____
Como sou uma pessoa vamos dizer... incomum (para ser educada comigo mesma :), e tenho muitas milhas que nunca usei e vão expirar em breve, resolvi me dar duas chances de voltar de Fortaleza, para onde vou amanhã, sábado. Posso voltar na quarta ou na sexta próximas. Pode não parecer, mas ter as duas possibilidades me deixa mais tranquila.
Na verdade, não nasci para pensar o que quero fazer no futuro, mal sei o que quero fazer hoje, então viajar nem sempre é mamão com açúcar para mim, porque quero ir numa hora específica, sem planos e planilhas, e quero voltar quando me der na telha, o que, convenhamos, poucos podem.
De todo modo, a coisa boa é que não perco quase todo o FestRio que acaba de começar por aqui.
____
sexta-feira, 25 de setembro de 2009
sexta-feira, 11 de setembro de 2009
Moscou
Há uma onda de documentários brasileiros nas telas, e eu tenho gostado, em geral, do que tenho visto. Então, animada, fui ao Arteplex ver Moscou, do Eduardo Coutinho, uma espécie de olhar por trás dos ensaios da peça As três irmãs, do Tchecov, realizados pelo grupo Galpão, de Belo Horizonte, e dirigido pelo Enrique Diaz.
Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.
Fui também incentivada pelas três estrelas da crítica, com vontade de achar esse também muito bom (eu já tinha gostado, há tempos, de Edifício Master, sem grandes arroubos), mas não consegui me conectar com a proposta do filme, ao mesmo tempo muito simples e muito complicada. Os atores não me "convocaram" em nenhum momento, achei que se tratava de uma coisa meio estilizada, encenada demais para ser natural. Enfim, acabei saindo um pouco antes do final, torcendo até então para que o filme fizesse algum sentido pra mim. Não fez.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
Caninos brancos
Para Melissa e Osvjor, que provocaram
____
Não se para de ler Caninos brancos, não se pode parar de ler porque um livro de aventuras como esse exige que se saiba qual será o destino daquele cão. São muitas as aventuras - e desventuras - que ele vive, mas em nenhum momento somos fragilizados por seus infortúnios. Ele é um ser nietzscheano por excelência: nobre, aristocrático, distingue-se dos demais de sua espécie, pensa de modo altaneiro e, por isso, conserva-se em relativa solidão, com pensamentos profundos a respeito de quase tudo na vida.
Sim, porque ele pensa como gente grande, ou melhor, o narrador coloca nesse cão algumas das mais altas reflexões sobre a natureza da vida selvagem, da competição, da sobrevivência em condições extremas; e, depois que os humanos cruzam seu caminho, ele aprenderá sobre as mais diversas e antagônicas expressões da grandeza e miséria em sua relação com eles.
Embora a técnica de tornar quase humano o cão, por seus pensamentos, o aproxime da cadela de Vidas secas, é com Paulo Honório, no entanto, que ele guarda estreitas semelhanças, como ocorre nesse trecho, graciliânico por excelência:
Se as coisas houvessem corrido de outro modo, talvez agora ele fosse diferente. Se Lip-Lip não tivesse existido, se Caninos Brancos tivesse passado a sua infância na companhia dos outros cachorros, talvez existissem nele mais características de cão e mostrasse mais simpatia pela sua raça. Se Castor Cinzento possuísse a sensibilidade chamada carinho, chamada amor, poderia ter tocado o fundo da natureza de Caninos Brancos e feito vir à superfície toda a espécie de qualidades boas. Mas tal não acontecera e, assim, o barro adquirira nesses moldes a forma que hoje tinha, a de um ser taciturno e solitário, desafetuoso e feroz, inimigo de toda a sua raça. (p. 116-170).
Suas aventuras constituem uma saga, que ele vivencia intensa e inteiramente, amoldando-se ora a uma situação de violência extrema contra si; ora de luta pela sobrevivência em condições terrivelmente inóspitas; ora, no final, reaprendendo - e refletindo incessantemente sobre isso - a lidar com o afeto de um novo senhor, brando e amoroso, a quem ele entregará sua vida, quase literalmente. E sentimo-nos reconfortados quando ele encontra, enfim, seu lugar no mundo dos bichos e dos homens.
____
Jack London. Caninos brancos. Tradução: equipe da editora. São Paulo: Martin Claret.
____
Não se para de ler Caninos brancos, não se pode parar de ler porque um livro de aventuras como esse exige que se saiba qual será o destino daquele cão. São muitas as aventuras - e desventuras - que ele vive, mas em nenhum momento somos fragilizados por seus infortúnios. Ele é um ser nietzscheano por excelência: nobre, aristocrático, distingue-se dos demais de sua espécie, pensa de modo altaneiro e, por isso, conserva-se em relativa solidão, com pensamentos profundos a respeito de quase tudo na vida.
Sim, porque ele pensa como gente grande, ou melhor, o narrador coloca nesse cão algumas das mais altas reflexões sobre a natureza da vida selvagem, da competição, da sobrevivência em condições extremas; e, depois que os humanos cruzam seu caminho, ele aprenderá sobre as mais diversas e antagônicas expressões da grandeza e miséria em sua relação com eles.
Embora a técnica de tornar quase humano o cão, por seus pensamentos, o aproxime da cadela de Vidas secas, é com Paulo Honório, no entanto, que ele guarda estreitas semelhanças, como ocorre nesse trecho, graciliânico por excelência:
Se as coisas houvessem corrido de outro modo, talvez agora ele fosse diferente. Se Lip-Lip não tivesse existido, se Caninos Brancos tivesse passado a sua infância na companhia dos outros cachorros, talvez existissem nele mais características de cão e mostrasse mais simpatia pela sua raça. Se Castor Cinzento possuísse a sensibilidade chamada carinho, chamada amor, poderia ter tocado o fundo da natureza de Caninos Brancos e feito vir à superfície toda a espécie de qualidades boas. Mas tal não acontecera e, assim, o barro adquirira nesses moldes a forma que hoje tinha, a de um ser taciturno e solitário, desafetuoso e feroz, inimigo de toda a sua raça. (p. 116-170).
Suas aventuras constituem uma saga, que ele vivencia intensa e inteiramente, amoldando-se ora a uma situação de violência extrema contra si; ora de luta pela sobrevivência em condições terrivelmente inóspitas; ora, no final, reaprendendo - e refletindo incessantemente sobre isso - a lidar com o afeto de um novo senhor, brando e amoroso, a quem ele entregará sua vida, quase literalmente. E sentimo-nos reconfortados quando ele encontra, enfim, seu lugar no mundo dos bichos e dos homens.
____
Jack London. Caninos brancos. Tradução: equipe da editora. São Paulo: Martin Claret.
domingo, 6 de setembro de 2009
Two lovers
____
Sobre Amantes, só posso dizer que não entendo por que o Joaquin Phoenix quer tanto ser um cantor medíocre, quando pode ser um ótimo ator às vezes, como se dá aqui. Todos os atores envolvidos no trio amoroso estão muito bem, e Gwyneth Paltrow me convenceu mais do que em qualquer outro trabalho (acho-a, em geral, bem chatinha, e bem certinha também...). Além disso, tem uma lindíssima Isabella Rossellini fazendo uma mãe compreensiva e amorosa. O final é mesmo o que todos dizem - e viva a sanidade!
****
Sobre Amantes, só posso dizer que não entendo por que o Joaquin Phoenix quer tanto ser um cantor medíocre, quando pode ser um ótimo ator às vezes, como se dá aqui. Todos os atores envolvidos no trio amoroso estão muito bem, e Gwyneth Paltrow me convenceu mais do que em qualquer outro trabalho (acho-a, em geral, bem chatinha, e bem certinha também...). Além disso, tem uma lindíssima Isabella Rossellini fazendo uma mãe compreensiva e amorosa. O final é mesmo o que todos dizem - e viva a sanidade!
****
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
Loki, Arnaldo Baptista
Dois documentários sobre músicos me emocionaram, e Loki, Arnaldo Baptista, sobretudo, mais que Coração vagabundo, me deixou todo o tempo em estado de suspensão, os sentimentos expostos e algum chororô. O interessante é que ambos focalizam músicos que fizeram eclodir a Tropicália, e ambos tiveram em suas vidas, em algum momento, a presença de uma mulher que lhes deu impulso e sustentação: no caso de Arnaldo Baptista, sua atual mulher Lucinha Barbosa, ajudou-o na reconstrução da própria vida, da autoestima, dos pequenos e grandes passos para continuar na roda da criação; no caso de Caetano, Paula Lavigne produziu não apenas esse documentário, mas quase tudo que diz respeito à carreira do ex-marido desde que se casaram.
Loki emociona do começo ao fim e foi uma revelação olhar os vários períodos da história desse músico (e do país), acompanhar as oscilações entre a alegria mais genuína do grupo inicial e a desestruturação subseqüente, sobretudo (sabemos pelos depoimentos) a partir da entrada do ácido na vida deles; a juventude e a exuberância dos Mutantes e, com eles, viajar um pouco na minha própria memória, relembrar os festivais de música que paravam o país e que fizeram parte da minha história também; os momentos criativos e as várias fases mediadas pela dor enorme de perder o amor de Rita; a tentativa de suicídio, a lenta recuperação, o ostracismo, as internações e a volta do grupo, agora com Zélia Duncan, que deu um depoimento muito bonito, aliás há vários depoimentos tocantes sobre a importância do Arnaldo para a cultura musical do país.
Eu desconhecia quase tudo, mais que isso, tinha um pouco de preconceito, alimentado sobretudo pela ignorância pura e simples, mas também por gostar de Rita Lee e ter sempre percebido quase tudo que dizia respeito aos Mutantes a partir da ótica dela, inclusive essa participação da Zélia no revival do grupo achei despropositada e meio arrivista, quando não é nada disso, trata-se de um tributo lindíssimo à figura do artista e à história do grupo.
O filme se passa sempre em vários tempos – há o passado do grupo, a efervescência dos acontecimentos iniciais da carreira, Tropicália incluída; a retomada recente e o show internacional, com a tietagem para mim inesperada a Arnaldo; há o artista no presente, meio isolado em Juiz de Fora mas tranquilo e expressando-se também através da pintura; e há depoimentos de vários artistas sobre a trajetória dele e sua importância para a música brasileira – é bonito ver Lobão falando, Nelson Motta, o irmão Sérgio Dias, que faz mea culpa mais de uma vez, e até Sean Lenon elogiando Arnaldo rasgadamente.
Mas o que vi de mais interessante, e de mais forte também, foi essa combinação todo o tempo entre vidas de jovens exuberantes, em seu completo vigor e predisposição para a felicidade, e as vicissitudes desse homem na atualidade, quando se percebe a luta ferrenha pela vida plena e para estar no estado criativo (com o auxílio luxuoso da mulher). É como se o esplendor da vida fosse confrontado continuamente com sua inescapável finitude e, nesse sentido, o filme impõe uma reflexão imediata e contundente sobre nossa fragilidade, mas também sobre nossa capacidade de recriarmo-nos, de avançar para mais vida, do jeito que for.
____
Já o filme sobre Caetano mostra Caetano sendo ele mesmo. Mas quando canta, ah, aí não tem mesmo pra ninguém, amo ouvir sua voz e amo as canções que ele canta. O resto a gente vai levando...
Loki emociona do começo ao fim e foi uma revelação olhar os vários períodos da história desse músico (e do país), acompanhar as oscilações entre a alegria mais genuína do grupo inicial e a desestruturação subseqüente, sobretudo (sabemos pelos depoimentos) a partir da entrada do ácido na vida deles; a juventude e a exuberância dos Mutantes e, com eles, viajar um pouco na minha própria memória, relembrar os festivais de música que paravam o país e que fizeram parte da minha história também; os momentos criativos e as várias fases mediadas pela dor enorme de perder o amor de Rita; a tentativa de suicídio, a lenta recuperação, o ostracismo, as internações e a volta do grupo, agora com Zélia Duncan, que deu um depoimento muito bonito, aliás há vários depoimentos tocantes sobre a importância do Arnaldo para a cultura musical do país.
Eu desconhecia quase tudo, mais que isso, tinha um pouco de preconceito, alimentado sobretudo pela ignorância pura e simples, mas também por gostar de Rita Lee e ter sempre percebido quase tudo que dizia respeito aos Mutantes a partir da ótica dela, inclusive essa participação da Zélia no revival do grupo achei despropositada e meio arrivista, quando não é nada disso, trata-se de um tributo lindíssimo à figura do artista e à história do grupo.
O filme se passa sempre em vários tempos – há o passado do grupo, a efervescência dos acontecimentos iniciais da carreira, Tropicália incluída; a retomada recente e o show internacional, com a tietagem para mim inesperada a Arnaldo; há o artista no presente, meio isolado em Juiz de Fora mas tranquilo e expressando-se também através da pintura; e há depoimentos de vários artistas sobre a trajetória dele e sua importância para a música brasileira – é bonito ver Lobão falando, Nelson Motta, o irmão Sérgio Dias, que faz mea culpa mais de uma vez, e até Sean Lenon elogiando Arnaldo rasgadamente.
Mas o que vi de mais interessante, e de mais forte também, foi essa combinação todo o tempo entre vidas de jovens exuberantes, em seu completo vigor e predisposição para a felicidade, e as vicissitudes desse homem na atualidade, quando se percebe a luta ferrenha pela vida plena e para estar no estado criativo (com o auxílio luxuoso da mulher). É como se o esplendor da vida fosse confrontado continuamente com sua inescapável finitude e, nesse sentido, o filme impõe uma reflexão imediata e contundente sobre nossa fragilidade, mas também sobre nossa capacidade de recriarmo-nos, de avançar para mais vida, do jeito que for.
____
Já o filme sobre Caetano mostra Caetano sendo ele mesmo. Mas quando canta, ah, aí não tem mesmo pra ninguém, amo ouvir sua voz e amo as canções que ele canta. O resto a gente vai levando...
Assinar:
Postagens (Atom)
