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Eu ia entrar em recesso por tempo indeterminado, como o Idelber, mas no meu caso por falta absoluta de leitores, já que os meus 2 ou 3 resolveram fazer forfait.
Mas eis que surge a sempre pródiga e bem-vindíssima Melissa para de novo salvar esse blog do naufrágio completo.
En hommage, minha leitura desse romance do McEwan, que acabou por se revelar melhor do eu pensava, aí embaixo.
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quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Jardim de cimento
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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Não, não é absolutamente chato o livro (na verdade, seu primeiro romance) do Ian McEwan, como havia aventado rapidamente lá embaixo, é que eu demorei um pouco a engrenar na leitura e as frases mais descritivas, enquanto as coisas não estão claras, faz parecer lento. Mas ele vai ficando cada vez melhor a partir do momento em que a mãe dos quatro irmãos morre.
Desde que enterram a mulher num baú, dentro do qual jogam cimento e o deixam ficar no sótão, o leitor vai ficando cada vez mais interessado naquelas vidas totalmente entregues ao deus dará, sem lei nem grei, incapazes de sentir profundamente seja o que for - dor, luto, alegria, vergonha. É como se pairassem num lugar sem constrições sociais, sem regras a que obedecer, o que não significa em absoluto que sejam bestializados, mas que vão cada dia mais se colocando à margem da vida comum, violando as normas sem que isso nos pareça absurdo. Só estranho. Como se estivessem anestesiados, já que tampouco veem o tempo passar.
Assim, vão amolecendo os sentidos, e vão descobrindo mais e mais nos corpos uns dos outros uma existência, um estar-no-mundo, uma força que, não sendo pensada, nutre-se mais e mais das sensações epidérmicas. Essa aproximação física dos irmãos é narrada sem detalhes, meio por alto, nos moldes da letargia de que são possuídos, mas nem por isso deixa de pulsar a carga erótica, sobretudo no encontro final entre os dois irmãos.
Toda a estranheza daquelas vidas aumenta quando entra em cena um quinto personagem (ou sexto, já que a mãe morta está viva na história), algo como um namorado da irmã mais velha. Ele vai, de algum modo, suspender o véu do senso comum e sublinhar o estranho daquilo tudo. Espécie de anjo exterminador, quando flagra a namorada na cama com o irmão sabemos que nada mais será como antes. Ele desce, transtornado, ouvem-se marretadas no sótão, um carro que dá a partida e, logo, outros carros com sirene ligada que se aproximam. Os irmãos (Julie, por volta de 17 anos; Jack, 15 anos, narrador; Sue, 13 anos e Tom, talvez 11 anos) estão todos agora no mesmo quarto, trancam a porta e continuam desejando ignorar a realidade.
Começamos a varrer a sujeira e recolhê-la em caixas de papelão, que carregávamos para as latas de lixo. Sue nos ouviu e desceu para ajudar. Desentupimos os ralos, lavamos as paredes, esfregamos o chão. Enquanto Sue e eu atacávamos os pratos, Julie foi comprar os gêneros alimentícios. Acabamos no exato momento em que ela voltou, e logo começamos a cortar os legumes parar preparar um grande cozido. (p. 77-8).
Não estávamos tristes, e sim excitados, numa espécie de torpor. Esquecíamos de falar baixinho até que um de nós fazia shhh! Conversamos sobre a festa de aniversário junto à cama de mamãe e a exibição de Julie, pedindo que a repetisse. Ela chutou algumas roupas para o lado e se pôs de cabeça para baixo num movimento felino, as pernas bronzeadas mal se movendo ao atingir a vertical. Sue e eu aplaudimos baixinho. Foi o som de dois ou três carros parando do lado de fora, as batidas de portas e os passos apressados de várias pessoas no caminho que levava à porta da frente que acordaram Tom. Através de uma abertura nas cortinas, uma luz giratória projetava um reflexo ondulante na parede do quarto. Tom sentou-se, piscando os olhos, e ficou observando aquele efeito luminoso. Reunimo-nos em torno do berço e Julie, inclinando-se para a frente, o beijou.
"Muito bem", ela disse, "que soninho gostoso, não foi?" (p.129).
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Ian McEwan. O jardim de cimento. Tradução Jorio Dauster. São Paulo: Cia das Letras, 2009. Coleção Companhia de Bolso.
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segunda-feira, 26 de outubro de 2009
pedaços de histórias
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Escrevo outro blog há algum tempo, onde assistematicamente comento algumas fotos antigas minhas e o que elas possam significar para mim hoje.
Não pretendo publicar esses posts aqui, apenas esse trecho, em homenagem a Anna V, que começou uma série biográfica muito interessante. São vidas bem diferentes as nossas, mas tudo são, ao fim e ao cabo, histórias.
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O que é bem verdadeiro na foto: a mãe parece querer abraçar os filhos todos, protegê-los, e seu braço direito parece ter uma extensão que vai até o filho homem. Infelizmente, ela não conseguiu concretizar esse gesto ao longo da vida do filho, que morreu jovem, de tiro.
O pai olha para o outro lado, afastado dos filhos e da mulher, braços cruzados em torno de si. Como sempre fora, como sempre fizera.
A mãe sempre foi mais do que seu condição social permitia. Teve uma infância e juventude sem privações, e a vida só ficou muito ruim depois que casou, contra a vontade da família e a despeito de todos os avisos sobre a natureza desregrada do futuro marido. Ela se apaixonou por ele e comeu o pão que aquele amassou, praticamente abandonada à própria sorte, com três filhos para criar (eram quatro, mas uma morreu com seis meses), já que o marido saía para jogar e ficava vários dias fora de casa.
Até que um dia a mãe teve um ataque de loucura e resolveu vender tudo que tinha na casa e vir para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais novo. Quando o pai percebeu que a casa estava no osso e que a mulher não mudaria sua decisão, ele mesmo seguiu na frente para arranjar trabalho e levar a família.
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Escrevo outro blog há algum tempo, onde assistematicamente comento algumas fotos antigas minhas e o que elas possam significar para mim hoje.
Não pretendo publicar esses posts aqui, apenas esse trecho, em homenagem a Anna V, que começou uma série biográfica muito interessante. São vidas bem diferentes as nossas, mas tudo são, ao fim e ao cabo, histórias.
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Essa foto ilustra a chegada da "família imperial ao Rio de Janeiro", mas não corresponde ao que mostra: uma típica família de classe média baixa, feliz, harmoniosa, desfrutando de um domingo de paz nas cercanias da antiga Quinta da Boa Vista. As coisas só têm a aparência de tranquilidade, porque o patriarca e a matriarca dessa família não se falavam, e eram pobres que nem Jó.
O que é bem verdadeiro na foto: a mãe parece querer abraçar os filhos todos, protegê-los, e seu braço direito parece ter uma extensão que vai até o filho homem. Infelizmente, ela não conseguiu concretizar esse gesto ao longo da vida do filho, que morreu jovem, de tiro.
O pai olha para o outro lado, afastado dos filhos e da mulher, braços cruzados em torno de si. Como sempre fora, como sempre fizera.
A mãe sempre foi mais do que seu condição social permitia. Teve uma infância e juventude sem privações, e a vida só ficou muito ruim depois que casou, contra a vontade da família e a despeito de todos os avisos sobre a natureza desregrada do futuro marido. Ela se apaixonou por ele e comeu o pão que aquele amassou, praticamente abandonada à própria sorte, com três filhos para criar (eram quatro, mas uma morreu com seis meses), já que o marido saía para jogar e ficava vários dias fora de casa.
Até que um dia a mãe teve um ataque de loucura e resolveu vender tudo que tinha na casa e vir para o Rio de Janeiro, onde já morava seu irmão mais novo. Quando o pai percebeu que a casa estava no osso e que a mulher não mudaria sua decisão, ele mesmo seguiu na frente para arranjar trabalho e levar a família.
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sábado, 24 de outubro de 2009
O santo sujo II
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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Já cumpri o dever de assistir à segunda parte daquele filme para me dar o direito de opinar com decência, o que não fiz porque achei que ele não valia o trabalho.
O outro objeto aos pedaços que comentei aqui foi o livro do Humberto Werneck – Santo sujo, a vida de Jayme Ovalle, que faltava começar do começo, o que fiz agora porque gostei demais dele, e dessa parte tanto quanto da outra.
Nessa metade inicial muitas coisas me interessaram: a origem paraense de Ovalle leva Werneck a descrever a fantástica riqueza gerada pelo ciclo da borracha no Pará e Amazonas, que a gente conhece dos livros de história mas fica muito mais interessante num livro de memórias, porque vira uma espécie de ‘causo’ contado, e bem contado. Também amei as cartas de Mario de Andrade e de Manuel Bandeira a respeito da figura de Ovalle.
Bandeira foi amigo de primeira ordem, divulgou e escreveu em várias ocasiões sobre a Nova Gnomonia, uma brincadeira classificatória de seres e coisas de acordo com sua vocação de ser ou estar no mundo, seu temperamento, suas ambições, enfim, havia muitas variáveis que entravam na definição de algo ou alguém como uma das cinco categorias dessa estranha confraria (os dantas, os parás, os kernianos, os onésimos, os mozarlescos), que acabou virando quase uma ‘filosofia’ para inúmeros intelectuais que conheceram, conviveram e amaram as diatribes ovallianas.
Se Vinicius de Moraes era um entusiasta da classificação gnomônica, foi ainda Bandeira quem se empenhou para que Mario viesse a conhecer Ovalle e desse sua opinião a respeito do amigo, o que Mario faz numa carta magistral, não apenas no estilo (duro e claro e com aquela lucidez absurda que o caracterizava), mas também na perspicácia psicológica, já que havia estado poucos dias com Ovalle nessa ocasião.
A carta, datada de 22⁄07⁄1926, transcrita por Werneck, nos oferece um retrato em preto e branco do biografado:
Quem é mesmo uma maravilha é o Ovalle. Que sujeito bom e sobretudo que sujeito extraordinário. Fiquei adorando ele, palavra. Se eu pudesse escolher um tipo para eu ser eu queria ser o Ovalle.
[...]
Não é que eu deixe de ver também perfeitamente os defeitos, isto é, as desqualidades dele porém o sentimento que ele me inspira é esquisito: uma profunda admiração misturada com uma profunda piedade. Tenho certeza que não o deprecio com esta piedade porque não é da pobreza limpa dele é uma espécie de piedade transcendente pela ingenuidade maravilhosa dele porque adquiri a certeza de que ele se engana profundamente a respeito de si mesmo.
Isso percebi muito bem. Existe nele um desequilíbrio enorme entre a grandeza das idéias que alimenta ou antes deseja, deseja palermamente sem nenhuma coragem e sem nenhum esforço para conseguir o desejado, e as faculdades que possui. Ele tem uma falha enorme na inteligência, a falta de autocrítica, e com isso ele se engana a respeito de si mesmo tenazmente. É até dramático da gente observar. (p. 77).
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Humberto Werneck. O santo sujo : a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Picadinho de filmes
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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.
Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado que o faz sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.
Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.
Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.
E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.
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Dos filmes sem grandes expectativas que vi e de que gostei, Algo que você precisa saber é dos mais valem a saída, com uma Charlotte Rampling meio esnobe, mas sempre interessante, com aqueles olhos um tanto inchados, mas expressivos. De todo modo, o casal formado pela filha e pelo policial são os personagens mais fortes para mim, ele sobretudo, com aquela cara de doido e uns olhos muito intensos. Uma história de amor e seus reveses, com segredos do passado que enriquecem a narrativa.
Outro filme simplesinho de que gostei bem foi Te amarei para sempre, uma história de amor bem clássica, cujos protagonistas vencem todas as barreiras e ficam juntos, apesar do 'distúrbio neurológico' do amado que o faz sumir nas situações mais inesperadas - até na hora do casamento o cara dá uma escapadela e viaja no tempo. O que acaba dando dinamismo à ação - quando menos se espera, bump! lá vai o rapaz para outro tempo e espaço. Numa dessas é que... bem, tem de ver o filme, vale a diversão.
Sobre Desinformante!, minha impressão é que o diretor enrolou quase o filme inteiro, e no quinto final pensou: caramba, o tempo está acabando e eu ainda não disse nada importante - aí ele acorda e o filme fica ágil, engraçado e trágico ao mesmo tempo, com desenlaces muito bons para aquela confusão toda. Pena que já quase no final.
Sobre Distrito 9, não vou comentar aqui, embora tenha feito algumas observações nos comentários para o Egídio.
E Anticristo não tive mesmo coragem de ver, acho que vai ser mais sofrimento do que prazer, e meu copo dessa parte da vida já está de bom tamanho.
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sábado, 17 de outubro de 2009
Distrito 9
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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.
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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.
Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.
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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.
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Escrevi um comentário sobre a metade do filme que consegui ver. Vou tentar ver o resto para publicar ou não o texto.
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Vi a outra metade do filme hoje, segunda-feira. Se me perguntarem do que eu gostei nele, responderei: nada.
Vale a pena comentar tal coisa? Acho que não.
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Mas acabei de assistir na TV uma boa parte de um filme magnífico, que nunca havia visto antes: Venus, com um Peter O'Toole deslumbrante, Vanessa Redgrave já lindamente de rugas, e uma jovem, por quem o personagem de O'Toole se enamora, muito interessante. Nunca, dantes, havia compreendido tão bem o desejo premente dos velhos por mais vida - neste velho, em particular, a gente percebe em cada poro de O'Toole a urgência de viver, amar e arrancar da vida suas últimas gotas de prazer. Filmaço, que vou procurar nas lojas e assistir completo.
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quinta-feira, 15 de outubro de 2009
o vento voa esvoaçando tudo
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Eu sou - na verdade, fiquei - pior que a Juliette Binoche em Chocolate: ouve barulho de vento forte nas janelas e já quer partir, por isso fico arrumada para sair a qualquer momento. Nesse instante, faço o que a sensatez recomenda: aguardo o homem que vai trocar as esquadrias de alumínio das janelas, para ver se elas param de bater e de atormentar.
Nesse estado de suspensão da lucidez - enquanto o vento zune - não dá para ler, não dá para quase nada, a não ser que tudo seja trancado, algodão nos ouvidos para não escutar barulho de vento e/ou janela sssibilando, ar condicionado ligado e quietinha vendo um filme na TV. Acho que isso dá pra fazer.
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Eu sou - na verdade, fiquei - pior que a Juliette Binoche em Chocolate: ouve barulho de vento forte nas janelas e já quer partir, por isso fico arrumada para sair a qualquer momento. Nesse instante, faço o que a sensatez recomenda: aguardo o homem que vai trocar as esquadrias de alumínio das janelas, para ver se elas param de bater e de atormentar.
Nesse estado de suspensão da lucidez - enquanto o vento zune - não dá para ler, não dá para quase nada, a não ser que tudo seja trancado, algodão nos ouvidos para não escutar barulho de vento e/ou janela sssibilando, ar condicionado ligado e quietinha vendo um filme na TV. Acho que isso dá pra fazer.
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domingo, 11 de outubro de 2009
Bastardos inglórios
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Acho que a pergunta que nos fazemos quase sempre ao final de um filme - se gostamos, não gostamos - não se coloca muito com relação a Bastardos inglórios, do Tarantino. Afinal quem tem prazer em ver nazistas sendo escalpelados, ou sendo mortos a porretes, ou umas 300 pessoas (nazistas, claro) ardendo nas chamas do inferno de uma sala de cinema trancada e sem possibilidade de escape? Só doido ou sádico.
No entanto, a gente vê o filme como enorme interesse e se pergunta aonde ele vai nos levar, o que tudo aquilo significa, que loucura é aquela, já que ninguém mais aguenta cenas com malvados nazistas e aliados do bem sendo massacrados. A coisa estranha já começa com a música de abertura, que nos remete a filmes românticos e melosos. Acompanhamos desconfiados o que vemos na tela e essa desconfiança é um dado intrínseco a tudo que veremos ao longo da fita, na medida em que Tarantino desconstrói todo o tempo cada cena, fazendo-a ser relida pelas inúmeras referências fílmicas, seja sob a forma de paródia, seja como homenagem, seja como elemento de humor.
Parece que vemos dois filmes ao mesmo tempo - esse e todos os outros a que vários momentos remetem, mesmo que não conheçamos inteiramente (ou que eu não conheça) com quem ou com que fime se dialoga ali. Por exemplo, toda a situação do incêndio no cinema é antológica, já a vimos no cinema-catástrofe inúmeras vezes e a refilmagem de Tarantino corresponde, para mim, por exemplo, à retomada da cena na escadaria de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, cuja melhor homenagem se dá em Os intocáveis, de Brian de Palma, no tiroteio entre mocinhos e bandidos, enquanto um carrinho com um bebê desce escada abaixo. O filme de Tarantino parece dialogar com a história do cinema, e a gente o vê um pouco também como um livro, em que outras histórias a contrapelo se formam à medida que se lê.
Além disso, tem o ator que faz o caçador de nazistas, o até então desconhecido Christoph Waltz, que rouba mesmo a cena do Brad Pitt e de qualquer outro com quem contracena, e vale todos os olhos fechados dos momento escatológicos.
Por último, o encontro final entre Pitt e Waltz me pareceu a cereja no topo do bolo: afinal, Tarantino está rindo do mote de que toda a humanidade quer viver na América, terra da liberdade, democracia e oportunidades?; está relendo a cena final de Caçada ao outubro vermelho?, ou está mesmo afirmando o que a cena diz? Não haver apenas uma opção parece ser um dos encantos de seu cinema.
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Acho que a pergunta que nos fazemos quase sempre ao final de um filme - se gostamos, não gostamos - não se coloca muito com relação a Bastardos inglórios, do Tarantino. Afinal quem tem prazer em ver nazistas sendo escalpelados, ou sendo mortos a porretes, ou umas 300 pessoas (nazistas, claro) ardendo nas chamas do inferno de uma sala de cinema trancada e sem possibilidade de escape? Só doido ou sádico.
No entanto, a gente vê o filme como enorme interesse e se pergunta aonde ele vai nos levar, o que tudo aquilo significa, que loucura é aquela, já que ninguém mais aguenta cenas com malvados nazistas e aliados do bem sendo massacrados. A coisa estranha já começa com a música de abertura, que nos remete a filmes românticos e melosos. Acompanhamos desconfiados o que vemos na tela e essa desconfiança é um dado intrínseco a tudo que veremos ao longo da fita, na medida em que Tarantino desconstrói todo o tempo cada cena, fazendo-a ser relida pelas inúmeras referências fílmicas, seja sob a forma de paródia, seja como homenagem, seja como elemento de humor.
Parece que vemos dois filmes ao mesmo tempo - esse e todos os outros a que vários momentos remetem, mesmo que não conheçamos inteiramente (ou que eu não conheça) com quem ou com que fime se dialoga ali. Por exemplo, toda a situação do incêndio no cinema é antológica, já a vimos no cinema-catástrofe inúmeras vezes e a refilmagem de Tarantino corresponde, para mim, por exemplo, à retomada da cena na escadaria de O encouraçado Potemkin, de Eisenstein, cuja melhor homenagem se dá em Os intocáveis, de Brian de Palma, no tiroteio entre mocinhos e bandidos, enquanto um carrinho com um bebê desce escada abaixo. O filme de Tarantino parece dialogar com a história do cinema, e a gente o vê um pouco também como um livro, em que outras histórias a contrapelo se formam à medida que se lê.
Além disso, tem o ator que faz o caçador de nazistas, o até então desconhecido Christoph Waltz, que rouba mesmo a cena do Brad Pitt e de qualquer outro com quem contracena, e vale todos os olhos fechados dos momento escatológicos.
Por último, o encontro final entre Pitt e Waltz me pareceu a cereja no topo do bolo: afinal, Tarantino está rindo do mote de que toda a humanidade quer viver na América, terra da liberdade, democracia e oportunidades?; está relendo a cena final de Caçada ao outubro vermelho?, ou está mesmo afirmando o que a cena diz? Não haver apenas uma opção parece ser um dos encantos de seu cinema.
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Good-bye...Solo
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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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Good-bye... Solo é um filme muito melancólico, ao mesmo tempo muito esperançoso, porque os dois protagonistas vivenciam todo o tempo
esses dois sentimentos: esperança e profundo desalento. Somos levados de um lado a outro: Solo e sua vitalidade, sua vontade de estar vivo, de fazer coisas pelas quais precisa lutar e que precisa ainda alcançar; Williams, um homem mais velho ainda do que as muitas rugas sugerem, um jeito duro de olhar e de ser - alguém que sofreu demais e cujo coração desandou num 'pote até aqui de mágoa'.
Durante todo o filme, torcemos para que o final não seja o que se anuncia desde o primeiro diálogo entre os dois, que esse homem e seu peso sejam tocados pela energia de Solo, que não chegue o dia 20, ou que um milagre aconteça até lá. E acontece uma paisagem deslumbrante nessa tal montanha, cuja força do vento devolve para quem joga qualquer treco que se jogue do alto dela. Solo chega à beira do precipício e, ajudado pela enteada, joga um pedaço de pau e aguarda uns minutos até que o vento traga-o de volta. Nem volta o toco, nem o homem antes deixado lá sozinho.
Na próxima cena, uma miríade de cores deslumbrantes, árvores vermelhas, amarelas, verdes - tudo intenso, tudo vivo, filmado do alto, como num precipício.
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augusto nunes e as olimpíadas
Faço minhas as palavras do Augusto Nunes, clonadas do blog de anna r, do http://amdcr.blogspot.com/
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Os vampiros aliados festejam a ampliação do banco de sangue
por Augusto Nunes
Menos de um mês depois de promover o Brasil a potência petroleira, Lula promoveu-se a presidente de uma potência olímpica. Em 6 de setembro, Dia da Segunda Independência, não precisou de um só barril a mais para apresentar ao mundo o caçula da OPEP. O que resolveu que vai acontecer daqui a 10 ou 15 anos pareceu-lhe suficiente. Em 2 de outubro, depois de derrotar os ianques, os espanhóis e os japoneses na Batalha da Dinamarca, não precisou de uma única medalha de bronze para instalar o país no clube dos colossos esportivos. Bastou o que resolveu que vai acontecer no Rio em 2016.
O curto espaço entre os dois assombros avisa que a metamorfose ambulante sofreu mais uma mutação para pior. Lula sempre se apropriou do passado para fingir que fez o que outros fizeram. Quem ouve a discurseira imagina, por exemplo, que a inflação liquidada em 1994 pelo Plano Real foi banida em 2003. Pois o maior governante da história agora deu de também expropriar o futuro para moldá-lo às conveniências do presente ─ e fingir que já foi feito o que está por fazer. O craque que vive assumindo a paternidade de gols alheios passou a reivindicar a autoria dos que nem aconteceram.
A fantasia seria menos inverossímil se Lula não inaugurasse o futuro sempre em companhia de gente que eterniza o passado. No descobrimento do pré-sal, protagonizou uma superprodução futurista à frente de um elenco de cinema mudo liderado pelos canastrões José Sarney e Edison Lobão. No comício em Copenhague, anunciou a ascensão do Brasil à primeira divisão do planeta num palanque de segunda. O país não tem sequer arremedos de política esportiva. Investe apenas, e equivocadamente, no esporte de alto rendimento. O Brasil coleciona fiascos a cada Olimpíada por falta de direção e de verbas.
Dinheiro existe de sobra, esclareceu o presidente ao comunicar que serão investidos no Rio quase R$ 30 bilhões. A bolada vai ser muito maior, corrigiu o sorriso de empreiteiro malandro no rosto da cartolagem. E boa parte vai engordar o patrimônio dos campeões do salto sobre cofres públicos, modalidade não-olímpica praticada com muita competência por figurões federais e supercartolas.
Só os olhos gulosos dos bandidos e a miopia dos idiotas incuráveis enxergam um Brasil dividido entre nacionalistas grávidos de patriotismo com o triunfo incomparável e traidores da nação em aliança com os mortos de ciúme da Cidade Maravilhosa. O Brasil não precisa hospedar a Olimpíada para afirmar-se como nação em marcha acelerada para longe das cavernas. O Rio não precisaria virar sede dos Jogo de 2016 para merecer as atenções, o respeito, o carinho e os investimentos que a mais bela das cidades reclama há décadas. Consumada a escolha, ninguém minimamente sensato vai torcer pelo naufrágio. Mas o desastre só será evitado se a tripulação for trocada a tempo.
Em 2003, os cariocas souberam que o Pan-2007, orçado em R$ 400 milhões, traria como dote a linha de metrô da Barra, a despoluição da Baía de Guanabara, a ressurreição da Lagoa Rodrigo de Freitas e outros espantos. A conta ficou em R$ 4 bilhões e os milagreiros nada santos esqueceram o prometido. Tudo será feito agora, reincide Carlos Nuzman, que presidiu o comitê do Pan, preside o COB e presidirá o comitê dos Jogos de 2016. É errando que a gente aprende, recita Orlando Silva, ministro do Esporte desde 2006, que forma com Nuzman uma dupla que anda fazendo bonito nos torneios de gastança suspeita promovidos pelo Tribunal de Contas da União.
O cinismo dos vendedores de ilusões só não é mais espantoso que a euforia da multidão de iludidos. Com o mesmo entusiasmo dos vampiros encarregados da administração, os doadores festejam a ampliação do banco de sangue.
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Os vampiros aliados festejam a ampliação do banco de sangue
por Augusto Nunes
Menos de um mês depois de promover o Brasil a potência petroleira, Lula promoveu-se a presidente de uma potência olímpica. Em 6 de setembro, Dia da Segunda Independência, não precisou de um só barril a mais para apresentar ao mundo o caçula da OPEP. O que resolveu que vai acontecer daqui a 10 ou 15 anos pareceu-lhe suficiente. Em 2 de outubro, depois de derrotar os ianques, os espanhóis e os japoneses na Batalha da Dinamarca, não precisou de uma única medalha de bronze para instalar o país no clube dos colossos esportivos. Bastou o que resolveu que vai acontecer no Rio em 2016.
O curto espaço entre os dois assombros avisa que a metamorfose ambulante sofreu mais uma mutação para pior. Lula sempre se apropriou do passado para fingir que fez o que outros fizeram. Quem ouve a discurseira imagina, por exemplo, que a inflação liquidada em 1994 pelo Plano Real foi banida em 2003. Pois o maior governante da história agora deu de também expropriar o futuro para moldá-lo às conveniências do presente ─ e fingir que já foi feito o que está por fazer. O craque que vive assumindo a paternidade de gols alheios passou a reivindicar a autoria dos que nem aconteceram.
A fantasia seria menos inverossímil se Lula não inaugurasse o futuro sempre em companhia de gente que eterniza o passado. No descobrimento do pré-sal, protagonizou uma superprodução futurista à frente de um elenco de cinema mudo liderado pelos canastrões José Sarney e Edison Lobão. No comício em Copenhague, anunciou a ascensão do Brasil à primeira divisão do planeta num palanque de segunda. O país não tem sequer arremedos de política esportiva. Investe apenas, e equivocadamente, no esporte de alto rendimento. O Brasil coleciona fiascos a cada Olimpíada por falta de direção e de verbas.
Dinheiro existe de sobra, esclareceu o presidente ao comunicar que serão investidos no Rio quase R$ 30 bilhões. A bolada vai ser muito maior, corrigiu o sorriso de empreiteiro malandro no rosto da cartolagem. E boa parte vai engordar o patrimônio dos campeões do salto sobre cofres públicos, modalidade não-olímpica praticada com muita competência por figurões federais e supercartolas.
Só os olhos gulosos dos bandidos e a miopia dos idiotas incuráveis enxergam um Brasil dividido entre nacionalistas grávidos de patriotismo com o triunfo incomparável e traidores da nação em aliança com os mortos de ciúme da Cidade Maravilhosa. O Brasil não precisa hospedar a Olimpíada para afirmar-se como nação em marcha acelerada para longe das cavernas. O Rio não precisaria virar sede dos Jogo de 2016 para merecer as atenções, o respeito, o carinho e os investimentos que a mais bela das cidades reclama há décadas. Consumada a escolha, ninguém minimamente sensato vai torcer pelo naufrágio. Mas o desastre só será evitado se a tripulação for trocada a tempo.
Em 2003, os cariocas souberam que o Pan-2007, orçado em R$ 400 milhões, traria como dote a linha de metrô da Barra, a despoluição da Baía de Guanabara, a ressurreição da Lagoa Rodrigo de Freitas e outros espantos. A conta ficou em R$ 4 bilhões e os milagreiros nada santos esqueceram o prometido. Tudo será feito agora, reincide Carlos Nuzman, que presidiu o comitê do Pan, preside o COB e presidirá o comitê dos Jogos de 2016. É errando que a gente aprende, recita Orlando Silva, ministro do Esporte desde 2006, que forma com Nuzman uma dupla que anda fazendo bonito nos torneios de gastança suspeita promovidos pelo Tribunal de Contas da União.
O cinismo dos vendedores de ilusões só não é mais espantoso que a euforia da multidão de iludidos. Com o mesmo entusiasmo dos vampiros encarregados da administração, os doadores festejam a ampliação do banco de sangue.
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quinta-feira, 8 de outubro de 2009
Santo sujo
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
****
O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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Terminei de ler Santo Sujo - a vida de Jayme Ovalle, e agora vou começar do começo. Explico: quando o livro chegou, abri-o lá pela metade e comecei a ler. Não consegui parar e continuei até o fim, adorando tudo: a escrita do Humberto Werneck - ótima frase, concisa, clara, bonita, o encadeamento da história, a história mesma e o personagem, claro.
O livro é lindíssimo, fotos muitas com os grandes nomes da nossa cultura literária do modernismo, uma certa nostalgia ao ver suas carinhas jovens, e o universo do Ovalle afinal desvendado. Sim, porque todos nós que lidamos com literatura brasileira conhecemos a figura dele assim de relance, em citações de tantos grandes autores e poetas, até mesmo em Macunaíma Ovalle aparece, e eu nunca soube dele mais do que aquelas referências pipocadas, sempre curiosas e instigantes.
Uma vez, uma colega de faculdade me disse que tinha vontade de fazer pesquisa sobre Ovalle, comentou alguns traços engraçados e/ou esquisitos dele, e havia mesmo em torno da figura uma certa aura de misticismo, algo como se Ovalle fosse um encantado. E não é que era mesmo? Werneck nos dá um retrato perfeito desse encantado - um homem meio simplório, mas amado por seus amigos, seus interlocutores, a quem seduzia com idéias muito pessoais e criativas. Era carente da afeição dos amigos, generoso, um tanto místico e bastante intuitivo. Tinha algumas percepções agudas, semelhantes às dos médiuns, conversava com Deus sem cerimônia, falava dele como de um parceiro próximo, e essas tiradas bem humoradas estão espalhadas pelos livros de alguns de nossos melhores homens de letras. Ah, e era quase analfabeto, o que torna as traduções de seus poemas em inglês por sua mulher, Virginia Peckham, uma outra aventura, bem engraçada, às vezes.
Senti falta apenas de saber mais dos outros filhos de Virginia, já que a respeito de Mariana, a filha de Ovalle, que tem uns 57 anos hoje, ficamos conhecendo uma história bem interessante sobre como conheceu seu futuro marido.
Quando a história de uma vida é assim tão bem narrada, como Werneck o faz, essa vida passa a fazer parte de nossa história, ela é incorporada, tornamo-nos parceiros, amigos, próximos. Amei conhecer Ovalle.
Ah, um dos endereços da família foi na Rua Benjamin Constant, 55, na Glória.
Minha mãe mora nessa rua, moro perto e quando passar por esse prédio, ele terá outro significado para mim.
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O espantoso em Ovalle é que coincidissem nele um artista tão profundo, embora tão deficientemente realizado, um boêmio tão largado, um funcionário aduaneiro tão exemplar na sua honradez e competência, e um ser moral de ternura a um tempo tão ardente e tão esclarecida.
Manuel Bandeira
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Humberto Werneck. Santo sujo: a vida de Jayme Ovalle. São Paulo: Cosac Naify, 2008.
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terça-feira, 6 de outubro de 2009
o livro rosa e o jabuti
Não conheço todos os livros que ganharam o último Jabuti, mas conheço o livro rosa - que tirou o segundo lugar de poesia - organizado pela Viviana Bosi, pesquisadora muito competente, aliás, mas, lamento informar, o Antigos e soltos - poemas e prosas da pasta rosa não é sequer um livro - ou melhor, é só isso mesmo, um objeto livro bonito, muitíssimo belo, com um conteúdo totalmente confuso e desorganizado, sem qualquer referência ou indicação ou pontuação ou o que quer que seja que o torne uma leitura à altura da poesia de Ana Cristina.
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao resltado final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, leitores cúmplices.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os adeptos da crítica genética - penso que alguns querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que há nele, se houver, a poeta não teve tempo de criar.
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olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
Aliás, devo dizer que amo a poesia de Ana C., já escrevi um decente ensaio (eu acho) sobre ela, mas convenhamos, bilhetinhos rabiscados, poeminhas inacabados, recadinhos pra amigos, riscadinhos e desenhinhos - nada disso faz um livro de poesia, mesmo sendo de Ana C., mestra do coloquial e das confidências.
Acho mesmo uma total falta de respeito à memória da poeta, que era bem ciosa de revisões e cuidadosa quanto ao resltado final de seus poemas. Ela não merece esse desserviço a seu trabalho, acho uma rasteira na sua obra, tanto maior porque muito de sua poesia publicada tem esse lastro de alguma coisa mais fácil, em razão do apelo ao coloquial e da conversa ao pé do ouvido com o leitor, além de estratégias de sedução e cartas escritas para nós, leitores cúmplices.
Enfim, o livro é belo enquanto objeto, e tem algum interesse para os adeptos da crítica genética - penso que alguns querem ver o sangue do autor impresso na obra. Mas não é um livro de poesia. É um livro apenas, um belo livro-objeto. A poesia que há nele, se houver, a poeta não teve tempo de criar.
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olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas
(Ana C., A teus pés. Ática/IMS, 1998, p. 89).
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
bric à brac
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Bom, voltei de Fortaleza e lá passei alguns bons momentos, mas o sol estava de rachar o crânio e eu não devo/posso ficar exposta a ele. Além disso, peguei uma dermatite atópica (embora bem tópica, na pálpebra inferior, onde os óculos de sol se atritam com a bochecha...:), então não havia muito sentido em ficar com essa limitação de sol, porque o que essa cidade mais tem é mesmo a estrela mais amarela e ardente que conheço.
De todo modo, descobri os últimos porquês da minha relação com a cidade, desvendei enfim as partes que faltavam da minha breve mas intensa história por lá. E minha certeza de que esse espaço de blog vai terminar em breve (não apenas o meu, mas essa forma de escrita e comunicação) vem de que essas descobertas, o que afinal seria a coisa mais interessante dessa minha viagem (que está longe de ser apenas turística, aliás, nem gosto de ir onde turista vai) não cabem aqui nesse espaço, por demais pessoais.
Do que se pode falar, visitei a casa de José de Alencar, que foi restaurada, uma casa bem singela, como se pode ver, se se pensa com os padrões de hoje, para um sujeito que adquiriu tal importância na cultura brasileira e cujo pai foi senador "pela província do Ceará de 2 de maio de 1832 até sua morte", como lemos na wiki.

Se viveu numa casinha pequenina, algumas árvores da propriedade são deslumbrantes, sobretudo uma delas, majestosa, que fotografei olhandoalgum tempo para cima, em direção a ele, e foi quando peguei a tal dermatite. De todo modo, ela (a tal) me levou a uma dermatologista que, meus senhores, era tudo de bom, além de ter uma bica de água no banheiro que parecia uma mini fonte de versalhes, um espanto.
Aliás, Fortaleza me apresenta sempre umas coisas ótimas, que eu nunca tinha visto antes... enfim, minha província é aqui, it seems.


Ah, e vi três bobagens: A verdade nua e crua; Se beber, não case e Up - altas aventuras, que abandonei quase no final, sem paciência. Das duas outras besteiras, olhei melhor a primeira do que a segunda, esta última super besteirol cheio daquelas ideologias safadinhas lá deles.
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Ah, de novo, lendo três livros ao mesmo tempo e amando o último: O jardim de cimento (Ian McEwan, meio chatinho); (Suicídios exemplares (Vila-Matas, tema e escrita muito bons); Santo sujo - a vida de Jayme Ovalle (Humberto Werneck, bom demais, e vou querer falar, quando terminar de ler, do meu encanto por essa figura e pela narrativa do Werneck, que coisa...).
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Bom, voltei de Fortaleza e lá passei alguns bons momentos, mas o sol estava de rachar o crânio e eu não devo/posso ficar exposta a ele. Além disso, peguei uma dermatite atópica (embora bem tópica, na pálpebra inferior, onde os óculos de sol se atritam com a bochecha...:), então não havia muito sentido em ficar com essa limitação de sol, porque o que essa cidade mais tem é mesmo a estrela mais amarela e ardente que conheço.
De todo modo, descobri os últimos porquês da minha relação com a cidade, desvendei enfim as partes que faltavam da minha breve mas intensa história por lá. E minha certeza de que esse espaço de blog vai terminar em breve (não apenas o meu, mas essa forma de escrita e comunicação) vem de que essas descobertas, o que afinal seria a coisa mais interessante dessa minha viagem (que está longe de ser apenas turística, aliás, nem gosto de ir onde turista vai) não cabem aqui nesse espaço, por demais pessoais.
Do que se pode falar, visitei a casa de José de Alencar, que foi restaurada, uma casa bem singela, como se pode ver, se se pensa com os padrões de hoje, para um sujeito que adquiriu tal importância na cultura brasileira e cujo pai foi senador "pela província do Ceará de 2 de maio de 1832 até sua morte", como lemos na wiki.
Se viveu numa casinha pequenina, algumas árvores da propriedade são deslumbrantes, sobretudo uma delas, majestosa, que fotografei olhandoalgum tempo para cima, em direção a ele, e foi quando peguei a tal dermatite. De todo modo, ela (a tal) me levou a uma dermatologista que, meus senhores, era tudo de bom, além de ter uma bica de água no banheiro que parecia uma mini fonte de versalhes, um espanto.
Aliás, Fortaleza me apresenta sempre umas coisas ótimas, que eu nunca tinha visto antes... enfim, minha província é aqui, it seems.
Ah, e vi três bobagens: A verdade nua e crua; Se beber, não case e Up - altas aventuras, que abandonei quase no final, sem paciência. Das duas outras besteiras, olhei melhor a primeira do que a segunda, esta última super besteirol cheio daquelas ideologias safadinhas lá deles.
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Ah, de novo, lendo três livros ao mesmo tempo e amando o último: O jardim de cimento (Ian McEwan, meio chatinho); (Suicídios exemplares (Vila-Matas, tema e escrita muito bons); Santo sujo - a vida de Jayme Ovalle (Humberto Werneck, bom demais, e vou querer falar, quando terminar de ler, do meu encanto por essa figura e pela narrativa do Werneck, que coisa...).
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