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sábado, 21 de fevereiro de 2009

Outro Todorov

Quem estudou na década de setenta sabe que as faculdades de Letras eram um campo fértil para os diversos estruturalismos, formalismos et caterva. Estudava-se e ensinava-se a literatura como campo de experimentação para as mais estranhas acrobacias matemáticas, em que gráficos, linhas, conjuntos, pertencimentos e não (na semiótica, sobretudo), semas, sememas, estruturas e modelos narrativos e tantas outras elaborações críticas eram apropriadas sem muita noção real do que aquilo significava, tanto por professores que tentavam ser up to date antenados com a última palavra teórica, quanto por alunos, que repetiam as ladainhas sem muita convicção do que estavam fazendo.

Isso tudo para dizer do meu espanto ao ler um livrinho despretensioso do Tzvetan Todorov - A literatura em perigo, que achei há pouco, em que ele diz coisas bem subjetivas, pessoais e 'humanistas' sobre o valor e a função da literatura - ele, que foi um dos teóricos desses tempos duros do estruturalismo e formalismo, cujas obras Poética da prosa, As estruturas narrativas ou A gramática do Decameron eram referências obrigatórias para os estudos no campo.

Olhando sua produção mais atual, vejo que há vários outros livros dele (que não li) cujos títulos sugerem essa guinada para o que parece ser uma "história da cultura e das idéias", conforme o prefaciador do livro em questão.

De todo modo, parece um tanto engraçado ver esse movimento para a subjetividade em frases como:

"Muitos argumentos me inclinam na direção de uma concepção dos estudos literários mais próxima do modelo da história do que da física, da literatura como capaz de conduzir ao conhecimento de um objeto exterior, em vez de buscar os arcanos da disciplina." (p. 30)

"Nós - especialistas, críticos literários e professores - não somos, na maior parte do tempo, mais do que anões sentados em ombros de gigantes." (p. 31)

Para quem já trabalhou por uma 'gramática' que desse conta de quase todas as formas narrativas populares, essa é uma virada e tanto.

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Tzvetan Todorov. A literatura em perigo.  Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.