Vi alguns filmes do Festival Varilux 2014, menos do que gostaria porque agora moro numa cidade pequena e qualquer diversão fílmica fica longe e, outro pecado, só tem cinema em shopping. Fazendo as contas, três dias indo e vindo a 52 o táxi, além de alguns cafés e pães de queijo, fizeram desse um dos mais caros que já segui, ever. E não vi todos, mas vi metade dos dezesseis, ou metade mais um se considerar que
Os incompreendidos, do Truffaut, é acessível fora do festival, e acho que já vi a primeira versão há milênios. De todo modo, achei a maioria dos que vi bem medianos, nenhum de tirar o fôlego, e mais comédias do que de ação dramática, de que gosto mais.
Uma viagem extraordinária (2013, Jean-Pierre Jeunet) com Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Kyle Catlett é um filme bonito, do tipo-fofíssima-criança-prodígio-à-procura-de-si- mesma, com um ator mirim muito impressionante e uma mãe vivida pela ótima Bonham Carter. O filme mistura a aventura da road movie, ou melhor, da train movie, do menino que parte para pegar um prêmio que ganhou, mas ao mesmo tempo ficamos sabendo de outros motivos mais profundos e tocantes, que o levam a sair de casa - trata-se menos de uma expedição pela ciência e muito mais uma aventura para se entender e compreender um acontecimento fundamental de que ele fez parte. Muito bom, um dos melhores que vi.
Suzanne (2012, Katell Quilévéré), com Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy. A história dessa moça, Suzanne, me ajudou a entender como é o processo das pessoas que não podem, mas não conseguem mesmo ficar longe de problemas. Sim, claro, é por amor, grande parte das encrencas em que ela se mete é por amor, mas como a moça demora pra aprender vai me dando um pouco de irritação. No final, não contente, ela ainda volta pra cadeia pra purgar um pouco mais os pecados. Não achei muita coisa além disso.
Eu, mamãe e os meninos (2013, Guillaume Gallienne), com Guillaume Galliene, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger. Esse parece ser um filme bem ambicioso, porque trabalha o tempo todo insinuando, sugerindo e mostrando situações de um rapaz possivelmente gay que, ao final, dá uma volta em todo mundo. Ele é engraçado, tem humor ferino, sofre bullying e dá vexames muitas vezes - tudo segundo um certo figurino meio estereotipado do gay. O ator faz muito bem tudo que faz: ele mesmo e sua mãe, uma personagem bem cruel, sobretudo em sua relação com esse filho, especialmente.
Toda a história está bem armada para direcionar o espectador ao modelo um tanto fake de homossexual, corroborado pelos que estão a sua volta - familiares, amigos, colegas. Mesmo o riso é uma coisa meio cúmplice do estereótipo - rimos do que todo mundo ri quando um gay faz "cenas". O que acontece no terço final, ou quase ao final, é uma revirolta que me pareceu meio artificial, embora o filme suporte o turning point sem se destruir. De repente, o riso fica parado na face e vemos um ator em cena, conversando conosco, sua platéia, a respeito do que se pensou que se viu. Ele vai fechar a peça em que atua, contando a história dele e de sua mãe, e ao mesmo tempo vamos sendo apresentados ao verdadeiro Guillaume. Trata-se de uma jogada de cena, e também de uma visada mais esperta do que propriamente dramática, embora haja drama também nas cenas, o que me fez ficar numa posição dúbia quanto ao valor do que vi, do que vejo. Foi como ter sido passada para trás, ter sofrido um golpe de esperteza - muito bem feito, com ótimas atuações, mas insidioso, e golpe. De todo modo, ele vale ser visto sobretudo pelo
tour de force do ator (e diretor) que faz o protagonista, muito bom nos dois papéis.
Um belo domingo (Nicole Garcia, 2013), com Louise Bourgoin, Pierre Rochefort, Dominique Sanda trabalha a ideia do homem solitário, do jovem interessante que guarda um segredo e que será revelado por artimanhas do amor por uma mulher, e do afeto por seu filho. A história dele é bem interessante, e o filme é muito bom de ver, tem aspectos não simplistas quanto aos valores da vida, da grande riqueza e das escolhas que importam na vida de cada um. Nos tempos de hoje, colocar em cena alguém que abdica de enorme herança em favor de um projeto pessoal no caminho da simplicidade é quase um conto da carochinha, mas a história é muito bem conduzida de modo que aceitamos aquela decisão como a coisa certa - tomar a decisão sobre os rumos que quer dar a si mesmo, sobre o melhor caminho e o que a vida realmente significa para ele, já é parte da constituição e da cura do interessantíssimo rapaz. E, afinal, ele ganhou o amor e um filho - a vida pulsa generosa para ele nesse momento, e ele vê isso, agora, pode reconhcer os dons que recebe - e escolher. Filme ótimo, a que se assiste com prazer.

Uma juíza sem juízo (Albert Dupontel, 2012), com Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié trata de um daqueles imbroglios entre pessoas bem diferentes, em todos os sentidos (classe social, valores) e como ao final a vida dá uma volta nelas, que terão de rever seus próprios valores e se adequar à movida dos novos e repentinos acontecimentos em torno deles. É interessante, sobretudo por conta da rigidez dos valores da juíza, e de como ela vai ter que rever quase tudo que pensou e construiu depois de bebemorar numa festa de final de ano da empresa (sempre elas, as tais festas, onde a desrepressão vigora). A atriz principal faz o papel de modo contido, com pontuais crises de histeria, e tudo fica bem divertido.

Um amor em Paris (Marc Fitoussi, 2013), com Isabelle Huppert, Jean-Pierre Darroussin é um típico filme francês, no sentido mais chão de tratar de forma contida, mas clara, a maneira como os franceses abordam a traição no casamento. É um filme para os dois atores, que brilham mesmo, ele talvez mais do que ela, que achei meio já-vi-aquela-expressão-antes. Bem mediano.

Grandes garotos (Anthony Marciano, 2012), com Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain foi um dos mais engraçados, sobretudo porque explora a relação entre um homem mais velho e desiludido com a vida, e um jovem com todos os projetos em andamento, num momento em que ambos precisam engrenar uma outra marcha em suas vidas. Os dois são ótimos atores, belos, e o jovem vivido por Alex Boubil, além de tudo, tem de altura o que carrega de charme e talento. E a atriz que faz a mulher do casal mais velho é a mesma Sandrine Kiberlain, a juíza do outro filme. (Vistos seguidos uns aos outros, nos deparamos com os mesmos atores algumas vezes em vários filmes, fica meio engraçado). Mas desse filme também gostei bem.