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Saí para ver Suprema felicidade, do Jabor, mas ando tão sem paciência que as mais de duas horas do filme me pareceram excessivas e não tive vontade de entrar no cinema. Tomei um café, voltei e vou tentar ler alguma coisa. Já li livros que não tenho tido vontade de comentar - Em alguma parte alguma, do Gullar, por exemplo, de que gostei muito. Não vou comentá-lo, mas copio um poema belo sobre a grande dama:
A morte
A morte não tem avenidas iluminadas
não tem caixas de som atordoantes
tráfego engarrafado
não tem praias
não tem bundas
não tem telefonemas que não vêm nunca
a morte
não tem culpas
nem remorsos
nem perdas
não tem
lembranças doídas de mortos
nem festas de aniversário
a morte
não tem falta de sentido
não tem vontade de morrer
não tem desejos
aflições
o vazio vazio da vida
a morte não tem falta de nada
não tem nada
é nada
a paz do nada (p. 63)
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Ferreira Gullar, Em alguma parte alguma. Rio de Janeiro: Jose Olympio, 2010.
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sábado, 30 de outubro de 2010
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
Relâmpagos II
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Eu tenho a impressão de já ter visto essa pintura no MAM, e tenho igualmente a impressão de que passei por ela, olhei-a meio rapida e displicentemente, como faço quando não entendo bem o que sentir ou como entender um objeto de arte, cujas regras de fruição não estejam de algum modo explícitas. Mas aí o Ferreira Gullar escreve isso para mim, me diz o que foi que eu vi e não entendi, me explica como é que nasce uma cor no coração de uma tela, e eu me lembro então do que não vira, revejo agora, agradecendo pasma pela beleza revelada:
Arcângelo Ianelli: no limite do ver
Não é mais mostrar as formas do mundo
ou do sonho,
da natureza ou da imaginação.
Não é mais figurar, descrever, representar, narrar, aludir.
Não há alusão.
Nem tampouco ênfase, orquestração
das dissonâncias,
dos conflitos de formas ou cores.
Não há conflitos.
Pintar, para Arcângelo Ianelli agora é
suscitar o surgimento da cor.
Fazer silêncio e deixar que ela (a cor) imerja
nele - do cerne dele - densa, luminosa.
Vinda do fundo da sombra, a cor
trêmula tênue
como frágil aparição
que fosse se apagar em seguida
Mas não: essa fragilidade é parte essencial
da aparição
como a chama que bruxuleia - por ser chama -
mas se mantém viva e ardente.
Pintar para Ianelli agora é mostrar a cor como pura duração.
E os grandes quadros
parecem feitos
para que neles
o pintor, você e eu,
nos apaguemos
fundidos em azul
em violeta
em rosa
em cinza
em luz (p. 138)
_______
E há ainda esse pequeno e belo poema, falando do quadro "Natureza morta com copos de leite e violino", do Carlos Bracher (de quem nunca ouvira falar antes):
Pintura
Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos. (p. 143)
Eu não sabia a qual amarelo ele se referia, porque na foto do livro há pelo menos dois espaços em amarelo, mas ao encontrar o quadro na internet pude perceber com clareza do que ele fala: esse clarão à direita e no alto também queimaria meus dedos, depois que o poema me mostrou o incêndio da cor, e sua beleza.
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Eu tenho a impressão de já ter visto essa pintura no MAM, e tenho igualmente a impressão de que passei por ela, olhei-a meio rapida e displicentemente, como faço quando não entendo bem o que sentir ou como entender um objeto de arte, cujas regras de fruição não estejam de algum modo explícitas. Mas aí o Ferreira Gullar escreve isso para mim, me diz o que foi que eu vi e não entendi, me explica como é que nasce uma cor no coração de uma tela, e eu me lembro então do que não vira, revejo agora, agradecendo pasma pela beleza revelada:
Arcângelo Ianelli: no limite do ver
Não é mais mostrar as formas do mundo
ou do sonho,
da natureza ou da imaginação.
Não é mais figurar, descrever, representar, narrar, aludir.
Não há alusão.
Nem tampouco ênfase, orquestração
das dissonâncias,
dos conflitos de formas ou cores.
Não há conflitos.
Pintar, para Arcângelo Ianelli agora é
suscitar o surgimento da cor.
Fazer silêncio e deixar que ela (a cor) imerja
nele - do cerne dele - densa, luminosa.
Vinda do fundo da sombra, a cor
trêmula tênue
como frágil aparição
que fosse se apagar em seguida
Mas não: essa fragilidade é parte essencial
da aparição
como a chama que bruxuleia - por ser chama -
mas se mantém viva e ardente.
Pintar para Ianelli agora é mostrar a cor como pura duração.
E os grandes quadros
parecem feitos
para que neles
o pintor, você e eu,
nos apaguemos
fundidos em azul
em violeta
em rosa
em cinza
em luz (p. 138)
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E há ainda esse pequeno e belo poema, falando do quadro "Natureza morta com copos de leite e violino", do Carlos Bracher (de quem nunca ouvira falar antes):
Pintura
Eu sei que se tocasse
com a mão aquele canto do quadro
onde um amarelo arde
me queimaria nele
ou teria manchado para sempre de delírio
a ponta dos dedos. (p. 143)
Eu não sabia a qual amarelo ele se referia, porque na foto do livro há pelo menos dois espaços em amarelo, mas ao encontrar o quadro na internet pude perceber com clareza do que ele fala: esse clarão à direita e no alto também queimaria meus dedos, depois que o poema me mostrou o incêndio da cor, e sua beleza.
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domingo, 15 de agosto de 2010
Relâmpagos
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Parece que as coisas começam a entrar nos eixos. A mãe permanece em estado equilibrado - tudo em equilíbrio: saúde, humor, perspectivas, presente e futuro perceptível. Assim, parei de fazer palavras cruzadas à noite e, voltando a ler, já liquase todo Relâmpagos, do Ferreira Gullar - como tem coisa boa nesse livro. A primeira delas, que eu nunca antes havia notado, é que posso colocá-lo na cama sem qualquer problema, parece que os livros de arte da Cosac têm o dom de parecer não apenos belos, belíssimos, mas limpos, porque brilham e têm um toque de folha suave, são confiáveis, pois, e posso acolhê-los como a um pet que se ama, que coisa estranha, só agora me dei conta disso.
Bom, os textos são magníficos alguns, ótimos a maioria, e absolutamente necessários todos. Fiquei muito grata ao Gullar por ter me devolvido o prazer de ler, a sensação renovada de estar comungando com alguma coisa intrinsecamente bela, maior do que eu, onde encontro sentimentos que apaziguam, me aproximam do melhor em mim. E ele é poeta, portanto lê a arte da pintura com esse viés de poeta-crítico, num texto que tem muito de leveza, no melhor sentido, de beleza, conhecimento e síntese. Ia dizer que talvez o estilo seja meio bloguístico, pela contenção, mas não é verdade, é ensaio crítico da melhor qualidade, com a simplicidade dos grandes escritos.
Sobre "Las meninas", uma pintura que já teve a análise definitiva e complexíssima de Foucault (além de outra estupenda de uma amiga minha, Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba, que pode lida aqui ), Gullar consegue ainda acrescentar coisa nova para mim. Sim, porque todos sabemos que se trata de uma pintura en abîme, reflexos de espelhos vários mimetizando a atividade-que-se-realiza-no-instante-de-fazer-se, mas ele abre seu comentário desse modo arrebatador:
O quadro está de costas e está de frente: de costas para você (que o vê por trás ao lado esquerdo) e de frente para Velázquez que o pinta. Mas a verdade é que está de frente para você e já pintado. Aliás, desde 1656. Não obstante, Velázquez (você o vê) o está pintando. São duas faces do tempo numa mesma superfície de tela. (p. 30).
Não é promissor para o que virá a seguir? E o que vem é muito interessante, permite rever o quadro para além das leituras todas, permite re-ver a intrínseca beleza da arte de Velázquez.
Sobre Rembrandt e seu "Aristóteles com um busto de Homero" a homenagem comentário em forma de belíssimo poema, cujos versos iniciais emocionam,
Como um jorro de seda (em pregas,
em dobras) a luz
se instala na tela, naquele
espaço que é treva
como todo espaço
onde a luz (o pincel
de Rembrandt) ainda não
chegou (p. 38)
mas o texto em prosa-homenagem também tem poder de encantar:
Não é uma sensação apenas visual - é também táctil, de espessa (e fulgurante) materialidade: no ombro esquerdo da figura, que emerge da sombra, um dos pontos onde se dá a passagem, o conflito de luz e treva, a matéria pictórica é rugosa, ferida, quase desordem... (p. 39)
E há, por fim, outro poema que comenta a "Madonna of the carnation", de Da Vinci, quando ele recorre à imagem de uma mancha azul. Nesse momento, eu percebi que há muita ignorância em meu olhar, séculos de ignorância, porque tentei muito mas não vi o azul - no máximo, um lilás clarinho, mas quem sou eu para não ver azul onde o mestre o vê desse modo tão pungente?
Mancha
Em que parte de mim ficou
aquela mancha azul?
ou melhor, esta
mancha
de um azul que nenhum céu teria
ou teve ou mar?
um azul
que a mão de Leonardo achou
ao acaso e inevitavelmente
e não só:
um azul
que há séculos
numa tarde talvez
feito um lampejo surgiu no mundo
essa cor
essa mancha
que a mim chegou
de detrás de dezenas de milhares de manhãs
e noites estreladas
como um puído
aceno humano.
Mancha azul
que carrego comigo como carrego meus cabelos
ou uma lesão
oculta onde ninguém sabe. (p. 47)
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Ferreira Gullar. Relâmpagos - dizer o ver. São Paulo: Cosac Naify, 2003; 2007; 2010 (?)
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Parece que as coisas começam a entrar nos eixos. A mãe permanece em estado equilibrado - tudo em equilíbrio: saúde, humor, perspectivas, presente e futuro perceptível. Assim, parei de fazer palavras cruzadas à noite e, voltando a ler, já li
Bom, os textos são magníficos alguns, ótimos a maioria, e absolutamente necessários todos. Fiquei muito grata ao Gullar por ter me devolvido o prazer de ler, a sensação renovada de estar comungando com alguma coisa intrinsecamente bela, maior do que eu, onde encontro sentimentos que apaziguam, me aproximam do melhor em mim. E ele é poeta, portanto lê a arte da pintura com esse viés de poeta-crítico, num texto que tem muito de leveza, no melhor sentido, de beleza, conhecimento e síntese. Ia dizer que talvez o estilo seja meio bloguístico, pela contenção, mas não é verdade, é ensaio crítico da melhor qualidade, com a simplicidade dos grandes escritos.
Sobre "Las meninas", uma pintura que já teve a análise definitiva e complexíssima de Foucault (além de outra estupenda de uma amiga minha, Maria Antonieta Jordão de Oliveira Borba, que pode lida aqui ), Gullar consegue ainda acrescentar coisa nova para mim. Sim, porque todos sabemos que se trata de uma pintura en abîme, reflexos de espelhos vários mimetizando a atividade-que-se-realiza-no-instante-de-fazer-se, mas ele abre seu comentário desse modo arrebatador:
O quadro está de costas e está de frente: de costas para você (que o vê por trás ao lado esquerdo) e de frente para Velázquez que o pinta. Mas a verdade é que está de frente para você e já pintado. Aliás, desde 1656. Não obstante, Velázquez (você o vê) o está pintando. São duas faces do tempo numa mesma superfície de tela. (p. 30).
Não é promissor para o que virá a seguir? E o que vem é muito interessante, permite rever o quadro para além das leituras todas, permite re-ver a intrínseca beleza da arte de Velázquez.
Sobre Rembrandt e seu "Aristóteles com um busto de Homero" a homenagem comentário em forma de belíssimo poema, cujos versos iniciais emocionam,
Como um jorro de seda (em pregas,
em dobras) a luz
se instala na tela, naquele
espaço que é treva
como todo espaço
onde a luz (o pincel
de Rembrandt) ainda não
chegou (p. 38)
mas o texto em prosa-homenagem também tem poder de encantar:
Não é uma sensação apenas visual - é também táctil, de espessa (e fulgurante) materialidade: no ombro esquerdo da figura, que emerge da sombra, um dos pontos onde se dá a passagem, o conflito de luz e treva, a matéria pictórica é rugosa, ferida, quase desordem... (p. 39)
E há, por fim, outro poema que comenta a "Madonna of the carnation", de Da Vinci, quando ele recorre à imagem de uma mancha azul. Nesse momento, eu percebi que há muita ignorância em meu olhar, séculos de ignorância, porque tentei muito mas não vi o azul - no máximo, um lilás clarinho, mas quem sou eu para não ver azul onde o mestre o vê desse modo tão pungente?
Mancha
Em que parte de mim ficou
aquela mancha azul?
ou melhor, esta
mancha
de um azul que nenhum céu teria
ou teve ou mar?
um azul
que a mão de Leonardo achou
ao acaso e inevitavelmente
e não só:
um azul
que há séculos
numa tarde talvez
feito um lampejo surgiu no mundo
essa cor
essa mancha
que a mim chegou
de detrás de dezenas de milhares de manhãs
e noites estreladas
como um puído
aceno humano.
Mancha azul
que carrego comigo como carrego meus cabelos
ou uma lesão
oculta onde ninguém sabe. (p. 47)
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Ferreira Gullar. Relâmpagos - dizer o ver. São Paulo: Cosac Naify, 2003; 2007; 2010 (?)
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quinta-feira, 15 de abril de 2010
Relâmpagos e Cosac
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Como a gente viveu com as chuvas recentes episódios de barbárie e terceiromundismo, quero registrar uma experiência de primeiro mundo que tive com a editora Cosac Naify.
Comprei há pouco um livro de crítica de arte, lindíssimo, do Ferreira Gullar, com o título Lightning, e não me dei conta de que sendo o título em inglês, o texto poderia sê-lo também, nem pensei nisso.
Quando ele chegou, fiquei encantada com a beleza do objeto livro, das gravuras, do papel, tudo ali é perfeito, mas ao mesmo tempo injuriada, porque a editora não esclarecera na sinopse do site que o texto era em inglês. Eu talvez conseguisse ler bem o livro, mas acho que deveria ter sido avisada do que estava comprando.
Reclamei, braba, sobretudo porque só depois vi que havia uma edição em português, com o título Relâmpagos, mesma capa, tudo igual, pela metade do preço.
O fato é que a Cosac prontamente atendeu meu pedido de troca, e uma coisa nunca vista por mim antes aconteceu: na segunda feira alguém dos Correios pegou o livro em inglês na portaria de manhã, e à tarde outro alguém deixou aqui o livro em português. Isso é ou não é primeiro mundo? Eu não acreditava que isso pudesse acontecer, mas um amigo me disse que São Paulo é outro Brasil, agora estou quase acreditando.
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