Cheguei em Vila Velha ano passado nesse mês de dezembro. Ia tangida pela opressão das obrigações familiares, sufocada por responsabilidades que não deveriam ter sido assumidas tão radicalmente, mas de que não havia como fugir - quando se trata de mãe, e de desamparo, não abandono. E sou de abandonar - abandono fácil lugares, cidades, pessoas que deixaram de me dizer alguma coisa. Mas não os desamparados, os sob minha guarda ou que dependem de mim. O problema ainda parece ser encontrar os limites, sempre tive dificuldades com os limites.
De todo modo, parece ser hora de voltar, e essa não é uma decisão fácil, porque não sou do time do "Rio, eu te amo" incondicional, sou das que veem uma das mais belas cidades do mundo imersa numa crise estrutural, onde a cultura passeia de mãos dadas com os desmandos, a crise de valores geral que assola o país, e os governantes. Uma cidade tomada pela especulação, sobretudo imobiliária; uma cidade difícil de ser abandonada, porque o que resta da família, a mãe sobretudo, que está no fim de sua vida difícil e atribulada, não arreda pé daqui, não abre mão da beleza que salta à vista.
Ela não vê os problemas, não enxerga nada que não seja uma história de emancipação, de superação da pobreza pelo trabalho árduo, de sobrevivência com dignidade e liberdade, um tipo de conquista para uma mulher viúva e sozinha que, penso, só uma grande metrópole, como o Rio, poderia assegurar-lhe. Se se somar a esse gigantesco passo individual uma beleza deslumbrante, amizades construídas, espaços conquistados, entende-se perfeitamente que ela tenha fincado os pés, e a alma, nesta cidade, onde já comprou há décadas o jazigo final - uma transação inegociável, inadiável, irremovível.
Agora, resta montar o quebra-cabeças dessa volta.
