O fato é que escrever dá trabalho - seja por diletantismo, seja por obrigação, do momento em que você põe os dedos no teclado, ou a caneta na mão, face a uma folha em branco, o ato se torna já uma constrição. Mas há também essa coisa em aberto, pedindo para ser dita, não sei que nome dar - se fosse escritora, e do século passado, diria que seu nome pode ser inspiração. Não sou nem uma coisa, nem outra.
Mas há que dizer algo, se algo precisa ser dito. E comentei com uma amiga sobre a façanha de ter terminado de ler, entre poucos outros livros, Minhas lembranças de Leminski, de Domingos Pellegrini, e da sensação esquisita que tal leitura me deixou.
Acho que há excesso de sentimentos atravessando essas memórias - e a vontade de ser honesto com relação à lembrança do amigo, daí que as mazelas pessoais, os vícios, as idiossincrasias da pessoa, tudo aparece como se fosse não uma confidência, mas um segredo que só um amigo que o compartilhou pode revelar. E, na verdade, não me interessou muito saber a frequência, ou falta de, com que Leminski tomava banhos; nem que bebia escondido da mulher, ou que bebeu até morrer. Não me diz absolutamente nada sobre a obra dele que, na verdade, é o que me importa, e sempre será. Acho que o homem sempre estará a reboque, quando se trata do autor de uma obra importante - como a de Leminski me parece ser.
Tampouco gosto do estilo, essa prosa sem nuances, meio afirmativa, tipo: "Os médicos bem sabem que o alcoolismo é uma doença que se pega bebendo, que se cultiva bebendo e que só se abandona quase morrendo, quando o corpo e a família já sofreram tanto que o sujeito encara o sacrifício da abstinência" (p. 83); ou de um mal disfarçado desdém, face a algumas qualidades do amigo - como sua habilidade em "chutar" em várias línguas e fazer crer que falava todas: "Lançar frases noutro idioma, de repente, é recurso de Leminski que, intencionalmente ou não, firma-lhe a fama de poliglota." (p.102); ou quando o amigo-biógrafo incorpora trejeitos próprios do estilo do biografado, e sai neologismando.
Como nem tudo é defeito, penso que a mesma obsessão em 'tudo relatar', em ser fiel à lenda e à imagem do amigo traz informações novas sobre o autor, como o processo de escrever as autobiografias; a crítica feita à forma meio por alto com que Leminski retraçou a vida de Cruz e Souza, e acho bom o gesto honesto de disponibilizar num "Posts", ao final, a carta de Alice Ruiz, em que ela não deixa pedra sobre pedra sobre por que não apoiava o projeto desta biografia, com as ressalvas quanto a expor traços da vida que não ajudariam em nada a conhecer a obra. Sumariamente: "Caso não arrede pé do seu 'estilo' detrator do Paulo pessoa, fique à vontade para isso (publicar na internet). Não somos movidas a ameaças. A decisão é sua." (p 190). Há ainda vários outros depoimentos de apoios, vindos de leitores da primeira publicação do texto, via internet.
O que ficou de mais forte após a leitura foi a vontade de confrontá-la à biografia escrita por Toninho Vaz - O bandido que sabia latim, que fui achar apenas na estantevirtual, a preço de livro esgotado.
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Domingos Pellegrini. Minhas lembranças de Leminski. São Paulo:Geração Editorial, 2014.
