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quinta-feira, 23 de junho de 2016

Órfãos do Eldorado

Gosto de tudo em Órfãos do Eldorado: a exuberância das matas, dos rios, das águas, dos desejos - tudo nele é excesso e paixão desmedida, numa fotografia deslumbrante, e o brasilzão pulsando nas histórias, nos casos contados, e Arminto, meio Macunaíma, procurando sua Ci, mãe do mato, mato a dentro, rio a fora, mais o Hatoum fazendo pontinha e entregando peixe a ele, dentro d'água, que lindeza. E que belas e fortes cenas com Florita, sim também para elas. E preciso ler o livro.


Big Jato

Big Jato (Cláudio Assis, 2016). Com Matheus Nachtergaele, Rafael Nicário, Marcella Cartaxo.

O filme todo é bom, mas alguns aspectos são melhores. Por exemplo: Matheus – o que é aquilo que vemos nesse ser tão incomensuravelmente grande e bom e magnífico que empresta voz, corpo, alma, tiques e transcendência para viver dois irmãos bem diferentes um do outro, e criar essa diferença no geral e no particular, no temperamento, nos tiques, nos detalhes, e acaba sendo um exercício comovente ver a entrega do ator às minúcias de caracterização, à entrega apaixonada aos dois homens que ele incorpora. Marcela Cartaxo também está excelente como a mulher do motorista do caminhão Big Jato, o limpa-fossas do sertão. 

Nesse papel, Matheus faz um homem ébrio quase todo o tempo, que anda com o filho na boleia do caminhão pra lá e pra cá, conversando, aconselhando, falando as verdades simples que o menino precisa aprender, para crescer como um homem, semelhante à filosofia de para-choque inscrita na traseira do veículo: “Quem não reage, rasteja”. Filosofia que perpassa todos os personagens, em níveis variados de perspicácia, no que se poderia chamar de papo de botequim elevado ao nível do bom cinema, e cuja síntese são as  sacadas existenciais do personagem de Jards Macalé, a meu ver, o mais fraco elo do conjunto de atuações, mesmo seus “ensinamentos’ me pareceram aquém do que se poderia esperar. Mas o menino vai-se transformando em rapaz e precisa ouvir, aprender, talvez ser convencido de que a poesia, sua vocação, não serve para o mundo, diz-lhe o pai caminhoneiro; ao que o tio locutor da rádio local, incorrigível bon vivant, responde dando-lhe por presente uma máquina de escrever, de onde poemas poderão brotar, salvo se o pai, num momento de ira e bebedeira, espatifá-la no chão.

O filme transita, assim, entre os valores de um mundo nordestino, masculino e machista por excelência, jogado sobre os ombros de um jovem em busca de quem é, ou de quem pode vir a ser, mais as cirandas da vida familiar desse núcleo, composto por pai, mãe, três filhos homens e uma menina. Estranhamente, nesse universo de valores machistas arraigados, o rapaz-que-pinta-unhas é menos discriminado, ou assediado pelo pai bravo, do que o que-vive-nas-nuvens-das-palavras. Parece que a questão do trabalho fala mais alto aqui, o ganhar a vida e o pão importa mais do que mostrar-se ou não afeminado.

E vemos na tela, então, uma espécie de poema em imagens sobre a aridez e a ternura possíveis num contexto cultural sobredeterminado, em que se tenta viver um pouco além dos limites inarredáveis da pobreza material e intelectual, na tentativa de escapar ao confinamento geográfico, existencial, material. E Nachtergaele, penso, é o grande motor que faz a engrenagem da peça toda mover-se, com a força e maestria das grandes artes.