francês, já que tudo é minuciosamente descrito e mostrado em fotos, além de nos fazer conhecer inúmeros hotéis venezianos, já que ela enumera grande quantidade deles:
A história vira um pouco detetivesca, há um enredo nessa busca insensata e frenética, e o leitor segue não apenas curioso por seu desfecho, mas também para saber até onde vai a obsessão dessa moça: será que ela vai encontrar o homem que persegue por treze dias? E o que fará, quando (e se) o encontrar?
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Em ‘La filature’ (algo como ‘A vigilância’), ela cria o artifício de contratar um detetive particular para que a siga e fotografe cada um de seus (dela) passos, e o mais interessante da história é comparar a versão dela, a vigiada, com a dele, o detetive. Há visões diferentes para o mesmo fato, até mesmo horários distintos para a mesma cena, quando o cansaço do homem faz minguar seu tempo de campana em algumas horas. Ainda aqui, o interesse maior reside na curiosidade do leitor face ao vaivém da protagonista e, em certa medida, na cumplicidade voyeurística que se estabelece entre ele e as aventuras que ela se propõe, de modo sistematicamente aleatório.
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Sophie Calle. A suivre.... In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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sábado, 28 de maio de 2011
Sophie Calle - III
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O título do terceiro livro – Les panoplies (As panóplias) - faz referência aos possíveis troféus, à exposição de coisas e do corpo presente nos dois conjuntos de, faute de mieux, “objetos performáticos”.
Serão, talvez, objetos menos perfomáticos do que idiossincráticos a documentação em sequência das roupas que ela envia anonimamente a um desconhecido, fotografando as ocasiões em que ele as usa, e desejando que um dia ele venha a vestir-se totalmente com as indumentárias que lhes envia, bem como as roupas e adereços que utiliza numa sequência de striptease, objeto da segunda parte do pequeno volume.
Com relação ao striptease, ele aparece em outro livro da autora, pelo menos em mais um que não faz parte dessa coleção: trata-se de um conjunto de pequenas estórias, acompanhadas de fotos também, sob o título Histórias reais, publicado aqui pela Agir em 2009, no âmbito do Ano da França no Brasil, e originalmente publicado na França em 2002 pela Actes Sud.
O excerto em questão tem por título “O striptease” e nele Calle aparece em uma foto com os seios desnudos e o mesmo texto, agora traduzido, que antecede essa parte de Les panoplies. Também a capa daquele livro – Histórias reais -, apresenta uma foto dos seios da autora, que será republicada com um pequeno texto cujo título é “Os seios milagrosos”, em que ela diz que na adolescência era uma tábua, mas depois os seios cresceram inexplicavelmente etc, etc.
A outra parte do livro, então, são fotos de um minucioso e emblemático striptease, performance que ela toma emprestada a Maria, claro, do romance de Auster, só que nele Maria dança sensualmente numa boate, substituindo uma moça que havia faltado naquela noite, por acaso: “Usando uma tanga de pedrarias e saltos altos de cinco centímetros, sacudia o corpo ao som do rock and roll em último volume e correspondia ao olhar dos homens. Balançava a bunda para eles, passava a língua pelos lábios e piscava sedutoramente quando lhes davam notas de um dólar para incentivá-la.” (Leviatã, p. 71).
Aqui, a personagem radicaliza seu projeto ao expor-se até as últimas consequências, muito além do "peito aberto" com que já havia oferecido o corpo em outros momentos e textos. Agora ela vai até a nudez completa e frontal, por 19 fotogramas, retirando peça por peça, sem resquício de pundonor, o que fez essa leitora aqui, ainda sem entender direito, abrir e fechar a boca, em total estranhamento. Eu confesso que não sei ainda o que dizer da obra, seu estado de arte, mas em consonância com esse gesto extremo da autora, nada me impediria de ir até o fim dessa saga. Alguma coisa teria de ficar mais clara, fechar num sentido ou em outro - artes plásticas? literatura? crônica de costumes? pornografia? maluquice? Tudo isso talvez se possa dizer do projeto de Sophie Calle, além de instigante e desafiador, certamente.
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Sophie Calle. Les panoplies. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
____. Histórias reais (2002). Trad. Hortencia Santos Lancastre. Rio de Janeiro:Agir, 2009. Ano da França no Brasil.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d
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O título do terceiro livro – Les panoplies (As panóplias) - faz referência aos possíveis troféus, à exposição de coisas e do corpo presente nos dois conjuntos de, faute de mieux, “objetos performáticos”.
Serão, talvez, objetos menos perfomáticos do que idiossincráticos a documentação em sequência das roupas que ela envia anonimamente a um desconhecido, fotografando as ocasiões em que ele as usa, e desejando que um dia ele venha a vestir-se totalmente com as indumentárias que lhes envia, bem como as roupas e adereços que utiliza numa sequência de striptease, objeto da segunda parte do pequeno volume.
Com relação ao striptease, ele aparece em outro livro da autora, pelo menos em mais um que não faz parte dessa coleção: trata-se de um conjunto de pequenas estórias, acompanhadas de fotos também, sob o título Histórias reais, publicado aqui pela Agir em 2009, no âmbito do Ano da França no Brasil, e originalmente publicado na França em 2002 pela Actes Sud.
O excerto em questão tem por título “O striptease” e nele Calle aparece em uma foto com os seios desnudos e o mesmo texto, agora traduzido, que antecede essa parte de Les panoplies. Também a capa daquele livro – Histórias reais -, apresenta uma foto dos seios da autora, que será republicada com um pequeno texto cujo título é “Os seios milagrosos”, em que ela diz que na adolescência era uma tábua, mas depois os seios cresceram inexplicavelmente etc, etc.
A outra parte do livro, então, são fotos de um minucioso e emblemático striptease, performance que ela toma emprestada a Maria, claro, do romance de Auster, só que nele Maria dança sensualmente numa boate, substituindo uma moça que havia faltado naquela noite, por acaso: “Usando uma tanga de pedrarias e saltos altos de cinco centímetros, sacudia o corpo ao som do rock and roll em último volume e correspondia ao olhar dos homens. Balançava a bunda para eles, passava a língua pelos lábios e piscava sedutoramente quando lhes davam notas de um dólar para incentivá-la.” (Leviatã, p. 71).
Aqui, a personagem radicaliza seu projeto ao expor-se até as últimas consequências, muito além do "peito aberto" com que já havia oferecido o corpo em outros momentos e textos. Agora ela vai até a nudez completa e frontal, por 19 fotogramas, retirando peça por peça, sem resquício de pundonor, o que fez essa leitora aqui, ainda sem entender direito, abrir e fechar a boca, em total estranhamento. Eu confesso que não sei ainda o que dizer da obra, seu estado de arte, mas em consonância com esse gesto extremo da autora, nada me impediria de ir até o fim dessa saga. Alguma coisa teria de ficar mais clara, fechar num sentido ou em outro - artes plásticas? literatura? crônica de costumes? pornografia? maluquice? Tudo isso talvez se possa dizer do projeto de Sophie Calle, além de instigante e desafiador, certamente.
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Sophie Calle. Les panoplies. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
____. Histórias reais (2002). Trad. Hortencia Santos Lancastre. Rio de Janeiro:Agir, 2009. Ano da França no Brasil.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d
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quarta-feira, 25 de maio de 2011
Sophie Calle - II
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No livro I, sob o título De l’obéissance (Da obediência), são reproduzidas as passagens do Leviatã que apresentam as idiossincrasias da personagem Maria, conforme se lê nesses trechos, espero, inteligíveis.

Há também um agradecimento da autora a Paul Auster, e o mesmo agradecimento dele a Sophie Calle encima a folha de rosto do Leviatã, que ela copia aqui:
No Leviatã:
O autor agradece especialmente a Sophie Calle por permitir a fusão de fatos reais com a ficção

Estamos então no terreno das trocas de gentilezas entre os autores que, nesse gesto, reafirmam publicamente os laços entre ambos e subscrevem uma das facetas documentais do trabalho. Outra forte entrada no real onde firmemente ancora-se o trabalho de Calle serão os registros fotográficos, indispensáveis tanto à compreensão quanto à fruição do conjunto dos livros. Sem esse registro não há Doubles-jeux, razão por que o ex namorado, cujo email enviado a Calle terminando a relação, com sua frase final – “cuide de você” –, ensejou a monumental exposição do MAM, tem certa autoridade para afirmar em entrevista concedida à Folha durante sua passagem pela Flip 2009 (junto com a ex-namorada):
Folha Online - O senhor acredita que Calle e o senhor exponham suas vidas privadas de maneiras distintas?
Bouillier - Acredito que a diferença essencial seja que Sophie Calle é uma artista plástica e eu sou um escritor. Isso quer dizer que nosso olhar sobre o mundo não é o mesmo, não buscamos os mesmos efeitos e não dispomos dos mesmos meios. Não manipulamos o íntimo da mesma maneira. Por exemplo, para mim é inconcebível pedir aos outros que exprimam em meu lugar aquilo que eu sinto, como vejo as coisas etc. Isso é algo que vai totalmente de encontro aos objetivos da literatura, da verdade da escrita. Mas é que a verdade de Sophie está no exterior. Tudo o que eu digo é que a verdade dela não é aquela de um "homem de letras"...
( http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u585012.shtml )
****
De todo modo, o livro I é uma espécie de Prólogo ao conjunto todo, e também uma prévia dos jogos que virão. Primeiro, por expor claramente as regras do sistema de apropriação que se fará do romance de Auster; segundo, pela foto ambígua na capa e no miolo do livro, em que a narradora-personagem-autora aparece numa fotografia cheia de sugestões emblemáticas: espécie de Alice num mundo encantado de cores, animais, borboletas e inocência, a jovem loura sorri marotamente para a câmera, meio piscando para o leitor em cumplicidade, e já na página seguinte muda de jogo e aparece acompanhada do pai no meio de um cemitério, cuidando da catacumba dela e dele.
Acompanhamos a personagem vivendo sob os regimes das cores, num momento, e das letras do alfabeto em outros. Impressão dessa leitora ao cabo do primeiro volume: mas que coisa será que essa senhora nos propõe, afinal?
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Sophie Calle. De l'obéissance. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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No livro I, sob o título De l’obéissance (Da obediência), são reproduzidas as passagens do Leviatã que apresentam as idiossincrasias da personagem Maria, conforme se lê nesses trechos, espero, inteligíveis.
Há também um agradecimento da autora a Paul Auster, e o mesmo agradecimento dele a Sophie Calle encima a folha de rosto do Leviatã, que ela copia aqui:
L’auteur remercie tout spécialement Paul Auster de l’avoir autorisée à mêler la fiction à la réalité
(A autora agradece muito especialmente a Paul Auster por tê-la autorizado a misturar a ficção à realidade)No Leviatã:
O autor agradece especialmente a Sophie Calle por permitir a fusão de fatos reais com a ficção
Estamos então no terreno das trocas de gentilezas entre os autores que, nesse gesto, reafirmam publicamente os laços entre ambos e subscrevem uma das facetas documentais do trabalho. Outra forte entrada no real onde firmemente ancora-se o trabalho de Calle serão os registros fotográficos, indispensáveis tanto à compreensão quanto à fruição do conjunto dos livros. Sem esse registro não há Doubles-jeux, razão por que o ex namorado, cujo email enviado a Calle terminando a relação, com sua frase final – “cuide de você” –, ensejou a monumental exposição do MAM, tem certa autoridade para afirmar em entrevista concedida à Folha durante sua passagem pela Flip 2009 (junto com a ex-namorada):
Folha Online - O senhor acredita que Calle e o senhor exponham suas vidas privadas de maneiras distintas?
Bouillier - Acredito que a diferença essencial seja que Sophie Calle é uma artista plástica e eu sou um escritor. Isso quer dizer que nosso olhar sobre o mundo não é o mesmo, não buscamos os mesmos efeitos e não dispomos dos mesmos meios. Não manipulamos o íntimo da mesma maneira. Por exemplo, para mim é inconcebível pedir aos outros que exprimam em meu lugar aquilo que eu sinto, como vejo as coisas etc. Isso é algo que vai totalmente de encontro aos objetivos da literatura, da verdade da escrita. Mas é que a verdade de Sophie está no exterior. Tudo o que eu digo é que a verdade dela não é aquela de um "homem de letras"...
( http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u585012.shtml )
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De todo modo, o livro I é uma espécie de Prólogo ao conjunto todo, e também uma prévia dos jogos que virão. Primeiro, por expor claramente as regras do sistema de apropriação que se fará do romance de Auster; segundo, pela foto ambígua na capa e no miolo do livro, em que a narradora-personagem-autora aparece numa fotografia cheia de sugestões emblemáticas: espécie de Alice num mundo encantado de cores, animais, borboletas e inocência, a jovem loura sorri marotamente para a câmera, meio piscando para o leitor em cumplicidade, e já na página seguinte muda de jogo e aparece acompanhada do pai no meio de um cemitério, cuidando da catacumba dela e dele.
Acompanhamos a personagem vivendo sob os regimes das cores, num momento, e das letras do alfabeto em outros. Impressão dessa leitora ao cabo do primeiro volume: mas que coisa será que essa senhora nos propõe, afinal?
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Sophie Calle. De l'obéissance. In Doubles-jeux. Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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domingo, 22 de maio de 2011
Sophie Calle aos pedaços - I
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Conheci Sophie Calle na grande exposição feita no MAM no ano passado, a respeito da carta escrita pelo amante que a abandonou, e que comento aqui.
Na mesma época, encontrei alguns livrinhos dela na livraria do CCBB, em francês e a preços quase exorbitantes. Quando enfim fui a Paris, em novembro do ano passado, encontrei essa pequena caixa com uma bela coleção de sete de seus livrinhos, sob o título geral de Doubles-jeux, coloridíssimos, com projeto gráfico elaborado, de modo a seduzir qualquer um que goste não apenas de ler, mas de livros. Comprei, claro. Mas, como se sabe, voltei de lá também com uma forte tendinite que me dificulta escrever até hoje, vários meses depois. De todo modo, a coleção está lida, e o livro com a qual todos os sete dialogam – Leviatã, de Paul Auster – também foi lido, dever de casa cumprido, vamos ver se consigo dizer minimamente de que se compõe esse projeto.
Será necessário observar, primeiro, que não ter lido Leviatã antes de me aproximar desses textos de Calle tem importância para a compreensão do projeto, porque em todos os livros a primeira página abre-se com uma pequena observação, sob o título ‘La règle du jeu’ ('A regra do jogo'), em que se diz basicamente o seguinte:
No livro Leviatã, publicado pelas edições Actes Sud, o autor, Paul Auster, me agradece por tê-lo autorizado a misturar a realidade à ficção. Ele, de fato, utilizou certos episódios de minha vida para criar, entre as páginas 84 e 93 de sua narrativa, um personagem de ficção cujo primeiro nome é Maria, que em seguida me deixa para viver sua própria história.
No primeiro livro ela copia – literalmente, copia – as páginas do livro de Auster que apresentam sua (dele) personagem Maria, sublinhando aqui e acolá onde houve modificações, e quais foram elas, mas seguindo, no geral, a pauta que ele sugere no romance. E a pauta indica que as idiossincrasias dos projetos de Maria, no romance de Auster, serão quase todas seguidas (na verdade, perseguidas) pela personagem-narradora de Calle ao longo de toda a obra (já aqui considero os sete livrinhos partes-em-processo do mesmo livro: Doubles-jeux). Essa a primeira isca que se lança sobre o leitor: será verdadeiro ou não esse jogo? Teria Auster permitido essa clonagem, ou estaria ela se apropriando de obra alheia, plagiando-a, interferindo no conteúdo de um romance para produzir sua própria história? Só no final esses mistérios seriam desvendados, depois de ler todos os livros e, afinal, conhecer o mundo ficcional de Leviatã.
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Sophie Calle. Doubles-jeux (De l'obéissance - I; Le rituel d'anniversaire - II; Les panoplies - III; A suivre... IV; L'hôtel - V; Le carnet d'adresses - VI; Gotham Handbook - New York, mode d'emploi - VII). Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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Conheci Sophie Calle na grande exposição feita no MAM no ano passado, a respeito da carta escrita pelo amante que a abandonou, e que comento aqui.
Na mesma época, encontrei alguns livrinhos dela na livraria do CCBB, em francês e a preços quase exorbitantes. Quando enfim fui a Paris, em novembro do ano passado, encontrei essa pequena caixa com uma bela coleção de sete de seus livrinhos, sob o título geral de Doubles-jeux, coloridíssimos, com projeto gráfico elaborado, de modo a seduzir qualquer um que goste não apenas de ler, mas de livros. Comprei, claro. Mas, como se sabe, voltei de lá também com uma forte tendinite que me dificulta escrever até hoje, vários meses depois. De todo modo, a coleção está lida, e o livro com a qual todos os sete dialogam – Leviatã, de Paul Auster – também foi lido, dever de casa cumprido, vamos ver se consigo dizer minimamente de que se compõe esse projeto.
Será necessário observar, primeiro, que não ter lido Leviatã antes de me aproximar desses textos de Calle tem importância para a compreensão do projeto, porque em todos os livros a primeira página abre-se com uma pequena observação, sob o título ‘La règle du jeu’ ('A regra do jogo'), em que se diz basicamente o seguinte:
No livro Leviatã, publicado pelas edições Actes Sud, o autor, Paul Auster, me agradece por tê-lo autorizado a misturar a realidade à ficção. Ele, de fato, utilizou certos episódios de minha vida para criar, entre as páginas 84 e 93 de sua narrativa, um personagem de ficção cujo primeiro nome é Maria, que em seguida me deixa para viver sua própria história.
No primeiro livro ela copia – literalmente, copia – as páginas do livro de Auster que apresentam sua (dele) personagem Maria, sublinhando aqui e acolá onde houve modificações, e quais foram elas, mas seguindo, no geral, a pauta que ele sugere no romance. E a pauta indica que as idiossincrasias dos projetos de Maria, no romance de Auster, serão quase todas seguidas (na verdade, perseguidas) pela personagem-narradora de Calle ao longo de toda a obra (já aqui considero os sete livrinhos partes-em-processo do mesmo livro: Doubles-jeux). Essa a primeira isca que se lança sobre o leitor: será verdadeiro ou não esse jogo? Teria Auster permitido essa clonagem, ou estaria ela se apropriando de obra alheia, plagiando-a, interferindo no conteúdo de um romance para produzir sua própria história? Só no final esses mistérios seriam desvendados, depois de ler todos os livros e, afinal, conhecer o mundo ficcional de Leviatã.
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Sophie Calle. Doubles-jeux (De l'obéissance - I; Le rituel d'anniversaire - II; Les panoplies - III; A suivre... IV; L'hôtel - V; Le carnet d'adresses - VI; Gotham Handbook - New York, mode d'emploi - VII). Paris: Actes Sud, 1ª ed., 1998.
Paul Auster. Leviatã (1992). Trad. Thelma Médice Nóbrega. São Paulo: Ed. Best Seller/Círculo do livro, s/d.
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sábado, 13 de fevereiro de 2010
artista transgressora
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Pela exposição Cuide de você, dá para perceber que a Sophie Calle não é uma artista banal, embora faça dos atos mais banais matéria de arte - nunca um e-mail havia recebido antes uma carga tão extensa de significados, atravessado que foi por tantas vozes, tantas intervenções e tão variados sentidos.
Mas eu não sabia tampouco, até ter almoçado ontem na brasserie Brasil com um grande amigo, que ela já é uma espécie de artista cult por aqui (ele está orientando uma tese sobre a obra dela), e que era a autora do livrinho que eu havia visto na livraria da outra vez - visto, manuseado, amado e recolocado na mesa.
Para minha surpresa, ele me mostrou outros inúmeros livros magníficos dela dispostos na prateleira quase ao rés do chão, que são ao mesmo tempo arte da palavra e da imagem. Não sabia que ela é ótima fotógrafa e escritora talentosíssima. Vi isso no livrinho que ganhei dele, Histórias reais, uma coletânea de pequenos casos contados e representados por fotografias, ambos interessantíssimos.
Como esse, por exemplo:
O striptease
Eu tinha seis anos e morava na rua Rosa-Bonheur, com meus avós. Todos os dias, quando voltava para casa, ia tirando a roupa no elevador e chegava nua ao sexto andar. Em seguida, atravessava depressa o corredor e, assim que entrava no apartamento, ia me deitar. Vinte anos depois, era numa barraca de um parque de diversões, em Pigalle, que eu me despia todas as noites, usando uma peruca loura, caso meus avós, que moravam no bairro, passassem por ali. (p. 17).
Essa pequena narrativa é precedida, na página da esquerda, pela foto da autora num gesto de baixar a calcinha usando uma cinta-liga preta e uma peruca loura, em pé em um estrado e observada por vários homens.
Claro que o leitor fica de boca aberta com a enorme interrogação: é verdade ou é ficção tudo que é dito? Ao olhar para a foto, verdade; ao ler a história, pode ser invenção.
E agora?
Para mim, a mais clara e legítima expressão do conceito derridiano de indecidibilidade, de que as Letras gostam tanto.
Com um plus: certa transgressão aos bons modos e à boa e mediana moral - touché Sophie!
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Pela exposição Cuide de você, dá para perceber que a Sophie Calle não é uma artista banal, embora faça dos atos mais banais matéria de arte - nunca um e-mail havia recebido antes uma carga tão extensa de significados, atravessado que foi por tantas vozes, tantas intervenções e tão variados sentidos.
Mas eu não sabia tampouco, até ter almoçado ontem na brasserie Brasil com um grande amigo, que ela já é uma espécie de artista cult por aqui (ele está orientando uma tese sobre a obra dela), e que era a autora do livrinho que eu havia visto na livraria da outra vez - visto, manuseado, amado e recolocado na mesa.
Para minha surpresa, ele me mostrou outros inúmeros livros magníficos dela dispostos na prateleira quase ao rés do chão, que são ao mesmo tempo arte da palavra e da imagem. Não sabia que ela é ótima fotógrafa e escritora talentosíssima. Vi isso no livrinho que ganhei dele, Histórias reais, uma coletânea de pequenos casos contados e representados por fotografias, ambos interessantíssimos.
Como esse, por exemplo:
O striptease
Eu tinha seis anos e morava na rua Rosa-Bonheur, com meus avós. Todos os dias, quando voltava para casa, ia tirando a roupa no elevador e chegava nua ao sexto andar. Em seguida, atravessava depressa o corredor e, assim que entrava no apartamento, ia me deitar. Vinte anos depois, era numa barraca de um parque de diversões, em Pigalle, que eu me despia todas as noites, usando uma peruca loura, caso meus avós, que moravam no bairro, passassem por ali. (p. 17).
Essa pequena narrativa é precedida, na página da esquerda, pela foto da autora num gesto de baixar a calcinha usando uma cinta-liga preta e uma peruca loura, em pé em um estrado e observada por vários homens.
Claro que o leitor fica de boca aberta com a enorme interrogação: é verdade ou é ficção tudo que é dito? Ao olhar para a foto, verdade; ao ler a história, pode ser invenção.
E agora?
Para mim, a mais clara e legítima expressão do conceito derridiano de indecidibilidade, de que as Letras gostam tanto.
Com um plus: certa transgressão aos bons modos e à boa e mediana moral - touché Sophie!
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Cuide de você
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A força da exposição de Sophie Calle no MAM - Cuide de você - vem sobretudo do contraste entre o universo privado e o público. Na verdade, trata-se de escancarar quase escandalosamente um objeto íntimo e particular - uma carta de adeus do namorado, cuja frase final é um "cuide de você", para extrair algum ganho (de beleza, de delicadeza, de sensibilidade, e de revanche também, claro) dessa encenação potencializada de um momento de dor.
Para cuidar-se, a artista vai pedir a centenas de mulheres que leiam essa carta, que a interpretem, que a vivenciem, e o grande apelo do trabalho é esse desnudar-se não apenas da destinatária da carta, mas de todas as outras mulheres cúmplices dessa mensagem (e, como rir é sumamente indicado nesses momentos, até um papagaio fêmea "lê" a carta).
Há mesmo um lado engraçado nessa maratona de leituras - algumas são bobinhas, outras são ou querem ser engraçadas, outras tocantes, e uma em especial me impressionou: uma mulher de cabelos ruivos canta trechos da carta com uma voz tão linda, mas tão linda que me emocionou demais - não pelo que ela diz, mas pela voz, e fiquei pensando até onde nos (e)leva uma bonita voz.
De todo modo, a carta é vista numa reprodução gigante, com todos os erros e impropriedades riscados com canetas marca-textos; há um vídeo com a artista, em que uma voz faz perguntas e faz observações sobre o conteúdo dela; há depoimentos de inúmeras outras mulheres, apresentadas por profissão, e alguns são mesmo engraçados, outros muito bons, outros estranhos, enfim, há de tudo - parece que Sophie quis esgotar as possibilidades de compreensão, por infinitas perspectivas, dessas palavras.
Acho que a exposição é imperdível, e embora tenha visto por lá alguns homens jovens, penso que ela é dirigida mais às mulheres que aos homens, pelas razões óbvias. Ou talvez: ela dá voz a cada uma de nós, porque não existe (eu acho) quem não tenha sido rejeitada pelo amor em algum momento da vida.
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A força da exposição de Sophie Calle no MAM - Cuide de você - vem sobretudo do contraste entre o universo privado e o público. Na verdade, trata-se de escancarar quase escandalosamente um objeto íntimo e particular - uma carta de adeus do namorado, cuja frase final é um "cuide de você", para extrair algum ganho (de beleza, de delicadeza, de sensibilidade, e de revanche também, claro) dessa encenação potencializada de um momento de dor.
Para cuidar-se, a artista vai pedir a centenas de mulheres que leiam essa carta, que a interpretem, que a vivenciem, e o grande apelo do trabalho é esse desnudar-se não apenas da destinatária da carta, mas de todas as outras mulheres cúmplices dessa mensagem (e, como rir é sumamente indicado nesses momentos, até um papagaio fêmea "lê" a carta).
Há mesmo um lado engraçado nessa maratona de leituras - algumas são bobinhas, outras são ou querem ser engraçadas, outras tocantes, e uma em especial me impressionou: uma mulher de cabelos ruivos canta trechos da carta com uma voz tão linda, mas tão linda que me emocionou demais - não pelo que ela diz, mas pela voz, e fiquei pensando até onde nos (e)leva uma bonita voz.
De todo modo, a carta é vista numa reprodução gigante, com todos os erros e impropriedades riscados com canetas marca-textos; há um vídeo com a artista, em que uma voz faz perguntas e faz observações sobre o conteúdo dela; há depoimentos de inúmeras outras mulheres, apresentadas por profissão, e alguns são mesmo engraçados, outros muito bons, outros estranhos, enfim, há de tudo - parece que Sophie quis esgotar as possibilidades de compreensão, por infinitas perspectivas, dessas palavras.
Acho que a exposição é imperdível, e embora tenha visto por lá alguns homens jovens, penso que ela é dirigida mais às mulheres que aos homens, pelas razões óbvias. Ou talvez: ela dá voz a cada uma de nós, porque não existe (eu acho) quem não tenha sido rejeitada pelo amor em algum momento da vida.
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