Ótimo livro, parece que o Paul Auster tem prazer em esmerilhar o caráter ficcional de sua ficção, então brinca com várias estórias acontecendo dentro da estória e entrecruzando-se umas com as outras, embora ele domine com maestria esse intrincado jogo de versões, visões e vidas que se criam e se aproximam do protagonista. Dentre outras façanhas, ele faz um roteiro (malogrado) de A máquina do tempo, de H. G. Wells, refazendo a obra por discordar do modo como o tempo é ali tratado:
Se havia algo que me pegava no livro, era a presunção subjacente, a idéia de viagem no tempo em si. Mas eu sentia Wells havia de alguma forma conseguido errar nisso também. Ele manda o herói para o futuro e, quanto mais eu pensava, mais certo ficava de que a maoria de nós preferiria visitar o passado. [...] Com tantos enigmas históricos para resolver, como não sentir curiosidade sobre a vida, digamos, na Atenas de Sócrates, ou na Virginia de Thomas Jefferson? Ou, como o cunhado de Trause, como resistir ao desejo de de reencontrar pessoas que a gente perdeu? Ver seu pai e sua mãe no dia em que se conheceram, por exemplo, ou conversar com seus avós quando eram crianças pequenas. (p. 115).
O homem chega ao máximo requinte de começar uma estória (que, originalmente, seria uma seqüência de outra feita por Dashiell Hammett) e largar o personagem pra lá, quando não sabe mais como tirar o sujeito da situação difícil em que o colocou. Na verdade, abandona o personagem trancado num quartinho, sem possibilidades de sair dali jamais:
Tinha colocado Bowen no quarto. Tinha trancado a porta e apagado a luz, e agora não fazia a menor idéia de como tirá-lo de lá. Dezenas de soluções me vinham à cabeça, mas todas me pareciam banais, mecânicas e sem graça. [...] Meu herói não estava mais trilhando o mesmo caminho que Flitcraft havia seguido. Hammett termina sua parábola com uma límpida virada cômica e, embora haja certo ar de inevitabilidade nisso, achei a conclusão dele muito branda para meu gosto. (p. 103).
Diferente de Desvarios no Brooklyn, aqui todas as estórias dentro das estórias são bem amarradas, todas nos interessam e eu, particularmente, sofri muito com o abandono daquele homem no quartinho, sem poder sair, sinal de que ele tinha a força de um personagem de flesh and bones.
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Paul Auster. Noite do oráculo. Trad. José Rubens Siqueira. São Paulo: Cia das Letras, 2004.
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domingo, 24 de fevereiro de 2008
quarta-feira, 30 de janeiro de 2008
desvarios no brooklyn
Estou há algum tempo para falar sobre o livro Desvarios no Brooklyn (Paul Auster), mas fico adiando porque é difícil mesmo. Há várias coisas a serem observadas, a primeira das quais é que Auster é um grande escritor, domina a escrita literária com maestria e vigor, tem uma frase que diz imediatamente a que vem, então você lê o livro com prazer, vai lendo, vai lendo e... aí temos um problema. O livro não empolga e me pareceu um logro com relação ao que promete. Isso porque depois daquele início apocalíptico, em que ele anuncia um protagonista que teve câncer e que havia passado por todo o processo doloroso e exaustivo das medicações e prescrições, achei que estaria diante de um grande romance trágico, para dizer o mínimo.
Qual não é minha surpresa quando, logo em seguida a essa cena, o personagem já está curado, e sua volta ao Brooklin, aos 59 anos (onde morou até os três anos de idade), que deveria se constituir num ajuste de contas com a vida, a morte, a dor, a miséria de sermos falíveis e mortais ou o que quer seja que tenha densidade e complexidade, ou seja, aquilo que ele prometeu quando nos apresentou a morte em sua crueza de doença-que-não-tem-cura, não se concretiza, e ele faz uma espécie de folhetim das peripécias banais das pessoas que vai conhecendo e re-conhecendo ao longo do tempo e do caminho: o sobrinho intelectual que abandonou a tese e virou motorista de táxi, o homem gay que vende livros usados e depois o emprega, a menina problema, a mulher madura com quem ele se envolve, a filha desta mulher que vem a ter um caso amoroso com sua sobrinha, enfim, para cada um desses personagens temos muitos lugares-comuns, muita abobrinha, muita bobagem e alguma boa literatura. Exemplo: para falar da tese abortada do sobrinho, Tom, ele faz digressões pseudo-inteligentes sobre os estudos acadêmicos, sobre os grandes autores da tradição anglo-americana e aproveita para mostrar "erudição" contando "causos" sobre a vida deles, sobretudo de Poe, que devem ter sido recolhidos numa pesquisa rápida no google.
Bom, a gente sabe do apreço que os estudos culturais têm pela relação vida-obra, e nem nego que possa haver interesse para a literatura nessa interseção, mas no livro a coisa me pareceu meio cínica, e pouco proveitosa. De todo modo, a sensação ao final do livro é que o narrador me prometia um magnífico romance trágico e no final recebi uma conversa sobre banalidades, algo como um tititi de comadres, para ser mais precisa - e cruel, claro, porque o autor é bom demais para se permitir um romance menor do que ele.
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Paul Auster. Desvarios no Brooklin. Trad. Beth Vieira. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
Qual não é minha surpresa quando, logo em seguida a essa cena, o personagem já está curado, e sua volta ao Brooklin, aos 59 anos (onde morou até os três anos de idade), que deveria se constituir num ajuste de contas com a vida, a morte, a dor, a miséria de sermos falíveis e mortais ou o que quer seja que tenha densidade e complexidade, ou seja, aquilo que ele prometeu quando nos apresentou a morte em sua crueza de doença-que-não-tem-cura, não se concretiza, e ele faz uma espécie de folhetim das peripécias banais das pessoas que vai conhecendo e re-conhecendo ao longo do tempo e do caminho: o sobrinho intelectual que abandonou a tese e virou motorista de táxi, o homem gay que vende livros usados e depois o emprega, a menina problema, a mulher madura com quem ele se envolve, a filha desta mulher que vem a ter um caso amoroso com sua sobrinha, enfim, para cada um desses personagens temos muitos lugares-comuns, muita abobrinha, muita bobagem e alguma boa literatura. Exemplo: para falar da tese abortada do sobrinho, Tom, ele faz digressões pseudo-inteligentes sobre os estudos acadêmicos, sobre os grandes autores da tradição anglo-americana e aproveita para mostrar "erudição" contando "causos" sobre a vida deles, sobretudo de Poe, que devem ter sido recolhidos numa pesquisa rápida no google.
Bom, a gente sabe do apreço que os estudos culturais têm pela relação vida-obra, e nem nego que possa haver interesse para a literatura nessa interseção, mas no livro a coisa me pareceu meio cínica, e pouco proveitosa. De todo modo, a sensação ao final do livro é que o narrador me prometia um magnífico romance trágico e no final recebi uma conversa sobre banalidades, algo como um tititi de comadres, para ser mais precisa - e cruel, claro, porque o autor é bom demais para se permitir um romance menor do que ele.
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Paul Auster. Desvarios no Brooklin. Trad. Beth Vieira. São Paulo: Cia das Letras, 2005.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Em compensação
Em compensação, um livro que eu recém comecei a ler fala de mim como se fosse eu mesma, numa frase absolutamente certeira e cortante:
"O choque do câncer tinha sido tão grande que eu ainda não confiava na possibilidade de sobreviver a ele. Eu havia me considerado morto e, depois que o tumor foi retirado, depois que passei pelos tormentos desanimadores da náusea, da tontura, da perda do cabelo, da vontade, do emprego e da mulher, passei a achar muito difícil vislumbrar como seguir adiante. Daí o Brooklin. Daí minha volta inconsciente ao lugar onde minha história começou. Eu estava com quase sessenta anos de idade e não sabia quanto tempo me restava. Talvez mais uns vinte anos; talvez só mais alguns meses. Quaisquer que fossem os prognósticos médicos para meu estado, o crucial era não tomar nada como favas contadas. E, enquanto eu estivesse por aqui, era preciso descobrir uma forma de começar a viver de novo; e, mesmo que não fosse por muito tempo, era preciso fazer mais do que apenas ficar sentado pelos cantos, à espera do fim. Como de hábito, minha filha cientista estava certa, ainda que eu fosse teimoso demais para admitir isso. Eu precisava me manter ocupado. Precisava despregar a bunda da cadeira e fazer algo."
(Paul Auster, Desvarios no Brooklin, São Paulo: Cia das Letras, 2005, p.10)
"O choque do câncer tinha sido tão grande que eu ainda não confiava na possibilidade de sobreviver a ele. Eu havia me considerado morto e, depois que o tumor foi retirado, depois que passei pelos tormentos desanimadores da náusea, da tontura, da perda do cabelo, da vontade, do emprego e da mulher, passei a achar muito difícil vislumbrar como seguir adiante. Daí o Brooklin. Daí minha volta inconsciente ao lugar onde minha história começou. Eu estava com quase sessenta anos de idade e não sabia quanto tempo me restava. Talvez mais uns vinte anos; talvez só mais alguns meses. Quaisquer que fossem os prognósticos médicos para meu estado, o crucial era não tomar nada como favas contadas. E, enquanto eu estivesse por aqui, era preciso descobrir uma forma de começar a viver de novo; e, mesmo que não fosse por muito tempo, era preciso fazer mais do que apenas ficar sentado pelos cantos, à espera do fim. Como de hábito, minha filha cientista estava certa, ainda que eu fosse teimoso demais para admitir isso. Eu precisava me manter ocupado. Precisava despregar a bunda da cadeira e fazer algo."
(Paul Auster, Desvarios no Brooklin, São Paulo: Cia das Letras, 2005, p.10)
quarta-feira, 26 de setembro de 2007
sobre Viagens no scriptorium
Estou para falar sobre o Viagens no scriptorium, do Paul Auster, mas meio intimidada, deve haver um mar de textos escritos sobre ele, que eu não li. Na verdade, de toda a sua obra só li essa até essa data, e de toda a sua fortuna crítica li apenas o comentário do Lucas, linkado aí embaixo. Convenhamos, ainda é pouco.
Mas acho que posso dizer que o autor conhece tudo de literatura, ou seja, ele faz questão de escrever deixando à mostra todo o tempo o jogo que está jogando, em níveis diversos. Por exemplo, na escolha do nome do personagem (sobretudo o Blank); no fato de haver uma estória subjacente à estória narrada que vai-se aproximando de tal maneira do personagem que acaba se transformando na estória propriamente do que ele é: pura ficção.
De modo que o autor vai nos levando numa prosa elegantíssima (frase que não diz nada mas aqui significa que a linguagem que ele usa nos dignifica, nos enobrece, é clássica, correta, bela, ou seja, ele faz o que quer com a palavra escrita) pelo coração dessas estórias que não se resolvem, não têm fim (nem começo, aliás), mas que seguimos fascinados até a constatação final de que somos cúmplices daquele aprisionamento aparentemente injusto de Blank, somos todos carcereiros do Guantánamo particular em que se transforma aquele quarto, na verdade, somos nós, leitores, os autores dessas vidas, dessas estórias, dessas páginas, dessa obra. Nunca o leitor teve um lugar tão privilegiado numa obra de ficção, que eu me lembre. Preciso ver se ele (esse leitor) cabe na teoria do Iser. Ah, sim, e lerei o Leviatã (que nome forte!) no futuro próximo.
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Paul Auster. Viagens no scriptorium. Trad. Beth Vieira. São Paulo: Cia das Letras, 2007.
Mas acho que posso dizer que o autor conhece tudo de literatura, ou seja, ele faz questão de escrever deixando à mostra todo o tempo o jogo que está jogando, em níveis diversos. Por exemplo, na escolha do nome do personagem (sobretudo o Blank); no fato de haver uma estória subjacente à estória narrada que vai-se aproximando de tal maneira do personagem que acaba se transformando na estória propriamente do que ele é: pura ficção.
De modo que o autor vai nos levando numa prosa elegantíssima (frase que não diz nada mas aqui significa que a linguagem que ele usa nos dignifica, nos enobrece, é clássica, correta, bela, ou seja, ele faz o que quer com a palavra escrita) pelo coração dessas estórias que não se resolvem, não têm fim (nem começo, aliás), mas que seguimos fascinados até a constatação final de que somos cúmplices daquele aprisionamento aparentemente injusto de Blank, somos todos carcereiros do Guantánamo particular em que se transforma aquele quarto, na verdade, somos nós, leitores, os autores dessas vidas, dessas estórias, dessas páginas, dessa obra. Nunca o leitor teve um lugar tão privilegiado numa obra de ficção, que eu me lembre. Preciso ver se ele (esse leitor) cabe na teoria do Iser. Ah, sim, e lerei o Leviatã (que nome forte!) no futuro próximo.
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Paul Auster. Viagens no scriptorium. Trad. Beth Vieira. São Paulo: Cia das Letras, 2007.
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