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sexta-feira, 18 de julho de 2008

sobre quase nada


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Pois então, as palavras têm história, não apenas as delas próprias ao longo de seu uso na língua, a 'bela diacronia', mas as de nossa relação com elas nessa mesma língua, no caso, para mim, brasileira.

Deu-se que um dia eu vinha de um desses congressos acadêmicos, esperava na saguão do aeroporto junto com um monte de outros professores oriundos do mesmo evento. Alguém diz então alguma coisa em que aparece o verbo "realizar" no sentido de "compreender", tipo "só realizei agora que o congresso terminou", e eu faço blague, observando "é engraçado, a gente acaba se apropriando da palavra e dá a ela o mesmo sentido de sua língua original", querendo dizer que o verbo "realize" em inglês significa "compreender", e nós então tomamos esse sentido na língua original, abrasileiramos e perdemos de vista o anglicismo da construção.

No entanto, há sempre um espírito de porco quando mais de quatro pessoas estão juntas (eu acho) e lá veio a senhora Y replicando com veemência que "nada disso, 'realizar' no sentido de 'compreender' já pertence ao português do Brasil há muito tempo, não há anglicismo algum etc, etc...". Não convencida, fiquei de perguntar a quem sabe mais sobre o assunto, tipo assim mandar email para o Bechara, mas até hoje não o fiz.

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terça-feira, 29 de abril de 2008

certas palavras

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Sei que o in totum aí embaixo pode parecer pretensioso, mas não resisti, tão lindinha essa expressão (será com n?). Ela pode até pertencer ao universo jurídico, mas a gente também tem o direito de se apropriar de certos sons, quando a paixão for inevitável.

terça-feira, 7 de agosto de 2007

A Vida da Palavra

A VIDA DA PALAVRA

Em que momento as letras, os sons e as palavras de uma língua adquirem os inimagináveis sentidos que nos fazem voar para além do chão, da casa, da razão, do país, do ser – desse nosso corpo restrito e precário, de cujos limites só nos libertamos através da arte, a acionar nossa capacidade imaginativa? Em que momento a palavra começa a despregar-se da pura forma gramatical para tornar-se aríete, coisa-em-si grafada em fogo e movimento, mais que representação da coisa? Quando a palavra é vida, enfim? A resposta, quanto a mim, só pode ser uma: na criação literária.

De todas as formas de representação artística, a arte da palavra literária – logo, a vida da palavra – incita as mais profundas transformações individuais, sociais. A literatura, por concentrar energia sob forma de palavras, potencializa forças que dizem respeito aos homens de todos os tempos, razão por que o leitor de hoje encontrará sempre respostas nas questões colocadas pelas grandes obras do passado. Assim, quanto mais atento à vida, mais aquele que lê pode reconhecer as vivências traduzidas nas várias linguagens em que se manifesta a literatura. Para estar no campo da literatura, há que explorar e estimular a observação, a experiência, a vivência, de modo a desenvolver o senso comparativista, já que tudo se relaciona a tudo – o filme, o teatro, a conversa no ônibus, o modo de estar à mesa, os jogos, os afetos, as canções, a moda – tudo faz parte das vidas humanas, desejosas de relação e de encontrar maneiras altas e dignas de reconhecer-se no mundo, e em seus objetos.

Quando se compreende a diversidade de vidas e de universos subjetivos inerentes às obras literárias, compreendem-se também os modos singulares com que cada artista, em épocas distintas, modulou os tons de seus discursos, imprimindo à linguagem ora a violência das vidas que encenou, como o fez Graciliano Ramos; ora as perplexidades e asperezas face à luta diuturna para extrair da palavra a coisa-em-si, como em Clarice Lispector; ora a dureza de um verbo-em-fúria que pergunta e perfura, como em Hilda Hilst; ora o controle pleno da palavra milimetricamente escavada, como em João Cabral; ou a espuma do tempo concentrado no verbo poético de Drummond; ou o húmus da terra, seus cheiros, como em Manuel de Barros; ou... são tantas variações quantas são as vontades de imprimir uma marca especial no mundo e na língua, construindo uma linguagem literária capaz de recriar objetos que desautomatizem a visão banalizada do tempo e do espaço, afigurando-se para o leitor como-se-vistos-pela-primeira-vez. Aqui, a palavra tem vida.

Quando uma obra realiza tal feito, aquele que a toca, que a lê, e a compreende, multiplica as percepções, aguça os sentidos, pole a sensibilidade, alarga os horizontes de sua vida cotidiana, afia a capacidade de discernir, amadurece, cresce. Ficamos todos mais ricos, ou seja – mais sábios. Ampliando as dimensões do presente, compreendemos melhor o passado e a nós mesmos e podemos, por conseguinte, propor-nos um destino: quanto mais farto o material para conhecer a vida, e para nela estar, mais próximos estamos de construir bons futuros, feitos por escolhas acuradas entre as possibilidades do agora. Aqui, igualmente, a palavra tem vida.

Para cada temperamento há uma obra, um estilo, uma força de escritura passível de responder as perguntas de um leitor ávido, movido pela curiosidade, pelo espírito generoso face ao desconhecido, pela aspiração ao belo, pois o que empobrece não é ler isso ou aquilo, mas a incapacidade de transmitir os vários graus de intensidade do que se sente, ou de abrir o grande leque dos afetos, que muitos só vêm a conseguir bem tarde, outros jamais chegam a fazê-lo.

Os textos são como redes, lançadas em direção aos desejos dos que com eles pactuam: sempre haverá alimentos adequados às diversas fomes, visto que os desejos, em sua amplitude, jamais silenciam, e a literatura há que se mover em torno deles – por afeições e compartilha- mentos. Eles – desejos e textos – visam também a estender e alargar o espírito de liberdade, a tolerância, a crítica, a luta por direitos, o senso do coletivo e da solidariedade – a plena cidadania. Aqui, por fim, a palavra é vida.
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