quarta-feira, 27 de abril de 2011

Impasses vistos por Pécora

Li nesse post do Todoprosa e gostei tanto do texto do Pécora que peço licença para reproduzir aqui, para os meus fantasminhas. Muito interessante o que ele diz sobre literatura contemporânea, concordo com quase tudo, e gosto dos argumentos e do modo como os expõe .

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Impasses da literatura contemporânea, por Alcir Pécora

Num debate recente com a crítica Beatriz Resende, organizado pelo Instituto Moreira Salles, expus minha impressão de que o campo literário se encontra hoje numa situação de crise, observável pela relativa perda da capacidade cultural da literatura de se mostrar relevante, não apenas para mim, mas para muitos que estão comprometidos com a cultura: como se alguma coisa se introduzisse nela (sem eventos violentos) e a tornasse inofensiva, doméstica. Um vírus de irrelevância, por assim dizer.

Não gostaria de defender uma tese cabal sobre a fraqueza atual da literatura, mas me agrada a ideia de explorar, tão fundo quanto possa, esse lugar de crise da expressão. Tento formular sucintamente a seguir, em diferentes ordens de argumentos, alguns dos impasses que percebo na literatura contemporânea.

Ocorre, hoje, uma impressionante expansão das narrativas no cerne da própria existência. Antes mesmo de existir como evento, a ação já se apresenta como narrativa, como ocorre nos reality show, em que as pessoas, antes de agir, representam ou narram a ação que lhes cabe. Ocorre também na multidão que fala pelos blogs e pelas redes sociais, ou se monitoram pelos celulares, de modo que a ação ou a conversa é sempre exibição/narração da conversa. É como se o mundo inteiro fosse virtualidade narrativa antes de ser existência particular, e principalmente como se todo mundo fosse interessante o bastante para ser visto/lido. Esse é um dos pontos não negligenciáveis que parecem retirar a prioridade ou a exclusividade da narração do narrador literário. É um problema basicamente de inflação simbólica.

Escrever literatura, para mim, entretanto, é um gesto simbólico que traz uma exigência: a de ser de qualidade. Literatura mediana é pior que literatura ruim, pois, mais do que esta, denuncia a falta de talento e a frivolidade. A literatura decididamente ruim pode ser engraçada, ter a graça do kitsch, do trash, da paródia mesmo involuntária e grosseira: pode ter a graça perversa do rebaixamento. Já a literatura mediana não serve para nada. É a negação mesma da literatura, cuja primeira exigência é a de se justificar (justificar a própria presença) face aos outros objetos de cultura. E o que eles exigem é que você os supere, que se apresente como novo ou não dê as caras por lá.

Fazer a lição de casa do ofício de escritor, ser esforçado, tampouco basta, como não basta ter vontade de fazer. Não adianta ser apenas um trabalhador, pois não se trata de adquirir direitos trabalhistas. Estou tentando dizer que escrever é muito competitivo. Boris Groys fala muitíssimo bem do assunto. Você escreve em língua portuguesa, então tem de se defrontar com vivos e mortos. Com os contemporâneos e com Vieira, Gregório, Machado, Rosa etc. Não há meio de não medir forças: a literatura exige a demonstração de força: não há como fazer apenas para participar.

O atual democratismo inflacionário das representações, que mencionei, tende a menosprezar o domínio técnico. Para mim, é um erro, desde que literatura, como toda arte, é em primeiro lugar techné , técnica, produção objetiva. Não basta ser conhecimento, tem de produzir o que não é, o que não há. Sem produção, não há arte: não há nenhum outro valor simbólico, de representação, que substitua o objeto. De outra maneira, a literatura está no campo da composição, em nenhum outro. Não há atitude, comportamento ou opção ideológica que permita saltar sobre os mecanismos da composição. Acho o menosprezo da produção objetiva, em favor do volume expressivo e representativo um grande atalho falho da produção contemporânea. Assim, para mim, rigor técnico significa a radicalidade construída dentro do discurso. Atitude resolve o problema do roqueiro, não resolve a questão da literatura.

Ocorre certo triunfalismo da produção contemporânea, que enfaticamente se nega a pensar seus impasses, ou enxerga neles apenas má vontade gratuita, tirania acadêmica ou conservadorismo crítico. Acho que essa recusa de sequer considerar a ideia de impasse tem qualquer coisa de cegueira deliberada. É como se o presente se absolutizasse e não mais admitisse um legado cultural como patamar exigente de rigor para a sua produção. No entanto, a condição da crítica e da criação é justamente a referência a um tempo que não é exclusivamente o do presente, mas o tempo de longa duração da obra da arte. Literatura pode ser descrita como o que resiste às disputas exclusivas do presente para existir como problema por muito tempo. Ela não tem como se fingir de recém-nascida, livre para não ter memória e amar integralmente a si própria como invenção de grau zero. Perdida a noção de herança cultural, perde-se a de crítica, de autocrítica e naturalmente a de criação.

Uma variante desse argumento é o seguinte: uma parte dessa cena contemporânea de crise existe por não haver qualquer disposição para a crise. Quem critica parece um vilão, um estraga-prazer, um intrometido. Quem critica as obras, ainda mais se faz isso com argumentos insistentes, tem qualquer coisa de indecente, de impróprio. Mas, por vezes, a insistência chata é fundamental para pensar um pouco melhor. Não se vai muito longe com um discurso que não admite contraditório, com um discurso de animação de parceiros. Mesmo em casos de parceria, sem alguma disposição para encarar a desafinação, não se vai longe: nessas condições, não há orquestra capaz de desconfiar de si mesma e exigir mais de seus membros. Espanta, pois, ver a intolerância para a crítica, como se fosse alguma traição pessoal. De onde vem essa ideia de parentesco traído? Pessoalmente, não vejo por que o crítico tem de ser animador, parceiro, divulgador ou chancela do escritor. Ele tem de apontar problemas no objeto, pois são problemas do objeto o interesse principal da arte, como da literatura.

Em termos de experiência pessoal de leitura, quase sempre (nem sempre, mas quase sempre) acho mais prazer textual, literário, em ler teóricos do que, por exemplo, ficcionistas ou poetas contemporâneos. Ou, de outra forma, a crise contemporânea me parece mais patente nos textos críticos dos que nos de ficção e de poesia. Acho que o que está acontecendo é muito mais do que uma crise de bons autores: é como se a literatura, entendida como ficcionalização autônoma, estivesse esvaziada. Poucos autores de literatura contemporânea me dão mais vontade de ler como teóricos tão diferentes entre si como Rorty, Davidson, Cavell, Agamben, Renato Barilli, Perniola, Sloterdijk, Jonathan Lear, Blanchot, Magris, Martha Nussbaum, Boris Groys... Há muita gente interessante pensando o contemporâneo e pensando literatura. Fico imaginando se essa não será uma forma de literatura disfarçada. Uma nova máscara da literatura.

Mas por que esse menor poder literário dos autores face aos teóricos? Isso aparece para mim como uma evidência, digamos, sentimental, afetiva, mas as suas razões não são claras. Mesmo em termos de domínio técnico de língua, entre os que citei —-, as invenções linguísticas de Rorty, com suas violentas trocas de vocabulário, ou as situações-limite da “teoria de passagem”, em Donald Davidson, por exemplo —-, me parecem mais radicais como invenção ficcional do que a narrativa dos tantos escritores mais ou menos conformados no esquema da prosa realista do século XIX.

A grande conquista da literatura do século XIX foi a sua autonomia ficcional, que se traduz basicamente por se tornar simbolicamente representativa do mundo ou expressiva do sujeito psicológico que a constitui. Quer dizer, restrição do âmbito técnico da imitação e hipersimbolização do real ou da subjetividade deram aos ficcionistas o seu estatuto contemporâneo. Neste início de século XXI, o processo se amplificou vertiginosamente: a identidade psicológica original em sua relação com o mundo hostil da mercadoria e não a distinção da própria invenção, enquanto invenção engenhosa, pretende ser a fonte da qualificação autoral. Será que dá para ser assim? Quem ainda acredita em representatividade, fora da discussão dos próprios critérios de representação? Quem jura ainda pela invenção da narrativa fora da construção de uma metalinguagem que coloque seus fundamentos sob crítica? Contar histórias, enfim, cansou? E poesia contemporânea, por que é quase sempre kitsch? Qualquer subjetividade pode ser um direito, mas parece igualmente expressão de banalidade.

Também, quando alguém diz que um autor é representativo, já não imagino boa coisa. Fosse bom, problematizaria a representação, a identidade “nossa”, do “eu”, a própria ideia de identidade; nos obrigaria a retroceder para fora de nossa experiência comum. Ou mesmo nos expulsaria do poético, envelheceria de um golpe os lugares comuns da invenção. Ele teria complicado o mundo representado, e destruído a subjetividade expressa. Mas quem está fazendo isso? Afora alguns poucos ficcionistas e poetas importantes, acho que outros estão fazendo essa bagunça melhor do que eles.

Enfim, são palpites que partilho aqui, não uma tese. Não quero advogar qualquer fim da literatura, mas não quero me poupar de discutir a sua relevância e pertinência no contemporâneo. A minha esperança é que a exposição crítica, a rudeza do trato — o chão duro da fricção, como dizia Wittgenstein — ajude a coisa a andar.

ALCIR PÉCORA é crítico literário e professor da Unicamp (PS: dentre outros trabalhos relevantes, organizou e prefaciou toda a obra de Hilda  Hilst para a Editora Globo)

Daqui:
http://oglobo.globo.com/blogs/prosa/posts/2011/04/23/impasses-da-literatura-contemporanea-por-alcir-pecora-376085.asp

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segunda-feira, 25 de abril de 2011

Contracorrente

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Contracorriente é um poema, um poema fílmico narrativo, um drama cheio de intensidades e suavidades, a nos falar sobre os imprevistos dos acontecimentos em nossas vidas – entre eles viver num povoado de pescadores, ser um deles, ou seja, um homem simples, Miguel, um ser casado e, no tempo recortado pela história, em relativo estado de graça com a chegada do primeiro filho, que ele chama Miguelito.

(Meio como Dona Flor e seus dois maridos, que não cabia em si tantas intensidades de seus vários sentires – os cheiros, os aromas, as formas do corpo, os desejos intensos – tudo era excessivo para o ser simples que ela era, daí não se conter (e não se poder contar) apenas na nossa humana realidade, soía dar vazão a outros campos de existência, que chamamos sobrenatural, para neles viver tantos e múltiplos desejos).

O pescador ama sua mulher, de modo simples e verdadeiro. Vai à igreja, joga bola com os amigos, outros pescadores, todos-bem-homens, e tem mesmo uma certa ascendência sobre eles, pois “encomenda” almas ao Senhor, parece ser bem ouvido pelas bandas do altíssimo. Mas eis que desejo e amor não pedem licença para se apossar de alguém, e eles vêm de um modo singelo e avassalador na figura (bela, por sinal) de um pintor, Santiago – outro homem nem tão simples, mas ainda assim um homem comum, só que pinta, desenha, fotografa – expressa-se. E ama, ama com paixão de homem-que-se-entrega-a-outro-homem sem muitas firulas, sem dramas ou culpas. Tudo flui com naturalidade na existência desse amor, até mesmo o fato de terem um esconderijo entre as pedras mar adentro, onde se encontram de verdade – as cenas de amor entre eles estão entre as mais belas e tocantes em sua força e singeleza.

E então acontece o que ocorre em todo amor profundo: ele quer sempre a primazia, ele se quer inteiro e não aos pedaços.

Na dá ou desce da nova situação, a saída é uma escapadela pelo sobrenatural, porque no plano real não há saída. E tudo caminha numa integridade tão bonita, tudo soa tão de acordo com a singeleza e o caráter daqueles homens, tudo é tão verdadeiro. Faz um bem enorme ver esse filme, porque nos fala de um amor como uma canção de amor nos fala – ele é uma canção de amor, e seu final só nos diz como é impossível fugir do que não tem mais jeito de dissimular / E que nem é direito ninguém recusar – por isso, todos estão ali, são atraídos pela força daquela existência insofismável: para testemunhar, para homenagear, para dizer: sim.
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sábado, 23 de abril de 2011

óleo muito bom

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Comprei outro dia um vidro de óleo de coco extra virgem (igual a esse da foto), depois de muito ler sobre ele. Me lembro que tomei um pouco e gostei muito, queria fazer glu glu com o vidro todo, mas coloquei na geladeira, ele ficou meio esbranquiçado e endurecido, e tenho comido dele aos pedacinhos. Amo, e acho que faz um bem danado ao organismo, muito bem mesmo.

Há muita informação sobre os benefícios desse óleo, é só ler no blog da sonia hirsch, aí ao lado, e aqui:
http://www.correcotia.com/mulheres/sodacoco.htm

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quinta-feira, 21 de abril de 2011

Nothing yet

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Terminei o curso virtual no Sebrae hoje, antes da data final, mas continuo sem saber o que quero empreender nos próximos anos (?) da minha vida. Mas vou - espero.
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Ele tem sido uma alegria a cada encontro, às vezes um susto quando não entendo o choro. O sorriso, entretanto, entendo sempre.





























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quarta-feira, 20 de abril de 2011

sábado, 16 de abril de 2011

Rio


Rio é alegre, bonito, bem feito, coloridíssimo, engraçado, super bom astral (e isso inclui o politicamente correto, claro), traz uma imagem muito convincente do jeito carioca de ser, com samba no pé e muita música, nos deixa feliz o tempo todo, as ararinhas são fofas, a história é edificante e vale muito ver, diversão na certa. Ah, e a polêmica sobre o tamanho do biquini da moça de Minnesota acho bobagem, porque o Carlos Saldanha caprichou nas curvas de que o homem brasileiro gosta.



quarta-feira, 13 de abril de 2011

Tico tico

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Bom, continuando essas minhas conversas com as sombras das paredes do blog, confesso que continuo com dor nos punhos e parece que a tendinite ficará para sempre comigo. Já me afeiçoei a ela, acordo de manhã e vou direto ao congelador, pego o saquinho de gel congelado, ponho em cima do dorso do dedo polegar, primeiro um, depois o outro (aí o gel para o outro já não está tão congelado, mas nem tudo é perfeito, que fazer), me espreguiço e meu dia começa. Dou bom dia às dores que se afastam aos poucos e quando chego a meu segundo lar - onde faço fisioterapia: tens e ultra som -, já estou me sentindo bem melhor. E estamos no lucro, porque os joelhos estão ficando ótimos, só doem um tiquinho quando exagero nas andanças.

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Vi alguns filmes que não entraram nos posts 'cinema em pedaços', que ninguém leu mas que fazer, e gostei mesmo foi de ver como o nosso amigo Wagner Moura arrasa em Vips, amei o trabalho dele, show de bola de interpretação. O filme é razoável, eu gostei sem ser 'o' grande filme, mais como uma boa película mediana, como se a gente tivesse crescido muito na indústria e pudesse até fazer filmes sem grandes apelos, mas corretíssimos. Não sei o que isso significa exatamente, mas faz sentido pra mim.

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E também claro que minha nova amiga dos pulsos me afastou daqui e me aproximou dali - li quase toda a coleção dos sete livros da Sophie Calle que trouxe da viagem (Doubles-jeux), terminei o quinto ontem, xingando muito a moça e o projeto dela, puro voyeurismo encenado em letra de forma e fotografia. Os dois últimos (Le carnet d'adresse e Gotham Handbook - New York, mode d'emploi, cuja capa é encimada pelos nomes de Sophie Calle e Paul Auster) vou ler essa semana e dar um presente a meus pulsos escrevendo sobre eles daqui a alguns dias, se meu curso virtual de empreendedorismo no Sebrae me der o tempo de que necessito - pois é, só isso daria uma crônica de humor finamente rebordado de ironias, que faria enrubescer Machado.

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Ainda  não vi o filme em que o rapaz fica preso dentro da rocha e faz aquilo que eu não quero contar de jeito nenhum, diferente de uma maluca que fez isso alto e bom som em lugar público, mas vou.

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E para quem ainda não viu 2, aqui a maravilha:
http://oquevivipelomundo.blogspot.com/2011/04/o-buraco-no-muro-pra-quem-ainda-nao-viu.html

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Bises, chérie, merci por segurar a onda da amiga intempestiva, você estava certa.

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quinta-feira, 7 de abril de 2011

A vida secreta das palavras

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E há ainda um filme soberbo que vi no Telecine Cult - A vida secreta das palavras. Zapeando sem som, como sempre faço enquanto espero o sono, vi o Tim Robbins numa cama, todo queimado e de olhos fechados, e uma moça a sua cabeceira - a atriz Sara Polley, em atuação contida, magnífica em sua simplicidade -, com um jeito e sobretudo um olhar tão, mas tão solitário que parei, liguei o som e vi essa obra lindíssima de 2005 da diretora Isabel Coixet. Marquei na agenda e voltei na terça para revê-lo desde o começo.

Trata-se também de um filme sobre como sobreviver a perdas dolorosas para ambos os personagens, e igualmente sobre crimes de guerra inconcebíveis para a razão humana, de uma crueldade devastadora, revelados em tom íntimo e particular, sussurrados quase ao ouvido do homem em sua cama de doente. Tudo é feito em tom menor, os rostos é que vão revelando a magnitude e o peso das palavras que formam a história abissal daquela mulher. Robbins vai contraindo as feições, chora, ela também (nós choramos) e entendemos tudo: ela jamais terá um lugar ameno no mundo, jamais descansará inteiramente, não com aquelas lembranças.

O filme é deslumbrante, os atores fazem um trabalho de tecelões - de gestos, entonações, olhares, movimentos em ritmo lento, palavras tratadas com cuidado e uma espécie de devoção pelos que sobrevivem a destroços tão lancinantes. Fiquei com ela, a Hanna, longo tempo depois do filme, nos dias seguintes, e mesmo agora, quando falo dele, percebo que também aprenderia a nadar um oceano inteiro para ajudá-la a viver e quem sabe a parar de chorar.

Em tempo: ótima atuação da Julie Christie em pequeno papel .
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quarta-feira, 6 de abril de 2011

redes sem sentido

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Quando vi A rede social fiquei tão perturbada com aquele mundo que a primeira coisa que fiz ao chegar em casa foi sair do facebook. Na verdade, eu nunca estive lá realmente. Tinha uma conta com meu nome real, nem lembro mais, e ia de vez em quando, via alguns conhecidos por lá, reais e virtuais, mas nunca cheguei a entender qual era o objetivo daquelas frases soltas emitidas aqui e ali por alguém, nunca fez sentido para mim aquele mundo cheio de coisa nenhuma.

Mas fico achando que estou fora do mundo e fiz outra tentativa, agora como clara lopez, mas não fui nem uma vez lá ainda, não tenho paciência pra esse mundo das redes sociais, eu não sou sociável, estrutural e intrinsecamente não sou sociável, e agora decidi: vou deletar a clara lopez também.

E twitter, nem sei por onde começar, talvez não queira tampouco, mas talvez ficar tão ausente assim das comunidades não seja possível no futuro, não sei. Por enquanto, falo com os fantasmas desse blog, e está de bom tamanho. 
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Cinema em pedaços 3

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Feliz que minha mãe esteja viva:
Não me tocou muito, mas achei que falou bem e forte a todos os "sem mãe" - ou seja, não apenas aos abandonados concretamente pela figura materna desejada, mas aos enjeitados em geral, sobretudo por conta da energia que emana do rosto do personagem-filho-abandonado: há dor e rancor em sua expressão e uma impossibilidade palpável de ser feliz quando se tem a percepção aguda de não ser amado pela mãe.

Não me abandone jamais:
Tão estranho esse filme, lembrando vagamente Blade runner (mas tão distante de seu projeto estético e de seu doce aceno utópico) por conta dos seres criados para cumprir uma função, que terminam por se encantar com a vida humana e, sobretudo, com o sentimento do amor. O que fica difícil de aceitar é a passividade dos três personagens jovens, nunca fica claro porque eles não mandam tudo às favas e se mandam daquele destino prescrito, até porque sentem tudo que todos sentem, além de que a Carey Mulligan dá vontade de abraçar, confortar, proteger, não existe mais fofa personagem - e atriz. Já a Keira aparece estranhíssima em termos físicos, meio anoréxica e isso se adequa talvez ao modo como sua personagem termina - é possível que sua atuação e corpo estejam exatamente como seria necessário aos propósitos meio trágicos do filme. Eu gostei de ver, mas é um filme tristíssimo, dos mais tristes ever.

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terça-feira, 5 de abril de 2011

Cinema em pedaços 2

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Em um mundo melhor:
Belíssimo filme do começo ao fim, impactante também, forte, com histórias tocantes tanto na atividade do médico em país africano devastado pelas guerras de gangues e ditadores desmesuradamente violentos (de uma violência bruta contra a mulher, violência sexual inimaginável), como nas atividades escolares dos filhos em outras guerras, de outras gangues. Muitíssimo bem feito o pararelo entre a barbárie de lá e de cá - são mundos diversos, níveis diferentes de violência, mas são violências desmedidas em ambos os mundos. Atuação magistral desse ator, Mikael Persbrandt, e também dos meninos, ambos ótimos e absolutamente convincentes. Melhor filme de todos, e mais visceral.

Esposa de mentirinha:
É o mesmo Adam Sandler de sempre, e a sempre bela Aniston, ambos fazendo o que já fizeram outras vezes, em outros filmes. Mas a gente presta atenção e se distrai bem com eles.

Cópia fiel:
Nunca bocejei tanto assistindo a um filme, acho que bocejei do começo ao fim, mas não dormi. Achei difícil sustentar o interesse num conflito dramático suportado basicamente pela conversa entre um homem e uma mulher - mesmo que ela seja Juliette Binoche e ele seja um belo William Shimell.

O que achei mais interessante é que não se trata de discutir o que é cópia e o que é real - discussão, aliás, pra lá de bizantina desde, digamos mais recentemente, "this is not a pipe", de Magritte, ou o Warhol da sopa Campbell, ou toda história da arte, talvez, que sei eu? De todo modo, não é isso o mais interessante, embora seja o mais visível tema, uma espécie de conversa (a)fiada para tratar do que realmente está em cena: a tentativa vã e desesperada da mulher em busca do amor daquele homem. Para mim, o filme trata da impossibilidade de fazer o outro amar alguém a despeito dos esforços exaustivos nesse sentido.

Reconheço que a fusão final do tema da cópia na situação concreta que eles vivem (ou cujas situações ela  vai impondo) vai acontecendo de modo sutil até tornar esfumaçado o casal que houve, ou podia ter havido, e o que se projeta - mas de todo modo o que se lê ao longo daquele 'conversório' todo é uma demanda intensa e integral daquela mulher por amor.

Aliás, uma visão de mulher muito chatinha (e de mãe também), e bem de acordo com a interpretação que ela propõe ao mostrar uma escultura na praça em que uma mulher se recosta ao ombro do homem - para a personagem de Binoche, haveria uma ascendência da figura masculina protetiva sobre a figura feminina. A partir daí, as coisas vão ficando imbricadas e no final não há como decidir se ambos formaram ou não um casal real - o que não tem a menor importância. Importa mais perceber o que a torna cega, ou o que ela não aceita jamais: ele não a quer, não a deseja, todo o tempo isso me parece sublinhado, mas não para ela, que insiste, insiste. Confesso que achei meio patético.
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segunda-feira, 4 de abril de 2011

Cinema aos pedaços 1

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O primeiro que disse:
Não me convenceu de quase nada, e o filme fica chato em vários momentos. O que salva é a beleza dos dois atores italianos, caramba, como são bonitos ele e ela - Riccardo Scamarcio e Nicole Grimaudo. Mas retomar aqueles valores da tradicional família italiana versus um mundo gay enrustido ou escancarado não acrescenta nada a nada, creio.

Sexo sem compromisso:
Comédia menos leve do que se imagina, com uma dupla ótima: acho que a Portman continua ótima atriz aqui e acho que o Kutcher está lindo como sempre. Divertida e ótimo entretenimento.

Incêndios:
Perturbador é o mínimo que se pode dizer dele, muito, extremamente perturbador. Um filme forte, sem concessões, que vai-se tornando quase opressivo à medida que as buscas da filha por sua origem se adensam. Há uma linha dramática extenuante entre a morte da mãe e as descobertas que subjazem a essa morte. Tudo é forte, denso, impactante, um filme levado nas costas por figurações de uma mulher extraordinária, como se ela contivesse outras tantas figuras femininas em sua trilha de guerra, suas histórias dilacerantes em um tempo de barbárie não dizem respeito a uma mulher apenas, somos todas ali naquele espaço e tempo. Se lido pelo viés da crítica de gênero, o filme daria um ensaio e tanto.

O discurso do rei:
Achei bem bonzinho, gostei muito de ver, além de parecer todo o tempo que era o filme certo para o ator certo, no sentido de que a gente está acostumada a ver aquelas mesmas expressões dele em outros momentos fílmicos, mas n' O discurso o jeito meio aéreo, ausente e um tanto irônico ficam adequados ao momento confuso do futuro rei, e à situação enrolada que sua língua gaga traz a ele e ao reino.

A primeira meia hora é vaga, parece que não vai engrenar, mas depois que o professor entra em cena faz-se a luz - ambos os atores brilham e parecem fazer uma dobradinha cheia de energias e iluminações. No final, estamos no terreno do quase épico: a gagueira deixou de ser uma limitação pessoal esdrúxula de um nobre e seu discurso, que precisa dar certo, torna-se uma questão de estado, e quiçá o motivo para o desenlace da segunda guerra mundial. Ou quase...
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domingo, 3 de abril de 2011

A quem serve o circo armado

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Muito boa matéria, e porque é uma entrevista muito interessante e esclarecedora sobre o último circo em voga na mídia.

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Casal de sargentos gays responde a Bolsonaro

Em entrevista ao Congresso em Foco, Fernando Alcântara e Laci Marinho, um casal de sargentos do Exército, dizem que as falas do deputado fluminense são uma reação de uma cúpula conservadora das Forças Armadas que a cada dia se torna mais minoria
Para Fernando e Laci, sargentos e gays, Bolsonaro é porta-voz de uma minoria da cúpula do Exército que tem uma visão autoritária e conservadora do mundo
Rudolfo Lago


Laci Marinho, nascido no Rio Grande do Norte há 39 anos, é um sargento do Exército. Fernando Alcântara, pernambucano de 37 anos, é também sargento do Exército. Eles são a prova viva de que o ódio do deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ) aos homossexuais não é, como ele esforça-se para expressar, um sentimento comum a todo e qualquer soldado das Forças Armadas. Porque Laci e Fernando são, eles próprios, homossexuais. Eles são um casal. “A verdade é que a visão ultrapassada de Bolsonaro reflete hoje o pensamento de uma minoria dentro das Forças Armadas. Mas, infelizmente, uma minoria que tem muita influência”, diz Fernando. Para ele, esse pensamento conservador, resquício da mentalidade de militares mais velhos, que fizeram sua carreira durante a ditadura militar, é muito forte na cúpula das Forças Armadas, entre os seus comandantes. Na tarde de sexta-feira (1), ele e Laci deram uma entrevista exclusiva ao Congresso em Foco.


Leia também:
Bolsonaro declara guerra aos homossexuais

Para Fernando e Laci, Bolsonaro tem sido uma espécie de porta-voz não formal do pensamento dessa elite militar. “Eles armam o circo, e Bolsonaro, o palhaço se apresenta”, ataca Laci.

Fernando e Laci tornaram-se famosos em agosto de 2008. Na capa da revista Época, eles viraram o primeiro casal de homossexuais a assumir claramente a sua opção. A entrevista que deram à revista foi a forma escolhida pelo casal para denunciar a situação que viviam. Por conta da sua opção sexual, os dois vinham sendo perseguidos. A homossexualidade foi a desculpa encontrada, contam eles, principalmente para calar Fernando. Considerado então um militar de reputação ilibada, com várias condecorações, Fernando tornou-se responsável por uma seção do Exército que autorizava, no plano de saúde, cirurgias de alto custo. Verificou a existência de um esquema de fraudes nessas autorizações. Ao denunciar o fato, ele conta que começou a ser perseguido. “Fizeram uma devassa na minha vida para encontrar fragilidades. E a fragilidade encontrada foi a minha homossexualidade”, diz ele.


Companheiro de Fernando, Laci era mais frágil. Tinha a saúde afetada por um problema neurológico. Iniciou-se um processo para minimizar os problemas de saúde de Laci, para obrigá-lo a trabalhar mesmo doente. Como Laci não conseguia comparecer ao serviço quando estava doente, foi considerado desertor, e chegou a passar 58 dias preso. Por conta da homossexualidade, foi Laci quem primeiro chamou a atenção. Nas suas horas de folga, ele tinha uma banda, onde fazia cover da cantora Cassia Eller. Hoje, ele tenta obter a reforma – aposentadoria – por conta da doença. Já Fernando preferiu desistir de enfrentar um processo disciplinar e deixou o Exército.

Para ambos, sua situação, por mais que os tenha feito sofrer, é o sinal de que as mudanças que acontecem na sociedade refletem-se também nas Forças Armadas. E a agressividade de Bolsonaro é uma reação a essas mudanças. Ou talvez, como sugere Laci, uma reação particular de cunho psicológico. “Tenho plena convicção de que ele é um gay internalizado. Que, sozinho, em frente ao espelho, ele diz: “Eu sou uma bichona!’”.


Na entrevista abaixo, percebe-se que Fernando é mais falante que Laci, mas também bem mais diplomático:

Congresso em Foco - Toda vez que surgem polêmicas como essas das declarações de Jair Bolsonaro, surge a ideia de que a carreira militar é incompatível com a homossexualidade. Como vocês respondem a essa ideia?
Fernando - O deputado Bolsonaro é uma voz remanescente de uma turma que está vinculada a um pensamento ultrpassado, arbitrário, antidemocrático. A questão da opção sexual jamais vai definir o caráter de qualquer profissional, independentemente do ramo de trabalho. O que existe nas Forças Armadas é um grande tabu, vinculado à ideia da necessidade de uma certa virilidade para o combate. Dissemina-se a ideia de que um homossexual não teria a autoridade necessária para o comando.

E isso é verdade?
Fernando - Existem líderes militares históricos, comandantes de grandes exércitos, que eram homossexuais. O caso, por exemplo, de Alexandre, o Grande. A tropa, de um modo geral, conhecia a sua orientação sexual, e isso jamais o impediu de ter grandes vitórias militares. É verdade, era um outro tempo, uma outra cultura. Essa perseguição à homossexualidade cresce com o cristianismo. Mas o fato é que a opção homossexual de Alexandre, o Grande, o não o impediu de ser um grande soldado. Além disso, é uma grande mentira achar que os únicos dois homossexuais no Exército éramos eu e o Laci.


Vocês não são um caso isolado, então?
Fernando - Estamos longe de sermos um caso isolado. O fato de nós dois termos saído do armário, como se diz, não significa que eu deva cobrar o mesmo de outros que não queiram fazê-lo. Mas a gente conhece ene casos de até generais que são homossexuais. Eu já vivi experiências muito desconfortáveis de ter sido assediado dentro da caserna. E nem por isso deixei de obedecer ao comando dessas pessoas. Claro, não se pode aceitar assédio, porque é um comportamento que não cabe em nenhuma profissão. Mas não é pelo fato de ser homossexual que essa pessoa não tenha capacidade de comando.


Há, então, um comportamento hipócrita?
Fernando - E que se torna extremamente autoritário para quem enfrentar a hipocrisia e assumir a verdade das suas opções. As Forças Armadas estão inseridas na nossa sociedade. Não pode prevalecer essa visão ultrapassada de Bolsonaro de uma instituição à parte do resto da sociedade, com regras e leis próprias.


Mas Bolsonaro certamente deve falar por uma parcela da sociedade e das Forças Armadas ...
Fernando - O que eu acredito é que o Bolsonaro queria ganhar exposição. Duvido que ele tivesse mesmo confundido a palavra negra dita por Preta Gil pela palavra gay. Isso é altamente improvável. Ele realmente buscou uma aparição pública. É típico de políticos inescrupulosos como ele. O Bolsonaro é que é o verdadeiro Tiririca. E aqui não quero de modo algum desmerecer o Tiririca. É que o palhaço, de fato, é ele. É claro que existem, sim, débeis mentais – não dá para usar outra palavra – que votam nele. Afinal, me parece que ele já tem sete mandatos. Mas isso precisa mudar. E está mudando.


Mas ainda seria muito forte o preconceito nas Forças Armadas?
Fernando - Quantos comandantes negros nós tivemos? Quantas mulheres em postos de comando? Ninguém. Mas eu acredito que a fala de Bolsonaro hoje é representativa de um pequeno grupo. Mas de um pequeno grupo que ainda tem muita capacidade de influência. Não é muito diferente de como pensam os principais comandantes e generais do Exército. O Bolsonaro funciona como um mal necessário. Ele não reflete o comportamento institucional do Exército que até,por força da disciplina, evita se manifestar em questões polêmicas. Como o Bolsonaro não tem esse compromisso, aciona-se ele. Curioso que o Bolsonaro se diga representante dos militares, enalteça tanto os militares, e já há muito tempo ele não seja um militar.


Ele não seria tanto assim representante dos militares?
Fernando - Não no sentido de realmente discutir e ser capaz de concretizar os anseios dos militares. Por que, por exemplo, ele não discute por que o soldado, na ativa, não possa votar e ser votado? O soldado é cidadão de segunda classe? Por que não discute o absurdo de um soldado ser preso disciplinarmente e não ter direito a habeas corpus? De não ser julgado pela mesma justiça dos demais cidadãos? Por que não discute os códigos militares obsoletos? A questão da remuneração dos militares, cada vez mais aviltada?


Laci – Eu penso que Bolsonaro, na verdade, é um malandro que finge ser representante dos militares para viver de dinheiro público. Como militar, que eu ainda sou, eu vejo que ele é totalmente desacreditado na instituição. Ele é usado pela cúpula para dar esses recadinhos, pra fazer esse auêzinho. Mas, no meio, ele é desacreditado. Acham que ele é um palhaço.
Fernando – A gente fica buscando algo de concreto que ele tenha feito pela família militar, e não acha.
Laci – Ele tem o circo montado. Ele é o palhaço para angariar os votinhos dele. Na verdade, eu tenho plena convicção de que, na verdade, o Bolsonaro é um gay internalizado, um homossexual dentro de uma concha.


Você tem convicção disso? Que o ódio dele aos homossexuais vem daí?
Laci – Ele vê no espelho um homossexual e quer matar, destruir ele mesmo. A voz dele tem que ecoar para os quatro cantos do mundo e dizer: “Eu não sou isso! Eu não sou isso!”. Mas quando ele olha no espelhinho dentro de cada, ele deve dizer: “Eu sou uma bichona!” Ele deve ficar com vontade de quebrar o espelho. Garanto que ele quebrou muitos espelhos na cada dele.
Fernando – Quando você é heterossexual convicto, porque a homossexualidade vai lhe incomodar tanto?


Em contrapartida, como, de fato, repercute no meio militar a situação de vocês? Há apoio a vocês no meio militar?
Fernando – Às vezes, é difícil para a sociedade civil entender o que acontece no meio militar. A obediência no meio militar se dá muitas vezes pelo medo. Um comandante pode mandar prender um soldado por até 30 dias sem dar satisfação a ninguém. Então, as pessoas se retraem. Elas dão apoio velado. Nós sentimos que tivermos um grande apoio, mesmo que velado. E houve gente que se expôs e deu apoio explícito. E pagaram um preço alto por isso. Por exemplo, um major médico que atendeu o Laci e viu que ele estava doente, e que não era verdade a história de deserção, que teve prejuízos sérios por essa posição.


O que pode acontecer com quem claramente se manifesta, por exemplo, a favor de vocês?
Fernando – Há diversas formas de punição, também veladas. Pode-se alegar um outro motivo para punir. Ou mesmo criar dificuldades para a vida do militar. Imagine o transtorno que é para um militar, por exemplo, que está com a sua vida estruturada, filhos na escola, ser de uma hora para outra transferido para outra cidade. Muitas vezes, alega-se a necessidade dessa transferência para punir alguém. E o soldado, para manter a sua vida estável, se cala. É mais fácil a pessoa se acovardar. No caso do Laci, 18 médicos se envolveram para criar a história de que ele era um desertor. Cumprimento do dever não tem outro nome, às vezes, que covardia, não ter coragem de reagir a isso. Por outro lado, se você reage, acontece como está acontecendo conosco. O que eu vou fazer da vida? Eu tenho 15 anos de vida no Exército, com uma ficha considerada irrepreensível, diversas condecorações. Nunca fiz outra coisa. Não sei fazer outra coisa. Então, a gente não pode ser tão taxativo ao condenar quem se cala. Mas não deixa de ser uma forma de covardia.


Quando vocês entraram no Exército, vocês já tinham assumido a orientação sexual de vocês? Como isso surgiu?
Fernando – No meu caso, foi muito difícil a descoberta da homossexualidade. Eu vim de uma família muito católica, muito conservadora. A Igreja é muito perversa nesse sentido, de que tudo é pecado, que se desvia da dita normalidade. Então, no meu caso, essa descoberta durou muito tempo. Quando eu entrei no Exército, eu ainda não tinha essa convicção do que de fato eu era como ser humano. Eu sentia necessidade de experimentar, mas não tinha coragem. O despertar aconteceu já nas Forças Armadas. E o que isso mudou na minha carreira militar? Nada. Isso me traz uma mágoa muito grande. Por que, de uma hora para outra, eu já não era mais o soldado de ficha ilibada, com medalhas por bons serviços prestados à Nação?


E no seu caso, Laci?
Laci – Para mim, foi uma coisa mais natural. Antes de entrar no Exército, já sentia atração por pessoas do mesmo sexo. Na minha juventude, meus relacionamentos eram com mulheres, mas eu tinha atração por homens. Eu não tive problema na cabeça com relação a isso. Se eu gostasse de uma mulher, ficaria com uma mulher. Se gostasse de um homem, ficaria com um homem. Na minha cabeça, era assim.


Na sua cabeça. E na prática?
Laci – Na prática, a gente começou o relacionamento em 1997. Foi o primeiro relacionamento assim.

E a perseguição, como começou?
Fernando – O ano que marcou tudo foi 2006. Desde 2001, o Laci tinha um problema neurológico que o afastava de algumas atividades. Ele tem umas síncopes, umas vertigens, que o atacam de vez em quando. E durante muito tempo, o Exército aceitou isso. Em 2006, ele ficou de cama um bom tempo. Mas, na verdade, a perseguição começou sobre mim.

Sobre você?

Fernando – Eu era gerente de um sistema de saúde que autorizava cirurgias de algo custo. E verifiquei que havia um esquema de fraudes. A coisa foi tomando uma proporção muito grande que saiu do controle. Como começou a crescer, atingir muita gente, começaram uma verdadeira devassa na minha para me atacar. Buscavam um ponto fraco. E o ponto fraco foi a questão da homoafetividade. Antes de nós começarmos a nos relacionar, nós morávamos juntos, numa república. E, embora depois a gente não confirmasse a nossa relação, começaram os comentários. A coisa foi ganhando uma proporção cada vez maior. Aí, para encobrir a corrupção que havia na questão da autorização para cirurgias de alto custo, começou a perseguição. “Tem que perseguir esses dois viados filhos da puta”, como disseram. A coisa começou com punições rotineiras. Chegou atrasado, não fez determinado exercício, etc. A maioria abaixa a cabeça. E isso é a razão dos diversos suicídios que acontecem no meio militar. A diferença é que não abaixamos a cabeça. Ao contrário, fomos cada vez reagindo mais. A gente resolveu enfrentar a situação. E a gente percebeu que a forma melhor de enfrentar era dizer a verdade. Porque a verdade incomoda muito. Então, procuramos a revista Época para explicitar a verdade. Nós já tínhamos procurado o Ministério Público. Mas a justiça é extremamente lenta. Então, nós fomos à imprensa para denunciar nossa situação como forma de nos defendermos.


E isso resolveu?
Fernando - Houve mais perseguição. Houve uma ordem para sermos transferidos, para nos separar. Eu iria para São Leopoldo, no Rio Grande do Sul, e ele para o estado de São Paulo. A Procuradoria dos Direitos do Cidadão barrou essa transferência. E, aí, diante da doença do Laci, foi mais fácil partir para cima dele. Dizer que não havia doença nenhuma, e caracterizar as ausências dele como deserção. Puniram ele para me calar. Quando a coisa se tornou insuportável, procuramos a revista Época. Nosso relacionamento e a denúncia do que estávamos passando virou capa da revista. Foi aí que eu creio que se armou uma armadilha para nós.


Que armadilha?
Fernando – Nós fomos convidados a ir a São Paulo para dar uma entrevista ao programa de Luciana Gimenez, na rede TV!, logo depois da publicação da revista. O Laci, para o Exército, era tido como foragido, porque ele era classificado como desertor. Para ir para São Paulo, providenciamos a saída por Goiânia, porque se saíssemos por Brasília, Laci seria preso no aeroporto. Nós combinamos rotas de fuga com a emissora para o caso de se tentar cumprir a ordem de prisão de Laci. Mas, ao contrário, enquanto o programa acontecia, a emissora foi sendo cercada. Um aparato extremamente desproporcional. Laci saiu da emissora preso. Ele foi primeiro para um hospitla militar em São Paulo. Mas, no dia seguinte, às 6h do hospital, um helicóptero pousou e nos levou para o aeroporto. De lá, fomos colocados num avião Bandeirantes, de lançamento de tropa de paraquedistas, e não sabíamos para onde nós iríamos. Passa tudo pela cabeça da gente nessa hora. Nos levaram para Belo Horizonte. Eu só fiquei mais tranquilo depois que o senador Eduardo Suplicy (PT-SP) entrou e nos protegeu. Mas, quando chegou o fim de semana, estávamos já em Brasília, levaram Laci para o quartel. Deram uma surra nele. Tortura. Saco plástico na cabeça. Ficou lá preso 58 dias. Até que o Superior Tribunal Militar mandou que ele fosse solto. Foi uma grande vitória. Abre precedentes para outros casos de deserção, porque há um entendimento firmado de que o desertor tem que ficar 60 dias presos pelo menos esperando o processo. Essa decisão abre precedentes para outras. Enfim, nós tivemos situações constrangedoras, mas muita coisa foi conquistada. Nossa história vai ser levada até maio para a Corte Interamericana de Direitos Humanos. Nossa proposta é condenar o país por esses abusos. Porque o Exército é uma instituição do governo brasileiro. A estrutura governamental foi extremamente condescendente com esse estado de coisas.


O desejo de vocês, ao final do processo, é a reincorporação às Forças Armadas?

Fernando – No caso do Laci, ele ainda é soldado.

Na ativa?
Laci – Estou na ativa. De licença médica, agora.


Fernando – Eu saí. Fui obrigado a sair. Eles começaram um processo de expulsão. Seria um processo demorado. Enfrentar esse processo iria me atrapalhar. Na defesa de Laci. Eu depois escrevi um livro. Eles me deram uma porta de saída. Eu saí.
Laci – No meu caso, há um processo de reforma, por meus problemas de saúde. Eu, normalmente, já deveria ter sido reformado – aposentado – pelos meus problemas de saúde. Mas isso não aconteceu por conta dessa perseguição.
Fernando – O que a gente sofreu, não há dinheiro que pague. Vai ficar marcado para o resto das nossas vidas. O reconhecimento da perseguição homofóbica ajudaria a diminuir esse sentimento de injúria que sofremos. E serviria como exemplo para outros casos não aconteçam. Porque, insisto, o nosso caso não é um caso isolado.

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Daqui: http://congressoemfoco.uol.com.br/casal-de-sargentos-gays-responde-a-bolsonaro.html
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