quarta-feira, 30 de julho de 2008

Dança no Bougival



Pierre-Auguste Renoir (1841-1919)
Dance at Bougival, 1883
Museum of Fine Arts, Boston

Eu faço alongamento sob esse quadro, ou seja, muitas vezes estou deitada, fazendo algum movimento, e é para ele que fico olhando, e pensando que festa seria aquela, que música tocava nessa dança, estava calor ou frio, é Renoir que dança com ela, já que era seu amante? - não, não vou ao google ver isso, quero mesmo divagar.

Mas o que mais me toca no quadro é o movimento da saia dela, parece aquele instante da dança em que o cavalheiro dá uma paradinha, finge que vai para um lado e vai para o outro, movimento em estado de arte.
E o buquê de florzinhas roxas no chão: foi jogado por ela? caiu sem querer? ela viu? vai pisar nele? oh, céus...



Suzanne Valadon (1867-1938), real name: Marie Clementine Valadon, illegitimate child, had a neglected childhood in Montmartre. At the age of 18 she herself had an illegitimate son, Maurice Valadon, who later became the artist Utrillo. She earned her living as a model; was a model and lover of Puvis de Chavannes and Renoir. Encouraged and instructed by the artists, for whom she sat as a model, she began to paint herself
(ver em http://www.abcgallery.com/R/renoir/renoir41.html )

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ao entardecer



Por que o filme é magnífico: porque tem a Vanessa Redgrave, e isso já é razão suficiente para mim. Ela aparece bem velhinha, e sempre maravilhosa. Além dela, tem a Claire Danes, a Maryl Streep, a Glenn Close, a Toni Collette, um grande time feminino, em soberbas interpretações. Os dois homens que contracenam com elas quando jovens fazem igualmente bonito, então não poderia dar errado, e não deu.
Tudo acontece de um modo delicado, bonito e emocionante, a vida da protagonista (Redgrave) vai sendo vivida na tela e nós vamos acompanhando e torcendo por ela. Um pouco como se dá em Desejo e reparação, e um pouco no clima de desencontro de Orgulho e preconceito, o filme trata das questões básicas de cada um de nós: os amores que perdemos, as opções que fizemos, os sofrimentos e alegrias que cada um carrega na lembrança, as histórias que compõem cada vida, sua bagagem.
E é disso, basicamente, que se nutre a graça do filme - das lembranças. Somos cúmplices ali daquele passado, lembramos junto com ela o que nos tocou viver, arrependemo-nos ou não do que fizemos ou deixamos de fazer.
E compreendemos profundamente que ela (a vida) chegue ao fim, porque na verdade não finda inteiramente, algo começa a nascer com uma das filhas, sobretudo, e com a mais assustada delas. Um filme para rever.
***
Se o filme é tocante, também era tocante a platéia presente à sessão vespertina em que eu fui. Várias cabeças brancas à minha volta, duas velhinhas tontas tentando encontrar as cadeiras e sentar, a luz apagada que não ajudava, enquanto o amigo chamava alto "por aqui, por aqui, cuidado você está entrando pelo lado errado!". Enquanto eu olhava aquelas cabeças brancas e ainda um chapeuzinho bem na cadeira da frente, pensava comigo mesma, meio querendo ficar prosa, que os meus cabelos não estavam brancos, eu ainda não pertencia àquele grupo. Mas logo me recompus: como não? É só parar de pintar e eles ficarão exatamente daquela cor. Falta coragem, no entanto, para esse gesto de libertação. Eu olhava para as cabeleiras pintadas, como a minha, e não sabia com quem deveria me identificar: com as cabecinhas brancas e verdadeiras, ou com aquelas pintadas em busca da juventude? Não sei ainda, mas não demora o dia em que saberei.

segunda-feira, 28 de julho de 2008

entrevista


Li essa matéria e subscrevo tudo que diz, tal qual.

Entrevista dada a Rapahel Bruno por Ricardo Antunes, publicada no Jornal do Brasil de domingo, seção País, p. A15, em 27/07/2008.

Sociólogo e professor titular da Universidade de Campinas, Ricardo Antunes, 54 anos, é considerado um dos maiores especialistas do Brasil na área de relações do trabalho. Intelectual de peso do PT por mais de 20 anos, como tantos outros se afastou do partido quando a legenda chegou ao poder, decepcionado com as políticas praticadas pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, para se tornar um de seus críticos mais severos

[...]
E qual a avaliação que o senhor faz da aproximação das maiores centrais sindicais do país com o governo?


– Com a vitória do Lula em 2002 tivemos uma aproximação muito forte dos sindicatos e do Estado, com a cooptação de dezenas de ex-líderes sindicais que foram para os conselhos das estatais, secretarias e ministérios.
O Lula se origina no movimento sindical e se fez liderança popular nele. Então ele tem uma vivência de como tratar com essa liderança sindical. Tudo ganha materialidade através dos fundos como o FAT e o imposto sindical. As centrais estão no colo do Estado na medida em que dependem dele financeiramente. E estão no colo político no Estado na medida em que, com o pé no governo, não são capazes de fazer oposição.
Como o governo Lula vive hoje o melhor dos mundos se há três anos chafurdava no lamaçal do mensalão? Por um lado, garantindo uma remuneração ao capital financeiro e ao grande capital produtivo num nível jamais visto no Brasil, de fazer inveja a Fernando Henrique Cardoso. Na base, no extremo oposto, o bolsa-família atinge 50 milhões de pessoas, uma política assistencialista que sequer arranha as engrenagens das nossas mazelas sociais. E nos intermédios há essa política muito competente de cooptação das centrais sindicais.


O senhor costuma utilizar com freqüência a expressão "lulismo". O que seria exatamente esse lulismo?– Lula não é uma liderança popular fictícia. Ele se consolidou ao longo de décadas. Mas nos anos 1990 o lulismo foi se tornando uma espécie de câncer dentro do PT. Ele se torna cada vez mais distante da sua classe de origem. Quanto mais ascende a escala social, mais seus valores do passado ficam para trás.
Lula combinou a sua velha base social com o mandonismo do PT, seu personalismo enorme e a comunicação direta com o povo. Ele sabe falar um discurso que o povo entende. Basta comparar com o elitismo intrínseco do Fernando Henrique. Lula pode fazer as políticas das elites, mas fala como se estivesse defendendo o povo.
O lulismo é uma espécie de semi-bonapartismo. Garante a boa-vida dos ricos embora diga que defende os pobres. Esse é o segredo da sua engenharia política. Nisso ele tem um traço do velho Getúlio. Com uma diferença: Getúlio era um oligarca dos pampas, ao passo que Lula se origina do movimento operário. Esse é o lado trágico. E é ele quem diz, não sou eu, que nunca os ricos ganharam tanto nesse país como no governo dele. É um atestado cabal do que é o lulismo.
Nesse sentido, a política de Lula é mais competente para as classes abastadas do Brasil, porque além de garantir a rentabilidade alta das classes burguesas, ele tem uma política de controle dos movimentos sociais que o PSDB, por exemplo, não tem.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Cartas para Cézanne


Nas Cartas para Cézanne, Rilke mostra não apenas uma sensibilidade extraordinária para compreender esse artista, mas tem insights finíssimos sobre a arte, seu tempo, as coisas simples e cotidianas, seu valor.
Por exemplo, comentando com sua mulher Clara (as cartas são dirigidas a ela, de quem ele vive separado mas com quem mantém laços de afeto e cumplicidade) sobre um conjunto de reproduções de Van Gogh que uma conhecida havia trazido de Amsterdã (cerca de 40), ele observa a pequena nota biográfica junto ao índice das telas, um modelo de síntese, a partir do qual ficamos sabendo que Van Gogh fora
"Marchand, e quando de algum modo, depois de três anos, compreendeu que não era nada disso, modesto professor escolar na Inglaterra.


Depois a decisão: tornar-se religioso. Vai para Bruxelas, a fim de aprender grego e latim. Mas para que o desvio? Não há, em algum lugar, homens que não exijam nem grego nem latim de seus oradores? Assim ele se torna o que chamamos de evangelista, e vai para a região do carvão, narrando o evangelho para as pessoas. Enquanto narra, começa a desenhar. E, por fim, nem mesmo percebe como se cala e apenas continua desenhando. E desde então ele não faz mais nada, até a sua última hora, até que decida parar com tudo, talvez porque não tivesse podido pintar por semanas; parece-lhe natural desistir de tudo, principalmente da vida". [p.38]

Sobre o trabalho, simplesmente, que precisa ser feito, Rilke observa:

Sinto o mesmo que Van Gogh em certo ponto deve ter sentido, e este sentimento é intenso e grande: que tudo ainda está por fazer: tudo. [...] Van Gogh podia fazer um Interieur d'Hôspital e pintava, nos dias mais inquietos, os mais inquietos objetos. Como, senão assim, ele teria suportado? Temos de chegar a esse ponto e, eu bem o sinto, não por obrigação. Pelo discernimento, pelo prazer, pelo não-poder-adiar, considerando o quanto está por fazer. [p.40]

E este insight:

Vivemos tão mal porque chegamos sempre inacabados ao presente, incapazes e dispersos em tudo. [p.31]
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Rainer Maria Rilke. Cartas sobre Cézanne. Tradução e prefácio Pedro Sussekind. Rio de Janeiro: 7Letras, 2006.

Flores e outono






Tirei essas fotos em Providence, RI, durante minha estada por lá, em 1998, para fazer pós-doc.

segunda-feira, 21 de julho de 2008

Do outro lado



Um filme que caminha com inteligência e delicadeza por vários tempos e lugares, pontuando as inesperadas facetas do amor, de que faz seu centro gravitacional. Há o amor entre pai e filho, nunca sem traumas ou dificuldades; o de um homem idoso e uma mulher que se juntam porque ele não quer mais ficar só; o desta mulher por ele para preservar sua vida e ter um canto seu; o da jovem ativista política em fuga na Alemanha, cujo encontro da solidariedade e inesperado amor na jovem universitária lhe proporcina abrigo e paixão; o amor dramático da mãe pela filha, assassinada a esmo num beco de um país estrangeiro por moleques drogados; o amor da outra mãe, que sonha com a filha ativista política na Turquia, sumida há anos, e assassinada sem querer pelo velho com quem vai morar; há a solidariedade do filho do velho, que vai em busca desta filha para, de certo modo, redimir o pai que matou a mulher; há os desencontros de quase todos, como uma fina metáfora a permear todo o tempo as histórias, a nos dizer que é disso que o amor é feito, quase sempre.
Mas há também os encontros inimagináveis de uma mãe com a jovem indiretamente responsável pela morte de sua filha. Muito da grandeza desse encontro deve-se à presença da Hanna Schygulla, cuja cena de dor pela perda da filha no quarto do hotel turco é magistral, tanto mais porque é filmada de longe, meio do alto, e absolutamente magnífica. E tem a cena final, em que o filho espera sentado na areia da praia que o pai volte de uma pescaria, pois "o mar está bravo e ele deve voltar mais cedo", como observa um pescador. O filho espera olhando o mar. E nós ficamos ali, parados, olhando e esperando também o homem e seu barco, que não chegam. Como o amor, frequentes vezes. Que pode chegar, ou não.

sábado, 19 de julho de 2008

Lorde

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Acabei de ler Lorde, de João Gilberto Noll e achei tão ruim, mas tão ruim, que preciso de um tempo distanciada de sua leitura para não ser injusta, porque só tenho visto elogios rasgados à obra na rede, a revista Bravo o considerou melhor livro dos últimos oito anos em 2004, ano de seu lançamento. Volto daqui a algum tempo para comentar, se for o caso.

croissant



Isso tira de qualquer um toda possibilidade de magreza...:)

a turma do bem

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Como se sabe, o seu Eike comprou o hotel Gloria, onde fazemos alongamento. Esta é uma 'fotinha' de parte do grupo que se reúne depois no cafezinho, estamos nos despedindo, hélas.:).

ps. eu sou a que está tirando a foto...:)

sexta-feira, 18 de julho de 2008

sobre quase nada


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Pois então, as palavras têm história, não apenas as delas próprias ao longo de seu uso na língua, a 'bela diacronia', mas as de nossa relação com elas nessa mesma língua, no caso, para mim, brasileira.

Deu-se que um dia eu vinha de um desses congressos acadêmicos, esperava na saguão do aeroporto junto com um monte de outros professores oriundos do mesmo evento. Alguém diz então alguma coisa em que aparece o verbo "realizar" no sentido de "compreender", tipo "só realizei agora que o congresso terminou", e eu faço blague, observando "é engraçado, a gente acaba se apropriando da palavra e dá a ela o mesmo sentido de sua língua original", querendo dizer que o verbo "realize" em inglês significa "compreender", e nós então tomamos esse sentido na língua original, abrasileiramos e perdemos de vista o anglicismo da construção.

No entanto, há sempre um espírito de porco quando mais de quatro pessoas estão juntas (eu acho) e lá veio a senhora Y replicando com veemência que "nada disso, 'realizar' no sentido de 'compreender' já pertence ao português do Brasil há muito tempo, não há anglicismo algum etc, etc...". Não convencida, fiquei de perguntar a quem sabe mais sobre o assunto, tipo assim mandar email para o Bechara, mas até hoje não o fiz.

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quarta-feira, 16 de julho de 2008

Tabasco


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Sou de origem pobre, migrante nordestina que veio para o Rio com sete anos, pai operário e mãe faz-tudo-que-pode-para-criar-os-filhos. Essa é uma herança que me deu mais coisas boas do que ruins - me deu uma força absurda para "vencer na vida" (uso a expressão entre aspas porque hoje não me diz muito, mas toda a minha vida ela fez muito sentido, assim mesmo).

Não tendo livros em minha casa, cedo entendi que sem "estudo" eu não iria para lugar algum, além de que meu pai sorria quando eu mostrava meus (bons) feitos na escola. Por aquele sorriso, tenho certeza de que cheguei até onde alguém pode chegar em sua formação. Ele morreu quando eu tinha 15 anos, sua falta criou um buraco sem fundo em mim, e creio que estudei tanto sempre para preenchê-lo, para (re)colocar esse pai lá onde ele inexistia.

Isso tudo para dizer que hoje ouvi uma palavra - "tabasco" - que me lembrou de novo de onde eu venho. Eu não conhecia a palavra, e ao longo da minha vida eu ouvi muitas palavras cujos sentidos desconhecia, ouvi falar de lugares onde jamais fora, muitas vezes em minha cabeça eu fazia "aahh..." e imaginava o que seria aquilo, onde seria aquele possível éden.

Muitas vezes fingi conhecer algo para não dar bandeira de que eu não tinha "cultura de berço", minha estante não tivera livros, sobretudo com o "povo da Puc", nos tempos do Mestrado e Doutorado.

Vi ontem (15/08/10) a entrevista que a Marilia Gabriela (um pouco menos histriônica) fez com o Sérgio Besserman e a gente percebe quando a cultura é de berço. A dele é. Então, não sabendo o que era 'tabasco', mas sabendo que tinha no supermercado, fui lá e comprei. É apenas um molho de pimenta. Só. Mas é bom, sim.

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terça-feira, 15 de julho de 2008

tem maluco em todo canto



Já contei essa história em algum espaço de blog, acho que no da carrie, do sublime sucubus, e se deu quando morava em providence, rhode island (fiquei lá 7 meses em pós-doc), em 1998. Mandei instalar a antena de TV a cabo, vieram dois rapazes, um branco e um negro, e enquanto eles trabalhavam eu falava com eles que era do brasil, estava ali pela primeira vez, enfim, jogava conversa fora para o tempo passar.

Ao final, um deles perguntou se eu tinha banheiro, eu disse que sim, achando esquisito alguém perguntar se você tem banheiro em casa. Ele entrou no banheiro, o outro foi embora e eu achei mais esquisito ainda, mas esperei o cara sair. Só que ao invés disso, ele começou a perguntar lá de dentro se eu não tinha "another kind of soap", perguntava isso insistentemente, ao mesmo tempo em que eu ouvia barulhos de persianas, torneira aberta, descarga, tudo ao mesmo tempo. Daí a longos minutos e ao cabo de muitas perguntas iguais sobre o tal 'sabonete' eu acabei ficando bem nervosa, gritei pra ele get out of my house or I would call the cops!

O cara saiu chispando do banheiro, bateu a porta da sala com violência na saída e eu me disse: caracas, o que foi isso? :) Só depois uma amiga de lá me informou que eu havia sofrido um harassment, ligou pro gerente da firma e este me pediu para não notificar o caso pois eles perderiam o emprego etc, etc.


segunda-feira, 14 de julho de 2008

aquarelas



Eu pedi, ele permitiu e aqui está um dos lindos desenhos em aquarela do Antonio, há outros no site do picasa que está aí ao lado. Eu acho bem interessantes.

Nota:
Eu chamei os desenhos de gravura no outro post, mas vi que gravura é outra coisa, ela usa materiais diversos como chapa para fazer o desenho e imprimir.

Mas o Antonio gentilmente me corrigiu hoje observando que seu trabalho é mesmo aquarela, porque o trabalho com guache é mais espesso, menos diluído do que a aquarela. Sim, Antonio? :)


sábado, 12 de julho de 2008

o caos nosso de cada dia



Nossa, o país assiste abestado a uma das maiores disputas de poder, dinheiro e espaço dos últimos tempos. Entraram no ringue agora as instâncias máximas da justiça brasileira, fazendo um papel triste e desprezível, quando menos porque nenhum pobre jamais foi solto por decisão do supremo em tempo recorde como esse sujeito tem sido pelo gilmar mendes, e as forças ocultas do mal, que vivem nas sombras do estado e a suas expensas há infinitas eras, chafurdando na lama da corrupção, das alianças espúrias, das licitações compradas, enfim, nesse caldo inesgotável de baixezas em que apraz deleitar-se nossa pior elite.
Junte-se a isso a diária marcação da bandidagem sobre a população carioca, que recebe tiros por todos os lados, e podemos dizer que a vida não tem sido exatamente um mar de doçura por essas plagas.
Em tempo: torço pelos mocinhos da PF, acho impressionante que ainda exista uma parcela da instituição policial imune à corrupção e torço, claro, pelo juiz Fausto De Sanctis que, além de paladino, tem esse nome incrível.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

um fofo




Esse é o Dani, meu primeiro e único cãozinho de estimação. Ele acabou ficando em Fortaleza, tive de dá-lo quando fiquei doente, mas nunca me esqueço dele, sinto saudades como se fosse meu filho. Quando penso nele sempre lembro de coisas engraçadas. Ele é um fofo, espero que ainda seja e que esteja bem.

fotos no blog

Duas notas:

1. O Antonio Augusto tem um site onde expõe as aquarelas dele, que eu acho muito lindas, coloquei o link aí ao lado, página do Picasa (aas marques);

2. Acho que esse blog vai-se transformar aos poucos em mais fotográfico do que "palavrático" (ops!) :), tenho achado bem legal sites de fotos.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

não por vaidade





Copiei de alguém só porque é bonito... ainda bem que o crédito está impresso embaixo.

terça-feira, 8 de julho de 2008

bordador de recados



Inspirado pela Vivi, do De(coeur)ração, fiz esses dois bordadores que também servem para colocar avisos, recados etc... mas só uso para enfeitar mesmo. Hoje eles estão mais juntinhos, ficou melhor.


A barbárie cotidiana

Eu comecei e ver na TV o pai falando mas não aguentei, chorei junto e mudei de canal. A vida de todos nós virou moeda de vintém por essas terras. O que nos fez chegar a isso? Como sair dessa? Para onde ir?

8/7/2008 03:04:00 - ODIA

Rio - Horas depois de a morte cerebral de João Roberto ser confirmada, o secretário estadual de Segurança, José Mariano Beltrame, afirmou que o caso é uma tragédia sem desculpas, resultado de uma ação infeliz e desastrosa dos PMs envolvidos na perseguição, em razão da falta de preparo e treinamento.
Não há desculpas numa tragédia dessa. Foi uma ação infeliz. Eu, como pai e policial, me sinto constrangido com essa situação. Houve um total despreparo e falta de discernimento dos policiais”, criticou Beltrame. Os soldados William e Elias foram presos administrativamente por 72 horas, no próprio batalhão. As armas foram apreendidas e serão confrontadas com projéteis retirados do corpo de João.
[...] Moradora do prédio em frente, uma dona-de-casa disse que os bandidos ainda deram dois tiros com o carro em movimento. Eles bateram em dois carros parados no sinal, para abrir caminho. “Depois que fugiram, a PM chegou. Eles descarregaram as armas, foi quase um minuto de tiro. A mãe gritava: ‘Socorro, só tem criança aqui’. Mesmo assim, fizeram a mulher deitar no chão. Quando um deles viu o menino ferido, colocou as mãos na cabeça, desolado. Foi uma cena de filme de terror”, lembrou.
Nos prédios em volta, não havia marcas de disparos nas fachadas. [...]

a pele da moça



Alguém sabe o nome do hidratante que a Ingrid Betancourt usou na selva? Nossa, que pele!
E os seis anos e alguns meses em condições precárias, com risco de vida, não causaram qualquer estrago a seus belos dentes, que coisa! Se bem que os índios sempre souberam quais ervas usar para quase tudo que diz respeito aos cuidados de si. Ela deve ter aprendido, não tinha outra opção.

segunda-feira, 7 de julho de 2008

dois atores


E vendo a entrevista que o Wagner Moura deu ao programa da Marilia Gabriela (bastante histriônica, e está piorando com o tempo, eu acho), fiquei ainda mais fã dele, que diz coisas interessantes, é inteligente, vivaz, acredita na vida, no teatro, nas forças construtivas, no futuro... nossa, tudo de bom, energético em forma de gente. Agora são dois os grandes atores jovens desse nosso país-sem-valores: Wagner Moura e Selton Melo.

sábado, 5 de julho de 2008

Judit Áldozó

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"Mas hoje sei que nunca, nem por um único instante, fui rica de verdade. Eu só tinha as jóias, dinheiro e conta no banco. Ganhei tudo deles, dos ricos. Ou tirei tudo deles, quando tive oportunidade, porque eu era uma garota inteligente, aprendi na vala, na infância, que não devemos ser preguiçosos, temos de pegar, cheirar, morder, esconder tudo o que os outros jogam fora... A gente nunca trabalha o bastante, aprendi isso em menina." [p. 268]

"Era assim que eu me sentia quando pensava nos ricos. Não os odiava por causa do dinheiro, das mansões, das pedras preciosas. Não era uma proletária rebelde, nem uma trabalhadora com consciência de classe, nada disso... Por que não? Porque eu vinha de tais profundezas que sabia de mais coisas que as declamadas do alto dos barris." [p. 309]
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Ainda algumas observações sobre Judit Áldozó, o personagem mais importante do livro De verdade, do Márai (comentado em outro post), sobre quem me surgiram algumas hipóteses e outras tantas questões. Por exemplo: por que o autor teria levado tantos anos para terminar de escrever e publicar essa última parte do romance, justamente aquela que trata da condição proletária? Na verdade, mais do que da condição proletária, já que Judit ultrapassa esta condição inicial de empregada da casa, casa-se com o filho do patrão, fica rica, esbanja o dinheiro dele que agora é seu, despreza-o na cama, separa-se, viaja, conhece outros homens, mora com o melhor amigo do ex-marido na Itália, o escritor Lázár, apaixona-se por um artista meio malandro e conta a ele sua história, essa que então lemos.

A história de Judit é a mais longa, ocupa 143 páginas, contra 119 da mulher Ilonka, 121 páginas do homem, Péter, e apenas 46 são ocupadas pela versão do artista, o amante de Judit.

De todo modo, o que chama a atenção quando acompanhamos a narração e a trajetória de Judit é, primeiro, sua sabedoria, fruto talvez dessa herança de classe: para alguém que morou na vala, literalmente, junto com os ratos que chegavam com a chuva, sua trajetória é espetacular. Ao mesmo tempo que aprendia com os patrões tudo que podia a respeito desse outro mundo onde eles reinavam, ela também ia formando a convicção das diferenças, que havia efetivamente dois mundos distintos para os ricos e para os de sua classe. Isso não diminuía a percepção de Judit, agudíssima, para os valores que a cercavam, seja na esfera da burguesia, seja no seu próprio mundo. Nunca foi uma questão moral para ela roubar do marido rico, o que ela fazia diuturnamente, pois tratava-se de uma contingência da vida: ela precisava resguardar seu futuro, ela encontrava-se no momento em condições de prover-se com esses fundos, tirados ao marido sem que ele soubesse de início, mas isso jamais foi percebido como uma infração. Tal como Paulo Honório, de São Bernardo, não há questão moral face ao direito de posse dos destituídos, dos despossuídos. Judit vai fundo em tudo, não vive pelas bordas ou em cima do muro, mergulha em suas várias etapas de vida, vive-as inteiramente, não se arrepende, não se imola, vai e leva tudo o que quer e de que precisa. Judit é uma aristocrata, como Nietzsche pensa o conceito: sem ressentimentos, nenhum sentimento cristão de culpa ou de amesquinhamento. Ela quer viver, e vive. Se der para ser muito bem, melhor. E deu, e dará, porque ela quer. E porque sim.

[...]

Há um temor recorrente em todo o transe que vive a persongem G.H., de Clarice Lispector, em seu livro magistral. Mais do que a barata, aquilo que hante G.H. é a idéia de uma Judit Áldozó habitando o exíguo quarto da empregada. (isso dá um conto ou um novo post...:)
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Sándor Márai. De verdade. Tradução Paulo Schiller. São Paulo: Cia das Letras, 2008.
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Hamlet


Pelo que vi no making off do Multishow sobre Hamlet, a peça deverá ser o acontecimento teatral do ano. O empenho da equipe, a entrega de todos ao projeto, a crença do Wagner Moura na força do palco e do teatro como catalisadora das grandes questões do homem e da sociedade em todos os tempos, remetem a sua época de ouro (para mim e para minha geração), quando ver grandes espetáculos era um acontecimento não apenas da cultura, mas um ato político de contestação e resistência. Ainda não li nenhuma crítica especializada sobre o trabalho, mas torço por e faço figa para dar certo. Achei bonito todo o empenho.

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terça-feira, 1 de julho de 2008

De verdade


Terminei de ler De verdade, do Sándor Márai (445 pp) há algum tempo e estou para comentá-lo aqui, mas um tanto sem forças. Porque o livro é mesmo uma obra-prima, sem dúvida, com alguns defeitos que não lhe tiram a grandeza. A obra-prima fica por conta do domínio narrativo, das reflexões que propõe sobre a natureza e a ambiguidade dos vastos sentimentos que nos movem nessa intrincada rede das relações amorosas e, sobretudo, do que constitui a intimidade.

Acho que menos do que falar sobre a decadência da burguesia como classe, o livro disseca com minúcia e precisão esse que constitui um dos mais difíceis aspectos das relações afetivas em geral, e seu compartilhar, sejam elas relações eróticas, fraternas, filiais ou o que for. Márai usa a palavra como um bisturi e a frase vai dissecando cada ângulo, cada minúcia, cada vão desses compartimentos que guardam os segredos daqueles que escolhem ficar com alguém, dividir camas e humores, sentimentos, claro, e expectativas, alegrias, lutos, lutas e tréguas. Márai vai ao encontro das firulas, das finesses, dos rodeios que todos construímos para justificar quem somos, por que somos o que somos, por que falhamos com o outro, o que somos para nós e quem somos para o outro.

Tudo isso sob o domínio completo da técnica narrativa, que consiste aqui, primeiro, em sussurrar para o leitor tudo que diz, dizê-lo num registro de confidência, absolutamente perfeito para o propósito do romance, quando nos torna, a nós leitores, cúmplices dos acontecimentos, de cada segredo, como se dispuséssemos de dados únicos sobre o que envolve cada situação, e, nesse gesto, alça-nos a um patamar acima dos 'comuns mortais'. É uma técnica de sedução do leitor que os romancistas do século dezenove usaram à exaustão (incluindo nossos Machado e Alencar), e que tem aqui uma de suas mais altas realizações; depois, em nos fazer ver os vários pontos de vista da mesma situação, como é que cada personagem viveu aquilo que viveu na relação, que sentimentos o moveram, e surpreender-nos com perspectivas tão díspares na análise e compreensão dos mesmos atos.

Acho que mais importante do que tomar como centro dessas diferenças a questão da luta de classes, que o romance igualmente postula, a força da técnica estaria mais, para mim, na emersão das diferenças, nesse painel absurdamente bem escrito e bem conduzido das nuanças dos sentimentos humanos em relação, ao descrever, situar, analisar as motivações, explícitas ou não, para nossos atos e, assim, nos revelar a nós mesmos por caminhos inimaginados.

Uma terceira qualidade que distingue o romance, e o autor, seria sua postura filosófica, na linha da grande tradição do romance russo, por exemplo. Por esse viés, riquíssimo, os acontecimentos não são apenas narrados, ou vividos, mas se tornam exemplares para quem quer que se aproxime da obra. Há algo sendo dito para nós, que diz respeito a nós, contemporaneamente, sobre nosso medo, nossa hipocrisia, nossas relutâncias, os crimes que, nós também, cometemos. Se considerarmos que o romance foi grande parte escrito na década de 40, falar-nos ainda hoje de questões éticas, morais, é um feito e tanto.

Dos defeitos a que me referi, vou comentar apenas um. Embora a gente não consiga largar a leitura, a parte final (com data de 1979), que diz respeito ao artista, o amante de Judit Áldozó, e que foi escrita na mesma época da segunda parte, sob o título “Judit e a fala final”, uma continuação do romance escrita de 1949 a 1978, essa parte do artista e músico me parece dispensável. A impressão que dá é que o escritor se viu na contingência de escrever sob o ponto de vista do todos os envolvidos, mas não apenas a presença do rapaz é menor para os acontecimentos fundamentais, mesmo na vida de Judit, como o que ele diz tem peso menor na estrutura toda, importa menos. Esse, no entanto, é um defeito menor. Afinal, nem mesmo Marx conseguiu descrever com clareza o lugar do artista e da arte na sociedade sem classes que tentou sonhar.

E, sem dúvida, o engenho de Márai vai muito além de qualquer discussão sobre tal lugar em qualquer sociedade.


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Sandor Márai. De verdade. Tradução Paulo Schiller. São Paulo:Cia das Letras, 2008.
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