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quinta-feira, 3 de junho de 2010
esqueci o Coetzee
Esqueci meu livro Diário de um ano ruim, do J. M. Coetzee, lido até quase a metade, no assento do avião, e a Gol está com ele no setor de Achados e perdidos.
Se alguém vai para o Galeão ou passa por lá até sábado, poderia pegar para mim, please, e pode até ficar com ele, só me empresta pra terminar de ler, seria possível?. Isso porque se eu for até lá vou pagar de táxi mais do que o livro custou (não, não há hipótese de pegar um ônibus para tal fim). Merci.
(tremdepouso@terra.com.br). Lembrando que meu nome não é clara lopez :)
domingo, 14 de junho de 2009
No coração do país
Terminei de ler há algum tempo No coração do país, o segundo livro de John Maxwell Coetzee, publicado em 1977, e achei um romance espantoso, forte, denso, embora alguns aspectos de sua estrutura sugiram que ali está a base não apenas do futuro Desonra, mas o laboratório dessa personagem feminina que está no centro de ambos os romances.
De início, o livro captura o leitor pelo impacto da cena em que a narradora mata o pai e a madrasta, impiedosamente, já nas primeiras páginas, num ato de extrema violência e barbárie. Queremos saber então o que houve de tão terrível para que ela chegasse àquele paroxismo de horror, para logo mais à frente descobrir que tudo fora apenas imaginado. Interessante.
O que não quer dizer que ela não matará o pai, ela o fará, mas então já estamos imersos nos domínios dessa mente completamente devastada pela solidão, pelo abandono, pelo desalento. A mulher que narra os acontecimentos apodera-se de nossa sensibilidade de modo avassalador. Ela não apenas age o tempo todo, como pensa o tempo todo, pensa sozinha, fala sozinha, ela praticamente desvaira sozinha. E filosofa.
[Que fazem a dor, o ciúme, a solidão na noite africana? Uma mulher à janela, olhando para a escuridão, significa alguma coisa? Coloco os dez dedos na vidraça fria. A ferida em meu peito se abre. Sou um emblema, sou um emblema. Sou incompleta, um ser com um buraco por dentro, significo alguma coisa, não sei o quê, sou tola, através de uma lâmina de vidro olho para a escuridão que é completa, que vive em si mesma, morcegos, arbustos, predadores, tudo que não me diz respeito, que é cega, que não significa, simplesmente é. [p. 16]
Talvez nessas longas reflexões sobre a natureza das coisas, recorrentes elocubrações mentais que não têm fim, talvez aqui resida uma nota de fragilidade na estrutura, porque a mim pareceu que essa personagem não poderia ter o nível de elaboração ou complexidade filosófica que o autor lhe empresta (diferentemente do Riobaldo, aqui senti a estrutura meio falsa).
Dá a impressão de que há alguém 'soprando' aquela coisa toda para ela dizer, pensar. Mesmo assim, há uma força descomunal em tudo que faz, há uma obsessão - a obsessão dos loucos - a guiá-la para seu inelutável destino trágico.
Aqui também o estupro é um acontecimento fundador. A personagem não apenas habita uma fazenda distante do 'mundo civilizado', como tem sua solidão de mulher acentuada por traços físicos desagradáveis e porque não há mesmo com quem interagir naquele fim de mundo. A violência sobre ela aprofunda uma espécie de loucura que já a habita desde o início, e ela radicaliza o jogo entre opressor e oprimido: passa a servir sexualmente o empregado negro que a viola e, mais ainda, muda as relações de domínio até então existentes.
Quase tudo que acontece gira em torno desse pai, que ela deseja e odeia intensamente, origem dos delírios e das perquirições que persegue ao longo da narrativa. Não se trata de compreender por que ela precisou matar o pai, mas grande parte do que se lê constitui a voz assustadora desse ser, que não por acaso é uma mulher, buscando compreender o que faz ali, como chegou àquele estado de deterioração humana, como se tornou quase um bicho, como sobreviver ao inteiramente só.
Ela então começa a ouvir vozes, e depois começa a ver fantasmas, e eles são, afinal, tudo que lhe resta. Pode sentar com o pai (morto) e tomar conta dele, cuidá-lo como sempre fora seu trabalho. E caminhar lentamente rumo a uma certa pacificação, com perguntas para as quais aceita não ter respostas.
Dois momentos do pai:
Quando Hendrik está fora, executando algum miserável trabalho no calor da tarde, meu pai visita sua esposa. Cavalga até a porta do casebre e, sem desmontar, fica esperando até que a menina saia e se ponha à sua frente, piscando ao sol. Ele lhe fala. Ela se mostra acanhada. Oculta o rosto. Ele tenta acalmá-la, talvez chegue a sorrir, mas não consigo ver. Inclina-se e lhe dá um embrulho de papel pardo. São balas, corações e diamantes com lemas escritos. Ela fica segurando o pacote, ele se vai. [p. 46].
Meu pai está sentado, se é que se pode chamar isso de sentar-se, em sua antiga poltrona de couro, a brisa fresca na pele. Seus olhos não vêem, são duas paredes vidradas azuis, orladas de rosa. Nada ouve, só o que se passa dentro dele, a menos que eu tenha estado o tempo todo equivocada e ele me ouça tagarelar, embora prefira não me fazer caso. Já tomou ar por hoje, é hora de levá-lo para dentro e descansar um pouco. [p. 178]
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J. M. Coetzee. No coração do país. Tradução Luiz A. de Araujo. São Paulo: Círculo do Livro, 1997.
quarta-feira, 12 de novembro de 2008
Desonra

Cada livro captura seu leitor por estratégias diversas e distintas e, dentre elas, a habilidade para contar histórias, de forma que elas passem a ser nossas também e, nesse gesto, nos tornem mais ricos, mais próximos de nossa própria humanidade, é fundadora na boa literatura. Além disso, uma obra precisará pagar tributo ao domínio da forma, seja na exploração das vozes narrativas que dirigem a atenção do leitor para um ou outro lugar de enunciação, seja na criação de personagens fortes, seja na estrutura mesma do jogo discursivo, como o fazem, por exemplo, Machado e a Clarice de A hora da estrela, para ficar só nesses dois.
A leitura do romance Desonra, de John Maxwell Coetzee (prêmio Nobel de 2003, Booker Prize em 1999 para o livro), impacta uma leitora como eu de várias maneiras: o protagonista é professor de poesia, portanto, tem uma experiência com a qual me identifico profissionalmente; ele também é um professor que se envolve sexualmente com uma aluna, e essa mistura de poder e saber sempre foi uma questão ética que vi infringida regularmente em alguns lugares onde trabalhei – atitude que sempre considerei abusiva e no fundo desprezava os sujeitos que se valiam da função para isso.
Um tema forte do livro é o estupro, e ele me toca, como acho que a toda mulher. Leio, pois, como mulher, o episódio do "sexo-violação-quase-estupro"; na verdade, toda a página 33 do livro está anotada como uma conversa entre o que o personagem, David Lurie, diz e o que eu respondo a ele. Por exemplo, ele diz "Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse decidido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa fecha em seu pescoço. De forma que tudo o que lhe fosse feito, fosse feito, por assim dizer, de longe" (p. 33) - ao que respondo "estupro, sim, seu escroque!". Outras frases desse mesmo trecho: "...quando chega ao carro, é tomado por tal desânimo, tal embotamento, que fica encurvado sobre a direção, incapaz de se mexer" - eu lhe digo: “fuck you!”; “Ele a vê enchendo a banheira, entrando na água, de olhos fechados como uma sonâmbula. Gostaria de entrar na banheira” – eu-leitora : “com ácido?”; “Ao preencher a ficha depois, ele marca presença para ela e lhe dá uma nota sete.” Eu lhe digo: “escroque!” (tá, o que escrevo é mais forte que escroque...).
De todo modo, há a cena fundadora do livro, segundo penso, a cena que, de certo modo, dá o sentido político de tudo, a violação da filha pelos três homens, que se anuncia assim:
“Pelo caminho, vêm três homens na direção deles, ou dois homens e um rapaz. Estão andando depressa, com os passos largos dos camponeses. O cachorro que está ao lado de Lucy diminui o passo, se arrepia.” (p.107).
(Cachorros têm uma função importante no livro, eles são objeto dos cuidados de Lucy, por um lado, e de Bev Shaw, por outro lado, que os sacrifica. Eles são ainda o tema da belíssima última página, um momento de profunda desolação, quando o homem é levado a desistir, ambiguamente, de um cão aleijado, e sequer terá esse cão por companhia).
Então os dois, pai e filha, chegam à fazenda e lá encontram os três homens, e o que acontece a partir daí será narrado com maestria e sutileza ímpares, basicamente pelo modo como a filha compreende a violação – como gesto político (que ele certamente é), mas sobretudo como um direito jamais enunciado claramente daqueles que foram historicamente dominados pela bárbara e branca colonização. Lucy transforma seu corpo e o vivencia, pois, como um território de conflagração política, como butim de guerra, e mesmo quando o pai enuncia as palavras duras (“Ao contrário, eu entendo muito bem”, diz. “Vou pronunciar as palavras que até agora evitamos dizer. Você foi estuprada. Múltiplo estupro. Por três homens.”) (p.179), ou quando ela mesma o faz (“Quando faz sexo com uma estranha, quando encurrala, prende, submete, coloca todo o seu peso em cima dela, não é um pouco como assassinar?”) (p.180), mesmo então ela não cede, não foge da fazenda, não abdica da terra a que quer ter direito, como os negros sul-africanos o têm de origem, compreendemos nós.
O livro é grandioso porque nos faz acompanhar destinos fortes, situações extremas, com frases duras, secas, às vezes de uma violência contida, que não explode abertamente. E, no entanto, nos reconhecemos em cada um dos personagens, compreendemos quantas nuanças nossas vidas comportam, quanta ferocidade também, e foram esses personagens que nos disseram sobre nós. Não é pouca coisa como legado literário.
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Desonra, John Maxwell Coetzee. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Cia das Letras, 2000.
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