terça-feira, 29 de abril de 2014

Irandhir

Hoje, domingo, 27 de abril, é um dia especial: não apenas vi, como tive a audácia de me aproximar do Irandhir Santos, que percebi num relance no hall do Estação Rio, sentado com um amigo, cabelos compridos levantados num meio coque, muito belo.

Eu passei, olhei, parei diante dele e disse: (...) Seu rosto iluminou-se num sorriso - O sorriso -, e respondeu algo que eu entendi como 'que legal, muito obrigado', enquanto o amigo murmurava, voz enfática, 'abraça ela' e ele já se levantava e me abraçava sorrindo e eu dizia 'e ainda ganho abraço que maravilha'. Daí deixei-os, feliz, para entrar na sala e ver O grande mestre.

Passei boa parte do filme tentando lembrar o nome dele, depois os filmes que eu vira com ele. Primeiro lembrei o nome Irandhir, depois só me vinha à mente Serra pelada, onde ele nem está, e muito depois (isso tudo vendo o belo filme sobre lutas marciais) lembrei de O som ao redor, aquele clima opressivo, ele andando pra lá e pra cá, buscando perigos; e Tropa de elite 2, em que faz o deputado Diogo Fraga, que leva o tenente-coronel Nascimento à tribuna da Câmara, para acusar metade do plenário de corrupção; e só em casa me veio o nome do filme em que ele resplandece, tomado pela fúria dos deuses da interpretação, do deboche e da magia criativa: Tatuagem, que comentei nesse post do FestRio 2013.

Essa cultura mambembe, de que trata Tatuagem, essa moldura afetiva, em que tudo fica meio sem borda, e um clima de ninguém é de ninguém, além de fazer parte do way of life de uma parte da geração dos setenta/oitenta, compõe também o perfil de um tempo no país em que alargar os limites do permitido era uma forma de resistência, uma maneira de ser contra - a ditadura, a repressão, o desconhecido-que-se-ouvia-em-sussurros-por-todo-lado. Há também uma pegada tropicália, um abocanhar tudo de cultura que pudesse fazer vibrar o coração. Ver Irandhir foi como rever um pedaço de nossa cultura geral, e não apenas fílmica, mas também uma parte de minha própria história nela. Como na frase clichê, ele - sim - me representa.


sábado, 26 de abril de 2014

Um: Hoje eu quero voltar sozinho. Dois: Pelo malo.

Saí de um, logo depois vi o outro. O um: Hoje quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro, 2014). O outro: Pelo malo (Mariana Rondón, 2014). Em comum: jovens adolescentes em um, de classe média informada; jovem pré adolescente em outro, de classe muito pobre, e oprimida ainda pela ignorância. O bem que o um me fez, o outro me desfez.

O que um tem de emocionante: primeiro, a celeuma exterior, a efervescência de enormes parcelas de jovens, de todos os cantos do país, pedindo para que o filme passe em suas cidades - é um clamor forte, muito alto, e isso precisa ser lido, precisa ser ouvido. O que eu ouço é a voz de jovens querendo entender sua sexualidade e, sobretudo, ter certeza de que ele é um ser absolutamente normal, que gostar de outro ser do mesmo sexo não lhe assegura passagem direta para o inferno. Eles querem - eu acho - a força do coletivo que os autoriza a ter os desejos que têm; eles querem amar e ser aceitos e se sentir parte da turma, qualquer turma que queiram, e não a que lhes imputem. O que o fillme faz por eles é, primeiro, tratar como normal o que é normal - quando Leo diz que talvez esteja apaixonado por Gabriel, sua amiga não faz nenhuma cena, no máximo diz que não esperava aquilo, talvez porque ela mesma tinha esperanças de vir a ser a primeira a beijar o amigo. Mais que isso, o diretor e roteirista faz com que um jovem cego (portanto, diferente dos outros desde o nascimento) e que se descobre gay, que sofre bullyng no colégio, que tem uma mãe castradora, mas um pai e uma avó com quem ele pode contar, ou seja, duas bases de suporte afetivo - que esse jovem encontre sua sexualidade sem grandes traumas ou paranóias e, além disso, seja correspondido em sua primeira paixão - isso, em si, já é coisa à beça, e ele sai inteiro do embate.

Além disso, o filme é singelo e delicado no modo como encena o encontro desse amor - são jovens de certo modo puros, é quase um conto de fadas, sem vilões, sem violências, sem posturas amorais de nenhum personagem. Tudo simples, bonito, inaugural - como as vidas que eles prenunciam, e que desejamos sejam boas, plenas, com as melhores realizações. É o que desejamos para nossos filhos.

O dois deveria ter sido visto outro dia, mas não foi. E não é um conto de fadas, não é edificante, não traz nenhum final feliz, não é permeado de delicadezas ou amenidades. Mesmo o humor, que sempre vem das tentativas singelas do menino em ter um cabelo liso, a despeito da natureza encaracolada do seu, para vir a se tornar um cantor de sucessos, mesmo esse riso é meio triste, porque sobre uma fantasia infantil veiculada pela cultura massificada, plastificada e bestificada de um país que reconhecemos como sendo a Venezuela do senhor-de-todos-os-populismos, pela cena dos vários solidários com seu câncer, no ato de raspar a cabeça. A família composta de mãe, filho e criança pequena está em busca de alguma saída para a falta de... tudo: não há emrprego, não há afeto entre mãe e filho (ou, ao menos, eles não sabem como expressar esse afeto sem ser rudes), não há clareza dela em relação ao que ele deseja com aquela mania de alisar o cabelo e cantar: seria seu filho um maricón? E ainda a ignorância, a fome e as tantas necessidades - fazer sexo com o patrão em troca do antigo emprego, deixar a porta aberta para que o filho veja (e se torne homem?) - toda uma gama de crueldades e opacidades e grosserias que a dura vida e a duríssima pobreza impõe. O filme é um retrato falado das mazelas impostas por um certo tipo de contrato social, que tanto parece de lá, como de cá. As vidas que ele encena caminham sem leveza em direção à busca de sobrevivência, de suas formas possíveis. Eu saí da sala triste, sem nenhum consolo face à desolação, não apenas de nossos hermanos de lá, mas de vários cantos de cá.

terça-feira, 22 de abril de 2014

Histórias que contamos

Acabei de ver na TV, encantada, o documentário Histórias que contamos (Canadá, 2012), de Sarah Polley, que faz um percurso interessantíssimo sobre um tema aparentemente sem nenhuma importância para qualquer outra pessoa, além de sua própria família, mas que vai prendendo a atenção de quem vê pelo brilhantismo dos desdobramentos das histórias contadas e lembradas, sobretudo a de sua mãe, e dela própria, Sarah, já que o filme acaba se revelando também a história de seu nascimento, da paixão fora do casamento de que ela é o fruto,e de que só tomou conhecimento na idade adulta.

É fascinante a maneira como ela vai voltando no tempo e recolhendo depoimentos de amigos, conhecidos, parentes que conheceram os envolvidos, a mãe, sobretudo, e como ela junta os retalhos de uma colcha preciosa não apenas com depoimentos, mas igualmelnte com filmes de épocas passadas, de sua infância, da juventude dos pais, dos amigos, tudo encaixado de forma precisa, de modo que os eventos fluem como se feito para estar ali, nesse documentário que ela elabora agora, reconstruindo o que parece ter sido filmado para ele, tantos anos depois. É de uma delicadeza e de uma inteligência absolutas.

E para coroar a série de engenhosidades desse filme, o que se vê também é uma história escrita pelo pai que a criou como filha até a idade adulta, cujo choque com a revelação de que Sarah não é sua filha biológica o leva a escrever compulsivamete, para entender, para aceitar e perdoar a mulher a quem nunca deixou de amar. Um filme, definitivamente, apaixonante.


quinta-feira, 17 de abril de 2014

Cinema Varilux 2014

Vi alguns filmes do Festival Varilux 2014, menos do que gostaria porque agora moro numa cidade pequena e qualquer diversão fílmica fica longe e, outro pecado, só tem cinema em shopping. Fazendo as contas, três dias indo e vindo a 52 o táxi, além de alguns cafés e pães de queijo, fizeram desse um dos mais caros que já segui, ever. E não vi todos, mas vi metade dos dezesseis, ou metade mais um se considerar que Os incompreendidos, do Truffaut, é acessível fora do festival, e acho que já vi a primeira versão há milênios. De todo modo, achei a maioria dos que vi bem medianos, nenhum de tirar o fôlego, e mais comédias do que de ação dramática, de que gosto mais.

Uma viagem extraordinária (2013, Jean-Pierre Jeunet) com Helena Bonham Carter, Judy Davis, Callum Keith Rennie, Kyle Catlett é um filme bonito, do tipo-fofíssima-criança-prodígio-à-procura-de-si- mesma, com um ator mirim muito impressionante e uma mãe vivida pela ótima Bonham Carter. O filme mistura a aventura da road movie, ou melhor, da train movie, do menino que parte para pegar um prêmio que ganhou, mas ao mesmo tempo ficamos sabendo de outros motivos mais profundos e tocantes, que o levam a sair de casa - trata-se menos de uma expedição pela ciência e muito mais uma aventura para se entender e compreender um acontecimento fundamental de que ele fez parte. Muito bom, um dos melhores que vi.

Suzanne (2012, Katell Quilévéré), com Sara Forestier, François Damiens, Adèle Haenel, Paul Hamy. A história dessa moça, Suzanne, me ajudou a entender como é o processo das pessoas que não podem, mas não conseguem mesmo ficar longe de problemas. Sim, claro, é por amor, grande parte das encrencas em que ela se mete é por amor, mas como a moça demora pra aprender vai me dando um pouco de irritação. No final, não contente, ela ainda volta pra cadeia pra purgar um pouco mais os pecados. Não achei muita coisa além disso.

Eu, mamãe e os meninos (2013, Guillaume Gallienne), com Guillaume Galliene, André Marcon, Françoise Fabian, Diane Kruger. Esse parece ser um filme bem ambicioso, porque trabalha o tempo todo insinuando, sugerindo e mostrando situações de um rapaz possivelmente gay que, ao final, dá uma volta em todo mundo. Ele é engraçado, tem humor ferino, sofre bullying e dá vexames muitas vezes - tudo segundo um certo figurino meio estereotipado do gay. O ator faz muito bem tudo que faz: ele mesmo e sua mãe, uma personagem bem cruel, sobretudo em sua relação com esse filho, especialmente.

Toda a história está bem armada para direcionar o espectador ao modelo um tanto fake de homossexual, corroborado pelos que estão a sua volta - familiares, amigos, colegas. Mesmo o riso é uma coisa meio cúmplice do estereótipo - rimos do que todo mundo ri quando um gay faz "cenas". O que acontece no terço final, ou quase ao final, é uma revirolta que me pareceu meio artificial, embora o filme suporte o turning point sem se destruir. De repente, o riso fica parado na face e vemos um ator em cena, conversando conosco, sua platéia, a respeito do que se pensou que se viu. Ele vai fechar a peça em que atua, contando a história dele e de sua mãe, e ao mesmo tempo vamos sendo apresentados ao verdadeiro Guillaume. Trata-se de uma jogada de cena, e também de uma visada mais esperta do que propriamente dramática, embora haja drama também nas cenas, o que me fez ficar numa posição dúbia quanto ao valor do que vi, do que vejo. Foi como ter sido passada para trás, ter sofrido um golpe de esperteza - muito bem feito, com ótimas atuações, mas insidioso, e golpe. De todo modo, ele vale ser visto sobretudo pelo tour de force do ator (e diretor) que faz o protagonista, muito bom nos dois papéis.

Um belo domingo (Nicole Garcia, 2013), com Louise Bourgoin, Pierre Rochefort, Dominique Sanda trabalha a ideia do homem solitário, do jovem interessante que guarda um segredo e que será revelado por artimanhas do amor por uma mulher, e do afeto por seu filho. A história dele é bem interessante, e o filme é muito bom de ver, tem aspectos não simplistas quanto aos valores da vida, da grande riqueza e das escolhas que importam na vida de cada um. Nos tempos de hoje, colocar em cena alguém que abdica de enorme herança em favor de um projeto pessoal no caminho da simplicidade é quase um conto da carochinha, mas a história é muito bem conduzida de modo que aceitamos aquela decisão como a coisa certa - tomar a decisão sobre os rumos que quer dar a si mesmo, sobre o melhor caminho e o que a vida realmente significa para ele, já é parte da constituição e da cura do interessantíssimo rapaz. E, afinal, ele ganhou o amor e um filho - a vida pulsa generosa para ele nesse momento, e ele vê isso, agora, pode reconhcer os dons que recebe - e escolher. Filme ótimo, a que se assiste com prazer.

Uma juíza sem juízo (Albert Dupontel, 2012), com Sandrine Kiberlain, Albert Dupontel, Nicolas Marié trata de um daqueles imbroglios entre pessoas bem diferentes, em todos os sentidos (classe social, valores) e como ao final a vida dá uma volta nelas, que terão de rever seus próprios valores e se adequar à movida dos novos e repentinos acontecimentos em torno deles. É interessante, sobretudo por conta da rigidez dos valores da juíza, e de como ela vai ter que rever quase tudo que pensou e construiu depois de bebemorar numa festa de final de ano da empresa (sempre elas, as tais festas, onde a desrepressão vigora). A atriz principal faz o papel de modo contido, com pontuais crises de histeria, e tudo fica bem divertido.

Um amor em Paris (Marc Fitoussi, 2013), com Isabelle Huppert, Jean-Pierre Darroussin é um típico filme francês, no sentido mais chão de tratar de forma contida, mas clara, a maneira como os franceses abordam a traição no casamento. É um filme para os dois atores, que brilham mesmo, ele talvez mais do que ela, que achei meio já-vi-aquela-expressão-antes. Bem mediano.

Grandes garotos (Anthony Marciano, 2012), com Alain Chabat, Max Boublil, Sandrine Kiberlain foi um dos mais engraçados, sobretudo porque explora a relação entre um homem mais velho e desiludido com a vida, e um jovem com todos os projetos em andamento, num momento em que ambos precisam engrenar uma outra marcha em suas vidas. Os dois são ótimos atores, belos, e o jovem vivido por Alex Boubil, além de tudo, tem de altura o que carrega de charme e talento. E a atriz que faz a mulher do casal mais velho é a mesma Sandrine Kiberlain, a juíza do outro filme. (Vistos seguidos uns aos outros, nos deparamos com os mesmos atores algumas vezes em vários filmes, fica meio engraçado). Mas desse filme também gostei bem.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

sem som

Se as palavras não conseguem mais a ordem do sentido, algumas imagens talvez possam dizer um som quase inaudível. Em tradução crua: sem a menor paciência pra escrever sobre o que quer que.








sábado, 5 de abril de 2014

Dr. Fábio Machado Landim - In Memorian


 Ele faria hoje 40 anos. Que esteja  no melhor lugar, aquele que seu  nobre coração merece habitar.

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 Ele não era apenas meu sol, como  no poema de Auden. Ele era o sol  de todos nós, de quem ele cuidou  com serenidade, leveza e  generosidade. Ele era o sol de todos  cujas vidas salvou, e foram  muitas. E todos nós íamos a ele, nos momentos de pânico total, de medo  absurdo, e só em vê-lo tudo ficava melhor, mais compreensível, mais tolerável.

 Ele foi meu oncologista, e só tinha 34 anos, muita sabedoria, uma crença  profunda nas pessoas, em sua profissão, uma gentileza intrínseca, um coração  enorme. E serenidade.

  Morreu numa cirurgia boba, desobstrução nasal, saiu do centro cirúrgico bem,  com esse sorriso que era sua marca. De repente tudo mudou. Ele se foi em 21 de  outubro, só soube ontem, e me sinto mais órfã hoje do que jamais.


terça-feira, 1 de abril de 2014

Três filmes, e um quarto

Os finais dos três filmes recentes que vi se assemelham, de algum modo, na forma como recusam um fácil happy ending, o que lhes confere uma outra qualidade, e densidade.

Entre nós (Paulo Morelli, 2014, com Carolina Dieckman, Caio Blat, Paulo Vilhena, Maria Ribeiro, Julio Andrade, Martha Nowill e Lee Taylor) conta uma história ótima sobre as aventuras vividas por um grupo de jovens, que acontecem em dois momentos: dez anos antes, e dez anos depois, quando eles se reúnem para ler as cartas que haviam deixado lá atrás, no auge da juventude e dos sonhos mais bonitos.

Nesse presente, as coisas não saíram como esperavam, mas o que realmente move a trama é o fato de haver um escritor, vivido (bem) por Caio Blat, que de certo modo 'herda' um livro de um amigo. Há outros imbroglios, os pares amorosos de antes são desfeitos e refeitos, e um dos presentes agora é constituído pela atriz Marta Nowill, que achei uma das atrizes mais interessantes do grupo, talvez porque engraçada, cheia de energia e boa praça, mas todos os outros (e outras) estão muito bem, gostei muito de tê-lo visto, e também de seu final.

Em Inside Llewyn Davis: balada de um homem comum (Ethan Cohen, Joel Cohen, 2014), com Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, o que deixa o espectador com o olho grudado na tela é a sina do protagonista, o fato dele não conseguir engrenar uma saída para a sua vida, para o seu trabalho de cantor e instrumentista. Os diretores miram e acertam a mirada nesse ser relativamente banal, que dá um passo à frente e dois para trás, cuja vida é constituída dos pequenos fracassos cotidianos, sem grandeza, sem projetos e sem ambição. Um ser capturado em seus momentos verdadeiramente banais, sem qualquer heroísmo - até o gesto nobre de tentar devolver o gato do amigo acaba virando um pastiche, um completo equívoco. E o outro animal ele abandona sem dó, dentro de um carro. Radiografia e síntese de qualquer um nos momentos de uma vida em preto e branco, sem a luz do sucesso, ou da grandeza - só o cinza da mesmice.

The lunchbox (Ritesh Batra, 2014), com Irrfan Khan, Nimrat Kaur, Nawazuddin Siddiqui é um filme que foca quase inteiramente dois personagens, um de cada vez, lendo ou escrevendo uma carta, um bilhete, e mesmo assim consegue prender a atenção do espectador do começo ao fim.

Achei muitíssimo interessante o modo como o diretor apresenta a história desse viúvo, cujo etapa de vida no trabalho monótono de contabilidade ele está em vias de concluir, aposentando-se, mas cuja vida fora dali tampouco tem a mais remota cor da vivacidade e/ou da alegria. Eis senão quando um equívoco leva até ele uma marmita com almoço, preparado por uma jovem senhora casada (e insatisfeita), que fez o melhor repasto com o fim de seduzir o marido, que a cada dia vem-se distanciando mais dela, e do casamento. Tudo pronto para uma história de captura amorosa pela boca, pela culinária, como já vimos tantas vezes.

Mas aqui as coisas são mais complexas, mais delicadas, mais bonitas e tristes também, embora mais tocantes, mais intrigantes, e cuja ambiguidade talvez se encontre numa de suas frases axiomáticas: "Às vezes, o trem errado pode deixar na estação certa." Torço para que eles se encontrem na estação certa, seja onde for.

O quarto é Até o fim, com Robert Redford: um tour de force em que ele fica sozinho o filme todo, lutando contra o mar tempestuoso, e consegui ver com interesse, atenção e um certo espanto - até o fim :)). Aliás, gosto muito dele, como ator e como figura pública.