domingo, 30 de março de 2014

Ron Mueck


O que me impressionou muitíssimo no trabalho de Ron Mueck, em exposição do MAM-RJ foi, primeiro, o perfeccionismo com que seus personagens são construídos, de modo que se pode ver com clareza os poros, as nervuras das mãos, as rugas, os calos, o sentimento do olhar, a tristeza, a melancolia, as unhas - os detalhes das unhas, nossa!, a solidão.

Além disso, tem as situações do cotidiano em que eles estão imersos, e que nos aproximam de cada um, nos acumpliciam, nos tornam irmãos - o menino negro com um corte na barriga é um dos feridos diários em nossa guerra particular carioca; o casal de idosos na praia é nosso parente próximo, se não for nosso alter ego; a moça carregando o bebê, que a olha pedinte enquanto ela fita o longe, o pensamento em outro lugar, ou talvez nele
mesmo, retraça nossa diuturna aflição por cuidar da vida, nossa e/ou de alguém; o homem sozinho no enorme barco, nu e com uma expressão de completa perdição não poderia ser mais emblemático de nossa solidão universal, de nosso estado meio catatônico face ao que quer que seja - ele, sobretudo, me deixou muda de espanto diante da: fragilidade.


Fragilidade que se torna ainda mais pungente quando se percebe o modo como alguns personagens são 'alocados' na exposição: se eles ali representam cenas do cotidiano, cenas quase íntimas, de momentos muito pessoais, seja pela situação, seja pelas expressões dos olhos, da boca, das mãos - ao mesmo tempo são 'invadidos' por uma multidão curiosa, voraz, que se aproxima e avidamente fotografa, fotografa, cochicha, sorri, quer olhar mais perto, mais dentro - a impressão que dá é que o artista quis "expor" seus personagens a uma certa invasão de privacidade, como uma forma de expor também nossa própria ausência dela, ou fome de viver, talvez, a vida do outro.

O fato é que tudo ali emociona, nos toca, é valioso, belo e, de certo modo, cruel.

Ver o artista, no vídeo que integra a mostra, como um homem comum, fazendo seu trabalho, obsessivamente lapidando, esmerilhando, cavoucando a massa, comendo sanduíche e lustrando, polindo, perdendo-se em meio às tralhas, e achando-se, tudo constitui uma experiência que não se poderá esquecer.



sexta-feira, 21 de março de 2014

Tergiversando - e opinando

Falar sobre filmes (não sobre cinema, sobre filmes) me parece agora uma conversa sem maiores compromissos, sobretudo depois que revi Gravidade, nessa última ida ao Rio, e fiquei boba com minha péssima primeira impressão - mas como, dona Clara, o filme é muito interessante, a protagonista vivida por Sandra Bullock não fica o filme inteiro falando coisas ininteligíveis, o par com o Clooney faz muito sentido e tem lá sua graça, ela não surge das águas no final feito uma deusa, embora haja alguma inverossimilhança em seu 'resgate', mas que sei eu de reentrada atmosférica.

De todo modo, não tenho a menor ideia do que havia em minha alma quando
vi ou quando escrevi sobre o filme. O melhor, para todos os efeitos, é que não se confie absolutamente nessas mal traçadas para decidir sobre os filmes a ver - façam como eu, não liguem a mínima para o que deles dizem, e vejam tudo com olhos de descoberta.

A despeito do dito, achei a segunda parte de Ninfomaníaca (Lars von Trier, 2014) muito boa, porque se apresenta como o drama que realmente é: uma protagonista extremamente doente, com uma doença que não tem cura, e cujo drama agora fica mais explícito, que passa por muitos maus momentos em busca de um prazer que ela não sente, mas para o qual se vê compelida sem trégua. Foi possível compreender melhor a proposta de Lars, e ela é muito forte, sensível e inapelavelmente sem saída, ou seja, pertencer de algum modo à margem dos modos de ser, pensar ou sentir da maioria será penoso, e mesmo violento, em algum momento, se alguém se dispuser a ser aquilo para o que se sente predestinado. Não haverá remanso para quem não seguir o compasso traçado entre a norma e a margem, e uma das linhas de força dramática que pontuam a história será a irredutibilidade da escolha de Joe no sentido de afirmar quem ela é. E de mostrar ao outro quem ele supõe ser - numa das cenas mais terríveis do filme, ela conta histórias a um devedor, tentando conhecer suas fraquezas pelas reações sexuais ao que ouve, até que ele mesmo se depara com sua condição, até então aparentemente 'inaudível', de pedófilo: o terror desse (re)conhecimento será discutido por Joe com seu interlocutor (e tradutor, de certa forma) no presente da narrativa. Nesse momento, ela enuncia algumas das implacáveis reflexões do diretor e roteirista Lars - duramente nitzscheanas, elas não deixam pedra sobre pedra sobre toda e qualquer forma de regulação das sexualidades intentada pelas sociedades - e seus olhos vesgos.

Não há nada que seja leve no filme, talvez alguns momentos de humor - os dois homens negros que afinal não chegam a um consenso sobre como ou por onde entrar na mulher, e enquanto ambos discutem ela sai da situação e do quarto mais invisível do que antes - ou seja, até a graça é trágica, penosa. De resto, tudo aqui é dilaceramento, frustração, desamor, desalento, violência, e mesmo o fiapo de amizade que se insinuou ao longo de toda a história entre a protagonista (Charlotte Gainsbourg) e Seligman (Stellan Skarsgard, muito bom), seu ouvinte pescador, esvai-se em pó, dor e morte.

Um filme que não flerta com o fácil, nem com o simples, mas imprescindível para olhar e ver de frente algumas verdades difíceis e penosas que atravessam nossa sexualidade, e a forma de exercê-la.

domingo, 9 de março de 2014

Sonhar, viajar

Cada vez mais ando querendo viajar, ir a outras plagas, outros mundos - teria sido mais justo para todos nós que a cada human being fosse dado o direito de ir e vir sem ônus algum de passagens, estadias, tipo assim, quatros viagens por ano pra onde quisesse por, digamos, dez dias, podendo escolher uma casa, uma família com quem trocar hospedagem.

Sim, isso já existe hoje, mas quem pode pagar tudo que tal aventura comporta? Trata-se aqui de utopia, ou de um sonho realizável por quem tem: coragem, energia, disponibilidade, espírito de aventura e entrega incondicional ao desconhecido.


Par contre, todo mês agora bato ponto no Rio (por enquanto, pelo menos), um pouco por dever filial, outro tanto porque não preciso pagar estadia, fico no meu apartamento, hoje ocupado pela mãe e suas cuidadoras. Isso é bom, claro - o Rio não é uma cidadezinha sem importância, é uma cidade lindíssima, um grande centro cultural, dinâmico, heterogêneo, bagunçado etc, etc - e põe etecétera nisso -, e ter onde pousar na cidade é um privilégio, claro.


Mas também tornou-se uma espécie de obrigação - como minha vida financeira ficou muito restrita, em razão exatamente da exorbitância que viver (ou manter a vida de uma pessoa idosa) naquela cidade passou a custar, fico sem asas para voar, tenho que ir onde é possível - e, nesse caso, o Rio não apenas se tornou possível, mas obrigatório. Aí fica chato, não é mais turismo, não é mais liberdade, nem aquilo que chamo viagem.


Tá certo, vou ficar de castigo por reclamar injustamente. Mas sem insatisfação, como caminhar em direção aos sonhos?

terça-feira, 4 de março de 2014

Só conversa

Talvez  por estar meio isolada numa cidade pequena, sem muito apelo cultural, vi a festa do Oscar com prazer, achei que esse ano foi um dos melhores, e essa foi uma das poucas vezes em que vi a cerimônia até a fim.

A Ellen De Generis estava especialmente interessante, engraçada, irônica e meio louquinha, sem excessos desagradáveis, salvo quando quase gritou com a senhorinha atriz de Nebraska, June Squibb, mas o momento pizza valeu qualquer possível gafe.

Achei que, pela leveza e bom humor da apresentadora, a plateia estava solta, leve, sem aquela regidez que marcou outros anos da festa. Aliás, acho que grande parte dos que estavam nas primeiras filas sabiam das gracinhas que ela ia aprontar e foram 'convocados' a participar, porque Ellen parece ser muito amada pelo povo do show business (agora, que ela deu a volta por cima dos preconceitos todos).

Quanto aos vencedores, torci pela deusa Cate, como quase todo mundo, que fez um discurso bonito, em que as outras colegas foram homenageadas, gosto sempre dessa coisa de compartilhar as vitórias, sobretudo porque as concorrentes eram muito boas mesmo, e gostei dela ter falado que filme com mulher protagonista quer ser visto pelo público, e dá retorno financeiro; torci pelo Jared Leto, que fez o discurso mais bonito que ouvi, além de ele ser um lindo-rapaz-que-ama-a-família, o que eu não sabia - outro dia vi um show na TV de seu grupo 30 Seconds to Mars e fiquei impressionada com sua energia, vitalidade e intensidade cantando e se apresentando, nem parecia esse rapaz meigo e calmo do Oscar. E o personagem dele no filme é mesmo um arraso.

Gostei do Matthew ter ganhado por melhor ator, mais ainda por ele ter ido abraçar o Leo antes de subir ao palco. Acho que ele mereceu, mas o Leo tinha minha torcida, acho que a Academia já deve esse Oscar a ele há vários filmes. De todo modo, não entendi muito bem seu longo discurso, vou ler a íntegra (não sei se houve tradução, porque ouvi tudo em inglês, pra treinar mesmo), porque do que captei me pareceu meio estranho. O prêmio para a Lupita foi merecido, claro, sobretudo pela cena intensamente dramática da surra de chicote, que impressiona
mesmo e me fez desviar os olhos, por odienta demais. Ela é uma figura belíssima, tem um carisma forte e espero que venham outros filmes bons para sua carreira.

Quanto ao prêmio de melhor filme, não torcia por nenhum em especial, achei todos medianos. Não gostei, particularmente, deste filme, como já disse em outro post, mas entendo que 12 anos tenha recebido a estátua - primeiro, é um filme politicamente correto, e ainda necessário para a causa da emancipação do negro, mesmo na América do Norte, e em grande parte do mundo; segundo, acho que Brad Pitt, bem como
George Clooney, quando se propõem produzir algum trabalho o fazem com o empenho dos fortes profissionais da indústria, como homens de negócios que entendem os caminhos áridos a percorrer para que um filme possa acontecer, têm lastro e conhecimentos abrangentes das pessoas certas para obter resultados bem positivos para os produtos que vendem. Não acho que a produção do Brad tenha sido o fator decisivo para a vitória do filme, óbvio, nem que sua importância na indústria tire o brilho da conquista da equipe, mas me parece um dado relevante. Os outros dados dizem respeito ao valor do próprio filme, que reconheço: ótimos personagens, história contundente e compromissada com os valores da liberdade; cenas fortes e chocantes de violência contra os escravos, que podem produzir horror, mas também catarse no final; libelo a favor da liberdade do homem, tout court.

Sobre o filme estrangeiro, sei que meu preferido e amado, Alabama Monroe, não tinha chances, e gostei da vitória de A grande beleza, assim como teria gostado se A caça tivesse sido premiada.

Por fim, como isso aqui é mesmo uma conversa de comadre (ou solilóquio, melhor), três perguntas que não querem calar: 1. o que houve com a Liza Minelli, santo deus?; 2. por que os seios da Angelina cresceram tanto? Será que ela vai parar nesse tamanho? Bom senso não faz mal a ninguém, menos ainda a esse monumento de beleza; 3. o que a Bete Midler tem feito para retroagir no tempo e aparecer lindamente rejuvenescida, sem nada que indique os 69 que já tem, e sem aquelas marcas intensas de botox, tão comuns nas atuais celebridades? Sua fórmula deveria ser patenteada.    
    

domingo, 2 de março de 2014

Alabama Monroe - quando uma história é mais que um filme

Não escrevi sobre tudo que vi em 2014, mas Alabama Monroe (Felix Van Groeningen, Bélgica, 2013) - com a linda Veerle Baetens, o belo e estranho Johan Heldenbergh, a atriz mirim Nell Cattrysse - vi duas vezes, e acho o mais emocionante filme, junto com Amor, que vi nos últimpos tempos.

Não sei todas as razões por que amei e amo tanto o filme, mas o tema da morte já é um começo. Também a mistura de passado e presente, num ir e vir frenético entre morte e vida, as duas inextricáveis ao longo de toda a história - e aqui exemplar em sua realização, deu um ritmo especial às cenas, de modo que não podemos perceber uma situação específica sem todos os outros momentos-vida que a circunscrevem, como se ela, a vida, não pudesse ser constituída de momentos isolados, mas de percepções simultâneas de tudo que vemos, sentimos, das pessoas com quem interagimos, das coisas que fazemos ou deixamos de fazer, de como nos expandimos para o mundo, e logo depois nos recolhemos em nós mesmos, regidos pelas forças de fora, pelos impulsos internos, pela potência da energia que está em nós e além de nós, mas que nos afeta, nos move em direção a - mais vida.

Todo esse movimento vital é regido pela música mais exuberantemente bela, leve, alegre, comovente que um filme jamais produziu (que eu lembre), além de ser cantada por vozes encantadoramente comuns, mas afinadas, e apaixonadas pelo que fazem. Tudo é ao mesmo tempo simples e comovente - das vidas comuns dos personagens, suas ocupações, às letras das canções, ou o amor de Didier pelo bluegrass - essa coisa meio ingênua de ir ao encontro do 'mais puro som', enfim, tudo é, de certo modo, singelo e fortemente tocante.

A música, então, me parece um personagem tão importante quanto os outros três, e é essa trilha que faz o espectador ficar em estado de enlevo todo o tempo, e mesmo quando tocado pela dor mais dilacerante ela está presente, sublinhando estados de alegria extrema, bem como seu oposto, o que nos permite vivenciar mais profundamente o fluxo dos acontecimentos, seus altos e baixos, intensificados por ritmos e imagens simultâneos, bem como regimes temporais concomitantes, que mantêm o espectador em estado de alerta quase sempre.

Mesmo ao final, quando a mãe já fez a escolha inevitável, inexorável, aquela que para ela não poderia ser outra, a música está presente não como coadjuvante, mas como reafirmação da vida, reafirmação da potência do existir - que vejo presente até mesmo no modo como ela decide integrar-se ao amor da filha, ao que lhe parece ser o lugar da filha - logo, o seu lugar.

Um filme memorável, sob todos os aspectos.

sábado, 1 de março de 2014

Minha lista - e atualizando


Meus filmes preferidos lançados aqui em 2013/2014, em ordem (neste momento) de gostância:

1. Alabama Monroe
2. Amor
3. A caça
3.1. Blue Jasmine
4. Tabu
5. Django livre
5.1. Clube de Compras Dallas
6. Flores raras
7. Azul é a cor mais quente
7.1. Nebraska
8. A grande beleza
8.1. O lobo de Wall Street
9. Serra pelada
10. A vida secreta de Walter Mitty
11. Lincoln
12. Álbum de família
13. Philomena
13.1. Trapaça
14. Faroeste caboclo
14.2. Ela
15. Sete psicopatas e um shih tzu