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Como é último dia do ano, eu ainda estou por aqui e já apresentei o livrinho de contos de Clarice ali embaixo, observo o seguinte:
Os comentários que acompanham os contos, em geral, são fraquíssimos (e fiquei boba de ver como a Fernanda Torres, com o prestígio de atriz que tem, e sendo a cronista boa que acho que é dos textos da Veja Rio, permitiu-se escrever nesse livro tamanha bobagem em letra de forma - e impressa), mas, enfim, alguns comentários se salvam, outros são razoáveis e outros ainda são bons, sobretudo os de Luiz Fernando Veríssimo, José Castello, Cora Rónai, Marina Colasanti, Adriana Lisboa, Benjamin Moser.
Embora eu ache que o projeto editorial seja um tanto comercial demais para meu gosto, valeu a seleção de contos dos convidados, alguns deles são obras primas, e este que escolhi para ficar como o último texto de 2009 tem uma apresentação simples e eficaz de Cora Rónai.
Relendo esse texto, de que não me lembrava mais, achei-o deslumbrante, um conto que caminha junto e sublinha toda a beleza do filme A festa de Babette, uma das obras primas eternas do cinema, para mim, que eu não vejo sem me emocionar, assim como a (re)leitura do conto me emocionou demais, porque, mais do que de comida, fala dessa comunhão fraterna absoluta em torno da alegria de um dos sentidos, da plenitude possível e da surpresa face à inesperada e gratuita generosidade. Enfim, uma Clarice das melhores.
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A Repartição dos Pães - Clarice Lispector
Era sábado e estávamos convidados para o almoço de obrigação. Mas cada um de nós gostava demais de sábado para gastá-lo com quem não queríamos. Cada um fora alguma vez feliz e ficara com a marca do desejo. Eu, eu queria tudo. E nós ali presos, como se nosso trem tivesse descarrilado e fôssemos obrigados a pousar entre estranhos. Ninguém ali me queria, eu não queria a ninguém. Quanto a meu sábado – que fora da janela se balançava em acácias e sombras – eu preferia, a gastá-lo mal, fechá-la na mão dura, onde eu o amarfanhava como a um lenço. À espera do almoço, bebíamos sem prazer, à saúde do ressentimento: amanhã já seria domingo. Não é com você que eu quero, dizia nosso olhar sem umidade, e soprávamos devagar a fumaça do cigarro seco. A avareza de não repartir o sábado,ia pouco a pouco roendo e avançando como ferrugem, até que qualquer alegria seria um insulto à alegria maior.
Só a dona da casa não parecia economizar o sábado para usá-lo numa quinta de noite. Ela, no entanto, cujo coração já conhecera outros sábados. Como pudera esquecer que se quer mais e mais? Não se impacientava sequer com o grupo heterogêneo, sonhador e resignado que na sua casa só esperava como pela hora do primeiro trem partir, qualquer trem – menos ficar naquela estação vazia, menos ter que refrear o cavalo que correria de coração batendo para outros, outros cavalos.
Passamos afinal à sala para um almoço que não tinha a bênção da fome. E foi quando surpreendidos deparamos com a mesa. Não podia ser para nós...
Era uma mesa para homens de boa-vontade. Quem seria o conviva realmente esperado e que não viera? Mas éramos nós mesmos. Então aquela mulher dava o melhor não importava a quem? E lavava contente os pés do primeiro estrangeiro. Constrangidos, olhávamos.
A mesa fora coberta por uma solene abundância. Sobre a toalha branca amontoavam-se espigas de trigo. E maçãs vermelhas, enormes cenouras amarelas, redondos tomates de pele quase estalando, chuchus de um verde líquido, abacaxis malignos na sua selvageria, laranjas alaranjadas e calmas, maxixes eriçados como porcos-espinhos, pepinos que se fechavam duros sobre a própria carne aquosa, pimentões ocos e avermelhados que ardiam nos olhos – tudo emaranhado em barbas e barbas úmidas de milho, ruivas como junto de uma boca. E os bagos de uva. As mais roxas das uvas pretas e que mal podiam esperar pelo instante de serem esmagadas. E não lhes importava esmagadas por quem. Os tomates eram redondos para ninguém: para o ar, para o redondo ar. Sábado era de quem viesse. E a laranja adoçaria a língua de quem primeiro chegasse.
Junto do prato de cada mal-convidado, a mulher que lavava pés de estranhos pusera – mesmo sem nos eleger, mesmo sem nos amar – um ramo de trigo ou um cacho de rabanetes ardentes ou uma talhada vermelha de melancia com seus alegres caroços. Tudo cortado pela acidez espanhola que se adivinhava nos limões verdes. Nas bilhas estava o leite, como se tivesse atravessado com as cabras o deserto dos penhascos. Vinho, quase negro de tão pisado, estremecia em vasilhas de barro. Tudo diante de nós. Tudo limpo do retorcido desejo humano. 'Tudo como é, não como quiséramos. Só existindo, e todo. Assim como existe um campo. Assim como as montanhas. Assim como homens e mulheres, e não nós, os ávidos. Assim como um sábado. Assim como apenas existe. Existe.
Em nome de nada, era hora de comer. Em nome de ninguém, era bom. Sem nenhum sonho. E nós pouco a pouco a par do dia, pouco a pouco anonimizados, crescendo, maiores, à altura da vida possível. Então, como fidalgos camponeses, aceitamos a mesa.
Não havia holocausto: aquilo tudo queria tanto ser comido quanto nós queríamos comê-lo. Nada guardando para o dia seguinte, ali mesmo ofereci o que eu sentia àquilo que me fazia sentir. Era um viver que eu não pagara de antemão com o sofrimento da espera, fome que nasce quando a boca já está perto da comida. Porque agora estávamos com fome, fome inteira que abrigava o todo e as migalhas. Quem bebia vinho, com os olhos tornava conta do leite. Quem lento bebeu o leite, sentiu o vinho que o outro bebia. Lá fora Deus nas acácias. Que existiam. Comíamos. Como quem dá água ao cavalo. A carne trinchada foi distribuída. A cordialidade era rude e rural. Ninguém falou mal de ninguém porque ninguém falou bem de ninguém. Era reunião de colheita, e fez-se trégua. Comíamos. Como uma horda de seres vivos, cobríamos gradualmente a terra. Ocupados como quem lavra a existência, e planta, e colhe, e mata, e vive, e morre, e come. Comi com a honestidade de quem não engana o que come: comi aquela comida e não o seu nome. Nunca Deus foi tão tomado pelo que Ele é. A comida dizia rude, feliz, austera: come, come e reparte. Aquilo tudo me pertencia, aquela era a mesa de meu pai. Comi sem ternura, comi sem a paixão da piedade. E sem me oferecer à esperança. Comi sem saudade nenhuma. E eu bem valia aquela comida. Porque nem sempre posso ser a guarda de meu irmão, e não posso mais ser a minha guarda, ah não me quero mais. E não quero formar a vida porque a existência já existe. Existe como um chão onde nós todos avançamos. Sem uma palavra de amor. Sem uma palavra. Mas teu prazer entende o meu. Nós somos fortes e nós comemos. Pão é amor entre estranhos. (p.103-108).
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Clarice na cabeceira. Org. Teresa Montero. Rio de Janeiro: Rocco, 2009.
Site de origem do conto: http://www.releituras.com/clispector_paes.asp
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quinta-feira, 31 de dezembro de 2009
terça-feira, 29 de dezembro de 2009
um dia e tanto
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Tinha uma música muito bonita tocando lá enquanto eu bisbilhotava e acabei trazendo também o CD Quiet is the new loud, de dois rapazes noruegueses que compõem o Kings of Convenience. Nunca tinha ouvido falar, eles fazem um som bem light, agradável, tranquilo, enfim, quase zen, sem ser chato. Gostei deles. Gosto eclético, esse meu, fazer o quê.
O livro não estava nos planos, mas comecei a ler as apresentações de alguns contos de Clarice feitas pelas pessoas mais inusitadas (nada acadêmicas) e achei a idéia ótima, é quase uma conversa de blogue, baseada sobretudo na opinião e no gosto pessoal. Os comentários são breves, dizem um pouco da história de leitura deles, gostei muito, e aproveito para reler esses ótimos contos.
Depois de ficar um tempão na livraria, havia uma escadinha que levava ao andar de cima, onde fica a Brasserie Brasil. Lá almocei essa coisa linda aí da foto, estava bom demais esse peixe, o tempero de ervas lembrava (sei que ninguém vai acreditar) orvalho, juro :)
E por fim, vi a exposição Linha de sombra, de Regina Silveira, uma senhora de 70 anos que faz uma arte entre o figurativo e alguma coisa geométrica mas também abstrata, é muito original e forte o trabalho dela. Esse desenho que as sombras fazem na abóbada do CCBB é lindíssimo.
Movida pelo impulso de sair da mesmice e da chatice, rumei por volta das 13h para o CCBB e acabei fazendo um programa ótimo. Não ia lá há algum tempo e conheci a livraria nova, que está maior e cheia de coisas lindas para tentar qualquer cristão.
Claro que alguma coisa eu tinha de levar, e aproveitando meus novos ares musicais, me dei de presente essa coleção do Oscar Peterson, que ouço enquanto escrevo aqui e estou amando.
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sábado, 26 de dezembro de 2009
Hanami - cerejeiras em flor
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O que achei muito bom em Hanami - cerejeiras em flor foi a sensação de que o filme foi pensado em termos de uma sucessão de fotografias magistrais: cada cena tem tudo para se tornar uma foto magnífica, eu teria gostado de ter feito todas elas. Mas além da fotografia, tem uma atriz muitíssimo interessante, Hannelore Elsner, que faz uma personagem contida, além de um tanto servil ao marido e à rotina de um longo casamento, e cujo traço físico mais marcante me pareceu a lindíssima boca, que não serve apenas para falar, mas tem expressividade própria, que não sei dizer o que é.
Também o ator que faz o marido, Elmar Wepper, convence e acabei me rendendo a ele, em sua saga através da indiferença dos filhos e seu pânico de que os pais lhes pesem mais do que eles querem em suas vidas, onde, aliás, não há lugar para a velhice, para o afeto filial, para a solidariedade, para quase nada além das memórias de uma convivência onde sempre faltou algo. Nesse sentido, a história escancara a distância entre os membros dessa família em que ninguém praticamente se (re)conhece.
Um dos trunfos do filme é a aproximação do agora combalido marido (em razão da morte repentina da esposa) e de uma jovem que ele encontra dançando butô em um parque, encenando todo dia o encontro com a mãe morta, e abraçando sua sombra. Esse menina será fundamental para tudo que virá a seguir, pois ela o guiará em direção ao Monte Fuji, local que a mulher sempre havia desejado conhecer, e que ele o fará por ela e, de certo modo, com ela (ou sua 'sombra').
Há muita delicadeza em torno dos sentimentos desses seres que se encontram e desencontram, quase nada é como talvez devesse ser, a vida em suas instâncias aproxima e afasta pessoas e situações, às vezes um tanto aleatoriamente, e tudo é um pouco lento, mas como são cenas sempre belíssimas, assistimos a tudo com atenção e saímos do filme certos de que um naco consistente de vida se desenrolou ali, a nossa frente.
(Só uma dúvida não consegui deslindar, não sei se é importante, mas queria muito saber: teria a menina aceitado o presente do amigo?).
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O que achei muito bom em Hanami - cerejeiras em flor foi a sensação de que o filme foi pensado em termos de uma sucessão de fotografias magistrais: cada cena tem tudo para se tornar uma foto magnífica, eu teria gostado de ter feito todas elas. Mas além da fotografia, tem uma atriz muitíssimo interessante, Hannelore Elsner, que faz uma personagem contida, além de um tanto servil ao marido e à rotina de um longo casamento, e cujo traço físico mais marcante me pareceu a lindíssima boca, que não serve apenas para falar, mas tem expressividade própria, que não sei dizer o que é.
Também o ator que faz o marido, Elmar Wepper, convence e acabei me rendendo a ele, em sua saga através da indiferença dos filhos e seu pânico de que os pais lhes pesem mais do que eles querem em suas vidas, onde, aliás, não há lugar para a velhice, para o afeto filial, para a solidariedade, para quase nada além das memórias de uma convivência onde sempre faltou algo. Nesse sentido, a história escancara a distância entre os membros dessa família em que ninguém praticamente se (re)conhece.
Um dos trunfos do filme é a aproximação do agora combalido marido (em razão da morte repentina da esposa) e de uma jovem que ele encontra dançando butô em um parque, encenando todo dia o encontro com a mãe morta, e abraçando sua sombra. Esse menina será fundamental para tudo que virá a seguir, pois ela o guiará em direção ao Monte Fuji, local que a mulher sempre havia desejado conhecer, e que ele o fará por ela e, de certo modo, com ela (ou sua 'sombra').
Há muita delicadeza em torno dos sentimentos desses seres que se encontram e desencontram, quase nada é como talvez devesse ser, a vida em suas instâncias aproxima e afasta pessoas e situações, às vezes um tanto aleatoriamente, e tudo é um pouco lento, mas como são cenas sempre belíssimas, assistimos a tudo com atenção e saímos do filme certos de que um naco consistente de vida se desenrolou ali, a nossa frente.
(Só uma dúvida não consegui deslindar, não sei se é importante, mas queria muito saber: teria a menina aceitado o presente do amigo?).
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terça-feira, 22 de dezembro de 2009
A vida íntima de Pippa Lee
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A vida íntima de Pippa Lee é um filme estranho, e as questões dele estão meio distantes de mim, acho que ele retrata um pouco o mundo atribulado das celebrities, onde provavelmente a autora e diretora, Rebecca Miller, se inspirou.
De todo modo, acompanhei bem a saga da menina Pippa e sua mãe, que se entope de pílulas para conseguir viver, até que, adolescente, resolve dar um fim naquilo e sai de casa. Vai morar com a tia, esposa da personagem de Julianne Moore, com quem tem uma empatia imediata. Ao ser flagrada fazendo fotos pouco ortodoxas na cama, será expulsa da casa e aí começa para ela uma jornada de marginália mesmo, em que sexo e drogas parecem compor o cardápio diário (mas não vemos as cenas, só um pouco da decadência resultante). Ela é ainda uma jovem em torno de 16 anos quando conhece seu futuro marido, um homem então com 50, escritor, que vira depois editor de livros.
O filme caminha entre o passado da jovem e o presente da mulher - vivida na fase adulta por Robin Wright Penn, muito bonita, mas praticamente anoréxica de tão magra -, agora com dois filhos (uma jovem que a detesta e um rapaz afetuoso), até que algo rompe a placidez de uma vida besta de dedicação ao marido, à casa e aos filhos - sabemos que eles acabaram de se mudar para essa cidadezinha onde vivem agora, estão em fase de adaptação, mas Pippa se torna sonâmbula, e seu trajeto noturno a leva quase sempre para o lugar onde trabalha - quem? quem? - o belo e jovem personagem do Keanu Reeves.
Já próximo ao desenlace é que sabemos todos (personagens e público) da traição do marido com uma grande amiga, e ela, afinal, toma coragem de sair daquela vida meio letárgica que vivia há tanto tempo.
A estranheza do filme é a defasagem dessa mulher em relação a seu próprio tempo : ninguém que viveu a barra pesada que ela viveu quando jovem poderia se acomodar por tantos anos àquela pasmaceira. Precisou se tornar sonâmbula para ter coragem de se aproximar de um sujeito com o charme irrecusável de um Reeves e, enfim, se libertar. Meio inverossímel.
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PS. Só para dexar registrado, a crítica feita por um senhor na revista Programa do JB (18 a 27/12/09) é uma das mais vergonhosas que eu já li. Essa pessoa ainda ganha para escrever um lixo daqueles? Pérola de preconceito, machismo e misoginismo.
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A vida íntima de Pippa Lee é um filme estranho, e as questões dele estão meio distantes de mim, acho que ele retrata um pouco o mundo atribulado das celebrities, onde provavelmente a autora e diretora, Rebecca Miller, se inspirou.
De todo modo, acompanhei bem a saga da menina Pippa e sua mãe, que se entope de pílulas para conseguir viver, até que, adolescente, resolve dar um fim naquilo e sai de casa. Vai morar com a tia, esposa da personagem de Julianne Moore, com quem tem uma empatia imediata. Ao ser flagrada fazendo fotos pouco ortodoxas na cama, será expulsa da casa e aí começa para ela uma jornada de marginália mesmo, em que sexo e drogas parecem compor o cardápio diário (mas não vemos as cenas, só um pouco da decadência resultante). Ela é ainda uma jovem em torno de 16 anos quando conhece seu futuro marido, um homem então com 50, escritor, que vira depois editor de livros.
O filme caminha entre o passado da jovem e o presente da mulher - vivida na fase adulta por Robin Wright Penn, muito bonita, mas praticamente anoréxica de tão magra -, agora com dois filhos (uma jovem que a detesta e um rapaz afetuoso), até que algo rompe a placidez de uma vida besta de dedicação ao marido, à casa e aos filhos - sabemos que eles acabaram de se mudar para essa cidadezinha onde vivem agora, estão em fase de adaptação, mas Pippa se torna sonâmbula, e seu trajeto noturno a leva quase sempre para o lugar onde trabalha - quem? quem? - o belo e jovem personagem do Keanu Reeves.
Já próximo ao desenlace é que sabemos todos (personagens e público) da traição do marido com uma grande amiga, e ela, afinal, toma coragem de sair daquela vida meio letárgica que vivia há tanto tempo.
A estranheza do filme é a defasagem dessa mulher em relação a seu próprio tempo : ninguém que viveu a barra pesada que ela viveu quando jovem poderia se acomodar por tantos anos àquela pasmaceira. Precisou se tornar sonâmbula para ter coragem de se aproximar de um sujeito com o charme irrecusável de um Reeves e, enfim, se libertar. Meio inverossímel.
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PS. Só para dexar registrado, a crítica feita por um senhor na revista Programa do JB (18 a 27/12/09) é uma das mais vergonhosas que eu já li. Essa pessoa ainda ganha para escrever um lixo daqueles? Pérola de preconceito, machismo e misoginismo.
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sábado, 19 de dezembro de 2009
conversa mole
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Pelo andar da carruagem, falar de livros vai ficar para o próximo ano.
Que venha 2010!

Esses CDs de música clássica são de fazer corar um amante verdadeiro de música, eu devia me envergonhar de mostrá-los aqui, mas é isso mesmo, sou amadoríssima em música.
Gosto muito do Hermínio Bello de Carvalho, esse verso "explico que eu não navego, quem me navega é o mar" é de Timoneiro, uma canção lindinha e título de um dos cinco CDs que compõem a caixa com sua produção (quase) completa, na voz de vários artistas (uma vez o encontrei no Arteplex, e num movimento espontâneo fui falar com ele, me sentia como se o conhecesse há anos, ele disse então que nessa caixa só havia parte de suas composições). O homem é um manancial incrível dessa música popular brasileira de que gosto tanto.____
Esse é o sonzinho que me permite ouvir a música que está de volta a mi vida, inspirada pelo osvjor.
Também esses são todos os CDs que tenho, ainda não sei do que continuo gostando mais desse pacote, não ouço há tempos, inclusive descobri um tal de Yanni que nunca havia visto antes, não lembro de ter comprado esse CD, ouvi e achei mais ou menos.
Pelo andar da carruagem, falar de livros vai ficar para o próximo ano.
Que venha 2010!
Esses CDs de música clássica são de fazer corar um amante verdadeiro de música, eu devia me envergonhar de mostrá-los aqui, mas é isso mesmo, sou amadoríssima em música.
Gosto muito do Hermínio Bello de Carvalho, esse verso "explico que eu não navego, quem me navega é o mar" é de Timoneiro, uma canção lindinha e título de um dos cinco CDs que compõem a caixa com sua produção (quase) completa, na voz de vários artistas (uma vez o encontrei no Arteplex, e num movimento espontâneo fui falar com ele, me sentia como se o conhecesse há anos, ele disse então que nessa caixa só havia parte de suas composições). O homem é um manancial incrível dessa música popular brasileira de que gosto tanto.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2009
Avatar
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Nossa, Avatar é ótimo! Várias pessoas aplaudiram no final (eu, inclusive) porque são muitas e fortes sensações, e acho que faz diferença ver em 3D ou não. Achei uma experiência intensa ter alguns galhos de plantas quase na minha mão, ou sentir bem próximo um soldado em cima de uma ave voando rapidíssimo em minha direção.
Mas sobre o filme é o seguinte: o James Cameron realmente enlouqueceu de vez e fez um filme absurdamente belo e ágil nas cenas de ação, juntando tudo de melhor de todas as outras mega produções semelhantes.
Por exemplo, o chefão dos soldados maus usa aquela arma em forma de robô de Transformers; a Sigourney Weaver faz uma cientista que pesquisa os conhecimentos milenares de Pandora, e entra numa urna para se tornar uma avatar que lembra as viagens feitas com seus aliens; a batalha final tem muito dos seres alados de O senhor dos anéis, enfim, há algo de tudo mas o que importa é que ele consegue ir além das possíveis referências e cria um mundo deslumbrante, em que o bem está aliado à terra e seus magníficos seres. As cenas no mundo de Pandora são espetaculares, tudo é mágico e belíssimo.
Já o mundo dos humanos me parece a parte mais fraca do filme, porque quase todo ancorado nos preceitos da guerra – eles querem o minério valioso que existe em Pandora e há todos aqueles velhos truques e velhas falas sobre matar os bárbaros e conquistar seu território que já vimos em todos os filmes de guerra, com seus respectivos homens maus representativos e estereotipados.
De todo modo, não é esse o mundo que mais interessa, ele existe para fazer contraponto a Pandora, pois o que importa mesmo é a floresta, é Pandora com seus seres alados, seus bichos estranhos, suas cores magníficas, suas profundezas, sua atmosfera que alguém chamou de quase lisérgica, e é pura verdade. Embora lá também possam existir alguns clichês, tipo os Na’Vis constituem uma nação em moldes semelhantes aos povos indígenas, muitos de seus rituais são tomados à cultura dessas nações, sobretudo o culto a uma sabedoria inerente ao mundo da natureza, em que a seiva das árvores cura, nessa parte do filme há uma cosmogonia forte, bela e convincente.
O espectador é facilmente cooptado por e para esse universo onírico, a gente quer estar lá, ser um Na’Vi e lutar com eles para que aquele mundo (na verdade, em parte é do nosso mundo que se trata) vença a luta contra o mal e os maus, o terror e a destruição.
Parece que o diretor quer fazer uma sequência do filme, ou várias. Verei todas, claro, mas acho que o universo dos soldados maus precisa ser retrabalhado, porque não dá para ver os mesmos caras que querem dominar o mundo destruindo Pandora tantas vezes.
Diferentemente de O senhor dos anéis, um épico sobre as grandes façanhas do homem para salvar-se a si e à sua terra, baseado nos altos valores da amizade, da solidariedade, da grandeza dos povos, aqui os soldados meio que amesquinham o valor da contenda, eles são adversários vulgares demais para esse mundo da floresta, onde tudo é (e deve parecer) grandioso.
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Nossa, Avatar é ótimo! Várias pessoas aplaudiram no final (eu, inclusive) porque são muitas e fortes sensações, e acho que faz diferença ver em 3D ou não. Achei uma experiência intensa ter alguns galhos de plantas quase na minha mão, ou sentir bem próximo um soldado em cima de uma ave voando rapidíssimo em minha direção.
Mas sobre o filme é o seguinte: o James Cameron realmente enlouqueceu de vez e fez um filme absurdamente belo e ágil nas cenas de ação, juntando tudo de melhor de todas as outras mega produções semelhantes.
Por exemplo, o chefão dos soldados maus usa aquela arma em forma de robô de Transformers; a Sigourney Weaver faz uma cientista que pesquisa os conhecimentos milenares de Pandora, e entra numa urna para se tornar uma avatar que lembra as viagens feitas com seus aliens; a batalha final tem muito dos seres alados de O senhor dos anéis, enfim, há algo de tudo mas o que importa é que ele consegue ir além das possíveis referências e cria um mundo deslumbrante, em que o bem está aliado à terra e seus magníficos seres. As cenas no mundo de Pandora são espetaculares, tudo é mágico e belíssimo.
Já o mundo dos humanos me parece a parte mais fraca do filme, porque quase todo ancorado nos preceitos da guerra – eles querem o minério valioso que existe em Pandora e há todos aqueles velhos truques e velhas falas sobre matar os bárbaros e conquistar seu território que já vimos em todos os filmes de guerra, com seus respectivos homens maus representativos e estereotipados.
De todo modo, não é esse o mundo que mais interessa, ele existe para fazer contraponto a Pandora, pois o que importa mesmo é a floresta, é Pandora com seus seres alados, seus bichos estranhos, suas cores magníficas, suas profundezas, sua atmosfera que alguém chamou de quase lisérgica, e é pura verdade. Embora lá também possam existir alguns clichês, tipo os Na’Vis constituem uma nação em moldes semelhantes aos povos indígenas, muitos de seus rituais são tomados à cultura dessas nações, sobretudo o culto a uma sabedoria inerente ao mundo da natureza, em que a seiva das árvores cura, nessa parte do filme há uma cosmogonia forte, bela e convincente.
O espectador é facilmente cooptado por e para esse universo onírico, a gente quer estar lá, ser um Na’Vi e lutar com eles para que aquele mundo (na verdade, em parte é do nosso mundo que se trata) vença a luta contra o mal e os maus, o terror e a destruição.
Parece que o diretor quer fazer uma sequência do filme, ou várias. Verei todas, claro, mas acho que o universo dos soldados maus precisa ser retrabalhado, porque não dá para ver os mesmos caras que querem dominar o mundo destruindo Pandora tantas vezes.
Diferentemente de O senhor dos anéis, um épico sobre as grandes façanhas do homem para salvar-se a si e à sua terra, baseado nos altos valores da amizade, da solidariedade, da grandeza dos povos, aqui os soldados meio que amesquinham o valor da contenda, eles são adversários vulgares demais para esse mundo da floresta, onde tudo é (e deve parecer) grandioso.
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quarta-feira, 16 de dezembro de 2009
Mulheres aquém
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Ontem saí para ver A vida íntima de Pippa Lee, mas já no Arteplex percebi que ele só vai estrear a partir de sábado, então entrei na sala de Um namorado para minha esposa, que tem uma protagonista fazendo o papel de uma das mais chatas mulheres de todo o universo. Se eu fosse o marido daquele ser já teria talvez arrancado sua (dela) língua, mas ele tem uma idéia mais atirada, embora também eficaz: arranja um sujeito que tem por missão fazê-la apaixonar-se por ele, além de também dar um jeito em sua ociosidade, arrumando-lhe um emprego de locutora, cujo salário ele (o marido) paga, tudo isso contado num tom entre a comédia e a farsa.
Claro que nem tudo sai como esperado - todo mundo percebe que aquele trato não vai dar muito certo. O filme também tem altos e baixos, mas no geral a comediazinha cumpre seu papel, sem grandes arroubos. Mas a mulher continua chata até o fim.
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Já Partir é mais complicado de comentar, porque é um bom filme, o espectador fica ligado na estória, tem cenas mui calientes de amor entre ele (Sergi Lopez) e ela (Kristin Scott Thomas, muito bonita), mas há alguma coisa de retrógrado nesse dramalhão amoroso que não tem fim.
Basicamente, achei que a personagem vive esse romanção meio extemporaneamente, ou melhor, meio adolescentemente. A mulher já deve ter uns 40 anos e fica total e absolutamente tomada de paixão pelo homem de outro nível social e econômico, o que é muito comum. Incomum é o ficar, naquela altura de sua vida, totalmente à mercê da paixão, do marido, do acaso e, quero crer, da burrice. Porque ela não raciocina - e isso não quer dizer que o amor-paixão seja mesmo irracional. Ela não raciocina para os tempos atuais, para o tempo dela, para o meu tempo, para qualquer parâmetro. Até o filho adolescente tem mais tino do que ela. Por quê?
Vejamos: o marido (médico, rico e burguês) enraivecido e ciumento tira tudo dela, depois de muitos anos de casamento - a casa, o emprego, os filhos, o cartão de crédito e todo o resto. Ela fica na miséria e só lhe resta o amante e a paixão, que aos poucos vai degringolando à míngua de recursos materiais (essa coisa de um amor e uma cabana nunca deu certo nem em priscas eras...).
Ela não atina com uma solução inteligente para nada, só consegue aproveitar a saída da família num fim de semana para pilhar objetos de valor da casa e se dá mal. Sempre se dá mal, e me irritou muito essa desmedida falta de tino.
Enfim, a gente percebe que aquilo não vai dar em lugar nenhum. Mas ela dá um fim a tudo, e tome mais dramalhão. Ficamos, no final, com a imagens dos dois amantes no alto do morro, ela chorando abraçada a ele. Mais clichê, impossível!
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Ontem saí para ver A vida íntima de Pippa Lee, mas já no Arteplex percebi que ele só vai estrear a partir de sábado, então entrei na sala de Um namorado para minha esposa, que tem uma protagonista fazendo o papel de uma das mais chatas mulheres de todo o universo. Se eu fosse o marido daquele ser já teria talvez arrancado sua (dela) língua, mas ele tem uma idéia mais atirada, embora também eficaz: arranja um sujeito que tem por missão fazê-la apaixonar-se por ele, além de também dar um jeito em sua ociosidade, arrumando-lhe um emprego de locutora, cujo salário ele (o marido) paga, tudo isso contado num tom entre a comédia e a farsa.
Claro que nem tudo sai como esperado - todo mundo percebe que aquele trato não vai dar muito certo. O filme também tem altos e baixos, mas no geral a comediazinha cumpre seu papel, sem grandes arroubos. Mas a mulher continua chata até o fim.
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Já Partir é mais complicado de comentar, porque é um bom filme, o espectador fica ligado na estória, tem cenas mui calientes de amor entre ele (Sergi Lopez) e ela (Kristin Scott Thomas, muito bonita), mas há alguma coisa de retrógrado nesse dramalhão amoroso que não tem fim.
Basicamente, achei que a personagem vive esse romanção meio extemporaneamente, ou melhor, meio adolescentemente. A mulher já deve ter uns 40 anos e fica total e absolutamente tomada de paixão pelo homem de outro nível social e econômico, o que é muito comum. Incomum é o ficar, naquela altura de sua vida, totalmente à mercê da paixão, do marido, do acaso e, quero crer, da burrice. Porque ela não raciocina - e isso não quer dizer que o amor-paixão seja mesmo irracional. Ela não raciocina para os tempos atuais, para o tempo dela, para o meu tempo, para qualquer parâmetro. Até o filho adolescente tem mais tino do que ela. Por quê?
Vejamos: o marido (médico, rico e burguês) enraivecido e ciumento tira tudo dela, depois de muitos anos de casamento - a casa, o emprego, os filhos, o cartão de crédito e todo o resto. Ela fica na miséria e só lhe resta o amante e a paixão, que aos poucos vai degringolando à míngua de recursos materiais (essa coisa de um amor e uma cabana nunca deu certo nem em priscas eras...).
Ela não atina com uma solução inteligente para nada, só consegue aproveitar a saída da família num fim de semana para pilhar objetos de valor da casa e se dá mal. Sempre se dá mal, e me irritou muito essa desmedida falta de tino.
Enfim, a gente percebe que aquilo não vai dar em lugar nenhum. Mas ela dá um fim a tudo, e tome mais dramalhão. Ficamos, no final, com a imagens dos dois amantes no alto do morro, ela chorando abraçada a ele. Mais clichê, impossível!
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terça-feira, 15 de dezembro de 2009
correndo só por avatar
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Comprei ingresso na rede para ver Avatar na pré-estreia do Cinemark Botafogo. Eu e centenas de adolescentes, espero que não totalmente histéricos. Que Alá me proteja :)
Enquanto isso, nenhuma vontade de escrever sobre livros que já li, acho que é a síndrome de fim de ano, ou preguiça mesmo. Virei o carro-chefe daquele movimento ultracontemporâneo, em torno de viver mais ou menos em slow motion, acho a teoria muito boa pra mim por agora.
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Comprei ingresso na rede para ver Avatar na pré-estreia do Cinemark Botafogo. Eu e centenas de adolescentes, espero que não totalmente histéricos. Que Alá me proteja :)
Enquanto isso, nenhuma vontade de escrever sobre livros que já li, acho que é a síndrome de fim de ano, ou preguiça mesmo. Virei o carro-chefe daquele movimento ultracontemporâneo, em torno de viver mais ou menos em slow motion, acho a teoria muito boa pra mim por agora.
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sexta-feira, 11 de dezembro de 2009
Desembarque imediato
Há muito tempo não via um filme brasileiro tão interessante e divertido quanto Embarque imediato. Marília Pera dá um banho de talento, humor e versatilidade, contracenando com um inexperiente Jonathan Haagensen, que ela generosamente acolhe e faz funcionar no papel, e com um José Wilker convincente, apesar das caretas, que acho sempre excessivas.
Mas o filme é de Marília, totalmente dela, que faz um trabalho incrível, na linha do Amélia (2000), da Ana Carolina, aquele também um filme magistral. Mas talvez este seja ainda melhor, sobretudo porque ela está quase todo o tempo em cena, o que torna possível desdobrar várias facetas de seu enorme talento - e como canta a moça! Eu nunca vi nenhum de seus musicais no teatro, sabia que ela tinha grande preparo de voz, mas é mais que isso – ela canta muito.
Além disso, faz um tipo de comédia que beira o pastelão, em algumas cenas, o que acaba por carregar ainda mais o humor porque sugere uma espécie de jogo duplo, em que se encena a comédia amorosa e suas desilusões, ao mesmo tempo em que também se desconstroi histrionicamente a breguice dessas situações lacrimejantes, tornando tudo bem engraçado.
(Só mais uma observação quanto ao Jonathan Haagensen: ele fica quase todo o tempo em cena com a Marília, que eu acho que sustenta não apenas o filme, mas o rapaz também. Apesar de me parecer bem inexpressivo como ator, tem de se louvar sua determinação de, pelo menos, não fazer feio. Aliás, feio é tudo que não se aplica ao guapo rapaz).
(Última observação, essa totalmente irrelevante, mas vendo esse trabalho de atriz em tão alto nível e com tamanha técnica, todo aquele imbroglio em torno da minissérie parece ainda mais mesquinho. Marília está mesmo num patamar muito acima daquela média toda).
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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009
terça-feira, 8 de dezembro de 2009
Livros no Natal
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Presentes de Natal e Ano Novo que me dei (até porque se não sou eu, quem mais poderia ser?), com cheirinho de livro novo, muito bom :)
Outra coisa ótima é que a Cosac dá um desconto de 40% para professores, então esses livros magníficos ficaram ao preço de um livro comum, beleza.
Outra coisa ótima é que a Cosac dá um desconto de 40% para professores, então esses livros magníficos ficaram ao preço de um livro comum, beleza.
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Los abrazos rotos
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Sobre Los abrazos rotos, do Almodóvar, penso que não é o melhor dele, nem o mais bem resolvido, segundo minha subjetivíssima opinião, mas gostei de algumas coisas.
Antes, não é o melhor porque os filmes mais ferinos são os de que gosto mais - o humor irônico e escrachado, as mulheres únicas, excessivas, dramáticas e fakes - isso torna os filmes dele muito particulares, como todos sabemos, e o faz ter uma marca única, que todos reconhecemos, assim como a de Woody Allen, por exemplo, também com seus altos e baixos.
Depois, não é o mais bem resolvido porque tem uns brancos, uns momentos em que eu me perguntei para que servia aquela cena, não tem função alguma - por exemplo, quando a assistente do diretor, já no terço final do filme, está contando sua versão dos acontecimentos passados, estando na mesa ele, ela e o filho, buscando demonstrar suas dificuldades com as lembranças do passado, ela lança mão da bebida para dar-se força e quer mais, mas não pede ao maître - ela afasta-se da mesa, chega ao balcão do bar, pede outra dose ao barman, que enche seu copo apenas com vodka, e fica com a parte da água suspensa no ar, porque a mulher sai e senta na mesa outra vez. Parece longa a descrição? Pois foi assim que senti o filme todo - meio longo, muitas e muitas histórias acontecendo, e tudo poderia ser mais enxuto, parece que faltou coragem na edição.
Mas há muitas cenas interessantes naquele imbroglio todo, e tem uma Penelope Cruz deslumbrante, bela como jamais a vi tão bela, e fazendo um excelente trabalho. Parece mais intensa a sintonia com Almodóvar nesse filme, talvez porque ambos estão maduros, numa fase da vida de grandes realizações, qui le sait. Enfim, vale a ida ao cinema demais.
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Sobre Los abrazos rotos, do Almodóvar, penso que não é o melhor dele, nem o mais bem resolvido, segundo minha subjetivíssima opinião, mas gostei de algumas coisas.
Antes, não é o melhor porque os filmes mais ferinos são os de que gosto mais - o humor irônico e escrachado, as mulheres únicas, excessivas, dramáticas e fakes - isso torna os filmes dele muito particulares, como todos sabemos, e o faz ter uma marca única, que todos reconhecemos, assim como a de Woody Allen, por exemplo, também com seus altos e baixos.
Depois, não é o mais bem resolvido porque tem uns brancos, uns momentos em que eu me perguntei para que servia aquela cena, não tem função alguma - por exemplo, quando a assistente do diretor, já no terço final do filme, está contando sua versão dos acontecimentos passados, estando na mesa ele, ela e o filho, buscando demonstrar suas dificuldades com as lembranças do passado, ela lança mão da bebida para dar-se força e quer mais, mas não pede ao maître - ela afasta-se da mesa, chega ao balcão do bar, pede outra dose ao barman, que enche seu copo apenas com vodka, e fica com a parte da água suspensa no ar, porque a mulher sai e senta na mesa outra vez. Parece longa a descrição? Pois foi assim que senti o filme todo - meio longo, muitas e muitas histórias acontecendo, e tudo poderia ser mais enxuto, parece que faltou coragem na edição.
Mas há muitas cenas interessantes naquele imbroglio todo, e tem uma Penelope Cruz deslumbrante, bela como jamais a vi tão bela, e fazendo um excelente trabalho. Parece mais intensa a sintonia com Almodóvar nesse filme, talvez porque ambos estão maduros, numa fase da vida de grandes realizações, qui le sait. Enfim, vale a ida ao cinema demais.
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domingo, 6 de dezembro de 2009
de sumiços e voltas
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Esse blogue sumiu por algum tempo, eu mesma não tinha acesso a ele, mas acho que o reencontrei, ufa e enfim! De todo modo, o Velox não está funcionando desde ontem, sábado, e não sei quando vou voltar a entrar na rede, estou numa lan house, vou ao cinema tentar esquecer que hoje o Rio de Janeiro para pelo Flamengo.
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Ainda na Idade das Trevas nesta segunda, e sem saber quando a Oi/Telemar vai se dignar fazer o reparo no Velox. É só o meu ou todo mundo está fora do ar? Que empresa safada, essa. Mas também, nesse país sem lei nem grei - só com panetones e dinheiros nas cuecas - quem se importa em prestar serviços decentes? Solução: nem precisa apagar a luz quando sair...
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Voltando à Terra Média das conexões, com elfos e hobbits resgatando o Velox, até não sei quando, mas enfim, teclando de casa.
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Esse blogue sumiu por algum tempo, eu mesma não tinha acesso a ele, mas acho que o reencontrei, ufa e enfim! De todo modo, o Velox não está funcionando desde ontem, sábado, e não sei quando vou voltar a entrar na rede, estou numa lan house, vou ao cinema tentar esquecer que hoje o Rio de Janeiro para pelo Flamengo.
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Ainda na Idade das Trevas nesta segunda, e sem saber quando a Oi/Telemar vai se dignar fazer o reparo no Velox. É só o meu ou todo mundo está fora do ar? Que empresa safada, essa. Mas também, nesse país sem lei nem grei - só com panetones e dinheiros nas cuecas - quem se importa em prestar serviços decentes? Solução: nem precisa apagar a luz quando sair...
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Voltando à Terra Média das conexões, com elfos e hobbits resgatando o Velox, até não sei quando, mas enfim, teclando de casa.
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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009
Dois filmes estranhos
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Quem gosta de ver sangue e filme de vampiro não deve perder Deixa ela entrar, que é um filme estranhíssimo, lento, com grandes brancos de ação, e muita, muita neve, mas interessantíssimo, porque tomando o bullying numa escola sueca como pretexto trata, na verdade, da solidão abissal de um casal de preadolescentes - ele tem 12 anos e ela também, mas ela está nessa idade há muitos anos.
Os dois são diferentes dos outros meninos/as, não têm qualquer glamour, são quase feinhos, e essa estranheza é um dos pilares do filme, porque ficamos esperando que alguma coisa aconteça para dar um sentido àquelas vidas. E acontece, claro. A menina precisa viver, então alguém precisa morrer, simples assim. O menino, quando descobre tudo, tem uma escolha a fazer - e a faz. Escolhe a parceira, porque já sabia o que era ser sozinho há muito tempo, e não era bom.
Ah, e tem sangue, muito sangue, mas nada chocante demais, só um pouco, sobretudo porque ela só faz o que precisa ser feito - seja para defender o amigo, seja para sobreviver. Então aceitamos o inevitável. Mas é um filme lento, e branco branco de neve (às vezes vermelho de sangue), então tem de ter alguma paciência para conviver com um mundo bem estranho.
****
No meu lugar é outro filme bem leeento, também um tanto estranho, mas que eu não quis abandonar de jeito nenhum, embora pensasse nisso todo o tempo, porque precisava saber o que já pressentira desde mais ou menos o meio da projeção. Acho que ele é meio descosido, não ata bem os miolos das histórias: afinal, aquele pai e filha são ou não incestuosos? por que a mãe do rapaz briga tanto com a nora? os adolescentes estão meio perdidos agora por causa do acidente, ou porque são adolescentes? Algumas dentre outras perguntas que fiz ao longo da projeção.
No fim, o que ficou mais forte para mim foi o desempenho do Raphael Sil - é dele que vem a mensagem de nossa miséria, de nossa degradação, de como a falta de dinheiro envilece e de como isso não tem saída. Ele é muito bom ator, e Márcio Vito também, o tal policial que erra o alvo e mira no que não podia.
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Quem gosta de ver sangue e filme de vampiro não deve perder Deixa ela entrar, que é um filme estranhíssimo, lento, com grandes brancos de ação, e muita, muita neve, mas interessantíssimo, porque tomando o bullying numa escola sueca como pretexto trata, na verdade, da solidão abissal de um casal de preadolescentes - ele tem 12 anos e ela também, mas ela está nessa idade há muitos anos.
Os dois são diferentes dos outros meninos/as, não têm qualquer glamour, são quase feinhos, e essa estranheza é um dos pilares do filme, porque ficamos esperando que alguma coisa aconteça para dar um sentido àquelas vidas. E acontece, claro. A menina precisa viver, então alguém precisa morrer, simples assim. O menino, quando descobre tudo, tem uma escolha a fazer - e a faz. Escolhe a parceira, porque já sabia o que era ser sozinho há muito tempo, e não era bom.
Ah, e tem sangue, muito sangue, mas nada chocante demais, só um pouco, sobretudo porque ela só faz o que precisa ser feito - seja para defender o amigo, seja para sobreviver. Então aceitamos o inevitável. Mas é um filme lento, e branco branco de neve (às vezes vermelho de sangue), então tem de ter alguma paciência para conviver com um mundo bem estranho.
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No meu lugar é outro filme bem leeento, também um tanto estranho, mas que eu não quis abandonar de jeito nenhum, embora pensasse nisso todo o tempo, porque precisava saber o que já pressentira desde mais ou menos o meio da projeção. Acho que ele é meio descosido, não ata bem os miolos das histórias: afinal, aquele pai e filha são ou não incestuosos? por que a mãe do rapaz briga tanto com a nora? os adolescentes estão meio perdidos agora por causa do acidente, ou porque são adolescentes? Algumas dentre outras perguntas que fiz ao longo da projeção.
No fim, o que ficou mais forte para mim foi o desempenho do Raphael Sil - é dele que vem a mensagem de nossa miséria, de nossa degradação, de como a falta de dinheiro envilece e de como isso não tem saída. Ele é muito bom ator, e Márcio Vito também, o tal policial que erra o alvo e mira no que não podia.
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quarta-feira, 2 de dezembro de 2009
A saga vampiresca
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Depois de ver Crepúsculo mais de uma vez na TV, onde tem passado insistentemente, resolvi ir ao cinema ver Lua nova. Os dois protagonistas continuam atuando de forma medíocre, mas ninguém desgruda os olhos da tela. O que tem essa saga para prender a atenção até de uma old lady como essa escriba, que nem gosta tanto dos romances-folhetim do século dezenove, salvo talvez Senhora, do Alencar, porque Aurélia joga duro com Fernando antes de sucumbir e é uma grande personagem?
Enfim, voltando à saga, acho que o mais poderoso chamariz de ambos os filmes é o erotismo mesmo, o desejo desses dois que não vai nunca além de beijos muito castos e cuidadosos para não atiçar a sanha vampiresca do rapaz. Então, a moça sofre de uma paixão desmedida, ele também, claro, e há a tensão camuflando o tesão, o que nos leva a outro aspecto bem século dezenove, que diz respeito à pudicícia.
Num século que quase não tem mais novas maneiras para despir os homens ou as mulheres publicamente, nem como mostrar o sexo e a vulgaridade, os dois personagens passam os dois filmes vestindo jeans e camiseta, e quando ele, no final deste último filme, tira a blusa em close num gesto de quase suicida, o que se vê é um ser com baixíssimo sex appeal, se se leva em conta o modelo de beleza física masculina atual, magérrimo, desvanecendo-se todo. O outro rapaz apaixonado pela moça - o amigo lobo - parece ter feito intensivo de malhação e seria o protótipo dessa beleza padrão, este sim, um homão musculoso, mas, hélas, não é ele o amor de Bella.
Então, diria que o que prende na saga é também o que faz todo filme ultra romântico funcionar : amor impossível, sacrifícios pelo amado ou amada, muitas lutas e aventuras em sua defesa e, nesse caso específico, um vampiro tão bom sujeito que a gente torce demais para que ele, afinal, dê a mordida pela qual Bella espera há tanto tempo e o desejo possa realizar-se.
Mas não foi ainda agora que isso ocorreu. Primeiro, ele há de pedi-la em casamento, o que faz com aquela carinha empoada de branco e o batom meio excessivo mais inacreditáveis da face da terra. Aguardemos, pois, os próximos lances desse jogo. Chegaremos a ver os filhotes vampirinhos do casal? Qui le saurait jamais... Seria o caso de ler o próximo livro e descobrir? Menos, Clara, menos...
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Depois de ver Crepúsculo mais de uma vez na TV, onde tem passado insistentemente, resolvi ir ao cinema ver Lua nova. Os dois protagonistas continuam atuando de forma medíocre, mas ninguém desgruda os olhos da tela. O que tem essa saga para prender a atenção até de uma old lady como essa escriba, que nem gosta tanto dos romances-folhetim do século dezenove, salvo talvez Senhora, do Alencar, porque Aurélia joga duro com Fernando antes de sucumbir e é uma grande personagem?
Enfim, voltando à saga, acho que o mais poderoso chamariz de ambos os filmes é o erotismo mesmo, o desejo desses dois que não vai nunca além de beijos muito castos e cuidadosos para não atiçar a sanha vampiresca do rapaz. Então, a moça sofre de uma paixão desmedida, ele também, claro, e há a tensão camuflando o tesão, o que nos leva a outro aspecto bem século dezenove, que diz respeito à pudicícia.
Num século que quase não tem mais novas maneiras para despir os homens ou as mulheres publicamente, nem como mostrar o sexo e a vulgaridade, os dois personagens passam os dois filmes vestindo jeans e camiseta, e quando ele, no final deste último filme, tira a blusa em close num gesto de quase suicida, o que se vê é um ser com baixíssimo sex appeal, se se leva em conta o modelo de beleza física masculina atual, magérrimo, desvanecendo-se todo. O outro rapaz apaixonado pela moça - o amigo lobo - parece ter feito intensivo de malhação e seria o protótipo dessa beleza padrão, este sim, um homão musculoso, mas, hélas, não é ele o amor de Bella.
Então, diria que o que prende na saga é também o que faz todo filme ultra romântico funcionar : amor impossível, sacrifícios pelo amado ou amada, muitas lutas e aventuras em sua defesa e, nesse caso específico, um vampiro tão bom sujeito que a gente torce demais para que ele, afinal, dê a mordida pela qual Bella espera há tanto tempo e o desejo possa realizar-se.
Mas não foi ainda agora que isso ocorreu. Primeiro, ele há de pedi-la em casamento, o que faz com aquela carinha empoada de branco e o batom meio excessivo mais inacreditáveis da face da terra. Aguardemos, pois, os próximos lances desse jogo. Chegaremos a ver os filhotes vampirinhos do casal? Qui le saurait jamais... Seria o caso de ler o próximo livro e descobrir? Menos, Clara, menos...
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domingo, 29 de novembro de 2009
Primavera do livro
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Passei na Primavera do Livro, no Museu da República, e consegui sair sem livros, mas não escapei de umas camisetas com frases simpaticíssimas, vendidas logo no primeiro stand, com preços meio salgados mas tão gracinhas. A moça ficou de entregar aqui na terça, vamos torcer pra eu não ter entrado numa furada.
Ouvi um pouco do que Gabeira falava sobre os problemas do meio ambiente, ouvi também, mais tarde, os poemas ditos por Carlito Azevedo, aliás, ele leu um longo poema, num ritmo velocíssimo de que não gostei muito (tentei achar o poema nos livros dele e não consegui), e também leu 'As banhistas', de que gosto muito, no ritmo que eu reconheço.
(É engraçado como a leitura de um poema faz dele quase outra coisa. Nunca gostei muito de ouvir os grandes poetas lendo suas obras, parece que eles querem se apossar - porque a escreveram - de uma coisa que é minha, porque todo poema que li e de que gostei passa a ser meu, mais do que um romance, ou um conto).
O Geraldo Carneiro é muito gracinha, faz uma poesia mais filosófica e tem uma memória espantosa - pegava deixas dos outros integrantes da mesa (Carlito e Angela Melim) e 'lembrava' poemas seus que tinham a ver com o que eles haviam dito, enfim, memória, humor e simpatia, me lembrou Vinicius de Morais.
Encontrei por lá um colega da Uerj muito falante e conversamos algum tempo - as coisas na academia não mudam muito, continuam o mesmo vespeiro de sempre, alívio não estar mais lá.
Aproveitei para tirar algumas fotos com meu novo pequeno brinquedo.
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Passei na Primavera do Livro, no Museu da República, e consegui sair sem livros, mas não escapei de umas camisetas com frases simpaticíssimas, vendidas logo no primeiro stand, com preços meio salgados mas tão gracinhas. A moça ficou de entregar aqui na terça, vamos torcer pra eu não ter entrado numa furada.
Ouvi um pouco do que Gabeira falava sobre os problemas do meio ambiente, ouvi também, mais tarde, os poemas ditos por Carlito Azevedo, aliás, ele leu um longo poema, num ritmo velocíssimo de que não gostei muito (tentei achar o poema nos livros dele e não consegui), e também leu 'As banhistas', de que gosto muito, no ritmo que eu reconheço.
(É engraçado como a leitura de um poema faz dele quase outra coisa. Nunca gostei muito de ouvir os grandes poetas lendo suas obras, parece que eles querem se apossar - porque a escreveram - de uma coisa que é minha, porque todo poema que li e de que gostei passa a ser meu, mais do que um romance, ou um conto).
O Geraldo Carneiro é muito gracinha, faz uma poesia mais filosófica e tem uma memória espantosa - pegava deixas dos outros integrantes da mesa (Carlito e Angela Melim) e 'lembrava' poemas seus que tinham a ver com o que eles haviam dito, enfim, memória, humor e simpatia, me lembrou Vinicius de Morais.
Encontrei por lá um colega da Uerj muito falante e conversamos algum tempo - as coisas na academia não mudam muito, continuam o mesmo vespeiro de sempre, alívio não estar mais lá.
Aproveitei para tirar algumas fotos com meu novo pequeno brinquedo.
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sábado, 28 de novembro de 2009
Julie e Julia
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Enquanto meu trem desvia num atalho e eu torço pra ele não descarrilar de novo, vou seguindo os filmes que talvez me alegrem o dia, o que não foi o caso de Julie e Julia - mesmo. Vi o trailer desse filme e gostei muito, achei que seria divertido assisti-lo, mesmo tratando de um assunto, digamos, filmicamente sem graça como a culinária. Adoro comer bem, acho o máximo quem sabe e gosta de fazer pratos rápidos e gostosos, eu também sei fazer alguns, embora com bastante preguiça de mexer em panelas, mas um filme que funcione sobre esse assunto ainda precisa ser feito.
(A festa de Babette, obra prima, não conta, porque não tem como tema a feitura de um livro de culinária, para espantar o tédio, mas trata de amor, fraternidade, solidão, os acasos memoráveis da vida, além da arte de criar pratos magistrais).
De todo modo, achei tudo muuuito chato e, sobretudo, mas sobretudo a Meryl Streep está chatíssima - o sotaque, que eu acho que é britânico, não sei, é irritante; o tom da voz passa longe do agradável; não consegui acreditar na simpatia da personagem pelos franceses, talvez um pouco pela comida francesa, mas o livro dela, a obra magistral, o novo paradigma da cultura literária da humanidade - como eles gostam de compreender todas as suas singelas produções - é um livro que traduz e adapta as receitas francesas para o padrão de gosto deles lá (os estadunidenses, porque é deles que se trata, afinal). Essa atuação da Streep só consegue ser mais chata do que a que ela faz em Mamma Mia!, um espanto de filme sem graça.
(Na verdade, devo dizer que esses são os dois únicos filmes em que realmente não gosto do trabalho dela, mas talvez seja porque os filmes são ruins. Em geral, gosto muito das atuações que já vi).
Ainda, aquele pezinho condescendente no fascismo mccartista do filme, que não faz crítica nem enfrentameto, só matiza de leve o autoritarismo do pai de Julia, numa breve cena, que nos mostra, no entanto, seu poder e influência, sob os quais se regula o emprego do marido de Julia, e portanto ambos vivem a boa vida parisiense um pouco atados àquele mundo degradado. Enfim, há coisas meio podres sob o véu de tédio e comidas à volta da jovem senhora e seu amável husband.
Já a parte da Julie é menos desagradável, menos chata, mas igualmente insossa. A única coisa que escapa, para mim, nesse filme, são algumas comidas que essa Julie faz - não tenho vontade de fazer, claro, parece que dão o maior trabalhão, mas adoraria estar naquela mesa dela.
Por fim, os dois maridos são uns verdadeiros santos, tirando a saída de casa com retorno do marido de Julie, eles não existem, não existiram e não existirão. E é só.
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Enquanto meu trem desvia num atalho e eu torço pra ele não descarrilar de novo, vou seguindo os filmes que talvez me alegrem o dia, o que não foi o caso de Julie e Julia - mesmo. Vi o trailer desse filme e gostei muito, achei que seria divertido assisti-lo, mesmo tratando de um assunto, digamos, filmicamente sem graça como a culinária. Adoro comer bem, acho o máximo quem sabe e gosta de fazer pratos rápidos e gostosos, eu também sei fazer alguns, embora com bastante preguiça de mexer em panelas, mas um filme que funcione sobre esse assunto ainda precisa ser feito.
(A festa de Babette, obra prima, não conta, porque não tem como tema a feitura de um livro de culinária, para espantar o tédio, mas trata de amor, fraternidade, solidão, os acasos memoráveis da vida, além da arte de criar pratos magistrais).
De todo modo, achei tudo muuuito chato e, sobretudo, mas sobretudo a Meryl Streep está chatíssima - o sotaque, que eu acho que é britânico, não sei, é irritante; o tom da voz passa longe do agradável; não consegui acreditar na simpatia da personagem pelos franceses, talvez um pouco pela comida francesa, mas o livro dela, a obra magistral, o novo paradigma da cultura literária da humanidade - como eles gostam de compreender todas as suas singelas produções - é um livro que traduz e adapta as receitas francesas para o padrão de gosto deles lá (os estadunidenses, porque é deles que se trata, afinal). Essa atuação da Streep só consegue ser mais chata do que a que ela faz em Mamma Mia!, um espanto de filme sem graça.
(Na verdade, devo dizer que esses são os dois únicos filmes em que realmente não gosto do trabalho dela, mas talvez seja porque os filmes são ruins. Em geral, gosto muito das atuações que já vi).
Ainda, aquele pezinho condescendente no fascismo mccartista do filme, que não faz crítica nem enfrentameto, só matiza de leve o autoritarismo do pai de Julia, numa breve cena, que nos mostra, no entanto, seu poder e influência, sob os quais se regula o emprego do marido de Julia, e portanto ambos vivem a boa vida parisiense um pouco atados àquele mundo degradado. Enfim, há coisas meio podres sob o véu de tédio e comidas à volta da jovem senhora e seu amável husband.
Já a parte da Julie é menos desagradável, menos chata, mas igualmente insossa. A única coisa que escapa, para mim, nesse filme, são algumas comidas que essa Julie faz - não tenho vontade de fazer, claro, parece que dão o maior trabalhão, mas adoraria estar naquela mesa dela.
Por fim, os dois maridos são uns verdadeiros santos, tirando a saída de casa com retorno do marido de Julie, eles não existem, não existiram e não existirão. E é só.
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segunda-feira, 23 de novembro de 2009
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Aconteceu em Woodstock
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Foi muito divertido ver os bastidores daquele acontecimento cujos ecos ouvi quando era bem jovem, e me parecia então uma coisa de outro planeta, para seres livres e desenvolvidos, libertários e libertinos, como não soía acontecer por aqui, embora vivêssemos meio furiosamente também, como todos em todo canto, acho.
Além disso, Aconteceu em Woodstock tem algumas cenas memoráveis, como a descida no tobogã de lama, uma grande farra. A mais interessante talvez seja a viagem com ácido que os três jovens fazem, nunca tinha visto uma viagem filmada com tanta intensidade, ficou bonito, meio apocalíptico, meio expressionista-fantamasgórico, se se pode falar assim.
Claro que não faltam as indefectíveis frases apologéticas à grandeza da 'civilização estadunidense', do tipo: vai lá, fulano, ver o que significa estar no centro do mundo, sugerindo que o festival era o acontecimento último do mundo ocidental naquele momento. Hoje, de longe e não mais tão ingênua, só posso dizer - menos, minha gente, menos...
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Outro filme bonitinho é 500 dias com ela. Apesar de ser uma novela romântica, não é bobinha e fiquei ligada na história o tempo todo, porque o roteiro é inteligente, os atores são de medianos para bons e o tempo passa com interesse até o final - aliás, o final é um tantinho inesperado, e interessante.
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Foi muito divertido ver os bastidores daquele acontecimento cujos ecos ouvi quando era bem jovem, e me parecia então uma coisa de outro planeta, para seres livres e desenvolvidos, libertários e libertinos, como não soía acontecer por aqui, embora vivêssemos meio furiosamente também, como todos em todo canto, acho.
Além disso, Aconteceu em Woodstock tem algumas cenas memoráveis, como a descida no tobogã de lama, uma grande farra. A mais interessante talvez seja a viagem com ácido que os três jovens fazem, nunca tinha visto uma viagem filmada com tanta intensidade, ficou bonito, meio apocalíptico, meio expressionista-fantamasgórico, se se pode falar assim.
Claro que não faltam as indefectíveis frases apologéticas à grandeza da 'civilização estadunidense', do tipo: vai lá, fulano, ver o que significa estar no centro do mundo, sugerindo que o festival era o acontecimento último do mundo ocidental naquele momento. Hoje, de longe e não mais tão ingênua, só posso dizer - menos, minha gente, menos...
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Outro filme bonitinho é 500 dias com ela. Apesar de ser uma novela romântica, não é bobinha e fiquei ligada na história o tempo todo, porque o roteiro é inteligente, os atores são de medianos para bons e o tempo passa com interesse até o final - aliás, o final é um tantinho inesperado, e interessante.
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domingo, 15 de novembro de 2009
2012
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Dos filmes-catástrofe que já vi, esse 2012 fica muito próximo daquela partida ao meio magistral do Titanic. Tem um momento, a partir das primeiras rachaduras no chão, que a coisa engrena e a gente não desgruda mais o olho da tela e dá adeus à verossimilhança, atitude mais do que sensata para ver esse tipo de filme.
Está certo que o cérebro não desliga no automático, e fico ainda constrangida com aquele ideário fajuto deles a respeito de certos valores que são inteiramente fictícios, mas eles postulam com a maior cara de pau do universo - como diz vosso presidente, nunca na história da indústria um cinema foi tão idiotamente ideológico como o cinema deles tem sido, sobretudo nesse cinemão em que entram ação enlouquecida, salvação da humanidade, gestos de altruísmo, defesa do indivíduo comum, capaz de redimir o coletivo tirânico e/ou injusto, recolocando tudo nos devidos eixos, não faltando o presidente negro que oferece sua vida em holocausto para salvar quem (ou o quê)? A humanidade, claro.
(Meu cérebro indesligável pensava em como o Bush real estava a milhas de distância daquele ideal, mas enfim...). Ah, e tem também a indefectível bandeira estadunidense, é quase como uma praga, não há filme B (ou C ou D, todo o alfabeto, digamos) sem a tal bandeira, nos lugares mais inesperados.
Bom, mas tirando isso tudo, tem ação à beça, os caras sabem fazer essa coisa funcionar, tudo é muito rápido e emocionante e a gente quase não respira, oprimida pela hecatombe incomensurável e inexorável que devasta tudo e até mesmo - hélas, horrores - nosso Cristo Redentor tomba tangido pelas águas e pelos fogos que viram a terra de ponta-cabeça. No final, ... bom, são muitas emoções, é melhor ir lá ver.
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Dos filmes-catástrofe que já vi, esse 2012 fica muito próximo daquela partida ao meio magistral do Titanic. Tem um momento, a partir das primeiras rachaduras no chão, que a coisa engrena e a gente não desgruda mais o olho da tela e dá adeus à verossimilhança, atitude mais do que sensata para ver esse tipo de filme.
Está certo que o cérebro não desliga no automático, e fico ainda constrangida com aquele ideário fajuto deles a respeito de certos valores que são inteiramente fictícios, mas eles postulam com a maior cara de pau do universo - como diz vosso presidente, nunca na história da indústria um cinema foi tão idiotamente ideológico como o cinema deles tem sido, sobretudo nesse cinemão em que entram ação enlouquecida, salvação da humanidade, gestos de altruísmo, defesa do indivíduo comum, capaz de redimir o coletivo tirânico e/ou injusto, recolocando tudo nos devidos eixos, não faltando o presidente negro que oferece sua vida em holocausto para salvar quem (ou o quê)? A humanidade, claro.
(Meu cérebro indesligável pensava em como o Bush real estava a milhas de distância daquele ideal, mas enfim...). Ah, e tem também a indefectível bandeira estadunidense, é quase como uma praga, não há filme B (ou C ou D, todo o alfabeto, digamos) sem a tal bandeira, nos lugares mais inesperados.
Bom, mas tirando isso tudo, tem ação à beça, os caras sabem fazer essa coisa funcionar, tudo é muito rápido e emocionante e a gente quase não respira, oprimida pela hecatombe incomensurável e inexorável que devasta tudo e até mesmo - hélas, horrores - nosso Cristo Redentor tomba tangido pelas águas e pelos fogos que viram a terra de ponta-cabeça. No final, ... bom, são muitas emoções, é melhor ir lá ver.
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terça-feira, 10 de novembro de 2009
Para sempre teu, Caio F.
A primeira coisa que me chamou a atenção no livro Para sempre teu, Caio F., de Paula Dip, foi a foto na capa, feita por Claudio Etges, um instantâneo interessantíssimo, que pega a face dele assim de lado, com a mão no rosto, sorrindo e meio se escondendo, como a gente faz quando diz que não quer tirar uma foto, só que nesse caso a gente percebe claramente que ele está curtindo muito aquele momento, e há também serenidade e alegria e timidez na foto, traços que bem pertenciam ao personagem. Enfim, uma foto magnífica. Depois, li na livraria mesmo a introdução, feita pela autora, e aí não teve jeito - tive de trazer, não podia deixá-lo mais, porque a moça escreve muito bem, traça um roteiro de uma longa conversa por carta com Caio e com as questões do tempo deles, que são também minhas questões. Além disso, amo cartas e Caio amava Hilda e todos de algum modo falam de coisas que me dizem respeito, de um tempo que foi e é meu também.
Assim, leio o livro da Paula e me emociono em vários momentos, eu que nunca fui assim tão fã da literatura do Caio, embora tenha tido seu Morangos mofados naquela primeira edição da Brasiliense, de 1982. Lembro de que li os contos então mas não sei se gostei. Desde que Caio voltou à cena cultural com insistência, procurei o livro para reler, mas ele perdeu-se, devo ter dado a algum ex-aluno, enfim, terei de comprar de novo. Não estou certa de que sou ainda uma leitora para ele, mas essas cartas e as lembranças da Paula, essas, com certeza, também me pertencem.
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Paula Dip. Para sempre teu, Caio F. Rio de Janeiro: Record, 2009.
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Assim, leio o livro da Paula e me emociono em vários momentos, eu que nunca fui assim tão fã da literatura do Caio, embora tenha tido seu Morangos mofados naquela primeira edição da Brasiliense, de 1982. Lembro de que li os contos então mas não sei se gostei. Desde que Caio voltou à cena cultural com insistência, procurei o livro para reler, mas ele perdeu-se, devo ter dado a algum ex-aluno, enfim, terei de comprar de novo. Não estou certa de que sou ainda uma leitora para ele, mas essas cartas e as lembranças da Paula, essas, com certeza, também me pertencem.
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Paula Dip. Para sempre teu, Caio F. Rio de Janeiro: Record, 2009.
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segunda-feira, 9 de novembro de 2009
Dois filmes
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A primeira metade de À procura de Eric achei entediante, por razões puramente pessoais (ou seja, não se trata de cenas ruins, eu é que não gosto do que elas tratam). A impressão que me deu foi de que o Ken Loach se tocou em algum momento que o filme estava virando um clube do bolinha, com aquele monte de carteiros, todos homens, tentando alegrar o colega que só conseguia conversar com a fotografia de um jogador de futebol, então o universo do futebol também está bem presente no filme todo, e aquelas conversas chatinhas de homens em torno da bola, bem como a paixão desmedida deles pelo jogo, e as piadinhas totalmente sem graça - acho todo esse universo muito distante de mim. Depois, o tal jogador, Eric Cantona, um astro do Manchester United, afinal se corporifica e vai orientar o homem (também Eric) no sentido de buscar sua possível felicidade.
Surge a ex-mulher, Lily, primeiro em flashbacks dos bailes da juventude, quando a moda entre os jovens era dançar rock and roll à la elvis - aí o filme começa a ficar interessante, há drama, tensão, as cenas do baile são bem engraçadas, todo mundo já viveu algo semelhante na adolescência, acho.
Também se adensa o conflito entre Eric pai e os enteados, e a partir daí, com a entrada da mulher em cena, os dois núcleos de conflito se adensam - os dois filhos e a luta contra marginais; as tentativas de Eric de vencer o medo de se aproximar da ex-mulher, a quem abandonou com sua filha ainda pequena; a real fraternidade entre os amigos de jogo e de vida. Enfim, a graça agora daqueles homens tem graça, e o filme caminha com pernas mais ágeis, leves, densas e delicadas. No final, um ótimo filme, muito bom mesmo.
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Já em O solista, os dois atores estão excelentes, mas meus olhos ficaram felizes ao ver sempre, sempre e de novo o Robert Downey Jr, que está deslumbrantemente lindo... Acho que o Jamie Foxx tem um desempenho digno de Oscar, mas como o personagem dele é mais chapado, com aquela cara de esquizo quase sempre, as nuances de interpretação ficam mais por conta do Downey, que além de tudo se mostra a meus olhos com muita coragem, porque frequenta a zona de miséria onde habitam os addicts mais lascados de LA, e vejo sempre ele e ele ali, ou seja, o ator real que lutou contra sua dependência de drogas, e o personagem que busca ajudar o outro a encontrar seu rumo.
Acho que ambos dão show de interpretação. Para lacrimar os olhos nem precisava aquela trilha sonora, tanto a clássica quanto a não-clássica, das boas. Das ótimas.
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A primeira metade de À procura de Eric achei entediante, por razões puramente pessoais (ou seja, não se trata de cenas ruins, eu é que não gosto do que elas tratam). A impressão que me deu foi de que o Ken Loach se tocou em algum momento que o filme estava virando um clube do bolinha, com aquele monte de carteiros, todos homens, tentando alegrar o colega que só conseguia conversar com a fotografia de um jogador de futebol, então o universo do futebol também está bem presente no filme todo, e aquelas conversas chatinhas de homens em torno da bola, bem como a paixão desmedida deles pelo jogo, e as piadinhas totalmente sem graça - acho todo esse universo muito distante de mim. Depois, o tal jogador, Eric Cantona, um astro do Manchester United, afinal se corporifica e vai orientar o homem (também Eric) no sentido de buscar sua possível felicidade.
Surge a ex-mulher, Lily, primeiro em flashbacks dos bailes da juventude, quando a moda entre os jovens era dançar rock and roll à la elvis - aí o filme começa a ficar interessante, há drama, tensão, as cenas do baile são bem engraçadas, todo mundo já viveu algo semelhante na adolescência, acho.
Também se adensa o conflito entre Eric pai e os enteados, e a partir daí, com a entrada da mulher em cena, os dois núcleos de conflito se adensam - os dois filhos e a luta contra marginais; as tentativas de Eric de vencer o medo de se aproximar da ex-mulher, a quem abandonou com sua filha ainda pequena; a real fraternidade entre os amigos de jogo e de vida. Enfim, a graça agora daqueles homens tem graça, e o filme caminha com pernas mais ágeis, leves, densas e delicadas. No final, um ótimo filme, muito bom mesmo.
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Já em O solista, os dois atores estão excelentes, mas meus olhos ficaram felizes ao ver sempre, sempre e de novo o Robert Downey Jr, que está deslumbrantemente lindo... Acho que o Jamie Foxx tem um desempenho digno de Oscar, mas como o personagem dele é mais chapado, com aquela cara de esquizo quase sempre, as nuances de interpretação ficam mais por conta do Downey, que além de tudo se mostra a meus olhos com muita coragem, porque frequenta a zona de miséria onde habitam os addicts mais lascados de LA, e vejo sempre ele e ele ali, ou seja, o ator real que lutou contra sua dependência de drogas, e o personagem que busca ajudar o outro a encontrar seu rumo.
Acho que ambos dão show de interpretação. Para lacrimar os olhos nem precisava aquela trilha sonora, tanto a clássica quanto a não-clássica, das boas. Das ótimas.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Ser ou não ser
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Eu ia entrar em recesso por tempo indeterminado, como o Idelber, mas no meu caso por falta absoluta de leitores, já que os meus 2 ou 3 resolveram fazer forfait.
Mas eis que surge a sempre pródiga e bem-vindíssima Melissa para de novo salvar esse blog do naufrágio completo.
En hommage, minha leitura desse romance do McEwan, que acabou por se revelar melhor do eu pensava, aí embaixo.
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Eu ia entrar em recesso por tempo indeterminado, como o Idelber, mas no meu caso por falta absoluta de leitores, já que os meus 2 ou 3 resolveram fazer forfait.
Mas eis que surge a sempre pródiga e bem-vindíssima Melissa para de novo salvar esse blog do naufrágio completo.
En hommage, minha leitura desse romance do McEwan, que acabou por se revelar melhor do eu pensava, aí embaixo.
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Jardim de cimento
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
pedaços de histórias
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Escrevo outro blog há algum tempo, onde assistematicamente comento algumas fotos antigas minhas e o que elas possam significar para mim hoje.
Não pretendo publicar esses posts aqui, apenas esse trecho, em homenagem a Anna V, que começou uma série biográfica muito interessante. São vidas bem diferentes as nossas, mas tudo são, ao fim e ao cabo, histórias.
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O que é bem verdadeiro na foto: a mãe parece querer abraçar os filhos todos, protegê-los, e seu braço direito parece ter uma extensão que vai até o filho homem. Infelizmente, ela não conseguiu concretizar esse gesto ao longo da vida do filho, que morreu jovem, de tiro.
O pai olha para o outro lado, afastado dos filhos e da mulher, braços cruzados em torno de si. Como sempre fora, como sempre fizera.
A mãe sempre foi mais do que seu condição social permitia. Teve uma infância e juventude sem privações, e a vida só ficou muito ruim depois que casou, contra a vontade da família e a despeito de todos os avisos sobre a natureza desregrada do futuro marido. Ela se apaixonou por ele e comeu o pão que aquele amassou, praticamente abandonada à própria sorte, com três filhos para criar (eram quatro, mas uma morreu com seis meses), já que o marido saía para jogar e ficava vários dias fora de casa.
Até que um dia a mãe teve um ataque de loucura e resolveu vender tudo que tinha na casa e vir para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais novo. Quando o pai percebeu que a casa estava no osso e que a mulher não mudaria sua decisão, ele mesmo seguiu na frente para arranjar trabalho e levar a família.
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Escrevo outro blog há algum tempo, onde assistematicamente comento algumas fotos antigas minhas e o que elas possam significar para mim hoje.
Não pretendo publicar esses posts aqui, apenas esse trecho, em homenagem a Anna V, que começou uma série biográfica muito interessante. São vidas bem diferentes as nossas, mas tudo são, ao fim e ao cabo, histórias.
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Essa foto ilustra a chegada da "família imperial ao Rio de Janeiro", mas não corresponde ao que mostra: uma típica família de classe média baixa, feliz, harmoniosa, desfrutando de um domingo de paz nas cercanias da antiga Quinta da Boa Vista. As coisas só têm a aparência de tranquilidade, porque o patriarca e a matriarca dessa família não se falavam, e eram pobres que nem Jó.
O que é bem verdadeiro na foto: a mãe parece querer abraçar os filhos todos, protegê-los, e seu braço direito parece ter uma extensão que vai até o filho homem. Infelizmente, ela não conseguiu concretizar esse gesto ao longo da vida do filho, que morreu jovem, de tiro.
O pai olha para o outro lado, afastado dos filhos e da mulher, braços cruzados em torno de si. Como sempre fora, como sempre fizera.
A mãe sempre foi mais do que seu condição social permitia. Teve uma infância e juventude sem privações, e a vida só ficou muito ruim depois que casou, contra a vontade da família e a despeito de todos os avisos sobre a natureza desregrada do futuro marido. Ela se apaixonou por ele e comeu o pão que aquele amassou, praticamente abandonada à própria sorte, com três filhos para criar (eram quatro, mas uma morreu com seis meses), já que o marido saía para jogar e ficava vários dias fora de casa.
Até que um dia a mãe teve um ataque de loucura e resolveu vender tudo que tinha na casa e vir para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais novo. Quando o pai percebeu que a casa estava no osso e que a mulher não mudaria sua decisão, ele mesmo seguiu na frente para arranjar trabalho e levar a família.
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sábado, 24 de outubro de 2009
O santo sujo II
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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Picadinho de filmes
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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.
Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado que o faz sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.
Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.
Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.
E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.
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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.
Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado que o faz sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.
Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.
Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.
E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.
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sábado, 17 de outubro de 2009
Distrito 9
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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.
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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.
Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.
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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.
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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.
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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.
Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.
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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009
o vento voa esvoaçando tudo
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Eu sou - na verdade, fiquei - pior que a Juliette Binoche em Chocolate: ouve barulho de vento forte nas janelas e já quer partir, por isso fico arrumada para sair a qualquer momento. Nesse instante, faço o que a sensatez recomenda: aguardo o homem que vai trocar as esquadrias de alumínio das janelas, para ver se elas param de bater e de atormentar.
Nesse estado de suspensão da lucidez - enquanto o vento zune - não dá para ler, não dá para quase nada, a não ser que tudo seja trancado, algodão nos ouvidos para não escutar barulho de vento e/ou janela sssibilando, ar condicionado ligado e quietinha vendo um filme na TV. Acho que isso dá pra fazer.
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Eu sou - na verdade, fiquei - pior que a Juliette Binoche em Chocolate: ouve barulho de vento forte nas janelas e já quer partir, por isso fico arrumada para sair a qualquer momento. Nesse instante, faço o que a sensatez recomenda: aguardo o homem que vai trocar as esquadrias de alumínio das janelas, para ver se elas param de bater e de atormentar.
Nesse estado de suspensão da lucidez - enquanto o vento zune - não dá para ler, não dá para quase nada, a não ser que tudo seja trancado, algodão nos ouvidos para não escutar barulho de vento e/ou janela sssibilando, ar condicionado ligado e quietinha vendo um filme na TV. Acho que isso dá pra fazer.
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domingo, 11 de outubro de 2009
Bastardos inglórios
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Acho que a pergunta que nos fazemos quase sempre ao final de um filme - se gostamos, não gostamos - não se coloca muito com relação a Bastardos inglórios, do Tarantino. Afinal quem tem prazer em ver nazistas sendo escalpelados, ou sendo mortos a porretes, ou umas 300 pessoas (nazistas, claro) ardendo nas chamas do inferno de uma sala de cinema trancada e sem possibilidade de escape? Só doido ou sádico.
No entanto, a gente vê o filme como enorme interesse e se pergunta aonde ele vai nos levar, o que tudo aquilo significa, que loucura é aquela, já que ninguém mais aguenta cenas com malvados nazistas e aliados do bem sendo massacrados. A coisa estranha já começa com a música de abertura, que nos remete a filmes românticos e melosos. Acompanhamos desconfiados o que vemos na tela e essa desconfiança é um dado intrínseco a tudo que veremos ao longo da fita, na medida em que Tarantino desconstrói todo o tempo cada cena, fazendo-a ser relida pelas inúmeras referências fílmicas, seja sob a forma de paródia, seja como homenagem, seja como elemento de humor.
Parece que vemos dois filmes ao mesmo tempo - esse e todos os outros a que vários momentos remetem, mesmo que não conheçamos inteiramente (ou que eu não conheça) com quem ou com que fime se dialoga ali. Por exemplo, toda a situação do incêndio no cinema é antológica, já a vimos no cinema-catástrofe inúmeras vezes e a refilmagem de Tarantino corresponde, para mim, por exemplo, à retomada da cena na escadaria de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, cuja melhor homenagem se dá em Os intocáveis, de Brian de Palma, no tiroteio entre mocinhos e bandidos, enquanto um carrinho com um bebê desce escada abaixo. O filme de Tarantino parece dialogar com a história do cinema, e a gente o vê um pouco também como um livro, em que outras histórias a contrapelo se formam à medida que se lê.
Além disso, tem o ator que faz o caçador de nazistas, o até então desconhecido Christoph Waltz, que rouba mesmo a cena do Brad Pitt e de qualquer outro com quem contracena, e vale todos os olhos fechados dos momento escatológicos.
Por último, o encontro final entre Pitt e Waltz me pareceu a cereja no topo do bolo: afinal, Tarantino está rindo do mote de que toda a humanidade quer viver na América, terra da liberdade, democracia e oportunidades?; está relendo a cena final de Caçada ao outubro vermelho?, ou está mesmo afirmando o que a cena diz? Não haver apenas uma opção parece ser um dos encantos de seu cinema.
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Acho que a pergunta que nos fazemos quase sempre ao final de um filme - se gostamos, não gostamos - não se coloca muito com relação a Bastardos inglórios, do Tarantino. Afinal quem tem prazer em ver nazistas sendo escalpelados, ou sendo mortos a porretes, ou umas 300 pessoas (nazistas, claro) ardendo nas chamas do inferno de uma sala de cinema trancada e sem possibilidade de escape? Só doido ou sádico.
No entanto, a gente vê o filme como enorme interesse e se pergunta aonde ele vai nos levar, o que tudo aquilo significa, que loucura é aquela, já que ninguém mais aguenta cenas com malvados nazistas e aliados do bem sendo massacrados. A coisa estranha já começa com a música de abertura, que nos remete a filmes românticos e melosos. Acompanhamos desconfiados o que vemos na tela e essa desconfiança é um dado intrínseco a tudo que veremos ao longo da fita, na medida em que Tarantino desconstrói todo o tempo cada cena, fazendo-a ser relida pelas inúmeras referências fílmicas, seja sob a forma de paródia, seja como homenagem, seja como elemento de humor.
Parece que vemos dois filmes ao mesmo tempo - esse e todos os outros a que vários momentos remetem, mesmo que não conheçamos inteiramente (ou que eu não conheça) com quem ou com que fime se dialoga ali. Por exemplo, toda a situação do incêndio no cinema é antológica, já a vimos no cinema-catástrofe inúmeras vezes e a refilmagem de Tarantino corresponde, para mim, por exemplo, à retomada da cena na escadaria de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, cuja melhor homenagem se dá em Os intocáveis, de Brian de Palma, no tiroteio entre mocinhos e bandidos, enquanto um carrinho com um bebê desce escada abaixo. O filme de Tarantino parece dialogar com a história do cinema, e a gente o vê um pouco também como um livro, em que outras histórias a contrapelo se formam à medida que se lê.
Além disso, tem o ator que faz o caçador de nazistas, o até então desconhecido Christoph Waltz, que rouba mesmo a cena do Brad Pitt e de qualquer outro com quem contracena, e vale todos os olhos fechados dos momento escatológicos.
Por último, o encontro final entre Pitt e Waltz me pareceu a cereja no topo do bolo: afinal, Tarantino está rindo do mote de que toda a humanidade quer viver na América, terra da liberdade, democracia e oportunidades?; está relendo a cena final de Caçada ao outubro vermelho?, ou está mesmo afirmando o que a cena diz? Não haver apenas uma opção parece ser um dos encantos de seu cinema.
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Good-bye...Solo
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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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