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sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Mato sem cachorro

Simpaticíssima comédia, onde o humor foge um pouco ao tom de escracho e escatologia que tem dominado esse gênero atualmente por aqui, e se estrutura em torno de situações engraçadas do cotidiano, bem como em atuações muito boas tanto do Gagliasso, que eu não conhecia de cinema, nem sabia que poderia criar um personagem que não vive apenas de sua beleza mas, ao contrário, é bem esculhambado e meio abestado, mas convencendo sempre. O humor mais abusado, mas ainda assim em tom bem 'família', fica por conta de Danilo Gentile, num personagem com sotaque paulista e uma tiradas já conhecidas sobre a eterna rixa Sampa/Rio, fazendo um tipo meio maluco-beleza que nunca se dá bem com as mulheres etc e tal. Já a sempre ótima Leandra Leal continua ótima, bem como uma inesperada Gabriela Duarte vivendo uma espécie de mulher Rebordosa, bebum boca suja, e muito bem. Já Henrique Diaz me decepcionou, porque me pareceu reconhecer em seus trejeitos os mesmos que já vira na peça ótima que ele protagonizou com maestria há alguns meses no Oi Futuro - tudo de voz e entonação e trejeitos aqui, estão igualmente lá.

Há também outro lado super bacana do filme, que é a trilha sonora, uma mistura brasileiríssima de brega com rock e todo tipo de música, a propósito de haver uma banda iniciante em cena e o Gagliasso passar o tempo mixando trechos e estilos, numa combinação quase surreal de sons e estilos, que dá certíssimo. O Magal e a Sandy são figurantes de luxo, e esse é o deslize mais grave do filme, acho - Magal tinha de fazer alguma coisa, não necessariamente cantar (ele canta na trilha a impagável 'Sandra Rosa Madalena'), e na apresentação final da banda tinham de ter feito o show para nós, espectadores, e cantado aquela composição de loucos e lindíssima que ensaiaram antes. Ficou meio chocho o final, com o júri sem expressão e sem o fecho da canção que, de certo modo, esperávamos todos. Parece que faltou fôlego à produção na última reta.

Mas vale muito a ida ao cinema, e apesar das falas em off criticarem a idéia de família tradicional, é para ela que se encaminham os personagens, e esse happy end amplo e irrestrito, a par de estarmos muito habituados a ele das comédias estadunidenses, mostra que descobrimos, afinal, outros caminhos para nossa própria forma de rir, tendo aprendido com eles, que fazem isso com sucesso há milênios, alguns de seus melhores macetes. Agora parece que nós também podemos fazer, e bem, que ótimo.

domingo, 18 de agosto de 2013

Flores raras

Flores raras (2013), de Bruno Barreto, é, para mim, um dos grandes filmes do ano, com uma dupla de protagonistas impecável - tanto Miranda Otto, quanto Glória Pires estão soberbas, definindo as forças e fragilidades de suas personagens com maestria e delicadeza, tudo no tom certo - comedido e extremado, como requerem seus temperamentos, em seus vários momentos.

Além desse elenco de primeira, o cenário de uma das casas de Lota é um deslumbre, fica no meio de uma vegetação belíssima e ela está em processo de construção da casa, ou melhor, daquele monumento de beleza em cima de serra, montanhas, águas e verdes incontáveis à volta (Samambaia, em Petrópolis - existirá ainda a casa?). Trilha igualmente ótima, sublinha os vários momentos tensos, não apenas ao longo dos altos e baixos inerentes às vivências, paixões e sentimentos exacerbados das personagens, mas as situações vividas num contexto político indicado por pinceladas, de que, no entanto, percebemos - nós, seus contemporâneos - todas as cores não expostas inteiramente na tela.

Gostei do registro um tom acima, no quesito 'feminilidade padrão médio', de que Glória Pires se utiliza para compor sua Lota. Não sei se a personagem real tinha essa postura, mas essa da tela é uma mulher forte, decidida, voluntariosa, que sabe o que quer e não fica esperando as coisas caírem em seu colo - vai onde está o que é seu e o conquista - Nietzsche é seu parente, gosto de seres assim. Por outro lado, a Bishop se contrapõe a essa potência não com fragilidades, mas com outro tipo de sensibilidade, onde reside também uma força, a de um certo desespero contido - sendo a contensão sua força também em arte.

Sempre me interessa quando um filme dialoga com a Literatura de modo eficiente, pelas razões óbvias. Há dois momentos em que o poema One art faz parte da trama: ele abre o filme, ainda incompleto, com apenas alguns versos já feitos, e ele fecha o filme, agora completo, inteiro, e de uma beleza candente, intensa, rara. Robert Lowell, que faz um personagem amigo da poeta, comenta acertadamente o registro de contenção que a atriz Miranda Otto imprime a essa cena final, a essa 'declamação para dentro' (como Clarice cosia para dentro, talvez), de modo a extrair do poema sua dureza, seu brilho, suas riquezas.

(Aliás, eu já conhecera outro momento fílmico em que esse poema me tocou, numa cena lindíssima interpretada pela Cameron Diaz no filme Em seu lugar (Curtis Hanson, 2005), em que ela faz uma irmã destrambelhada e meio disléxica de Toni Collette, que vai parar numa casa de repouso para idosos, onde vem a conhecer não apenas sua avó, mas um antigo professor de literatura, residente que a faz aprender a ler e, sobretudo, compreender o que lê. Um dos textos que ela comenta para ele, nesse processo, é esse poema de Bishop, One art, e suas ótimas observações mostram não apenas sua inteligência, mas uma percepção muito especial para as sutilezas da arte literária).

Isso tudo para dizer que um dos momentos mais emocionantes do filme, dentre vários, é esse final em que Miranda Otto diz o poema, do modo como o faz, na sequência de tudo que se passara até então. É forte, belo e o poema sublinha de modo magistral o filme todo, declina-o. Inesquecível.

Ei-lo, daqui:

One Art
The art of losing isn't hard to master;
so many things seem filled with the intent
to be lost that their loss is no disaster,

Lose something every day. Accept the fluster
of lost door keys, the hour badly spent.
The art of losing isn't hard to master.

Then practice losing farther, losing faster:
places, and names, and where it was you meant
to travel. None of these will bring disaster.

I lost my mother's watch. And look! my last, or
next-to-last, of three loved houses went.
The art of losing isn't hard to master.

I lost two cities, lovely ones. And, vaster,
some realms I owned, two rivers, a continent.
I miss them, but it wasn't a disaster.

- Even losing you (the joking voice, a gesture
I love) I shan't have lied. It's evident
the art of losing's not too hard to master
though it may look like (Write it!) like disaster.

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Somos tão jovens

Não pensei que fosse gostar de Somos tão jovens (Antonio Carlos Fontoura) porque não sou fã de rock e, na verdade,  nunca estive, ao longo de minha juventude, muito atenta ao som dos roqueiros brasileiros ou internacionais - mesmo dos Beatles só fui me aproximar mais tarde, embora tenha acompanhado seu surgimento na arena musical em razão de umas colegas de minha adolescência em Madureira, que haviam passado uma temporada em Londres (não porque fossem ricas, mas porque o pai era militar, se não me falha a memória, e foram todos acompanhá-lo a trabalho). Elas voltaram e só falavam do grupo, e assim vim a conhecer sua música.

Mas é espantoso como esse filme é bom, como tudo ali parece fruto de cuidado, de empenho, de talento e, sobretudo, de energia - da energia boa que os jovens talentosos podem tansmitir quando se empenham em ser grandes. E aqui só há grandes, imensos talentos contando uma história envolvente do começo ao fim - até os inícios embalados pelo som punk que o Renato curtia então me seduziram e  não me deram qualquer mal estar, ao contrário, achei interessante, e me fez lembrar já havia vivido aquilo ao som de Janis Joplin.

O que me parece ainda mais intrigante no resultado final é que não temos ainda uma indústria de cinema com história, formação, peso, tradição, onde os jovens possam aprender, onde possam espelhar-se. E isso tudo desaparece diante da entrega e do talento do Thiago Martins, sobretudo, para recriar esse ídolo da música - como ele conseguiu cantar tão bem, expressar-se tão bem em canções, ou em palavras. Sua prolação dos sons, sua escansão da sonoridade das palavras são muito prazerosas ao ouvido - é como se ele homenageasse a Língua Portuguesa em cada emissão, achei lindíssimo. E isso ocorre também expressando-se em inglês, muito bom ouvi-lo falar com tanta clareza.

Aliás, percebe-se o cuidado com a escolha dos atores e um grande trabalho de dicção com eles - o ator que faz uma pequena aparição como Herbert Vianna impressiona ao mimetizar seu timbre, seu jeito de falar - só posso considerar que foi feita uma excelente preparação com os atores, e isso se percebe em cada detalhe deste ótimo filme.

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Faroeste caboclo


Pelas fotos e pelo trailer, achava que Faroeste caboclo (René Sampaio) seria mais um daqueles filmes que juntam o negro pobre com a bela branca, a mostrar nossa difícil mas irreversível miscigenação social, racial e cultural.

O filme é isso também, mas é sobretudo um excelente faroeste, como diz o título, ou seja, lei da selva na Ceilândia brasileira, onde imperam a droga, o mauricinho traficante, a polícia corrupta e dois jovens distantes a mais não poder em nossa escala social, mas que se encontram e faíscam amor e desejo, sem possibilidade de escape. Claro que vão pagar pela audácia, e ao longo desse périplo, pura tragédia grega, seguimos os dois com olhos, corações e mentes tentando encontrar uma saída para eles que, claramente, não têm saída. Ambos os atores estão excelentes - o para mim desconhecido e magnífico Fabrício Boliveira, a impressionante Ísis Valverde, que eu não sabia que era tão boa, e está. Igualmente bom o Antonio Calloni e vários outros atores, todos cumprindo rigorosamente bem seus papeis, num filme muito acima de qualquer expectativa.

Ao final, fiquei para ouvir a canção do Renato Russo, de que não lembrava, e confesso que - de novo - não pude compreendê-la toda, é muito longa, não se entende direito tudo que ele diz, mas dois jovens que estavam de pé, acompanhando os créditos enquanto a música tocava, cantavam juntos aquela cantiga-de-cordel-urbano com afinco, e como se cumprindo um ritual meio de tribo. Assim como acho  uma coisa de tribo-fãs aquele descomunal rol de nomes de figurantes que, obviamente, não estavam em cena nesse filme - mas na história da recepção amorosa, talvez, da canção de Renato, tão sugestiva que até eu fiquei na expectativa de ver meu nome surgir naquela multidão. Muito bom de ver tudo.