sábado, 29 de novembro de 2008

saída na chuva





Fotos da primeira saída da turma de fotografia, tiradas num dia em que choveu e a bateria da câmera descarregou antes da hora. Com a prática, vão ficar melhores...:)

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Stein ainda

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Não sei bem por quê, mas Gertrude Stein anda me rondando há algum tempo. Já comentei por aqui A autobiografia de Alice B. Toklas e, en passant, o Duas vidas, de Janet Malcolm, uma delícia de fofoca acadêmica em alto nível. Agora, encontrei o pequeno Paris França e, lendo o início, trouxe para ver o resto.


No geral, achei A autobiografia (1933) uma viagem meio ególatra, mas há algo no estilo que me prende, talvez seja a liberdade que ela se dá, o jeito desabusado de falar de tudo e de todos. Sobre o livro, diz Janet Malcolm:


Uma das características mais notáveis na Autobiografia de Alice B. Toklas é a maneira arrogante com que Stein trata as pessoas menos importantes de seu círculo. Ela os aplaina como talvez nenhum biógrafo, antes ou depois dela, tenha aplainado um personagem. Stein sentia, ao mesmo tempo, alegria e um pouco de vergonha com o sucesso dessa obra tão habilmente escrita para o 'público'. Escrevendo na voz de Toklas, Stein obrigou-se a falar um inglês mais convencional que o inglês falado por ela em suas obras herméticas, mas o que o grande público gostava nessas obras não era apenas o fato de conseguir entendê-las. O público reconhecia que lhe havia sido dado algo verdadeiramente original - o livro é tão vanguardista e experimental, tão extravagante e subversivo quanto a mais vanguardista e subversiva obra de Stein. Ele é - entre outras coisas - uma antibiografia. (p. 191).


Nem tão vanguardista, nem tão subversivo, mas esses são conceitos que dependem não apenas de uma certa retórica acadêmica para circunscrevê-los, mas de um viés histórico para avaliar e situar obras como tal.
De todo modo, já no início desse Paris França ela diz o que talvez seja uma boutade, mas interessante:


Afinal, todos, ou seja, todos os que escrevem estão interessados em viver dentro de si mesmos para contar o existe dentro de si mesmos. Por isso os escritores precisam ter dois países, aquele onde nasceram e o outro onde de fato vivem. O segundo é romântico, é separado deles, não é real, mas na verdade está ali. [p. 34]
[...]
Claro que algumas vezes as pessoas descobrem seu próprio país como se fosse o outro, um exemplo recente disso é Louis Bromfield descobrindo os Estados Unidos, também houve alguns ingleses assim, Kipling, por exemplo, descobriu a Inglaterra mas em geral o outro país de que se precisa para ser livre é um país diferente, não aquele onde se nasceu. [p.35]


Eu me pergunto se essa é uma perspectiva basicamente européia, em que o outro país fica ali ao lado e, por isso, a necessidade de mudar de país para o exercício da liberdade fica mais simples.


Mas penso que a questão é verdadeira, ou seja, somos mais livres longe dos constrangimentos que nossa origem, nossos pertencimentos culturais nos impõem, mas não precisamos de outro país, no máximo de outra cidade, e não por uma vida toda. Acho que só o tempo para conhecer-se, fortalecer sua própria identidade, talvez.


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Paris França. Gertrude Stein. Tradução Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: José Olympio, 2007.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Outros olhos

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Bom, estou meio que em outro mundo de frases e, por enquanto, o que estou podendo ler são coisas como:


"O conjunto de lentes que forma uma objetiva redireciona os raios que passam por ela, de modo que dois ou mais raios vindos de um mesmo ponto do objeto fotografado caiam no mesmo ponto dentro da câmera."


Como eu fico umas três horas para entender o que o sujeito está querendo dizer, e outras três tentando me concentrar nisso, os livros verdadeiros e amados continuarão um pouco na fila, mas acho que vou começar a levar algum para o curso, assim vou lendo pelo caminho.


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Ontem vi que as barraquinhas da Primavera dos Livros no Museu da República, de que o Kovacs deu notícias em seu blog, já estão sendo armadas para a festa que começa na quinta, oba... mas não sei mais onde colocar novos livros nessa minha fila parada.


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A aula de ontem foi como a frase lá de cima, tinha de fazer esforço pra entender e acordar, mas não vou desistir, de jeito nenhum.


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E entre dois aventureiros, um jovem que está começando a viver uma aventura extraordinária pelo mundo, e outro mais velho, bonitão, que já conheceu o mundo todo, tem por hobby viajar e ama ser ouvido por todos sobre suas andanças, qual me chama mais a atenção, heim, heim? O jovem, claro, e fiquei pensando por quê. Porque nele eu colo minha fantasia, o roteiro está em aberto e eu posso viajar também na imaginação, e acho talvez mais fascinante do que a própria viagem.


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É o que temos por hoje. E vamos às paralaxes.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Um filme e algumas histórias


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Vi um filme de que gostei muito, Sob a mesma lua, que me fez lembrar com toda clareza o que significa ser 'latino' (ou mexican) na terra dos yankees. Me lembrei do sentimento de ter sido vanished da face da terra pela simples indiferença quanto a minha existência (ou a de qualquer 'outro') naquelas plagas. E tudo com uma cortesia de arrepiar - isso porque eu tinha um título e um lugar na hierarquia acadêmica.

A barra no filme é que as pessoas são pobres, vão em busca do sonho americano, que consiste em ter um emprego de faxineira ou de catador de tomates na época das colheitas (o pior é que mesmo isso é melhor do que o que eles têm em sua terra, o que dá engulhos em todos nós).

É verdade que o foco principal é mesmo a relação entre a mãe que partiu há 4 anos e o filho de (agora) 9 anos que ficou no México - o que ambos fazem para ficar juntos de novo, de preferência na terra das oportunidades (o filme é de antes do crash). O garoto é um fofo, dá conta do trabalho muito bem e ainda é uma simpatia. Tá certo que o final não podia ser mais sentimental (tem de levar um lencinho), mas o diretor conta uma boa história e a conta bem.

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E boas histórias terá o garoto que eu conheci hoje no curso que comecei a fazer de fotografia. Desta vez um curso mais profissional, com 36 horas, e num lugar muito charmoso.

São doze alunos, e hoje foi uma conversa geral, um filme lindíssimo com os fotógrafos do National Geographic, e apresentações de todos. Eu fiquei besta com um garoto de uns vinte e alguns anos que está dando a volta ao mundo, só isso. Viaja com um fotógrafo amigo, fica no Brasil algum tempo e resolveu aproveitar a parada por aqui para fazer o curso, depois segue para a Islândia, bem pertinho... Eu acho que já quis fazer isso em algum momento da minha juventude, mas nunca havia conhecido alguém que está fazendo, fica parecendo meio um conto de fadas.

Mas há também o conto da carochinha vivido por outro aluno, que contou uma história fantástica em que ele perdeu sua grande foto: um disco voador, um ovni, que ele e amigos viram, todos viram quando vinham não-sei-de-onde, mas a máquina caiu na grama, estava escuro e ele não conseguiu pegá-la a tempo de fotografar. Eu acredito em ambos: na história e nos ovnis. E queria muitíssimo ser abduzida, mas até agora nunca vi um e nunca fui. Bom, conheci alguém que viu, já é alguma coisa.

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quinta-feira, 20 de novembro de 2008

sobre um ensaio


Outro texto interessante da coletânea Do jeito delas é o longo 'The fish', da Elizabeth Bishop, um poema narrativo quase épico sobre um peixe que é pescado e tinha várias linhas e anzóis pendurados no lábio inferior, como condecorações por sua bravura, tudo muito intenso e forte. Ao final ela (ou o sujeito lírico, se preferirem) deixa o peixe ir embora, um gesto nobre e politicamente correto - só que não tira os anzóis da boca do bicho, como pode!? Fiquei chateadíssima com esse final, mas reconheço que é poema dos bons.

De todo modo, o que quero ressaltar é a qualidade do ensaio Uma estranha cumplicidade, de Márcia Cavendish Wanderley, sobre alguns traços da vida e obra de cinco das poetas elencadas - Sylvia Plath, Anne Sexton, Emily Dickinson, Hilda Doolittle, Marianne Mooore.

Há algum tempo não leio crítica feminista, estou de férias por tempo indeterminado desse assunto, mas Márcia me trouxe de volta a essa trilha com uma escrita enxuta, clara, objetiva, informações indispensáveis sobre os traços fundamentais do estilo, dos temas e do modo poético dessas autoras, assim como traz à tona e sublinha aspectos das vidas que se relacionam às obras.

O suicídio, por exemplo, que irmanou Plath e Sexton no fascínio de ambas pela morte, a ponto de a segunda carregar na bolsa "para o caso de um ataque de infortúnio absolutamente intransponível, suas kills pills. Levava-as como outras moças levam a maquiagem a ser retocada. Como batom para lábios descorados." (p. 85). Ainda sobre Sexton, diz Cavendish que "Era uma mulher bela e espirituosa que deixava eletrizados os auditórios universitários quando, descalça e fumando um cigarro atrás do outro, às vezes acompanhada por grupos de jazz, dizia seus poemas." (p. 86).

Sobre Sylvia Plath: "a poesia de SP tem em 'Daddy' seu momento mais contundente, pois ali destila sobre seu pai alemão (visto como nazista) o mais assombroso rancor e maldade humanos através de uma, às vezes, aparentemente cândida linguagem. Maldade de ninfeta, Lolita às avessas, pois sua pulsão mais que sexual é letal, a autora vai tecendo lentamente seu algoz e sua vítima." (p.74). E talvez minha única discordância, quando a autora afirma que a partir dos anos 70 "a poesia de Sylvia Plath passa a desfrutar de foros de cânon dentro da história da poesia ocidental. Cânon talvez ainda construído apenas por essa corrente crítica [feminista], interessada na busca de parâmetros femininos que se equiparassem àqueles tradicionalmente instituídos, mas que a reverencia como uma das primeiras e talvez como a mais forte voz feminista da literatura de língua inglesa da contemporaneidade." (p. 80). Minha dúvida e questão: não pertenceria à Virginia Woolf de Um quarto todo seu esse título? De todo modo, nada tira o brilho desse texto, em tudo para mim exemplar.


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Do jeito delas - vozes femininas de língua inglesa. Tradução Jorge Wanderley. Organização e ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho, Sueli Cavendish. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Constituição no Museu

Muito boa a exposição Constituição de 1988 - a voz e a letra do cidadão, que está no Museu da República e vai ficar até outubro do ano que vem. Financiada pela Ford Foundation e BNDES, a gente percebe o profissionalismo de todos os envolvidos, e enfim a sra. Magaly Cabral disse a que veio na direção do museu e a curadora, Maria Helena Versiani, fez um trabalho de mestre.
Uma das idéias mais criativas e impactantes foi a de expor milhares de cartas de brasileiros dos mais diferentes níveis sugerindo o que achava importante que se colocasse na constituição. Há uma sala com todas as paredes e o teto cobertos de cartas, e quando a gente olha para cima vê aquele varal de papel e palavras, é emocionante.
Também o projeto editorial do livro que o visitante recebe ao final da exposição é muito bem feito, e nele se conta a história das várias constituições do país até chegar à de 1988, com fotos inclusive de algumas cartas. Não precisa ser nacionalista para curtir a exposição e se emocionar, trata-se de reconhecer um trabalho feito com muita competência.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Dois filmes


Sem as aulas de alongamento, e a obrigatoriedade de acordar cedo, estou voltando a seguir naturalmente meu relógio biológico, que é ficar acordada até tarde (sempre gostei de trabalhar em casa de madrugada) e acordar tarde, isso até encontrar outro lugar para ir. Ontem estava sem sono e acabei vendo dois filmes, Mississipi em chamas e Fim de caso.

O primeiro já vi umas dez vezes, não fora a direção do Alan Parker, e sempre que dou com ele vejo de novo, parece magnético, não consigo não ver. O filme tem 20 anos (é de 1988) e os acontecimentos situam-se em 1964, ano fatídico para nós também.

Um pouco como nosso Tropa de elite, o filme é eletrizante, mas há senões quanto aos mocinhos: no nosso caso, a polícia que tortura; no caso deles, os agentes do FBI que, apesar de acharem os corpos dos três trabalhadores no final e se empenharem na busca da verdade, deixam um rastro de homens negros mortos ao longo das investigações e, no mínimo, se omitem quanto a sua defesa em vários momentos. Tempos duros aqueles.

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Também já havia visto Fim de caso (1999), de Neil Jordan, não sei quando, e vi agora, com mais clareza, o que parece ser sua força: um filme sobre a fé, a crença em Deus, não numa força espiritual em abstrato, mas em um Deus quase concreto mesmo. Há até um milagre feito pela personagem da Julianne Moore - ela cura a mancha no rosto do menino filho do detetive. De todo modo, um filme sobre amor absoluto, daqueles inquebrantáveis, ciúme e fé, com ótimas atuações de Ralph Fiennes e Julianne Moore.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Anne Sexton

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Não conheço a poesia de Anne Sexton, mas achei (na prateleira dos 'a ler') um livrinho que é basicamente uma homenagem da mulher de Jorge Wanderley, um professor e ótimo tradutor que morreu do coração há alguns anos, aos trabalhos de tradução que ele fez.
Conheci o Jorge, na verdade meu primeiro emprego em uma universidade foi em substituição a ele, que precisara afastar-se, e andei até alguns anos atrás com um pedaço de papel em que tinha copiado um trecho de Dante que ele havia traduzido da Divina Comédia, mas não ainda publicado. Era lindíssimo o poema, nunca mais vi esse papel, mas lembro que era um poema de amor a Beatriz.

De todo modo, trata-se de uma coletânea de poetas mulheres com o título Do jeito delas - vozes femininas de língua inglesa, com alguns textos de Sylvia Plath, Anne Sexton, Emily Dickinson, Hilda Doolittle, Marianne Moore, Louise Bogan, Elizabeth Bishop, Denise Levertov, Edna St. Vincent Millay, Edith Sitwell, Patricia Hooper, Elinor Wylie, e conheço um pouco apenas de algumas delas.

Esse poema de Anne Sexton achei ótimo, e de algum modo ele conversa com o tema do último post:


A mulher do fazendeiro


O guisado misturado,
a lascívia do seu campo,
sua vida local em Illinois,
onde todos os acres parecem
fábricas de vassouras florescentes:
- já faz agora dez anos
que ela é seu hábito;
e novamente hoje de noite
ele dirá vamos, doçura
e ela não lhe dirá o quanto além disso é preciso
para viver, quanto mais do que esta
breve ponte luminosa
da cama estridente ou ainda
mais do que os seus lentos toques em braille,
como os de um pesado deus tornado leve,
esta velha pantomima do amor
que ela deseja, embora
isso continue a deixá-la sozinha,
mais uma vez de volta a si,
a mente separada da dele, vivendo
a si mesma com suas próprias palavras
e detestando a umidade da casa
que neles permanece quando finalmente jazem
em sonhos separados
e a maneira como ela olha para ele
que está ainda forte no envoltório rubicundo
do seu sono habitual, enquanto dela
os anos jovens se estiolaram na mesma cama de casal
e ela o deseja aleijado ou poeta,
ou ainda mais solitário, ou, às vezes,
melhor, meu amado: morto.


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The Farmer's Wife


From the hodge porridge
of their country lust,
their local life in Illinois,
where all their acres look
like a sprouting broom factory,
they name just ten years now
that she has been his habit;
as again tonight he'll say
honey bunch let's go
and she will not say how there
must be more to living
than this brief bright bridge
of the raucous bed or even
the slow braille touch of him
like a heavy god grown light,
that old pantomime of love
that she wants although
it leaves her still alone,
built back again at last,
mind's apart from him, living
her own self in her own words
and hating the sweat of he house
they keep when they finally lie
each in separate dreams
and then how she watches him,
still strong in the blowzy bag
of his usual sleep while
her young years bungle past
their same marriage bed
and she wishes him cripple, or poet,
or even lonely, or sometimes,
better, my lover, dead.


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Do jeito delas - vozes femininas de língua inglesa. Tradução Jorge Wanderley. Organização e ensaios de Márcia Cavendish Wanderley, Carlos Eduardo Fialho, Sueli Cavendish. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008.

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quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Desonra


Cada livro captura seu leitor por estratégias diversas e distintas e, dentre elas, a habilidade para contar histórias, de forma que elas passem a ser nossas também e, nesse gesto, nos tornem mais ricos, mais próximos de nossa própria humanidade, é fundadora na boa literatura. Além disso, uma obra precisará pagar tributo ao domínio da forma, seja na exploração das vozes narrativas que dirigem a atenção do leitor para um ou outro lugar de enunciação, seja na criação de personagens fortes, seja na estrutura mesma do jogo discursivo, como o fazem, por exemplo, Machado e a Clarice de A hora da estrela, para ficar só nesses dois.

A leitura do romance Desonra, de John Maxwell Coetzee (prêmio Nobel de 2003, Booker Prize em 1999 para o livro), impacta uma leitora como eu de várias maneiras: o protagonista é professor de poesia, portanto, tem uma experiência com a qual me identifico profissionalmente; ele também é um professor que se envolve sexualmente com uma aluna, e essa mistura de poder e saber sempre foi uma questão ética que vi infringida regularmente em alguns lugares onde trabalhei – atitude que sempre considerei abusiva e no fundo desprezava os sujeitos que se valiam da função para isso. 

Um tema forte do livro é o estupro, e ele me toca, como acho que a toda mulher. Leio, pois, como mulher, o episódio do "sexo-violação-quase-estupro"; na verdade, toda a página 33 do livro está anotada como uma conversa entre o que o personagem, David Lurie, diz e o que eu respondo a ele. Por exemplo, ele diz "Estupro não, não exatamente, mas indesejado mesmo assim, profundamente indesejado. Como se ela tivesse decidido ficar mole, morrer por dentro enquanto aquilo durava, como um coelho quando a boca da raposa fecha em seu pescoço. De forma que tudo o que lhe fosse feito, fosse feito, por assim dizer, de longe" (p. 33) - ao que respondo "estupro, sim, seu escroque!". Outras frases desse mesmo trecho: "...quando chega ao carro, é tomado por tal desânimo, tal embotamento, que fica encurvado sobre a direção, incapaz de se mexer" - eu lhe digo: “fuck you!”; “Ele a vê enchendo a banheira, entrando na água, de olhos fechados como uma sonâmbula. Gostaria de entrar na banheira” – eu-leitora : “com ácido?”; “Ao preencher a ficha depois, ele marca presença para ela e lhe dá uma nota sete.” Eu lhe digo: “escroque!” (tá, o que escrevo é mais forte que escroque...).

De todo modo, há a cena fundadora do livro, segundo penso, a cena que, de certo modo, dá o sentido político de tudo, a violação da filha pelos três homens, que se anuncia assim:
Pelo caminho, vêm três homens na direção deles, ou dois homens e um rapaz. Estão andando depressa, com os passos largos dos camponeses. O cachorro que está ao lado de Lucy diminui o passo, se arrepia.” (p.107).

(Cachorros têm uma função importante no livro, eles são objeto dos cuidados de Lucy, por um lado, e de Bev Shaw, por outro lado, que os sacrifica. Eles são ainda o tema da belíssima última página, um momento de profunda desolação, quando o homem é levado a desistir, ambiguamente, de um cão aleijado, e sequer terá esse cão por companhia).

Então os dois, pai e filha, chegam à fazenda e lá encontram os três homens, e o que acontece a partir daí será narrado com maestria e sutileza ímpares, basicamente pelo modo como a filha compreende a violação – como gesto político (que ele certamente é), mas sobretudo como um direito jamais enunciado claramente daqueles que foram historicamente dominados pela bárbara e branca colonização. Lucy transforma seu corpo e o vivencia, pois, como um território de conflagração política, como butim de guerra, e mesmo quando o pai enuncia as palavras duras (“Ao contrário, eu entendo muito bem”, diz. “Vou pronunciar as palavras que até agora evitamos dizer. Você foi estuprada. Múltiplo estupro. Por três homens.”) (p.179), ou quando ela mesma o faz (“Quando faz sexo com uma estranha, quando encurrala, prende, submete, coloca todo o seu peso em cima dela, não é um pouco como assassinar?”) (p.180), mesmo então ela não cede, não foge da fazenda, não abdica da terra a que quer ter direito, como os negros sul-africanos o têm de origem, compreendemos nós.

O livro é grandioso porque nos faz acompanhar destinos fortes, situações extremas, com frases duras, secas, às vezes de uma violência contida, que não explode abertamente. E, no entanto, nos reconhecemos em cada um dos personagens, compreendemos quantas nuanças nossas vidas comportam, quanta ferocidade também, e foram esses personagens que nos disseram sobre nós. Não é pouca coisa como legado literário.

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Desonra, John Maxwell Coetzee. Tradução José Rubens Siqueira. São Paulo: Cia das Letras, 2000.

O santo é o santo


Fui cumprir o que já está virando um périplo ao mosteiro de Santo Antonio para fazer jus a meu próprio desafio, quem manda... Enfim, fui lá e o santo é mesmo São Pedro. Quem mo disse agora foi um dos frades que lá trabalham, e que tirou essas fotos ótimas para mim (eu acho que minha nascente profissão de fotógrafa está fadada ao ocaso).

De todo modo, a informação é que essa estátua é de gesso, não tem autoria definida, é anônima, e que os atributos de São Pedro estão claros - o livro e a chave, vistos melhor nas fotos que ele tirou, hélas para minha carreira de fotógrafa...:)

Certo? Se alguém ainda tiver alguma dúvida, por exemplo, por que o livro e a chave são atributos dele, e se são essenciais ou acessórios favor consultar o site http://www.franciscanos.org.br/ que tem um monte de coisa interessante para ler e pesquisar.








segunda-feira, 10 de novembro de 2008

o nome do santo


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Dever de casa feito. O santo cuja foto aparece, onze posts abaixo, sob o título "o nome do santo" é.... SÃO PEDRO! Fui até o mosteiro de novo para conferir, a imagem fica logo de frente para o elevador, nem precisa ir muito longe.
Perdão, São Pedro, nós somos mesmo uns distraídos... mas o senhor há de convir que fica difícil mesmo, já que cada página da internet tem uma foto sua diferente da outra, e todas diferentes da minha foto.
De todo modo, todas dizem que o senhor é, junto com São Paulo, co-fundador da Igreja de Roma etc, etc...

domingo, 9 de novembro de 2008

Vicky Cristina Barcelona


Um filme em que se ri bastante com os imbroglios criados pelo trio, improvável, que se une para amar e viver em Barcelona. Do que eu gostei: parece clichê, mas o Javier Bardem está bom demais, e lindo, claro, assim como a Penelope. Não sei se porque o cenário é a lindíssima Barcelona, mas os dois espanhóis dão show de bola, e as duas moças americanas ficam meio de coadjuvantes dos dois. Aliás, a Cristina da Scarlett Johansson vai murchando quando entra em cena a histérica personagem da Penelope.

Gostei da música, tanto a da trilha, cantada em espanhol sussurante, quanto a do violonista que toca um trecho de uma peça, lindíssima; gostei também de ver a cidade por onde passeiam os visitantes, de modo que eu também me fiz um pouco turista ali, acho que todos nós saímos querendo estar em Barcelona e vendo as maravilhas de Gaudí, mas eu esperava mais do filme, acho que se criou muita expectativa em torno dele e acho que ficou aquém da fama.
Por exemplo, achei meio intempestiva a saída da Scarlett do jogo, assim como ficou meio descosida a paixão da Vicky pelo pintor interpretado por Bardem. No final, como afirma Pedro Butcher na crítica ótima, por sinal, da Folha Online, a mais coerente mesmo é a personagem de Penelope, louca do começo ao fim. E também não fiquei convencida das dúvidas existenciais da Cristina (aliás, estou achando que a Scarlett tem interpretado bastante ela mesma no cinema), creio que no final ela sentiu falta mesmo foi de um bom hambúrger do Macdonald.

sábado, 8 de novembro de 2008

vermelho


Para dar energia e vontade de viver.

bolo de flores


No Largo do Machado, esse bolo de cores por ocasião do dia de finados.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Dr. Fabio Machado Landim


Ele faria hoje 40 anos. Que esteja no melhor lugar, aquele que seu nobre coração merece habitar.

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Ele não era apenas meu sol, como no poema de Auden. Ele era o sol de todos nós, de quem ele cuidou com serenidade, leveza e generosidade. Ele era o sol de todos cujas vidas salvou, e foram muitas. E todos nós íamos a ele, nos momentos de pânico total, de medo absurdo, e só em vê-lo tudo ficava melhor, mais compreensível, mais tolerável.

Ele foi meu oncologista, e só tinha 34 anos, muita sabedoria, uma crença profunda nas pessoas, em sua profissão, uma gentileza intrínseca, um coração enorme. Serenidade.

Morreu numa cirurgia boba, desobstrução nasal, saiu do centro cirúrgico bem, com esse sorriso que era sua marca. De repente tudo mudou. Ele se foi em 21 de outubro, só soube ontem, e me sinto mais órfã hoje do que jamais.

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quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Tradução do discurso



A Ana, gentilmente, traduziu o discurso do Obama, vejam em
http://amdcr.blogspot.com/

Mas acho que se deve também ouvir o Obama, então o legal para quem tem dificuldades em entender é ler a tradução da Ana e ouvir no site.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Obama



Eu também considero uma vitória histórica, e tenho de me curvar a uma América que nos dá lições também.

Reconheço a grandeza deste momento, reavalio minha antipatia pelos valores desse país e embarco no mote do Obama : change has come to America.


E o discurso da vitória, emocionante à beça, está aqui:

http://elections.nytimes.com/2008/results/president/speeches/obama-victory-speech.html#

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

sobre Roth, Auster e literatura


Li uma ótima resenha do livro Indignação, do Philip Roth, feita por David Gates, do N.Y. Times, e publicada no Idéias JB do último sábado, 01/11/08, em que ele elogia muito o livro, a obra do autor, e observa coisas como

Em geral, prefiro os romances curtos e devastadores sobre sexo e mortalidade - Homem comum, Fantasma [sai de cena], O animal agonizante (2001) - em vez de suas incursões históricas, políticas ou sociais maiores - Pastoral [americana], A marca humana (2000), Complô contra a América (2004) - apesar de admitir que os livros grandes são mais gostosos de ler, uma vez que oferecem um cardápio mais rico de passatempos do que aqueles que cada um de nós tem disponíveis no mercado. Indignation, que se passa durante a Guerra da Coréia em uma pequena e conservadora faculdade de Ohio - chamada Winesburg - tem algo em comum com os dois estilos rothianos. Evoca um período terrível da história dos Estados Unidos (em oposição a todos aqueles períodos idílicos), mas, como nos dois romances anteriores de Roth, também é econômico e cruel.

A nota mais interessante, no entanto, está logo à frente, quando Gates observa que

O segredo de Roth, creio, é sua extrema segurança como contador de histórias - e paradoxalmente, uma humildade suprema. Sua escrita está a serviço da história e de seus personagens; ele é pragmático, não beletrista. Se certas convenções de enredo e linguagem fazem o trabalho, por que sofisticar?

Creio que essa é uma das minhas dificuldades com Roth. O que eu gosto em literatura é o trabalho com linguagem, é uma sofisticação mesmo no campo das formas, do estilo. Uma simples história bem contada, para mim, não faz a literatura que me aprisiona, embora eu leia com prazer os romances de detetive e/ou science fiction (li sem parar O senhor dos anéis e queria mais), ou mesmo best sellers como Quando Nietzsche chorou, mas entro nessas obras sabendo qual é o pacto, esperando apenas o que elas têm a oferecer.
Já a alta literatura me chama por outras razões, gosto exatamente dos não-pragmáticos em linguagem e por isso amo o jogo ficcional que o Auster propõe, e desse articular genialmente, para mim, uma tênue linha entre o real e o ficcional. É como equilibrar-se em cima de um fio resistente sobre o abismo, e convidar-nos a brincar também com o perigo.