Terminei de ler De verdade, do Sándor Márai (445 pp) há algum tempo e estou para comentá-lo aqui, mas um tanto sem forças. Porque o livro é mesmo uma obra-prima, sem dúvida, com alguns defeitos que não lhe tiram a grandeza. A obra-prima fica por conta do domínio narrativo, das reflexões que propõe sobre a natureza e a ambiguidade dos vastos sentimentos que nos movem nessa intrincada rede das relações amorosas e, sobretudo, do que constitui a intimidade.
Acho que menos do que falar sobre a decadência da burguesia como classe, o livro disseca com minúcia e precisão esse que constitui um dos mais difíceis aspectos das relações afetivas em geral, e seu compartilhar, sejam elas relações eróticas, fraternas, filiais ou o que for. Márai usa a palavra como um bisturi e a frase vai dissecando cada ângulo, cada minúcia, cada vão desses compartimentos que guardam os segredos daqueles que escolhem ficar com alguém, dividir camas e humores, sentimentos, claro, e expectativas, alegrias, lutos, lutas e tréguas. Márai vai ao encontro das firulas, das finesses, dos rodeios que todos construímos para justificar quem somos, por que somos o que somos, por que falhamos com o outro, o que somos para nós e quem somos para o outro.
Tudo isso sob o domínio completo da técnica narrativa, que consiste aqui, primeiro, em sussurrar para o leitor tudo que diz, dizê-lo num registro de confidência, absolutamente perfeito para o propósito do romance, quando nos torna, a nós leitores, cúmplices dos acontecimentos, de cada segredo, como se dispuséssemos de dados únicos sobre o que envolve cada situação, e, nesse gesto, alça-nos a um patamar acima dos 'comuns mortais'. É uma técnica de sedução do leitor que os romancistas do século dezenove usaram à exaustão (incluindo nossos Machado e Alencar), e que tem aqui uma de suas mais altas realizações; depois, em nos fazer ver os vários pontos de vista da mesma situação, como é que cada personagem viveu aquilo que viveu na relação, que sentimentos o moveram, e surpreender-nos com perspectivas tão díspares na análise e compreensão dos mesmos atos.
Acho que mais importante do que tomar como centro dessas diferenças a questão da luta de classes, que o romance igualmente postula, a força da técnica estaria mais, para mim, na emersão das diferenças, nesse painel absurdamente bem escrito e bem conduzido das nuanças dos sentimentos humanos em relação, ao descrever, situar, analisar as motivações, explícitas ou não, para nossos atos e, assim, nos revelar a nós mesmos por caminhos inimaginados.
Uma terceira qualidade que distingue o romance, e o autor, seria sua postura filosófica, na linha da grande tradição do romance russo, por exemplo. Por esse viés, riquíssimo, os acontecimentos não são apenas narrados, ou vividos, mas se tornam exemplares para quem quer que se aproxime da obra. Há algo sendo dito para nós, que diz respeito a nós, contemporaneamente, sobre nosso medo, nossa hipocrisia, nossas relutâncias, os crimes que, nós também, cometemos. Se considerarmos que o romance foi grande parte escrito na década de 40, falar-nos ainda hoje de questões éticas, morais, é um feito e tanto.
Dos defeitos a que me referi, vou comentar apenas um. Embora a gente não consiga largar a leitura, a parte final (com data de 1979), que diz respeito ao artista, o amante de Judit Áldozó, e que foi escrita na mesma época da segunda parte, sob o título “Judit e a fala final”, uma continuação do romance escrita de 1949 a 1978, essa parte do artista e músico me parece dispensável. A impressão que dá é que o escritor se viu na contingência de escrever sob o ponto de vista do todos os envolvidos, mas não apenas a presença do rapaz é menor para os acontecimentos fundamentais, mesmo na vida de Judit, como o que ele diz tem peso menor na estrutura toda, importa menos. Esse, no entanto, é um defeito menor. Afinal, nem mesmo Marx conseguiu descrever com clareza o lugar do artista e da arte na sociedade sem classes que tentou sonhar.
E, sem dúvida, o engenho de Márai vai muito além de qualquer discussão sobre tal lugar em qualquer sociedade.
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Sandor Márai. De verdade. Tradução Paulo Schiller. São Paulo:Cia das Letras, 2008.
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