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Até final de abril não posso nem fingir passo de dança fora do salão, ou seja, de castigo no milho até ter alguma coisa decente escrita sobre a poesia de Hilda Hilst.
Enquanto isso, caso vocês tenham interesse por questões teóricas relacionadas à poesia e ao poema, esse curso oferecido por Carlito Azevedo no Portal Literal é muito bom:
http://portalliteral.terra.com.br/oficina/oficina-poetica-on-line
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sábado, 27 de fevereiro de 2010
domingo, 21 de fevereiro de 2010
An education
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Se você não viu Educação, vá ver antes de ler esse post, porque o filme é uma delícia - leve, engraçado, inteligente, com ótimas atuações de Alfred Molina como pai da protagonista, Carey Mulligan, uma linda, jovem e brilhante estudante que, além de tocar celo, sonha em estudar em Oxford, sonho também acalentado pelo pai.
Eis senão quando ela topa, num dia de chuva, com um homem mais velho, absolutamente sedutor - Peter Sarsgaard, muito bem - e a partir daí o filme vira uma comédia romântica, com pitadas de glamour à la Audrey Hepburn, até mesmo no figurino da atriz, que cumpre então uma agenda cultural de dar inveja - concertos, boa música, viagem a Paris e muito charme.
Só que a vida nem sempre é justa (ou melhor, quase nunca), e não poderia ser diferente para aquela menina sonhadora dos anos 60. De repente, não mais que de repente, tudo fica confuso, a via escolhida mostra todo seu equívoco e os sonhos viram bolhas de sabão.
Mas - isso é um filme, pura invenção, como sabemos - há ainda uma saída honrosa, a moça pede o auxílio luxuoso da professora e consegue recuperar o futuro que parecia ter escorrido de suas mãos.
Happy end aqui fica bem, o filme é talvez um tanto mulherzinha, mas acho que tod(a)s concordamos: bom demais de ver.
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Se você não viu Educação, vá ver antes de ler esse post, porque o filme é uma delícia - leve, engraçado, inteligente, com ótimas atuações de Alfred Molina como pai da protagonista, Carey Mulligan, uma linda, jovem e brilhante estudante que, além de tocar celo, sonha em estudar em Oxford, sonho também acalentado pelo pai.
Eis senão quando ela topa, num dia de chuva, com um homem mais velho, absolutamente sedutor - Peter Sarsgaard, muito bem - e a partir daí o filme vira uma comédia romântica, com pitadas de glamour à la Audrey Hepburn, até mesmo no figurino da atriz, que cumpre então uma agenda cultural de dar inveja - concertos, boa música, viagem a Paris e muito charme.
Só que a vida nem sempre é justa (ou melhor, quase nunca), e não poderia ser diferente para aquela menina sonhadora dos anos 60. De repente, não mais que de repente, tudo fica confuso, a via escolhida mostra todo seu equívoco e os sonhos viram bolhas de sabão.
Mas - isso é um filme, pura invenção, como sabemos - há ainda uma saída honrosa, a moça pede o auxílio luxuoso da professora e consegue recuperar o futuro que parecia ter escorrido de suas mãos.
Happy end aqui fica bem, o filme é talvez um tanto mulherzinha, mas acho que tod(a)s concordamos: bom demais de ver.
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sábado, 20 de fevereiro de 2010
O mensageiro
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O mensageiro é um filme estranho, movido basicamente pelo encontro dramático e doloroso entre os dois militares encarregados de anunciar a morte de algum soldado na guerra e os parentes dessas pessoas. As cenas são catárticas, fortes e o espectador não tem outra saída senão chorar junto com o parente, a cada saída da dupla em missão.
A um certo momento, não pude deixar de pensar: o filme inteiro vai ser esse chororô, e a cena recorrente vai se repetir até quando?
Aí surge outro movimento na história, quando um dos rapazes passa a interessar-se por uma das jovens viúvas. As coisas andam devagar entre eles, e enquanto isso os dois agora amigos fazem aquelas coisas tão próprias de um certo mundo masculino: bebem demais, aprontam numa festa, gritam e pulam feito malucos no meio da rua, enfim, umas gracinhas - a idéia aqui é sugerir extravasamento com relação ao fato de que a mulher que um deles supostamente ama fica noiva de outro; mas também externar catarse com relação ao mundo da dor, do luto, enfim. Para mim, no entanto, tudo o que fazem nesse momento é apenas patetice.
Menos do que pelas cenas dramáticas, ou pelos parcos acontecimentos interessantes à volta desses dois destinos, o filme vale talvez pela atuação dos dois atores - tensas, comoventes e convincentes, sobretudo o Woody Harrelson, que conheço mais em papéis histriônicos e engraçados e se revela melhor do que o esperado.
De todo modo, não me parece ser esse o filme excelente que a crítica vem saudando. No máximo, vale a ida ao cinema sem grandes arroubos (a não ser que se goste de chorar catarticamente).
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O mensageiro é um filme estranho, movido basicamente pelo encontro dramático e doloroso entre os dois militares encarregados de anunciar a morte de algum soldado na guerra e os parentes dessas pessoas. As cenas são catárticas, fortes e o espectador não tem outra saída senão chorar junto com o parente, a cada saída da dupla em missão.
A um certo momento, não pude deixar de pensar: o filme inteiro vai ser esse chororô, e a cena recorrente vai se repetir até quando?
Aí surge outro movimento na história, quando um dos rapazes passa a interessar-se por uma das jovens viúvas. As coisas andam devagar entre eles, e enquanto isso os dois agora amigos fazem aquelas coisas tão próprias de um certo mundo masculino: bebem demais, aprontam numa festa, gritam e pulam feito malucos no meio da rua, enfim, umas gracinhas - a idéia aqui é sugerir extravasamento com relação ao fato de que a mulher que um deles supostamente ama fica noiva de outro; mas também externar catarse com relação ao mundo da dor, do luto, enfim. Para mim, no entanto, tudo o que fazem nesse momento é apenas patetice.
Menos do que pelas cenas dramáticas, ou pelos parcos acontecimentos interessantes à volta desses dois destinos, o filme vale talvez pela atuação dos dois atores - tensas, comoventes e convincentes, sobretudo o Woody Harrelson, que conheço mais em papéis histriônicos e engraçados e se revela melhor do que o esperado.
De todo modo, não me parece ser esse o filme excelente que a crítica vem saudando. No máximo, vale a ida ao cinema sem grandes arroubos (a não ser que se goste de chorar catarticamente).
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quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Precious
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Enfim, a época confusa terminou, já posso transpor as fronteiras do Largo do Machado sem ficar presa por bloco ou por maluco. Volto para meus afazeres normais, que bom, e vou poder ir ao Arteplex ver A fita branca. Sei que é um filme hard, mas depois de Precious estou no clima.
Precious merece a fama que tem - é um filme tristíssimo, a protagonista fica quase o filme todo em estado meio catatônico, imersa nas imagens da TV, na comilança, no abestalhamento face a uma vida sem qualquer perspectiva, acuada por uma mãe idiotizada e violenta, que a escolheu desde sempre para seu saco de pancadas.
A vida escorre, literalmente, pelos poros daquelas duas, tudo está paralisado pela ignorância, pela não vontade, pela amorfia. Mas ela, a vida, parece estar sempre à espreita e da ignomínia surge alguma luz para a jovem. Por estar grávida de novo, estuprada que tem sido pelo pai, com a conivência da mãe, ela acaba sendo enviada para uma instituição que cuida desse tipo de jovem (excluído, no limite, vítima de violência) e aí as coisas começam a, muito lentamente, fazer sentido para ela.
Começa outra etapa da vida e do filme - ela vai juntando a mais b, muito devagar, mas caminha, empurrada pelo afeto das novas pessoas a sua volta.
(E aqui me veio à lembrança uma discussão que já tive mais de uma vez com um grande amigo: ele defende o projeto político do atual governo, sob o argumento de que para os muito pobres esse mínino que se dá permite-lhes dar passos gigantescos para fora da miséria absoluta, e cita o exemplo de alguns alunos paupérrimos que tem, sem dinheiro até para chegar à faculdade. Eu entendo o argumento, mas penso sempre que é preciso ensinar a pescar: dar educação digna, saúde, moradia, trabalho, essa coisa toda).
O filme apresenta de modo incontestável a força que uma mínima ajuda (e não acho que funcione apenas lá) pode ter na transformação de uma vida condenada ao mais retumbante fracasso, à miséria mais completa, embora não seja a inanição famélica de nossos miseráveis, como se vê em Garapa, por exemplo. É outro tipo de miséria - existencial, afetiva, submetida a toda ordem de violências, como se essas duas pessoas que protagonizam a história tivessem de ser bestializadas diuturnamente, trituradas por uma máquina louca que diz que elas não podem ter alegrias, nem afetos, nem decência, nem dignidade, nem... enfim, o que nos fez, ao longo da evolução, andar em duas patas.
O final pega qualquer um pelo pé - ou seja, leve o lencinho porque vai chorar, mas é bonito de ver.
Os dois grandes astros da cultura pop estão mesmo ótimos: Mariah Carey e Lenny Kravitz fazem bonito, gostei sobretudo do rosto sem maquiagem dela, seu depojamento. Não conhecia a Mo'Nique comediante, mas ela vive algumas das cenas mais impactantes, sobretudo quase no final do filme - é forte, e acho que pode levar o Oscar que todos lhe atribuem esse ano.
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Enfim, a época confusa terminou, já posso transpor as fronteiras do Largo do Machado sem ficar presa por bloco ou por maluco. Volto para meus afazeres normais, que bom, e vou poder ir ao Arteplex ver A fita branca. Sei que é um filme hard, mas depois de Precious estou no clima.
Precious merece a fama que tem - é um filme tristíssimo, a protagonista fica quase o filme todo em estado meio catatônico, imersa nas imagens da TV, na comilança, no abestalhamento face a uma vida sem qualquer perspectiva, acuada por uma mãe idiotizada e violenta, que a escolheu desde sempre para seu saco de pancadas.
A vida escorre, literalmente, pelos poros daquelas duas, tudo está paralisado pela ignorância, pela não vontade, pela amorfia. Mas ela, a vida, parece estar sempre à espreita e da ignomínia surge alguma luz para a jovem. Por estar grávida de novo, estuprada que tem sido pelo pai, com a conivência da mãe, ela acaba sendo enviada para uma instituição que cuida desse tipo de jovem (excluído, no limite, vítima de violência) e aí as coisas começam a, muito lentamente, fazer sentido para ela.
Começa outra etapa da vida e do filme - ela vai juntando a mais b, muito devagar, mas caminha, empurrada pelo afeto das novas pessoas a sua volta.
(E aqui me veio à lembrança uma discussão que já tive mais de uma vez com um grande amigo: ele defende o projeto político do atual governo, sob o argumento de que para os muito pobres esse mínino que se dá permite-lhes dar passos gigantescos para fora da miséria absoluta, e cita o exemplo de alguns alunos paupérrimos que tem, sem dinheiro até para chegar à faculdade. Eu entendo o argumento, mas penso sempre que é preciso ensinar a pescar: dar educação digna, saúde, moradia, trabalho, essa coisa toda).
O filme apresenta de modo incontestável a força que uma mínima ajuda (e não acho que funcione apenas lá) pode ter na transformação de uma vida condenada ao mais retumbante fracasso, à miséria mais completa, embora não seja a inanição famélica de nossos miseráveis, como se vê em Garapa, por exemplo. É outro tipo de miséria - existencial, afetiva, submetida a toda ordem de violências, como se essas duas pessoas que protagonizam a história tivessem de ser bestializadas diuturnamente, trituradas por uma máquina louca que diz que elas não podem ter alegrias, nem afetos, nem decência, nem dignidade, nem... enfim, o que nos fez, ao longo da evolução, andar em duas patas.
O final pega qualquer um pelo pé - ou seja, leve o lencinho porque vai chorar, mas é bonito de ver.
Os dois grandes astros da cultura pop estão mesmo ótimos: Mariah Carey e Lenny Kravitz fazem bonito, gostei sobretudo do rosto sem maquiagem dela, seu depojamento. Não conhecia a Mo'Nique comediante, mas ela vive algumas das cenas mais impactantes, sobretudo quase no final do filme - é forte, e acho que pode levar o Oscar que todos lhe atribuem esse ano.
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sábado, 13 de fevereiro de 2010
artista transgressora
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Pela exposição Cuide de você, dá para perceber que a Sophie Calle não é uma artista banal, embora faça dos atos mais banais matéria de arte - nunca um e-mail havia recebido antes uma carga tão extensa de significados, atravessado que foi por tantas vozes, tantas intervenções e tão variados sentidos.
Mas eu não sabia tampouco, até ter almoçado ontem na brasserie Brasil com um grande amigo, que ela já é uma espécie de artista cult por aqui (ele está orientando uma tese sobre a obra dela), e que era a autora do livrinho que eu havia visto na livraria da outra vez - visto, manuseado, amado e recolocado na mesa.
Para minha surpresa, ele me mostrou outros inúmeros livros magníficos dela dispostos na prateleira quase ao rés do chão, que são ao mesmo tempo arte da palavra e da imagem. Não sabia que ela é ótima fotógrafa e escritora talentosíssima. Vi isso no livrinho que ganhei dele, Histórias reais, uma coletânea de pequenos casos contados e representados por fotografias, ambos interessantíssimos.
Como esse, por exemplo:
O striptease
Eu tinha seis anos e morava na rua Rosa-Bonheur, com meus avós. Todos os dias, quando voltava para casa, ia tirando a roupa no elevador e chegava nua ao sexto andar. Em seguida, atravessava depressa o corredor e, assim que entrava no apartamento, ia me deitar. Vinte anos depois, era numa barraca de um parque de diversões, em Pigalle, que eu me despia todas as noites, usando uma peruca loura, caso meus avós, que moravam no bairro, passassem por ali. (p. 17).
Essa pequena narrativa é precedida, na página da esquerda, pela foto da autora num gesto de baixar a calcinha usando uma cinta-liga preta e uma peruca loura, em pé em um estrado e observada por vários homens.
Claro que o leitor fica de boca aberta com a enorme interrogação: é verdade ou é ficção tudo que é dito? Ao olhar para a foto, verdade; ao ler a história, pode ser invenção.
E agora?
Para mim, a mais clara e legítima expressão do conceito derridiano de indecidibilidade, de que as Letras gostam tanto.
Com um plus: certa transgressão aos bons modos e à boa e mediana moral - touché Sophie!
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Pela exposição Cuide de você, dá para perceber que a Sophie Calle não é uma artista banal, embora faça dos atos mais banais matéria de arte - nunca um e-mail havia recebido antes uma carga tão extensa de significados, atravessado que foi por tantas vozes, tantas intervenções e tão variados sentidos.
Mas eu não sabia tampouco, até ter almoçado ontem na brasserie Brasil com um grande amigo, que ela já é uma espécie de artista cult por aqui (ele está orientando uma tese sobre a obra dela), e que era a autora do livrinho que eu havia visto na livraria da outra vez - visto, manuseado, amado e recolocado na mesa.
Para minha surpresa, ele me mostrou outros inúmeros livros magníficos dela dispostos na prateleira quase ao rés do chão, que são ao mesmo tempo arte da palavra e da imagem. Não sabia que ela é ótima fotógrafa e escritora talentosíssima. Vi isso no livrinho que ganhei dele, Histórias reais, uma coletânea de pequenos casos contados e representados por fotografias, ambos interessantíssimos.
Como esse, por exemplo:
O striptease
Eu tinha seis anos e morava na rua Rosa-Bonheur, com meus avós. Todos os dias, quando voltava para casa, ia tirando a roupa no elevador e chegava nua ao sexto andar. Em seguida, atravessava depressa o corredor e, assim que entrava no apartamento, ia me deitar. Vinte anos depois, era numa barraca de um parque de diversões, em Pigalle, que eu me despia todas as noites, usando uma peruca loura, caso meus avós, que moravam no bairro, passassem por ali. (p. 17).
Essa pequena narrativa é precedida, na página da esquerda, pela foto da autora num gesto de baixar a calcinha usando uma cinta-liga preta e uma peruca loura, em pé em um estrado e observada por vários homens.
Claro que o leitor fica de boca aberta com a enorme interrogação: é verdade ou é ficção tudo que é dito? Ao olhar para a foto, verdade; ao ler a história, pode ser invenção.
E agora?
Para mim, a mais clara e legítima expressão do conceito derridiano de indecidibilidade, de que as Letras gostam tanto.
Com um plus: certa transgressão aos bons modos e à boa e mediana moral - touché Sophie!
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quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
o baile na Ilha
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No mesmo domingo em que fui ao MAM, havia feito o passeio da Marinha para conhecer a Ilha Fiscal. Tinha curiosidade de saber como era o lugar do último grande baile do Império, sobre o qual ouvem-se histórias sobre objetos estranhos deixados pelas senhoras e senhores no after party.
O passeio em si não foi confortável, porque o barco que nos levaria tinha baixado estaleiro, então fomos até lá em ônibus escolares quentíssimos, e o prédio da Ilha em si não tem nada demais para ser visto.
Mas gostei do quadro, pintado por Francisco Figueiredo, de quem li o nome na wiki, e olhando bem essas damas e cavalheiros quem iria pensar em malícia nesses rostos tão... castos?

No mesmo domingo em que fui ao MAM, havia feito o passeio da Marinha para conhecer a Ilha Fiscal. Tinha curiosidade de saber como era o lugar do último grande baile do Império, sobre o qual ouvem-se histórias sobre objetos estranhos deixados pelas senhoras e senhores no after party.
O passeio em si não foi confortável, porque o barco que nos levaria tinha baixado estaleiro, então fomos até lá em ônibus escolares quentíssimos, e o prédio da Ilha em si não tem nada demais para ser visto.
Mas gostei do quadro, pintado por Francisco Figueiredo, de quem li o nome na wiki, e olhando bem essas damas e cavalheiros quem iria pensar em malícia nesses rostos tão... castos?
Esse o convite original - o baile, no entanto, não ocorreu em outubro, como aí consta, mas em 9 de novembro, por conta da morte em Portugal de um parente do nosso Pedro II.
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terça-feira, 9 de fevereiro de 2010
Bob Dylan
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A moça sumida que reapareceu usou a expressão "fall apart on me" em um comentário. Como eu sabia mais ou menos o sentido, mas queria ter certeza, fui ao google e me apareceu essa letra muito linda do Bob Dylan.
Dá pra ouvir um trechinho aqui
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Don't Fall Apart On Me Tonight
Just a minute before you leave, girl,
Just a minute before you touch the door.
What is it that you're trying to achieve, girl?
Do you think we can talk about it some more?
You know, the streets are filled with vipers
Who've lost all ray of hope,
You know, it ain't even safe no more
In the palace of the Pope.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's just a memory,
Tomorrow is never what it's supposed to be
And I need you, yeah.
Come over here from over there, girl,
Sit down here. You can have my chair.
I can't see us goin' anywhere, girl.
The only place open is a thousand miles away and I can't take you there.
I wish I'd have been a doctor,
Maybe I'd have saved some life that had been lost,
Maybe I'd have done some good in the world
'Stead of burning every bridge I crossed.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's just a memory,
Tomorrow is never what it's supposed to be
And I need you, oh, yeah.
I ain't too good at conversation, girl,
So you might not know exactly how I feel,
But if I could, I'd bring you to the mountaintop, girl,
And build you a house made out of stainless steel.
But it's like I'm stuck inside a painting
That's hanging in the Louvre,
My throat start to tickle and my nose itches
But I know that I can't move.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's gone but the past lives on,
Tomorrow's just one step beyond
And I need you, oh, yeah.
Who are these people who are walking towards you?
Do you know them or will there be a fight?
With their humorless smiles so easy to see through,
Can they tell you what's wrong from what's right?
Do you remember St. James Street
Where you blew Jackie P.'s mind?
You were so fine, Clark Gable would have fell at your feet
And laid his life on the line.
Let's try to get beneath the surface waste, girl,
No more booby traps and bombs,
No more decadence and charm,
No more affection that's misplaced, girl,
No more mudcake creatures lying in your arms.
What about that millionaire with the drumsticks in his pants?
He looked so baffled and so bewildered
When he played and we didn't dance.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's just a memory,
Tomorrow is never what it's supposed to be
And I need you, yeah.
Copyright ©1983 Special Rider Music
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A moça sumida que reapareceu usou a expressão "fall apart on me" em um comentário. Como eu sabia mais ou menos o sentido, mas queria ter certeza, fui ao google e me apareceu essa letra muito linda do Bob Dylan.
Dá pra ouvir um trechinho aqui
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Don't Fall Apart On Me Tonight
Just a minute before you leave, girl,
Just a minute before you touch the door.
What is it that you're trying to achieve, girl?
Do you think we can talk about it some more?
You know, the streets are filled with vipers
Who've lost all ray of hope,
You know, it ain't even safe no more
In the palace of the Pope.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's just a memory,
Tomorrow is never what it's supposed to be
And I need you, yeah.
Come over here from over there, girl,
Sit down here. You can have my chair.
I can't see us goin' anywhere, girl.
The only place open is a thousand miles away and I can't take you there.
I wish I'd have been a doctor,
Maybe I'd have saved some life that had been lost,
Maybe I'd have done some good in the world
'Stead of burning every bridge I crossed.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's just a memory,
Tomorrow is never what it's supposed to be
And I need you, oh, yeah.
I ain't too good at conversation, girl,
So you might not know exactly how I feel,
But if I could, I'd bring you to the mountaintop, girl,
And build you a house made out of stainless steel.
But it's like I'm stuck inside a painting
That's hanging in the Louvre,
My throat start to tickle and my nose itches
But I know that I can't move.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's gone but the past lives on,
Tomorrow's just one step beyond
And I need you, oh, yeah.
Who are these people who are walking towards you?
Do you know them or will there be a fight?
With their humorless smiles so easy to see through,
Can they tell you what's wrong from what's right?
Do you remember St. James Street
Where you blew Jackie P.'s mind?
You were so fine, Clark Gable would have fell at your feet
And laid his life on the line.
Let's try to get beneath the surface waste, girl,
No more booby traps and bombs,
No more decadence and charm,
No more affection that's misplaced, girl,
No more mudcake creatures lying in your arms.
What about that millionaire with the drumsticks in his pants?
He looked so baffled and so bewildered
When he played and we didn't dance.
Don't fall apart on me tonight,
I just don't think that I could handle it.
Don't fall apart on me tonight,
Yesterday's just a memory,
Tomorrow is never what it's supposed to be
And I need you, yeah.
Copyright ©1983 Special Rider Music
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sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Nine
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Saí para ver Nine com a certeza de que ia ver um filme ruim, mas queria ficar na sala gelada e - plagiando alguém - me arrastei para o Arteplex mesmo assim.
O filme começa meio confuso, mas já estou sentadinha, confortável, e o ar gelado me faz pegar minha pashmina. Olho pra tela e percebo que as coisas começam a ficar interessantes. Na verdade, estou gostando muito do que vejo. Então, devo confessar - eu gostei de Nine.
Sim, é preciso esquecer que ele se quer uma refilmagem do 8 e 1/2 de Fellini, mesmo de Fellini será preciso esquecer, pois se trata de um musical hollywoodiano, com todas as qualidades (e/ou defeitos) desse gênero, e feito para o grande público desse tipo de cinema. Mas há alguma coisa mais nele : há uma homenagem muito explícita às mulheres e há mulheres deslumbrantes em números musicais excelentes e, sobretudo, há essas mulheres cantando, e cantando muito (pelo menos, eu gostei muito de ouvi-las).
Não é apenas a Fergie que tem ótima voz e a Marion Cotillard, que já conhecemos de Piaf. Todas elas cantam bem, e é claro que deve haver alguma remasterização por ali, porque não é possível que Judi Dench, Penelope Cruz, Nicole Kidman e Kate Hudson cantem aquilo tudo. Aliás, o número da Judi Dench eu achei muito lindo - a gente sabe como os atores de fala inglesa penam para falar francês, e a Judi faz um número com sotaque francês muito digno.
(O mesmo talvez não se possa dizer da coreografia de Penelope, apesar de ela estar lindíssima - um tanto estranha e apelativa).
Impagável também a presença da mais que diva (e mais que entrada nos anos) Sophia Loren, que faz a mãe do personagem de Daniel Day-Lewis, o tal cineasta que não consegue encontrar idéias para fazer o filme que todos esperam dele, cuja vaidade extremada e ambição acabam por secar toda criação a sua volta. Então, além de ser um musical que homenageia as mulheres de forma radical, há também esse projeto de um filme chamado Itália - e esse país também é homenageado não apenas nas locações, nos cenários, nas músicas, no sotaque - a Itália perpassa o filme todo, inclusive nos excessos de sentimentos dos personagens, nas paixões desmedidas.
Então, se esquecermos a grandeza do cinema de Fellini e quisermos ver o filme como diversão feita em Hollywood, acho que dá para se divertir bem. E o final achei até emocionante.
Mas é preciso dizer que eu não vi o filme de Fellini, então não me sinto lograda por ter diante de mim uma espécie de cópia pirata mal feita do cineasta italiano, que é mais ou menos como a crítica tem visto o filme.
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Saí para ver Nine com a certeza de que ia ver um filme ruim, mas queria ficar na sala gelada e - plagiando alguém - me arrastei para o Arteplex mesmo assim.
O filme começa meio confuso, mas já estou sentadinha, confortável, e o ar gelado me faz pegar minha pashmina. Olho pra tela e percebo que as coisas começam a ficar interessantes. Na verdade, estou gostando muito do que vejo. Então, devo confessar - eu gostei de Nine.
Sim, é preciso esquecer que ele se quer uma refilmagem do 8 e 1/2 de Fellini, mesmo de Fellini será preciso esquecer, pois se trata de um musical hollywoodiano, com todas as qualidades (e/ou defeitos) desse gênero, e feito para o grande público desse tipo de cinema. Mas há alguma coisa mais nele : há uma homenagem muito explícita às mulheres e há mulheres deslumbrantes em números musicais excelentes e, sobretudo, há essas mulheres cantando, e cantando muito (pelo menos, eu gostei muito de ouvi-las).
Não é apenas a Fergie que tem ótima voz e a Marion Cotillard, que já conhecemos de Piaf. Todas elas cantam bem, e é claro que deve haver alguma remasterização por ali, porque não é possível que Judi Dench, Penelope Cruz, Nicole Kidman e Kate Hudson cantem aquilo tudo. Aliás, o número da Judi Dench eu achei muito lindo - a gente sabe como os atores de fala inglesa penam para falar francês, e a Judi faz um número com sotaque francês muito digno.
(O mesmo talvez não se possa dizer da coreografia de Penelope, apesar de ela estar lindíssima - um tanto estranha e apelativa).
Impagável também a presença da mais que diva (e mais que entrada nos anos) Sophia Loren, que faz a mãe do personagem de Daniel Day-Lewis, o tal cineasta que não consegue encontrar idéias para fazer o filme que todos esperam dele, cuja vaidade extremada e ambição acabam por secar toda criação a sua volta. Então, além de ser um musical que homenageia as mulheres de forma radical, há também esse projeto de um filme chamado Itália - e esse país também é homenageado não apenas nas locações, nos cenários, nas músicas, no sotaque - a Itália perpassa o filme todo, inclusive nos excessos de sentimentos dos personagens, nas paixões desmedidas.
Então, se esquecermos a grandeza do cinema de Fellini e quisermos ver o filme como diversão feita em Hollywood, acho que dá para se divertir bem. E o final achei até emocionante.
Mas é preciso dizer que eu não vi o filme de Fellini, então não me sinto lograda por ter diante de mim uma espécie de cópia pirata mal feita do cineasta italiano, que é mais ou menos como a crítica tem visto o filme.
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segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010
Cuide de você
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A força da exposição de Sophie Calle no MAM - Cuide de você - vem sobretudo do contraste entre o universo privado e o público. Na verdade, trata-se de escancarar quase escandalosamente um objeto íntimo e particular - uma carta de adeus do namorado, cuja frase final é um "cuide de você", para extrair algum ganho (de beleza, de delicadeza, de sensibilidade, e de revanche também, claro) dessa encenação potencializada de um momento de dor.
Para cuidar-se, a artista vai pedir a centenas de mulheres que leiam essa carta, que a interpretem, que a vivenciem, e o grande apelo do trabalho é esse desnudar-se não apenas da destinatária da carta, mas de todas as outras mulheres cúmplices dessa mensagem (e, como rir é sumamente indicado nesses momentos, até um papagaio fêmea "lê" a carta).
Há mesmo um lado engraçado nessa maratona de leituras - algumas são bobinhas, outras são ou querem ser engraçadas, outras tocantes, e uma em especial me impressionou: uma mulher de cabelos ruivos canta trechos da carta com uma voz tão linda, mas tão linda que me emocionou demais - não pelo que ela diz, mas pela voz, e fiquei pensando até onde nos (e)leva uma bonita voz.
De todo modo, a carta é vista numa reprodução gigante, com todos os erros e impropriedades riscados com canetas marca-textos; há um vídeo com a artista, em que uma voz faz perguntas e faz observações sobre o conteúdo dela; há depoimentos de inúmeras outras mulheres, apresentadas por profissão, e alguns são mesmo engraçados, outros muito bons, outros estranhos, enfim, há de tudo - parece que Sophie quis esgotar as possibilidades de compreensão, por infinitas perspectivas, dessas palavras.
Acho que a exposição é imperdível, e embora tenha visto por lá alguns homens jovens, penso que ela é dirigida mais às mulheres que aos homens, pelas razões óbvias. Ou talvez: ela dá voz a cada uma de nós, porque não existe (eu acho) quem não tenha sido rejeitada pelo amor em algum momento da vida.
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A força da exposição de Sophie Calle no MAM - Cuide de você - vem sobretudo do contraste entre o universo privado e o público. Na verdade, trata-se de escancarar quase escandalosamente um objeto íntimo e particular - uma carta de adeus do namorado, cuja frase final é um "cuide de você", para extrair algum ganho (de beleza, de delicadeza, de sensibilidade, e de revanche também, claro) dessa encenação potencializada de um momento de dor.
Para cuidar-se, a artista vai pedir a centenas de mulheres que leiam essa carta, que a interpretem, que a vivenciem, e o grande apelo do trabalho é esse desnudar-se não apenas da destinatária da carta, mas de todas as outras mulheres cúmplices dessa mensagem (e, como rir é sumamente indicado nesses momentos, até um papagaio fêmea "lê" a carta).
Há mesmo um lado engraçado nessa maratona de leituras - algumas são bobinhas, outras são ou querem ser engraçadas, outras tocantes, e uma em especial me impressionou: uma mulher de cabelos ruivos canta trechos da carta com uma voz tão linda, mas tão linda que me emocionou demais - não pelo que ela diz, mas pela voz, e fiquei pensando até onde nos (e)leva uma bonita voz.
De todo modo, a carta é vista numa reprodução gigante, com todos os erros e impropriedades riscados com canetas marca-textos; há um vídeo com a artista, em que uma voz faz perguntas e faz observações sobre o conteúdo dela; há depoimentos de inúmeras outras mulheres, apresentadas por profissão, e alguns são mesmo engraçados, outros muito bons, outros estranhos, enfim, há de tudo - parece que Sophie quis esgotar as possibilidades de compreensão, por infinitas perspectivas, dessas palavras.
Acho que a exposição é imperdível, e embora tenha visto por lá alguns homens jovens, penso que ela é dirigida mais às mulheres que aos homens, pelas razões óbvias. Ou talvez: ela dá voz a cada uma de nós, porque não existe (eu acho) quem não tenha sido rejeitada pelo amor em algum momento da vida.
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sobre fracos e fortes
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Eu sei que esse blog não costuma comentar notícias do cotidiano, até porque todo mundo tem acesso a tudo e cada um escolhe com o que quer se aborrecer no dia a dia.
No entanto, acabei de ler uma entrevista com esse coronel reformado, que parece ter sido linha dura contra os policiais corruptos quando na ativa, e cujo filho foi preso por roubo. Tudo que ele diz demonstra uma força de caráter impressionante, é tocante, e nas condições que ele descreve quanto à educação que deu ao filho, eu teria feito exatamente a mesma coisa - nada de se vitimizar e se culpabilizar por atos e más escolhas dos filhos - alguns querem a vida bandida, ou o barato das drogas, ou o que for, a despeito de tudo que se tenha dito ou feito por eles, então é preciso deixá-los viver seu inferno particular. Sozinhos. Dói, mas tem de ser assim, porque não há conselho que leve ninguém a ir onde não se quer estar.
Leia a entrevista Aqui
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Eu sei que esse blog não costuma comentar notícias do cotidiano, até porque todo mundo tem acesso a tudo e cada um escolhe com o que quer se aborrecer no dia a dia.
No entanto, acabei de ler uma entrevista com esse coronel reformado, que parece ter sido linha dura contra os policiais corruptos quando na ativa, e cujo filho foi preso por roubo. Tudo que ele diz demonstra uma força de caráter impressionante, é tocante, e nas condições que ele descreve quanto à educação que deu ao filho, eu teria feito exatamente a mesma coisa - nada de se vitimizar e se culpabilizar por atos e más escolhas dos filhos - alguns querem a vida bandida, ou o barato das drogas, ou o que for, a despeito de tudo que se tenha dito ou feito por eles, então é preciso deixá-los viver seu inferno particular. Sozinhos. Dói, mas tem de ser assim, porque não há conselho que leve ninguém a ir onde não se quer estar.
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