quarta-feira, 27 de julho de 2016

O monstro - leitura de um conto de Sérgio Sant'Anna

UM GOLPE DE MESTRE - Sobre um conto de Sérgio Sant'Anna 
                       (Vera Queiroz)

Há uma relação estreita entre os procedimentos narrativos que organizam a obra de Sérgio Sant'Anna, desde o livro inicial de contos Os sobreviventes, de 1969, chegando até o romance Um crime delicado (1998): em todas as novelas, contos e romances aparece o visceral desejo de experimentação da linguagem ficcional, e em cada uma das obras o autor radicaliza a pesquisa sobre os processos de narração, empenhando-se na criação de um estilo absolutamente original, que lhe tem conferido um lugar ímpar no cânone brasileiro, e diversos prêmios literários, entre eles três Jabutis.


Com O monstro não é diferente: trata-se de um conto exemplar quanto à exploração de linguagens que se superpõem, criando um universo multifacetado cujo resultado surpreende e captura o leitor, fascinado pelo constante estranhamento a que é submetido no processo de leitura, em que se mesclam os discursos jornalístico, jurídico e a reflexão filosófica acurada, e onde os rituais de transgressão são descritos de forma minimal, cooptando o leitor e tornando-o cúmplice, de algum modo, desse narrador voyeur e perverso. Inscrito no que a crítica, não sem controvérsias, tem chamado de literatura pós-moderna, o texto de Sant'Anna reflete sobre vários tipos de discurso, reduplicando-os magistralmente, de modo a criar um espelho que refrata textos e gêneros, personagens e consciências que os reduplicam, vozes que falam por si e por outros, subsumidos todos pela hábil manipulação desse mago desconstrutor de realidades.

A narrativa abre-se com uma peça jurídica perfeita. Trata-se de um relatório tendencioso contra o réu, Antenor Lott Marçal, 45 anos, acusado de cometer, junto com a cúmplice, Marieta de Castro, um crime hediondo: o estupro e assassinato da jovem e bela Frederica Stucker, com o agravante de que a vítima sofria de forte deficiência visual. O relatório obedece a todos os imperativos formais e jurídicos, inerentes a tal tipo de peça: há a descrição sumária dos envolvidos e do crime, o onde, o como, o porquê, em quatro parágrafos concisos e exemplares. O aspecto tendencioso mostra-se em recursos de enunciação que sublinham o ponto de vista do narrador, contrário ao réu, em frases como "drogada por seus algozes", "atraiu Frederica para aquela cilada", "surpreenderam dos policiais aos juízes" etc. Em seguida ao relatório, o narrador faz um briefing, em linguagem jornalística, apresentando a entrevista que se vai ler e tecendo comentários sobre o teor da matéria, que atiçam a curiosidade do leitor não apenas sobre os fatos que ele vai conhecer, em sua versão real, porque contada pelo autor, mas porque ele vai entrar em contato com algo possivelmente abominável, conforme insinua o narrador-jornalista, em frases como "o resultado dos encontros [...] surpreendeu até o jornalista habituado a conviver profissionalmente com os mais diferentes tipos de caráter humano" [SANT'ANNA, 1997:607], sugerindo que esse caráter, em particular, é especialmente monstruoso. Técnica jornalística, sem dúvida, mas também recurso literário que se sobrepõe no horizonte de expectativas do leitor, em sua relação com o texto, já que o pacto firmado entre ambos se dá na clave da ficção (pois trata-se aqui de um conto). A partir de então, o que se tem é o desenvolvimento de um outro tipo de expertise discursiva, em que o gênero jornalístico é explorado através da encenação de uma entrevista, supostamente dada pelo protagonista ao jornalista de Flagrante - note-se o campo semântico do nome dado ao jornal, que remete para o instantâneo, para a presentificação do fato, além de dialogar de modo claro com a linguagem policial.


É na entrevista que o leitor vai sendo apresentado a um sujeito (o réu) extremamente lúcido, cujo domínio completo da linguagem e das formas de expressão do pensamento o qualificam para a profissão que exerce: professor de filosofia. Aqui, Sant'Anna explora de forma magistral as contradições que residem na raiz mesma do comportamento humano, em sociedades complexas que, por sua estrutura heterogênea e por suas profundas desigualdades, pelo esgarçamento dos mínimos valores ─ éticos, morais, políticos, sociais ─ tornam-se permeáveis a todo tipo de perversão, na medida em que, quando os indivíduos são submetidos diuturnamente ao rebaixamento de quase todas as formas de dignificação dos valores, das forças morais, dos princípios de vida, o que se vai perdendo também é o contato com a sua própria humanidade, com a capacidade de discernir os limites dos atos sociais. Uma sociedade pervertida produz mais facilmente os perversos, de que Antenor e Marieta figuram como paradigmas. A narrativa dele deixa entrever, ao mesmo tempo, um domínio completo do pensamento, da palavra e da razão ─ professor de filosofia que é ─ e uma cisão profunda quanto aos valores que regem os atos, a determinação, a vontade, as paixões, enfim. O personagem narra, explica, busca compreender, distancia-se para ver melhor, mas continua imerso na aporia irreversível do ato sem sentido, da violência desmedida. O contraste entre a lucidez e o controle absolutos que o protagonista tem, seja da linguagem, em sua melhor retórica, seja dos mecanismos inerentes aos atos dele e de Marieta, contrastam com a incapacidade de ambos em regular suas paixões e vontades, sua incapacidade em colar, aos atos, os valores correspondentes, embora ele possa, a posteriori, reconhecer tais distúrbios, sem nunca, entretanto, chegar a nomeá-los. A racionalização se dá ainda dentro dos parâmetros do sujeito intelectual: desejo de verdade: "Mas outro aspecto importante é que sempre houve em mim, por minha própria formação, esse desejo de buscar a verdade. Eu não me conformava com todas aquelas versões mentirosas infamando Frederica, vinculando-a a drogas, a uma vida dupla". (SANT'ANNA, 1997: 631).


Menos do que o crime que descreve, o que qualifica o monstro a que se refere o título do conto diz respeito a essa incapacidade de colar uma ação hedionda a seu valor moral. O leitor pode nomeá-los, rubricá-los dentro das sociopatias conhecidas – voyeurismo, esquizofrenia, o que talvez seja outra forma de racionalização. Maior que a indignação face ao crime, sua hiperexposição sob forma de alta literatura transborda e fere de morte a doxa, o olhar acostumado, lançando para o abismo nosso bom-mocismo ingênuo. Essa a função das grandes artes: golpear o monstro que espreita toda forma de alienação.

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SANT'ANNA, Sérgio. O Monstro. In: Contos e novelas reunidos. Cia das Letras:1997, p.606-640.

Nota: Texto escrito para um curso da Faculdade de Direito, há vários anos, quando a autora ainda acreditava que poderia fazer outra faculdade, desta vez para defender os fracos e oprimidos. Chegou ao quarto período e rendeu-se.

terça-feira, 26 de julho de 2016

Alguns poucos filmes da MostraAí 2014

A GATINHA ESQUISITA (Das Merkwurdige Katzchen, Alemanha, 2013. Dir:Ramon Zurcher Com:Leon Alan Bewiersdorf, Lea Draeger)


Obra prima inconteste – o diretor filmou, do começo ao fim, todo o universo existencial, psicológico e filosófico das obras literárias de Clarice Lispector, a escritora brasileira que fotografa com a palavra cada milímetro das sensações que perpassam o cotidiano das relações entre as pessoas e o mundo, os objetos familiares, os pequenos acontecimentos, seja ele olhar nos olhos de um búfalo no zoológico, seja o esvoaçar de uma pena no ar, ou o cruzamento fortuito de alguém no bonde com o olhar de um cego. Todos os contos de Laços de família estão aqui; todo o clima de A paixão segundo GH está aqui, até mesmo cenas que se lêem em Clarice estão filmadas como se transpostas para a tela – e isso independe de o diretor conhecer ou não a obra da autora brasileira, porque é um modo de estar no mundo que os aproxima, flagrantes da existência cotidiana que em ambos adquirem estatuto de obra de arte – sob a palavra, uma; sob as imagens, outro.

Essa é a primeira vez que vejo na tela uma obra literária em sua perfeita forma, ou seja, um filme feito de sopros, de sensações e observações  intensas sobre o mínimo, os objetos comuns, as situações cujos significados residem nas impressões que causam, expressas por pequenas, contínuas e intensas epifanias, como  se o cotidiano fosse pleno de riquezas, de sentidos que nos oprimem e nos excitam, como se a vida fosse esse diuturno brilho do singular e do comum, do banal, de onde se extraem as pepitas, o que comove, o que existe, o que pasma simplesmente por estar vivo, e pulsar e existir para nossos olhos.

Há cenas antológicas, como a da mulher que faz a mãe e tem uma relação difícil com o gato, e coloca o pé sobre o bichano, no vão da porta, aproximando-o lentamente do animal, como se fora esmagá-lo – dura um átimo e uma eternidade, porque ali estão resumidos todos os nossos desejos ancestrais de um dia ter esmigalhado um gato, um besouro, uma mosca, um inseto, um tudo; ou quando essa mesma mulher-mãe toma o leite onde há um pelo do gato, já quase no final do filme e da refeição com os amigos – ele toma o leite, e essa cena tem o mesmo sentido de comer a barata n’A paixão – uma redenção, talvez, em meio à culpa de que não se sabe bem o motivo, mas que está lá, sempre premente, e presente.

Há quase todo o tempo, igualmente, frases brilhantes, interessantíssimas, muitas vezes emoldurando uma situação comum, como quando a menina pergunta sobre os lóbulos dos pulmões:
_ Que são lóbulos?
_ São as asas dos pulmões. Para que voem, quando necessário.
Ou quando uma das filhas está olhando pela janela, provavelmente vendo lá fora o cão da casa, e observa para o rapaz, que parece ser o marido, ou namorado:
_ Não queria ser um cão preto no verão.
_ Ainda não é verão.
_ Queria ser um no outono?
_ Aí, sim.


CRIANÇA DE DEUS (Child Of God, James Franco, 2013). Com Scott Haze, James Franco, Jim Parrack, Tim Blake Nelson

O filme é muito bom, na verdade um tour de force do ator Scott Haze, que leva o filme inteiro em sua interpretação brutal, na pele de um homem que perdeu o pai aos dez anos e, vivendo a esmo e no ermo da cidadezinha, vai-se tornando cada vez menos um homem, e cada vez mais um sujeito doente de solidão, que o leva aos poucos a uma forma de loucura, mas com um sentido agudo de sobrevivência, buscando descobrir como sair das situações difíceis que aquela sua existência comporta. A partir de um certo momento, esse estado esgarça-se, e ele se aproxima de práticas mais bestiais, e será desse lugar, em que todos os sentidos retesam-se para garantir a sobrevivência, que ele se vê um quase selvagem, matando a sangue frio para manter sua recém descoberta possibilidade amorosa: a necrofilia.


O modo como o diretor James Franco apresenta sua história não permite ao espectador julgar as ações desse (quase) homem de um ponto de vista das normas sociais – ele é acompanhado pela câmera, pulando e caçando, evacuando e matando um bicho aqui e ali para alimentar-se, de modo que quando ele mata um homem quase sem pensar, e depois a mulher, não há aparentemente nenhuma mudança brusca – o pássaro morto mata sua fome de comida; a mulher morta mata sua fome de sexo e de amor. Assim, acompanhamos sua descida na escala humana, em direção ao seu estado mais duro e mais brutal, ao mesmo tempo em que vai descendo para o mais fundo da caverna, achando os buracos onde se abrigar e guardar o que ama - a mulher, os bichos de pelúcia. Mas perder é de sua natureza de ser híbrido - entre bicho e gente, então ele perde o braço. Mas não a vida. Essa segue a trilha dentro das pedras, por um caminho que só os íntimos da natureza conhecem, e ergue-se por fim em meio a uma campina vasta – essa cena final, em que ele corre e grunhe de alegria, mostra um ser que caminha para um lugar indecidível na escala humana.

Um grande filme, em que se percebe como Franco foi certeiro ao deixar seu ator agir, e filmá-lo quase como o documentário de uma loucura anunciada. E sem esse ator, sem essa entrega absurda e visceral do ator ao personagem, não haveria o filme sobre a gestação de uma insanidade, passo a passo.  Muito bom, e muito terrível.

A SALVAÇÃO (Kristian Levring, 2014). Com: Mads Mikkelsen, Eva Green, Jeffey Dean Morgan, Eric Cantona.

É um ótimo faroeste, clássico, dos bons, com o talento de Mads Mikkelsen, com aquela expressão dura e concentrada, e a incrível interpretação de Eva Green no papel de uma mulher muda (porque lhe cortaram a língua), mas que fala pelos olhos mais do que elenco todo, fiquei impressionada com a força dela, mesmo já a conhecendo de alguns episódios em Penny Dreadful. Ela está soberba, sem falar, e quase sem piscar, puro ódio concentrado - muito bom.

ACEITA CARTÃO? (Julian Gilbey, 2014). Ed Speleer, Will Poulter.

Achei mediano, dá pra ver se não houver grandes expectativas - filme de trambiqueiros, como já vimos tantos produzidos pela matriz norte americana, e só o sotaque britânico não o diferencia deles, mas soa bem aos ouvidos, porque gosto do sotaque

PASSO EM FALSO (Starred Up, Reino Unido, 2013. Dir:David Mackenzie Com:Jack O’Connel, Rupert Friend)

Embora pertença a um gênero em que a violência comanda, e eu quase nunca me encontre num filme onde a testosterona dita quase tudo, gostei desse porque os dois personagens, pai e filho, se estraçalham ao mesmo tempo por ser o que são, e por desejarem ser diferentes, ou seja, a violência que os constitui é uma parede, por onde passam, a fórceps, a memória de um desejo de afeto, de amor, de família. Achei bruto tudo, mas muito emocionante o esforço desses homens para se encontrarem em algum lugar no mundo dos afetos. Muito intenso.


A MOÇA DA BICICLETA (Girl On A Bicycle. EUA/Alemanha, 2013. Dir:Jeremy Leven Com:Louise Manot, Vincenzo Amato)

Vi esse filme e amei. Uma comédia romântica super agradável, com cenas simples, às vezes engraçadas, tudo correto e fácil e bom. Num final de domingo, é um presente.

SOBRE AQUELE NOSSO VERÃO (Very Good Girls, EUA, 2013. Dir:Naomi Forner Com: Elisabeth Olsen, Dakota Fanning) NOTA 6,5

Dakota com a mesma expressão trágica excessivamente dura, por querelas de amor juvenil, nada a acrescentar, a não ser as cenas de rebelião das jovens que agora acontecem quando tiram a roupa toda e nadam nuas, ou tiram a blusa e ficam de sutiã e calcinhas quando fazem as pazes. Uau! 


COERÊNCIA (Coherence, EUA, 2013. Dir:James Ward Byrkit Com:Emily Baldoni, Maury Sterling, Nicholas Brendon)  

Filme em que se pode ficar até o fim dos tempos tentando entender as teorias da física que lhe dão suporte; outro tanto para entender os acontecimentos do próprio filme. Mas nada disso tira o interesse dessa ficção científica, que nos deixa grudados na cadeira até sua última cena – quando concluímos a compreensão por um: como?

ENCONTROS, DESENCONTROS, REENCONTROS (Une Rencontre, França, 2014. Dir:Lisa Azuelos Com: Sophie Marceau, François Cluzet, Lisa Azuelos)

Uma história de amor clássica, com todos os ingredientes para fazer o espectador feliz: um casal de protagonistas belíssimo, ótimos atores, uma história de amor impossível e atração irresistível por outra mulher, e a decisão final dele de não trair o casamento, a despeito da paixão e fascínio intensos. Muito bom, e bem feito.

LUA DE MEL (Honeymoon, EUA, 2014. Dir:Leigh Janiak Com:Rose Leslie, Harry Treadaway)


Filme B de terror, quase todo tempo psicológico, e meio bobo, sobretudo o rapaz, que chega a constranger pela falta de entendimento do que está acontecendo. Fiquei olhando até o fim, mas até os sessenta minutos somos cozinhados em banho maria naquela situação, que pressentimos qual seja, menos o rapaz, claro, até que nos minutos finais a mulher finalmente... Bem, a gente vê, mas achei muito sem graça. Pode ser que a exibição ruim do online tenha prejudicado o filme, já que o escuro de várias cenas (para contrapor à tal luz etc) ficou quase invisível algumas vezes. De todo modo, achei muito distante de Coherence.

Alguns filmes da 'MostraAí' 2013

Esses comentários estão guardados há tempos, esperando que eu os desenvolva mais, o que não ocorreu, e resolvi expor assim mesmo.

Não lembro se eles foram vistos no Mostra Aí de 2013 ou 2014, um festival on line organizado por um querido cinéfilo, muito bamba, e fica aqui como registro de tê-los assistido.

Os garotos - drama vivido por dois jovens: um, cuja família é estruturada com pai, mãe e irmã pequena; o outro, cuja mãe morreu e vive com o pai e o irmão. Ambas as famílias são amorosas com seus filhos, mas a segunda tem mais conflitos em razão da falta da mãe. Os dois garotos têm em torno de   16 anos, correm por suas escolas e se apaixonam. O filme é o drama que eles vivem para se entender e se encontrar. Encontram-se no final. nota 8

Metro Manilla: drama que envolve uma família de agricultores paupérrimos (marido, mulher,uma criança de 9 anos e um bebê) que resolvem largar a miséria do campo e migrar para a capital filipina, Manila, onde ele acaba encontrando um emprego de guarda de carro forte, protegido pelo colega que o ajuda a ser contratado, que tem planos de roubar uma das caixas com dinheiro e vai precisar da ajuda do agricultor para pegar a chave que a abre, sem estourar o dinheiro. O filme tem um final totalmente inesperado e, de certo modo, redentor e altruísta. Além de dar uma volta no sistema social que o condenava à miséria sem apelação, a diretora do filme também faz seu personagem romper com o estereótipo do homem simples do campo como sinônimo de ignorância, ao atribuir-lhe um plano elaboradíssimo e bastante complexo que deixará sua família para sempre em boa situação financeira, e tudo sai exatamente como ele planejou. Paga um preço altíssimo, mas sai vencedor de acordo com seus desígnios. Nota 9

Joséphine: moça de classe média que não tem nada na cabeça cisma de entrar em competição com a irmã sobre namoros e casamento, e acaba criando uma mentira tão cabeluda que se vê na contingência de ir ao encontro do 'noivo inventado no Brasil, já que ele é médico naquele país e sambalelê. Ela não vai, claro, sua mala se extravia e ela se esconde em seu próprio ótimo apartamento, em seu próprio quarto, onde passa a conviver às escondidas com um colega de trabalho que subloca seu apartamento, agora que,em tese, ela se mandou pra outro país. Depois de muitos quiproquós, ela acaba se apaixonando pelo cara simplório do trabalho (onde ela não faz quase coisa nenhuma), que se revela bem legalzinho no convívio escondido diário. Nota 6

Kill your darlings: jovens estudantes numa universidade de alto padrão se envolvem em discussões filosóficas e literárias e também em intensas relações amorosas. O assassinato de David Kammerer faz com que três dos poetas mais famosos da geração beat se aproximem: Allen Ginsberg (Daniel Radcliff), Jack Kerouac e Wiliam Borroughs. 

Após assistir ao filme na edição de 2013 do Sundance Film Festival, Damon Wise, crítico do jornal estadunidense The Guardian, disse que o filme era “bastante verossímil e mostrou de fato como foi o começo do movimento da contracultura estadunidense na literatura do século XX [...] O filme passa uma paixão e energia incríveis ao mostrar artistas não escrevendo e criando, mas em suas ações cotidianas, conversando,desenvolvendo suas idéias e incentivando uns aos outros para sempre tentarem inovar em sua arte.” “Embora ele comece com o mistério de um assassinato”, continua Damon,” Kill Your Darlings está mais para um daqueles filmes que nos fazem refletir, é uma descrição perfeita de seu tempo e que ainda assim soa incrivelmente atual.” Em sua resenha sobre o filme, Damon Wise congratulou-o com quatro de cinco estrelas. 
O barato do filme é a pegada da paixão-obsessão de um personagem, David Cammerer, por outro, Lucien Carr, por quem também Allen Guinsberg se apaixona. No final, há o drama do assassinato - Carr mata Cammerer, e as dúvidas sobre as várias versões do episódio. Todos os atores dão show de talento. Nota 8

Hawaii: lentíssima história de dois amigos de infância que se reencontram quando um vai pedir para fazer pequenos serviços durante um certo tempo, ao fim do qual ele deverá ter um trabalho em Buenos Aires. O barato do filme é exatamente o ritmo lento e a perspectiva dos pequeníssimos detalhes que compõem uma história de afetos entre os dois que vai muito lentamente emergindo na consciência do personagem escritor. Há muitos detalhes interessantes, o filme é rico em sutilezas e a pegada de incerteza e dúvidas quanto aos dois se reconhecerem amorosamente é constante, além de haver um clima de erotismo muito velado mas, por isso mesmo, intenso ao longo de todo o filme. Muito bem feito, um bordado muito delicado sobre afetividade homo. Nota 8,5

Expresso do amanhã: mais do mesmo, ou seja, filmão sobre o fim dos tempos, agora através do gelo, quando todo o planeta se resfria salvando-se apenas aqueles que viajam num trem bala que nunca para, criado por um sujeito que mantém grande parte da população no final do trem, em regime de escravidão - o filme então será a tentativa de tomada do trem, quando muitas mortes acontecem e um acidente trágico põe fim à rota infinita do trem e à vida de seus passageiros, salvo uma mulher e uma criança que, em tese, começarão uma nova humanidade. Isso se o urso bem à frente deles dois deixar. Ponto positivo: paisagens brancas lindíssimas. Negativo: déjà vu demais. Nota 6,5

Barefoot: comédia dramática sobre uma moça que foi mantida em isolamento pela mãe esquizofrênica até a idade adulta, quando morreu e ela pensa que matou a mãe, e um rapaz da família rica metido em encrencas. Os dois se conhecem num hospital psiquiátrico e ficam juntos num road trip ao fim da qual se apaixonam, têm seus problemas resolvidos, ficam juntos e provavelmente serão felizes para sempre. A esquecer em alguns dias, uma bobagem só.

Nota 5

O homem duplicado: estranhíssimo filme, em que um homem, professor de História, descobre um sósia vendo um filme, e o procura para conferir se são mesmo idênticos. São, e acompanhamos a tensão de uma pressentida luta entre um e outro para ver quem sobrevive. Mas há também um aspecto de terror, numas cenas meio incompreensíveis que abrem o filme e mostram homens reunidos num lugar que parece proibido e se extasiam com mulheres que pisam em tarântulas. Se há alguma simbologia nelas, desconheço. No final, a tarântula se apresenta ela mesma no corpo da mulher grávida da mulher do ator. Muito estranho, e só vale pela tensão que instala. nota 7


O jardim dos esquecidos - flores do sótão: sinistro, mas datado no ritmo e na verossimilhança das ações dos filhos, não há como aceitar tanta passividade com relação à crueldade reinante. Jovens bobinhos demais. nota 6


Antes sexo do que nunca: história de amor entediado, em que uma das partes decide resolver seu problema de falta de sexo com a mulher e ainda ganhar uma grana, transando com as carentes ricas. A história é comum, mas a atriz é bem interessante, e o filme se vê no modo fácil. O título é nota 10, e o filme nota 7


Mandariinid: ótimo filme sobre a inutilidade da guerra, e  o valor da convivência para mostrar que todas as facções são irmãs sob a chancela da generosidade, da fraternidade e da solidariedade. As diferenças se aplainam face à proximidade da morte, não há lados quando ela escolhe qualquer um, basta que alguém não diga a palavra certa. E a morte escolhe aleatoriamente na guerra, ela não faz qualquer distinção e só tem uma finalidade - matar.

Nota 9

Hateship Loveship: bem legal a história dessa mulher simples, que acaba descobrindo o que quer a partir das falsas cartas que lhe enviam duas adolescentes maldosas. O que elas escrevem fingindo ser o pai de uma delas acaba se tornando objeto do desejo da mulher, que vai à luta e conquista tudo que lhe foi mentido, e sem qualquer perder o jeito sereno de ser. Muito bom de ver. Nota 8,5



segunda-feira, 25 de julho de 2016

Dois filmee: La vanité; Copenhagen

La vanité (Lionel Baier, 2016). Com Patrick Lapp, Carmen Maura, Ivan Georgiev. 

Simples, eficiente, engraçado, o filme trata dos últimos momentos de um arquiteto, no momento em que decide usar os serviços de uma empresa que trabalha com eutanásia, e antecipar sua morte, em razão de um câncer aparentemente terminal. 

Mas as coisas não funcionam como ele havia planejado, algumas revelações e reviravoltas acontecem no quarto exíguo do hotel, que ele ajudou a construir, com a mulher, anos atrás. O fato é que o filme corre leve, quando se poderia esperar drama e choro - esse último não há, ao contrário, um rapaz de programa russo, super simpático, traz humor e encanto às agruras do homem e, ao fim, também da mulher (Carmen Maura, sempre ótima), e tudo termina um pouco melhor do que antes. Para distrair, e ver como se trata a morte com leveza, vale o programa.


Copenhagen (Mark Raso, 2014).Com Frederikke Dahl Hansen, Gethin Anthony, Sebastian Armesto.(canal Netflix)

Confesso que já havia tentado ver esse filme várias vezes, mas sempre empacava na clara vertente de filme 'viajante mochileiro encontra girls pelos caminhos e acontecem embrólios, cama, sexo etc, etc", ou seja, falta de paciência para os road movies de descobertas sejas quais forem. Puro mau humor. 

O filme tem uma menina atriz lindíssima, e ótima; tem pegação e descobertas também, mas tem uma história bacana, uma coisa de crescimento do rapaz - ele tem 27 anos, em tese deveria ser o 'mentor' da garota, que tem 14-em-vias-de-completar-15, mas aos poucos quem menos conhece de si é mesmo ele.

O fato é que aos poucos vão-se delineando surpresas, e as mudanças nos personagens são tão interessantes, tudo se passa apesar de - ele não querer se envolver com uma menina; a menina não ser exatamente uma adolescente secundarista ingênua, mas uma pessoa rica, interessante, com maturidade muito além de sua idade, e da experiência dele - depois teremos insights do porquê ela cresceu e amadureceu mais do que a idade revela. 

O final do filme, com cenas delicadas, bonitas e duras, para expressar mudanças, crescimentos, transformações, sacações de quem ele estava buscando quando procurava o pai do pai, me encantou, assim como o filme todo, e fiquei muito feliz de ver, afinal, com olhos limpos e tranquilos sua singela beleza. 



domingo, 24 de julho de 2016

Três filmes: Procurando Dory; Espaço além - Marina Abramovic e o Brasil; Um dia perfeito


Procurando Dory (Andrew Stanton, Angus MacLane, 2016). Vozes originais de Elle DeGeneris, Albert Brooks, Idris Elba, Diane Keaton,  Ed O’Oneill.

Sim, não gosto de desenhos, mas tenho estado tão cansada certos dias que procuro o DA como um refúgio, para me distrair. Mas esse aqui é mesmo lindo, tem uma história comovente e muito bem feita, claro, e a Dory é uma menina muito esperta e fofa. Mas o que me levou a vê-lo, mesmo, foi eu ser leitora do instagram de Marília Gabriela e ela ter feito menção a seu trabalho no filme. Achei ótima a participação, achei ótimo o filme também. Agora sou uma espectadora de filmes animados, que bom.

Espaço além – Marina Abramovic e o Brasil (Documentário, dir. Marco Del Fiol, 2016). Com Marina Abramovic.

Não conhecia nada sobre a protagonista desse filme, mas acabei achando interessante, embora nem sempre me conectando a ele, o empenho dela em conhecer-se, em buscar sentidos para a vida e o vazio em que se encontrava depois de ser abandonada pelo amado. 

O momento mais tenso foi quando ela tomou ayahuasca pela primeira vez e quase enlouqueceu - lembrei-me de um caso recente, do Rian, filho de Nizo Neto, que morreu numa viagem com essa erva. Pode-se ver no filme como ela pode levar a isso, mas também o outro lado, quando ela toma pela segunda vez e faz uma viagem alucinógena transcendental. Já vivi uma experiência semelhante, embora com erva muito menos forte, e foi apenas uma vez - não gostei do que vi, nem do que vivi, ou senti

De todo modo, o filme interessa sob essa ótica, e de forma especial a quem está em busca do que quer que seja - de si, do sentido das coisas, do mundo, da vida, da morte, de uma certa luz, enfim - buscas.


Um dia perfeito (Fernando Leóna de Aranoa, 2016) Com Benício Del Toro, Tim Robbins, Olga Kurylenko.


História envolvendo um cadáver que precisa ser retirado de um poço para não contaminar a água dos moradores de um vilarejo perdido no meio do nada durante uma das trezentas mil guerras patrocinadas pelos impérios etc, etc. Mais um menino que perdeu os pais e ainda não sabe, a quem lhe tomam a bola na marra; mais dois amigos - vividos, claro, por Del Toro e Robbins - que fazem trabalho humanitário nessas regiões cheias de minas prontas a explodir ao menor vacilo; mais duas mulheres que também ajudam, e criam alguns problemas para os homens. 

Enfim, um filme que promete mais do que cumpre, onde se ri às vezes, em que se percebe que Del Toro continua belíssimo, mas atuando no piloto automático. E quanto a Tim Robbins, nem isso pude perceber. 


Dois filmes: O valor de um homem; Um belo verão


O valor de um homem (Stéphane Brizé, 2016). Com Vincent Lindon, Karine de Mirbeck, Matthieu Schaller.

O que esse filme tem de simples, tem de forte - tanto no tema (a força corrosiva do capital sobre o trabalhador assalariado), como na forma como retrata um momento crucial em sua vida: as tentativas, as inúmeras entrevistas, as situações humilhantes por que passa um homem em busca de trabalho, qualquer trabalho, de modo a tocar sua vida e dar o sustento da família. 

[Lembrei aqui de outro filme que trata do desemprego e do desespero gerado por essa situação, numa Europa saturada e empobrecida: Dois dias, uma noite (dos irmãos Dardenne, 2014), em que Marion Cotillard vai de amigo em amigo esmolando, pedindo que eles abram mão do bônus extra que haviam recebido pelo trabalho, enquanto ela estivera doente, de modo que possa retomar seu posto, seu lugar, seu trabalho. Não gostei do filme, porque não gostei da postura da personagem - jogando para seus pares a responsabilidade por sua miséria, e por tirá-la dela]. 

Aqui há algo semelhante, ou seja, há uma crise de emprego, há um homem no limite de sua honra, alguém que precisa desesperadamente de um trabalho para não sucumbir à miséria. Ele consegue, afinal, uma saída, e fica até um certo tempo, ou melhor, até perceber o jogo sujo que o capitalismo impõe a seus dependentes - o exercício da escrotidão voluntária e diuturna é o seu trabalho, tomar conta dos pobres e desempregados, como ele o fora até há pouco tempo; delatá-los; humilhá-los; vê-los e tratá-los como escória ou, numa leitura bem brasileira, e bem contemporânea: desdenhar os que, em tese, não aproveitam o sistema de meritocracia capitalista - os vagabundos, os que não quiseram estudar, os que não trabalharam duro para ascender (os grandes cínicos no poder afirmam). 

Nada disso é dito, tudo é visto pelos encontros entre os clientes e os supervisores do supermercado. O homem age, olha, fica em silêncio, mas seu gesto final faz valer a pena tudo: ele recusa ser o rato em que o querem transformar, e parte. Belo filme, e atuação magistral de Vincent Lindon.

Um belo verão (Catherine Corsine, 2016). Com Cécile de France, Izïa Higelin, Noémie  Lvovsky

O terceiro melhor filme lésbico que já vi - o primeiro foi (acho que ainda é, não sei, teria que rever) Quando a noite cai, um filme de 95 de Patricia Rozema; o segundo seria Azul é a cor mais quente, de Abdelatiff Kechiche, 2013, mas parece que não vi tantos assim.

O interessante aqui, para mim, aparece em três níveis: um momento da história do feminismo, no início dos 70, com suas reuniões acaloradas, em que as jovens discutem as ações e intervenções de rua, gerando um clima de algazarra, rebeldia e insurgência contra alguns modelos patriarcais de então, e de hoje; o segundo ponto reside na diferença de origem entre as duas protagonistas e amantes: o fato de Delphine (Izïa Higelin) vir do campo e nele trabalhar sugere uma dimensão interessante à história das duas, e também pontua sob outro ângulo as questões feministas postas pelo filme, sobretudo no modo como o trabalho da mãe é visto pelo marido, pelo grupo e mesmo pela filha; o terceiro ponto de interesse é a liberdade de filmar os corpos em sua paixão com delicadeza e verdade, é a história mesma, o modo como se desenrola em Paris, e depois no campo. Aí vira o que é mesmo: um filme romântico, bonito, com paixão e separação, com abandonos e reviravoltas, e duas atrizes fazendo um trabalho estupendo - gostei muito de Cécile de France e seu cabelão, mas é de Izïa que mais me lembro. O final fica em aberto, mas não tenho dúvidas de que, na minha história, Carole...

sábado, 23 de julho de 2016

Quatro filmes: Agnus Dei; Julieta; Marguerite; Na ventania


Agnus Dei (Anne Fontaine, 2016). Com Lou de Laâge, Vincent Macaigne, Agata Buzek.

Sensível retomada das barbáries cometidas contra mulheres durante a 2ª guerra mundial, desta vez contra as mulheres freiras num convento polonês, estupradas por soldados, de quem várias engravidam e, logo, vão parir quase ao mesmo tempo. A enfermeira Mathilde, embora proibida por regulamento, vai-se aproximando cada vez mais fortemente dos dilemas vividos por aquelas mulheres, cheias de culpa por terem os corpos (de Deus) violados, sem saída quando chega a hora do parto, e menos ainda qualquer chance de manter o filho, caso gerar traga à tona qualquer inesperado sentimento de maternidade.

Enfim, uma história forte, em que há um emparedamento geral - desde os muros do convento, aos exíguos espaços do hospital que atende aos feridos de guerra, ou os sentimentos abafados das noviças e, sobretudo, da madre superiora, cujos deveres de consciência levam-na a atitudes brutais. Tudo sufoca, até que ocorre uma inesperada mudança - um jorro de luz, humanidade e leveza como grand finale - e o espectador agradece .

Julieta (Pedro Almodóvar, 2016). Com Emma Suárez, Adriana Ugarte, Daniel Grao.

Um Almodóvar da maior qualidade, sem gritos, mas ainda mantendo a mulher dramática como centro gerador de energia - atômica, atávica, cósmica, visceral -, em que o diretor continua seu mergulho na natureza da condição feminina, a partir de onde constrói núcleos de ação e compreensão do mundo dos sentimentos e dos conflitos amorosos como poucos o fizeram, ou fazem. 

Há uma centelha no cinema de Almodóvar que ilumina não apenas o universo feminino, mas a complexidade dos sentires, a partir do olhar delas, do particular sentimento de mundo delas. Aqui não é diferente: a história de mãe e filha, que se mantêm afastadas por longos anos em virtude de um segredo que ambas guardam, resulta num filme excelente, com uma pitada de policial, e tudo de drama romântico. Muito bom, mesmo.

Marguerite (Xavier Giannoli, 2016). Com Catherine Frot, André Marcon, Michel Fau.

Não vi e não verei, por falta de interesse, o outro filme em cartaz que conta a mesma história, mas esse aqui achei bem bonzinho - ok, 'bem bonzinho' é horrivelmente condescendente, mas eu gostei, há cenas ótimas, a atriz Catherine Frot fez outro filme de doce memória, não por ser excelente, mas por tratar de culinária. Ela é muito simpática, boa atriz, e faz com muita graça e delicadeza a mulher rica que ama cantar, apesar de ser miseravelmente desafinada. Do final, inesperado, não gostei - precisava chegar a tanto?  


Na ventania (Martti Helde, 2016). Com Laura Peterson, Ingrid Isotamm, Mirt Preegel.

Filme dificílimo de ver, tanto por causa de seu tema - o holocausto, quanto pela forma como ele é mostrado: são cenas paradas, estáticas, de situações vividas pelos judeus durante sua indescritível expiação - daí que o filme me pareceu um conjunto forte de fotografias, encenadas na grande tela, que se assemelha então a um museu em cena aberta - um museu do holocausto. E daí também sua força, seu impacto, na forma nova como engessa e expõe, escancarando l.e.n.t.a.m.e.n.t.e - o inominável. 

Se o filme ganha uma grandiosa força dramática, litúrgica mesmo, advinda desta inovação técnica, perde um pouco na dinâmica fílmica, ou seja, há um certo momento em que eu quero ver um filme, seu encadeamento, não uma sequência de fotos, por mais extraordinárias que sejam em sua força de denúncia. Mas nada que não torne obrigatória a experiência, e imperdível a obra.  

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Dois filmes: Mãe só há uma; As montanhas se separam

Mãe só há uma. (Anna Muylaert, 2016). Naomi Nero, Dani Nefussi, Matheus Nachtergaele, Luciana Paes, Helena Albergaria.


Em ótimo filme, Anna Muylaert volta às telas num trabalho que mantém o interesse e a curiosidade do espectador, no qual volta a explorar núcleos familiares fora do esquema tradicional ou, talvez, em curto circuito quanto ao padrão mais comum das famílias. 

Baseado em fatos reais - somos pródigos em matéria prima quase pronta para compor as artes ficcionais -, o filme trabalha com as dificuldades quanto à ideia do pertencimento - pertenço a essa família? àquela? a meu gênero? a ele, a ela? Os mundos familiares até então conhecidos por Pierre/Felipe entram em colapso de repente, quando ele recebe a confirmação de que fora roubado na maternidade por essa que julgara ser sua mãe por dezessete anos. Imerso nas incertezas de uma passagem da adolescência para a vida adulta quanto a quem quer ser, para onde vai seu desejo, o jovem quase soçobra à mudança para o novo arranjo familiar, os novos modos de ser, a nova casa. Nessa, ele tem tudo certinho - um pai, mãe, um irmão adolescente, um quarto (suíte), mas nada faz muito sentido, e ele força a barra da estranheza ao impor à família o uso de vestido no dia a dia. 

Os atores - sobretudo Matheus, Nero e Nefussi, como o pai, o filho e a mãe, mantêm o nível de excelência que costumamos encontrar nos filmes da diretora, em especial o até agora desconhecido Naomi Nero, que faz o rapaz; Matheus, como o pai tradicional, tem pelo menos uma cena antológica; e a mãe, vivida por Dani Nefussi nos dois núcleos familiares, convence com brilho e emoção em cada cena. 

Mais um filme que só nos orgulha - ao cinema, ao cinema brasileiro, às mulheres cineastas, tão poucas, que brilham em nossas artes e em nossas telas.



As montanhas se separam (Jia Zhangke, 2015), com Jing Dong Liang, Zhao Tao, Yi Zhang, é um filme de mais de duas horas cuja história, em três momentos, a gente acompanha com atenção e enlevo. 

Trata-se de um olhar penetrante sobre a cultura chinesa, o modo como o capitalismo se coloca sobre as tradições e os novos modos do dinheiro agir, dirigindo os caminhos de cada um, as opções, as escolhas.

É bonito de ver, acompanhar as delicadezas dos percursos dessa jovem, com seus dois amigos e pretendentes, sua vida a partir da escolha pautada pelo sentimento 'sem nenhuma estridência', mas que será impactada pelo dinheiro do escolhido, e tudo que vem a seguir. É bonito também acompanhar o que virá muitos anos depois, no terceiro espaço temporal - como o percurso de um rio, vidas que se cruzam e somem de vista, depois algo delas, pedaços de suas histórias, lembranças, enfim, raízes se encontram e se tecem com outras, com outros, e o rio-vida segue. 

Acho que o filme fala também sobre a permanência, a partir da história desses três destinos que se afastam e se tocam em outros momentos, pendularmente. Os acontecimentos e o modo de narrar parecem às vezes distanciados de nós, talvez pela diferença cultural, mesmo assim o filme emociona, e tem momentos tocantes, sobretudo pela singeleza dessas personagens - a verdade de suas vidas sempre mantém uma certa força sobre nós.